O Serviço Militar ao Serviço de Quem?

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 30/03/2024)


Em contracorrente aos discursos da verdade única que os aparelhos de propaganda e manipulação nos transmitem, o professor Viriato Soromenho Marques publicou há dias no DN mais um texto de análise da realidade que vivemos e da que nos está a ser preparada (Ver aqui).

Talvez esta análise crua tenha a mesma eficácia de uma pregação a um rebanho de cordeiros sobre os perigos que os aguardam com as celebrações judaicas da Páscoa, quando os pastores lhes estão a fornecer ervas tenras para a engorda, antes de os sacrificarem, mas vale a pena acompanhar o autor, para que os magarefes não se sintam pregadores evangélicos, incontestados vendedores de asas de subir aos céus. O texto tem por título “A Ocidente, uma desolada paisagem”. Começa por pedir que esqueçamos que há uma guerra europeia centrada na Ucrânia que se pode tornar mundial e que enfrentemos a dolorosa pergunta prévia: O que é o Ocidente e quais são os seus valores atuais? Isto é, digo eu: o que nos prometem a troco da vida dos jovens europeus e das ruínas das nossas casas? Começa o professor Soromenho Marques por relembrar que, de acordo com orientações estratégicas há muito públicas e publicadas e seguindo vozes autorizadas da Casa Branca e do Congresso, existe um saldo positivo de mais esta guerra para a oligarquia que governa os Estados Unidos, e que o que está em causa não é, nem nunca foi, a vitória da Ucrânia, muito menos a de uma Ucrânia livre e com um regime representativo do seu povo, mas sim usar aquele povo como aríete para enfraquecer a Rússia.

Viriato Soromenho Marques deixa claro a quem souber ler que a guerra na Ucrânia é um negócio e está a ser tratada pelos seus administradores como um negócio, com deve e haver, lucros e prejuízos. Os Estados Unidos fazem contas e concluem que a guerra é lucrativa para as suas elites financeiras e industriais e que, com os contratos já impostos à Europa para ela se “defender” de uma invasão russa, os lucros se prolongarão para lá do fim da guerra. Quanto à Rússia: Trinta anos (desde o fim da URSS) de estratégia de encostar a NATO às fronteiras da Rússia, sobretudo na Ucrânia, mas antes dela na Polónia e nos países bálticos, levaram, como estava previsto que levassem, o urso a acordar. Os EUA estavam preparados para lucrarem com o seu despertar.

As sanções, o ataque à exportação de petróleo e gás natural russo, o impedimento de mais oleodutos (sabotagem do Nordstream II), a fuga de cérebros, o fomento da instabilidade no Cáucaso, tudo isso estava prescrito num vasto documento que mais parece uma declaração de guerra: (Extending Rússia. Competing from Advantageous Ground, James Dobbins et al., Santa Monica, CA, Rand Corporation). Nesse saldo positivo dos EUA, além da rotura dos laços entre Berlim e Moscovo, entra também o alargamento da NATO e a convicção de que a Europa vai aumentar duradouramente as compras em armamento norte-americano (quer ganhe Biden ou Trump), assegurando um grande negócio, nutrido com centenas de milhares de mortos e estropiados na Ucrânia, que se podem alargar a outras áreas e geografias na Europa e na Eurásia

“E que pensar da UE, a outra metade do Ocidente?” (Pergunta Viriato Soromenho Marques e esclarece: “Nunca a Europa sofreu, em tempo de guerra, com líderes tão perigosamente impreparados para governar. Em setembro de 2022, o triunfalismo, a presidente da CE (Ursula Von Der Leyen) troçava dos russos, dizendo que a eficácia das sanções obrigava Moscovo a usar os chips dos eletrodomésticos para fins militares. Hoje, um pânico antigo (“Vêm aí os russos”) percorre as capitais europeias. Basta ouvir o “valente” Macron, ou ler o apavorado Charles Michel.” Num artigo do El País de 29 de Março de 2024, Donald Tusk, um neoliberal que é primeiro ministro da Polónia, afirmava: “Estamos en una época de preguerra. No exageroRespondia assim ao primeiro-ministro espanhol, que na última cimeira europeia pediu que se baixasse o tom belicista.

