Sentes-te com sorte, punk?

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 24/06/2022)

(A distância entre os anjos e os demónios é curta, tal como a distância entre as verrinas da D. Clara e os rasgos da D. Clara. Sim, este é um fresco magnífico do atual momento histórico e daquilo que, provavelmente, nos espera. Sim, D. Clara, nós já fomos felizes e não sabíamos! 🙁

Estátua de Sal, 25/06/2022)


You’ve to ask yourself one question.
Do I feel lucky? Well, do ya, punk?”

Clint Eastwood no filme “Dirty Harry”


Sentes-te com sorte? A conta da eletricidade chegou, mais cara, e além dos tais 8% da mirífica inflação. As prestações, os alimentos e a gasolina continuam a aumentar, apesar dos tais alívios fiscais que significam apenas que a máquina de propaganda do Governo continua oleada. Chama-se “comunicação” e “passar a mensagem” nas redes sociais. Onde proliferam trolls e bots devotos e socialistas, em consonância com as tribos da cor partidária, de modo a criarem guerras onde elas não existem, liquidarem a oposição e encharcarem em insultos e estatísticas os dissidentes da corrente dominante. Entrámos de pleno direito na fase da TINA. There is no alternative.

O que significa isto? Que uma maioria absoluta é melhor do que a ingovernabilidade, embora não seja sinónima de governo. Os grandes sistemas públicos entraram em decadência, saúde, justiça, educação, com uma empobrecida função pública que sabe que tem pela frente mais anos de austeridade e cortes, visto que aumentar a dívida pública quando a Europa vai aumentar as taxas de juro e o Banco Central Europeu vai deixar de comprar dívida e imprimir dinheiro significa que nem esta dívida pública vamos poder servir. Simples, mas o primeiro-ministro promete “aumentos gloriosos” em 2023. O futuro é outro país.

E, se da Europa vier um rumor de burocratas sobre a diferença entre os anos que se seguiram a 2008 e agora (nunca deixámos a austeridade embora a dívida pública tenha aumentado) e a promessa de que o endividamento dos países do Sul está controlado, e vão ser criados “mecanismos para evitar a fragmentação”, não acredite. É uma frase tão oca e inútil como a da ministra da Saúde a dizer que vai nomear, e nomeou, uma “comissão de acompanhamento de resposta na urgência”. As frases não resolvem o problema de fundo, o da Europa, com o aumento das taxas de juro para combater a inflação, ou o do SNS, o problema da falta de médicos e especialidades por inoperância administrativa, disfuncionalidade, remendos e improvisos, inexistência de organização das carreiras, e, claro, falta de dinheiro para salários decentes que atraiam gente competente.

Se existe uma constante no discurso dos chefes europeus é dar o dito por não dito, a política de cata-vento. A reação substitui a ação e compensa-se a inércia e a tibieza com a generosidade dos gestos simbólicos. Os gestos simbólicos ficam bem na fotografia. Olhem para a França e para um Presidente que vai governar sem autoridade e sem deputados, com um parlamento dividido rigorosamente entre esquerda e direita com o partido de Macron no meio. Há uma intransponível diferença entre aquela esquerda e aquela direita, com qual vai negociar? Em breve, a França terá um problema de défice semelhante ao dos países do Sul, leia-se a Itália e a Espanha. A Grécia e Portugal não contam nesta aritmética de poder, aceitarão o que for melhor para os outros e, no nosso caso, de bico calado. Olhem bem para a França, porque os extremos vão governar no futuro, graças à incapacidade do centro para responder à ansiedade dos povos e aos sacrifícios que vêm aí.

O extremo canaliza a ira, o desgosto, a indiferença mascarada de conformismo. O conformismo é a especialidade lusa, porque a pobreza e o medo da pobreza geram uma ecologia, garantem uma atitude passiva e cordata e uma ira transferida para o futebol, a má televisão, os festivais, as políticas identitárias para os mais jovens e, claro, as redes sociais e TikToks com a inanidade cerebral e refrega tribal que engendram. O entretenimento produzido por distrações substitui com vantagem a contração de consumo que a inflação vai tornar obrigatória.

Às distrações junta-se a guerra ao vivo e a cores, seguida com o voyeurismo com que se trava o carro para ver o sangue no asfalto. Uma guerra complexa nas variantes políticas e militares e o desconhecimento das regras da geoestratégia tornam aquilo um espetáculo que deixa um aviso consolador, nós estamos mal, os ucranianos estão pior. Esta é a primeira guerra das redes sociais, e a dieta diária de Zelensky disse, Putin disse, torna-a um folhetim com um argumento escrito longe daqui.

E não olhem só para França, olhem para a Bélgica, onde os primeiros protestos europeus contra o custo de vida e a penúria da função pública (uma função pública muito mais bem paga que a nossa) já começaram, e olhem para a Espanha, a Andaluzia, onde Sánchez acaba de sofrer uma derrota naquele que foi um feudo socialista durante décadas. O PP conquistou uma maioria, e o Vox, que não desiste de uma coligação nacional e da entrada num futuro governo, aumentou resultados, tal como Le Pen em França. Aqui, não acontece, pensa-se por aí. Não?

O novo PSD, no ano de repouso e relaxamento, e mais perto da inexistência do que nunca (TINA, recorde-se), sabe que quando a malha apertar pode recolher benefícios, e sabe que mais cedo ou mais tarde terá de se aliar ao Chega se o Chega recolher o suficiente nas urnas. Ou seja, uma coligação de direita. O PSD abandonou a ideia do centro e a coligação pode suceder a anos e anos de governação socialista que cansarão o eleitorado assim que a dor inflacionária e a ameaça recessionária se juntarem. No dia em que António Costa for para a Europa, se for, pode ir, o Partido Socialista entra em turbulência. O PSD, partido de poder, sabe bem quando a fruta baixa está madura para ser apanhada. Só tem de esperar e aguentar. O sismo já aconteceu, o tsunami virá a seguir. Um chefe aparece quando a vitória espreita.

Claro que o governo de Costa podia ter aproveitado os triunfos e o centrismo de Rui Rio para fazer as necessárias reformas em vez de manter no cargo ministros incompetentes durante tanto tempo que eles acabam por destruir os serviços, Cabrita e o SEF, Temido e o SNS. Tendo prescindido de parceiro e de reformas, o primeiro-ministro preferiu navegar à vista e apostar na fraqueza dos vizinhos de esquerda e de direita. Nada dura para sempre.

Entrámos num ciclo histórico onde nenhum vento soprará a favor. As eleições nos Estados Unidos podem ser mais uma machadada nesta estase que não é homeoestase. No Reino Unido, a democracia desvanece-se, e o sistema representativo entra em crise. Jamie Dimon, o poderoso banqueiro da JPMorgan Chase, disse que os americanos não tinham feito o suficiente para “proteger a Europa”. É uma frase extraordinária, para quem conhece a circunspeção de Wall Street em matéria política.

E verdadeira. O militarismo sem controle dos Estados Unidos, uma gun culture universalista levada ao expoente máximo, e a fraqueza das instituições, refletem-se numa Europa que em vez de refletir sobre os problemas que tem criou problemas que não tem, como o do novo e simbólico alargamento a um país em guerra ou desregrados, como a Moldávia e a Geórgia.

A vantagem destes políticos é única: quando chegar o momento de fazer as contas a quanto é que tudo custou, em dinheiro e em pessoas, nos danos dos sistemas democráticos e nos danos para o clima e o planeta, nenhum deles estará lá. A guerra pode durar muitos anos, dizem os excitados estadistas de pacotilha, certos da proteção que a guerra lhes dá. Eles durarão menos que isso.

Da you feel lucky, punk?


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Agitando o sabre

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 29/01/2022)

Dos mesmos que lhe trouxeram a série ‘O Afeganistão’, chega agora ‘A Ucrânia’. Em streaming.

Há quem deseje uma sequela de ‘O Afeganistão’, ou talvez um filme com a história do homem que depois de vender um rim e as filhas, continua a passar fome.

Há muitas histórias. Tendo oferecido o país aos talibãs, a América resolveu congelar o dinheiro afegão e assassinar um povo que vive em guerra, uma guerra que não é bem sua, e sim das potências, desde 1979.

Quando os russos, sempre eles, invadiram a terra bravia.

Como Hollywood muito bem sabe, é difícil arranjar vilões tão bons como os russos, ele é o sotaque, ele é a corpulência, ele é a truculência, ele é a máfia, com uma reputação de malevolência que excede a da clássica Mossad. Os russos dão uns bandidos formidáveis. Vimos John Kirby, o porta-voz do Pentágono que nos disse que os soldados do exército afegão iriam defender o país dos talibãs porque a América os tinha treinado e armado, a agitar o sabre sobre a Ucrânia. A Ucrânia tem uma história com os americanos, tanto republicanos como democratas. O filho de Biden, quando era toxicodependente e andava dentro e fora da rehab, estava na administração de uma empresa ucraniana (também estava numa empresa chinesa, luzindo o doirado nome Biden). Nem precisava de pôr os pés em Kiev. Na pandilha trumpista, Rudy Giuliani e o entumescido Paul Manafort, entre outros, serviam de mensageiros das negociatas entre Trump, “a Ucrânia é um grande país, tenho muitos amigos ucranianos”, e o multimilionário Victor Pinchuk. Assim que Zelensky substituiu Poroshenko, Trump renovou os votos de amizade e cooperação. Em telefonemas vários com o Presidente ucraniano tentou que a Ucrânia investigasse as ligações de Biden júnior de modo a ver-se livre do pai. Zelensky prometeu, as pressões vinham de muitos lados, a Ucrânia é um país muito pressionado. Podia tornar-se uma espécie de grande Jordânia, sustentada por abonos.