Nesta linha dos apelos à guerra estamos a ser bombardeados com uma campanha de manipulação para reintroduzir o serviço militar obrigatório. Portugal cumpre o papel que lhe foi distribuído. Não é um acaso, nem uma inocente coincidência que no mesmo dia surjam notícias da defesa desta reintrodução através de declarações do chefe do estado-maior general das Forças Armadas, do chefe do estado-maior do Exército e até, pasme-se, do chefe de estado-maior da Armada, de uma Armada que, mesmo durante a guerra colonial, manteve a maioria dos seus efetivos profissionalizados! Da campanha escapou até ver o chefe do estado-maior da Força Aérea. Não haverá para já pilotos ou controladores de tráfego aéreo, meteorologistas ou mecânicos de aeronaves de recrutamento obrigatório! Do novel ministro da Defesa, o lusito Nuno Melo, espera-se sem surpresas que desembainhe a espada de pau e vá a Washington comprar o que der mais comissões e proporcione aos intermediários, com Paulo Portas como chave-mestra, o orgulho de Portugal possuir os melhores artefactos bélicos e de participar na primeira linha da defesa dos valores do Ocidente. Os discursos estão disponíveis no ChatGPT. Basta tocar na tecla Enter.

Convém pensar na falácia do serviço militar obrigatório: as guerras atuais assentam na operação e gestão de sistemas de armas e de comando e controlo altamente sofisticados, que exigem operadores com elevado nível de preparação, o que apenas é possível com uma exigente formação técnico científica e longo período de treino, o que implica a profissionalização dos militares. Mesmo em teatros de operações de baixa e média intensidade como os do República Centro Africana ou do Mali, os europeus só empregam tropas profissionais. A proposta de serviço militar obrigatório para um conflito de alta intensidade na Europa apenas pode ser racionalmente justificado com a previsão de uma próxima crise social resultante da evolução tecnológica, que criará uma multidão de jovens sem emprego, sem utilidade económica, potenciais elementos perturbadores. Alguém definiu o soldado como um “desempregado armado”. O serviço militar obrigatório servirá, assim, para aliviar tensões sociais e políticas. Mais, o serviço militar obrigatório em ambiente de grande letalidade recupera o conceito maltusiano da utilidade de eliminação de excedentes de população. O modelo social europeu está a atingir o máximo de população que pode suportar. Não há garantia que os jovens e adolescentes nascidos no início do século XXI tenham possibilidade de receber os benefícios sociais instituídos na Europa no pós-Segunda Guerra, há que eliminar uma boa parte desta multidão de futuros beneficiários, de subsídiodependentes: uma guerra de alta tecnologia com militares de serviço militar obrigatório como alvos moles é uma solução que os partidos populistas escondem atrás de uma retórica demagógica de quem não trabalha não come e do vai para a tua terra.

Por fim, a discussão das vantagens do serviço militar obrigatório serve objetivos de propaganda e ação psicológica: prepara as opiniões públicas para a situação de guerra, que será mais fácil e naturalmente aceite quando ela for desencadeada, surgirá nos meios de propaganda e na voz dos seus agentes como uma “escola de virtudes” e de nacional-patrioterismo pelas forças políticas de direita, como um instrumento de integração social e étnica, como uma alternativa às políticas restritivas de imigração. A promoção do serviço militar obrigatório, a conscrição napoleónica, serve os poderes instalados e é uma ameaça aos cidadãos em geral. É uma falsa e perigosa solução. Serve para a criação do tal “estado de pré-guerra” de que falou Donald Tusk, um discurso e um ambiente emocional muito parecidos, aliás, com os que antecederam a Primeira Grande Guerra.

Ao contrário da maioria dos comentadores e comentadoras selecionados para o espaço público julgo imprescindível conhecer a origem das fogueiras de hoje, à semelhança da necessidade de conhecer os 10 Mandamentos bíblicos para perceber a origem do conceito de Deus Único, ter lido o sermão da montanha para entender o cristianismo e as cartas de São Paulo para chegar aos fundamentos da Inquisição: Alguém consegue imaginar que valores arengarão os políticos europeus e os generais europeus aos contingentes de jovens soldados do serviço militar obrigatório formados e alinhados antes de embarcarem como carne para canhão para mais uma campanha? Os da libertação dos lugares santos, como nas cruzadas? Os da cristianização e da europeização como na expansão europeia que deu origem à ocupação de meio mundo e destruição das suas culturas e povos, que deu origem ao colonialismo? Os valores que na Europa originaram as chacinas ideológicas das guerras santas, da inquisição, da supremacia rácica? Que valores a defender até com sacrifício da própria vida constarão do código pelo qual os jovens europeus serão alistados?

Estamos na Páscoa dos cristãos, que no Ocidente celebra a ressurreição do único ser humano que terá ocorrido em dois mil anos! Mas não haverá ressurreição para os que morrerem na guerra que está a ser preparada, como não houve para os milhões que morreram nas anteriores.