É também um dos países mais corruptos do mundo, onde tudo tem de ser pago com luvas, como qualquer ucraniano sem poder e sem dinheiro sabe. De um teste a uma consulta médica, em plena pandemia, o oficial de serviço estende a mão. Pois é a este país sem rei nem roque, tal como o Afeganistão do corrupto regime pró-americano em Cabul, que a União Europeia promete dar, ou “emprestar”, quase €2 mil milhões de ajuda, por causa da guerra. Imagina-se a quantidade de oficialato do regime que está a fazer contas ao enxoval. Este é o método preferido pela União quando os problemas surgem e não quer envolver-se nem incomodar o amigo americano. Despejar dinheiro e enviar uns burocratas de Bruxelas e meia dúzia de soldados. Foi assim com o Médio Oriente, foi assim com o Afeganistão, será assim com a Ucrânia. Não seria inteiramente mau este pacifismo conivente se não fosse o problema da NATO.

A NATO entrou em desgraça e falência depois da interferência na Líbia. Obama arrependeu-se mil vezes da mudança de regime manu militari que conduziu a Líbia a um território fora da lei. Tanto mais que os americanos perceberam que por cada caça decrépito da NATO voavam dez caças último modelo da América. E também percebeu que Cameron e Sarkozy, dois estadistas de meia tigela, tinham recebido dinheiro de Kadhafi para as campanhas e agora tentavam abafar o caso, quando o filho do líbio os denunciou. A NATO começou a estrebuchar, visto que sem os americanos não existe. O maior exército da União era o britânico, e a seguir o francês, ocupado com o day after da Líbia nos países do Sahel. A Alemanha, sabe-se porquê, abstém-se. Com a entrada em cena de Trump, na mão de Putin, a NATO viu-se ameaçada de extinção e míngua de fundos. Foi salva pela Ucrânia. Não admira que os mais belicistas desta refrega sejam os chefes da NATO, que clamam em furibundas conferências de imprensa a necessidade de abrir uma frente de guerra oriental.

Tratando-se de Putin, um rufia que excede o vilão de James Bond, torna-se difícil discordar. Mas… para quê picar o urso que não se pode eliminar? Quando a glasnost vingou, os líderes russos tentaram a paz com a Europa e pediram apenas uma coisa, não humilhem a Rússia. Palavras de Ieltsin, que o Putin dos primórdios retomou. O Ocidente, inebriado com a vitória do capitalismo, fez orelhas moucas. O poder de Putin foi crescendo, e ninguém na Europa parecia interessado em travá-lo. O dinheiro russo foi muito bem recebido em Londres, e continua a ser, foi bem recebido na América, antes das sanções, foi bem recebido em todo o lado. Nós por cá, acabámos de vender um passaporte e uma nacionalidade a Abramovich depois de o Reino Unido a negar. Abramovich, o grande oligarca do clube dos oligarcas de Putin. O nosso inefável ministro dos Negócios Estrangeiros disse que era negócio limpo. O dinheiro russo foi bem recebido em Chipre, que se tornou uma colónia dos oligarcas e da lavagem do dinheiro, sem que a Europa, exceto naquela vez em que decidiu irritar-se e congelar os fundos, tivesse mostrado o ímpeto regenerador que mostrou com a Grécia e Portugal. No dia seguinte, e depois de uns telefonemas do Kremlin para Berlim, os aviões russos chegaram a Chipre para levar o dinheiro para Moscovo.

Tendo a mão na torneira do gás que impede o leste da Europa de morrer de frio, Putin sabe que a Alemanha não quer esta guerra. Sabe também que os americanos querem humilhá-lo e não será por causa de uma região perdida, Donbass, onde a guerra existe há muito tempo. A Ucrânia tem uma parte pró-russa e outra encostada ao dinheiro do Ocidente e ao bónus, e nunca será membro da NATO nem tem de ser. O convite de George Bush em 2008 foi tão lerdo como a sua política no Médio Oriente. Imaginem o México a aderir ao Pacto de Varsóvia. Picar o urso. O urso comeu-lhes o Presidente ao xadrez. Convém não subestimar Putin e a sua guerra secreta. Putin é perigoso, mas fazer da Ucrânia casus belli é ainda mais perigoso.

A América, assim que sai de uma guerra entra logo noutra. Não interessa ao complexo militar-industrial (sim, existe) ficar parado ou ter os brinquedos com ferrugem. Os países do Golfo Pérsico estão armados, a quem vender mais armas? Uma guerra bem longe da América e onde os europeus se sintam envolvidos é ideal porque a China não serve. Nem o antibelicista Biden consegue convencer um lóbi demasiado poderoso.

E decerto foi convencido que um inimigo externo unirá os divididos americanos. Ou servirá de distração. As televisões precisam de uma guerra, mais audiências. Resta saber como é que os republicanos reagirão, com Trump metido no imbróglio. Lindsay Graham tem andado calado.

E os europeus? A Espanha, enquanto discute o divórcio da infanta Cristina, manda dois “buques” e uns caças. A Dinamarca, uma fragata. A França napoleónica manda tropas para a Roménia e os Bálticos pedem mais armas, mais dinheiro. Portugal anda entretido com o gato “Zé Albino”. E a Alemanha sente que tem de pôr ordem no pedaço e mandar os diplomatas justificar o salário. Boris Johnson, entre dois copos e duas festarolas, talvez pudesse fumar o charuto de Churchill.

Com esta insanidade, digna dos ensaios de Gore Vidal, ou das comédias de Monty Python, quem ganha? A China. Com um grande sorriso amarelo. O Ocidente não ganha juízo. 


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

Não há sexo na cidade

(Clara Ferreira Alves, in Expresso, 18/12/2021)

Clara Ferreira Alves

Basta dizer a palavra sexo e sai um clickbait. Sexo, dinheiro e morte são chamarizes que nunca passam de moda. “Sex and the City”, “SATC”, apareceu com esta vantagem. Uma série sobre o sexo e a vida sexual de quatro mulheres afluentes e emancipadas, dotadas de excelente guarda-roupa, na luzente cidade de Nova Iorque e no recinto exclusivo de Manhattan, com sentido de humor feminista, escrita por um gay chamado Darren Star. Uma estrela que tinha tudo para dar certo. E deu. “O Sexo e a Cidade” tornou-se uma espécie de símbolo da década feliz, os anos 90, depois da sida primordial e antes do terrorismo, da tecnologia destruidora da civilização de Gutenberg e da pandemia. Uma década de otimismo em que o capitalismo liberal deu ao mundo ocidental uma prosperidade nunca vista e alimentou o sonho da democracia planetária. O fim da História.

Era uma série que tinha o mérito da restituição da futilidade no recital de lágrimas das vidas quotidianas. Não uma futilidade vã, um escape de razões e ações mais sérias destinado a fazer rir ao observar com acuidade os tiques e toques de um grupo de gente mimada, as tribos manicuradas de Manhattan. Com o tempo, “SATC” transformou-se num culto e não apenas entre as mulheres do mundo que viam televisão americana. Os homens também achavam piada aos nortes e desnortes de Carrie Bradshaw, a escriba, Samantha Jones, a bomba sexual, Charlotte York, a colegial cor de rosa, e Miranda Hobbes, a mulher de carreira. Adaptado de um livro da escritora e colunista Candace Bushnell, a verdadeira Carrie, a série trazia para o ecrã a candura sexual da descoberta dos sexos, e não apenas do sexo, e a libertação das mulheres na esteira de “Fear of Flying” e da pioneira Erica Jong. A primeira que resolveu escrever romances em que o erotismo vagamente pornográfico é transformado num depoimento feminista que começaria assim: todos os homens são ridículos, incluindo os homens bonitos, se uma mulher for suficientemente esperta para perceber isso. Ou seja, a mulher fica por cima em todas as relações sentimentais.

Saiba mais aqui

 

Para os homossexuais, antes da emancipação plena e dos direitos ganhos, “SATC” era não só um ponto de auto-observação e libertação como uma fantasia drag, por causa das roupas ostensivas e da intimidade sem pecado entre rapazes e raparigas, sem que a opção sexual fosse um drama ou uma batalha pessoal. Depois das tragédias do VIH, “SATC” instituiu uma apreciação mais alegre do universo gay. Que se contrapunha à escuridão dos anos 80, da sida como estigma e de filmes hard como “Cruising, A Caça”, de William Friedkin, que ia destruindo a carreia de Al Pacino. A caricatura do casal homossexual, que hoje seria considerada ofensiva por este ou aquele grupo de ofendidos, funcionava como o alívio cómico da espessura heterossexual dos homens da série e sobretudo do alpha male Mr. Big, outra caricatura. O nome indica tudo.