Não são apenas o Ventura, ou a senhora Le Pen que fazem promessas mortais… Os europeus devem perguntar aos candidatos a eurodeputados o que pensam da nova guerra e da proposta de reintrodução do serviço militar obrigatório que está a ser tão insidiosamente lançado como um novo desodorizante.


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Mandem mais dinheiro para a Ucrânia e depois queixem-se…

(Miguel Castelo Branco, in Facebook 15/03/2024)

(É por estas e por outras que o descontentamento grassou no país, tendo sido habilmente explorado pela extrema-direita para alavancar a sua meteórica ascensão eleitoral. É que, se o dinheiro vai para a guerra e para fomentar a morte, não vai para o SNS, a escola pública, as estradas, os médicos, os professores, os polícias, etc. E uma dúvida: estando este governo em gestão corrente, tem competência para tirar dos bolsos dos portugueses tão choruda quantia, ainda mais para a dar a nazis corruptos?

Estátua de Sal, 16/03/2024)


Portugal oferece à Ucrânia mais 100 milhões para a aquisição de munições contratadas a terceiros.

Importa lembrar que o novo grande hospital de Lisboa Oriental custará 390 milhões, um Airbus A320neo, para a renovação da frota da TAP, orça os 100 milhões, um F16, 65 milhões, um cacilheiro 25 milhões, um Canadair de combate a incêndios, 3 milhões e uma escola secundária média, construída de raiz e equipada, não ultrapassa 1.7 milhões.

Não há no Parlamento quem se erga e proteste sem titubeio pelo desbaratar da riqueza nacional angariada em impostos e sacrifícios?

Não há no Parlamento quem confronte o Governo por alienar o erário público em benefício de um Estado terceiro que não pertence à NATO, nem à UE? Este potlach tem de acabar.


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Cães que ladram muito à porta de casa, mas…

(Carlos Matos Gomes, in Facebook 15/03/2024)

A notícia do dia em termos internacionais é a reunião de um trio europeu constituído pelo presidente francês e os primeiros-ministros da Alemanha e da Polónia para discutirem a ajuda europeia à Ucrânia para esta vencer a Rússia. A História não ensina a decidir o presente, mas pode acontecer que existam antecedentes que aconselhem cautelas. As mais fortes tentativas da Europa Ocidental ir desafiar o urso russo à sua toca foram as de Napoleão em pessoa, no século 19 e a de Hitler, através do seu marechal de campo Ernest Paulus repetirem o desastre no século 20. Napoleão, o grandioso derrotado, repousa nos Invalides, em Paris, Paulus, o triste derrotado alemão, que se rendeu e depois foi julgado em Nuremberga acabou por morrer em casa e está sepultado em Baden Baden.

Nem Macron, nem Schulz, nem Trusk são cromos repetidos. Nem querem atacar a Rússia. A Rússia e o apoio à Ucrânia para a guerra de desgaste da Rússia são apenas pretextos para cada um dos membros do trio jogar os seus interesses. A França quer disputar com a Alemanha o papel de potência líder na Europa, um papel que os Estados Unidos, o mestre do jogo, atribuiu à Alemanha e que esta, queira ou não, tem de representar. A Polónia conhece a fraqueza da França – sempre magnificamente derrotada -, que na Segunda Guerra foi incapaz de cumprir o compromisso de defender a Polónia em caso de ataque alemão. A Polónia conhece o interesse da Alemanha pelo domínio do seu território e da sua economia, e tenta compensar o apetite alemão com a França e, fundamentalmente, com o apoio dos EUA.

Os milhões de euros e os milhões de munições para a Ucrânia são fichas lançadas para a roleta em que a França e a Alemanha estão a jogar. Sendo certo que o dono do casino são os EUA.

O palavreado agressivo contra Putin e as eleições que os órgãos de propaganda utilizam são reveladores da fraqueza dos jogadores. A Europa está a dar muito mais importância à Rússia do que esta dá à Europa, que para a Rússia deixou de contar.

Em resumo, a Europa está reduzida ao papel dos cães que ladram muito à porta de casa e fogem mal são ameaçados.

Quanto aos cidadãos europeus, vão pagar munições que um dia lhes podem cair sobre a cabeça. Para já, têm conseguido enviar as suas máquinas de guerra para serem transformadas em sucata na Ucrânia… O trio dos ponta de lança da Europa quer passar a uma fase seguinte, lutando entre si, fingindo que estão a lutar contra a Rússia…

É um número arriscado para os cidadãos europeus. Os três dirigentes europeus são representantes de três grandes derrotados… Estão como a cavalaria polaca a atacar blindados com uma carga a cavalo de sabre desembainhado…


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