Antes do nascimento da doutrina politicamente correta, antes da censura e da perseguição, antes do cancelamento e da ofensa, as pessoas, homens e mulheres antes da imposição da fluidez de género, eram livres. Nenhuma hierarquia se sobrepunha às outras, o riso cancelava a intolerância.

A velha e sólida aliança entre mulheres e homens gays, baseada no respeito mútuo e, no caso feminino, no conforto que as mulheres sentiam pela ausência da ameaça patriarcal ou marialva, emprestava à série alguns dos melhores momentos.

A personagem feminina oposta a Mr. Big, que começa por ser o malandro clássico que não se quer comprometer, era a de Samantha, que usava os homens como brinquedos sexuais. Claro que Samantha era não só um papel ingrato para a atriz, ficou colada à personagem, como um papel irreal. Não haveria por aí muitas mulheres com aquela dose de autoconfiança e sentimento predador.

O evidente exagero de todas as personagens, falas e ações dava a “SATC” o mérito da evasão da realidade. E por cima pairava a luz de Nova Iorque, a metrópole da infinita possibilidade. É a mesma Nova Iorque privilegiada e bonitinha de Woody Allen de Nora Ephron, com o mito dilatado pelo poder da televisão. Um lugar onde as desgraças são anuladas pela carga emocional positiva, como se dizia nos anos 90, que a cidade injetava nos habitantes. A cidade carregava as baterias depois do desgosto e da desilusão.

Nos anos 90, as mulheres rumavam a Manhattan para fazer a voltinha “SATC”, com paragem obrigatória na Magnolia para queques com creme. E, nesses anos descuidados e otimistas, anos de enriquecimento, a cidade devolvia em dobro tudo o que nela se investia, incluindo o sonho. O sonho estilhaçou-se no dia 11 de Setembro de 2001.

Em 2021, aquela Nova Iorque desapareceu. A cidade, acossada pela pandemia e por movimentos sociais e políticos que escapam ao controle da racionalidade, acossada pelos anos Trump (que era, nos anos 90, um cómico, simpático e ilustre habitante doirado de Manhattan e uma vedeta dos tabloides que não se levava a sério e adorava aparecer), acossada pelos escândalos e os resgates da crise financeira, acossada pelo terrorismo e o racismo que trouxe na cauda bifurcada, acossada pelos confinamentos e os terrores covid, não é nem pode ser a mesma cidade da década prodigiosa.

Os atores de “And Just Like That” podem ter voltado a colocar a máscara, mas os traumas estão lá, na perplexidade com que as três mulheres enfrentam a mudança de modos e costumes, a novíssima censura social, a supremacia tecnológica sobre a literária. E nada disto tem graça. Elas já não conversam sobre sexo e sobre homens, conversam sobre a velhice e a morte, a doença, as rugas, a humilhação infligida pela passagem do tempo. A vida tal qual ela é.

O argumento não tem, nem pode ter, a menor ideia do que é ser jovem neste milénio, e o único jovem da série, o filho de Miranda, aparece como um descerebrado neutro que pratica sexo com a namorada ao lado dos pais ou num concerto de piano, com o ruído de Samantha e sem a leveza dela. É uma cena grotesca, tal como a cena em que os pais pedem ao filho um abraço. A caricatura falida de uma geração incompreendida por alguém que vem de outra era. A caricatura também não funciona em nenhuma das três sobreviventes. Onde havia humor resta anacrónico exagero. Os trapos e chapéus burlescos, a prosperidade como obscenidade, a fleuma do casamento clínico, a cirurgia plástica e o botox. Carrie é uma podcaster porque os livros não vendem, Miranda é uma aluna insegura e Charlotte uma dondoca sem virtude salvífica. A união do grupo vem apenas de estarem na mesma jangada geracional, sem rumo e sem propósito. O tempo não perdoa. E os maus argumentos ainda menos.

O único que continuava sem perda, alpha male até ao fim, morre no primeiro episódio. O anticlímax, ditado pela necessidade de retirar o ator de cena. E começamos com um funeral. Not good. Mr. Big morre numa bicicleta Peloton, e logo se seguiu um vendaval de marketing da Peloton para demonstrar que as suas bicicletas não provocam ataques cardíacos. O anúncio da Peloton, com Mr. Big/Chris Noth vivo e de boa saúde em companhia de uma vívida treinadora, acaba por ser a única gargalhada, lateral. Na América nada se perde, nada se cria e tudo se transforma.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.