A cultura da vitória e da violência é uma faca de dois gumes — lições d’Os Lusíadas

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 13/10/2024)


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A propósito da guerra na Ucrânia, numa entrevista recente, Sergei Lavrov, o ministro dos negócios estrangeiros russo, afirmou que ela apenas poderá terminar com a vitória da Rússia, porque vitória e derrota são as únicas linguagens que o Ocidente entende.

Independentemente do que cada um possa pensar sobre as causas do conflito e das justificações dos contendores, a vitória com esmagamento do adversário é a doutrina da Europa e do Ocidente desde que a Europa iniciou a sua expansão no século XV.

Estamos, embora se note pouco, na celebração dos quinhentos anos de Os Lusíadas, de Camões. Ora, Os Lusíadas refletem a diferença de pensamento e de estratégia do que foi o conceito português de abordagem do “outro” e o conceito vencedor do Ocidente, o dos impérios espanhol e inglês. Os Lusíadas expõem a diferença radical no modo como os dois grandes impérios europeus expandiram o seu poder e o da abordagem dos portugueses aos outros povos e civilizações. Motivam a provocadora interrogação: Com quem e com o que fariam os espanhóis uma epopeia? Com Cortés e a conquista do México, ou com Pizarro, que realizou o feito de prender o imperador Atahualpa, dos incas, depois de aceitar o convite deste para um jantar, durante o qual assassinou a sua pequena guarda? E os ingleses que herói têm para uma epopeia? Os corsários Drake e Raleigh, que os seus contemporâneos designavam por Sea Dogs, os cães do mar?

Os Lusíadas são também um extraordinário manual de relações internacionais. Os dirigentes dos impérios europeus que sucederam aos portugueses, os ingleses e os espanhóis, agiram com a arrogância e a convicção de superioridade que se iriam traduzir na gigantesca empresa da escravatura de africanos, na destruição das culturas e civilizações do continente americano e no genocídio dos povos. A partir da chegada de espanhóis e ingleses e também dos portugueses às américas que contributo foi permitido aos povos locais — desde a Patagónia ao Alaska — darem ao progresso do mundo e que possa ser comparado ao que as civilizações do Índico e do Pacífico proporcionaram?

A ordem internacional imposta por espanhóis e ingleses, também por franceses e alemães, atualmente pelos norte-americanos, assenta em princípios opostos aos que Camões expressou em Os Lusíadas. Fundou-se na morte por asfixia das culturas e civilizações existentes.

É este reconhecimento que Sergei Lavrov faz e que motiva a atitude da Rússia nos atuais conflitos que o Ocidente conduz na Ucrânia e no Medio Oriente.

A estratégia que o império Ocidental — herdeiro dos impérios inglês e espanhol — está a conduzir na Ucrânia e no Medio Oriente é a do esmagamento dos povos que existem desde o Líbano à Rússia — com propositado exagero, estabelecer uma Gaza de Beirute a Moscovo — ou uma limpeza como a que foi feita na América do Norte de Nova Iorque a São Francisco, ou como as levadas a cabo por Cortés e Pizarro na América Central e do Sul.

A velha Europa, como a tratam os “jovens americanos” — Reagan e Trump — acredita que a sua forma de abordar os outros — esmagando-os — ainda é a certa para impor a sua civilização e os seus interesses. A atual Europa, agora uma província do Ocidente Global, adotou como política para se relacionar com o Velho Mundo persa e mesopotâmico a dos invasores ingleses e espanhóis no Novo Mundo, o problema é que o “velho mundo” não está nu, apenas com arcos e flechas para se defender!

As visitas do presidente da Assembleia do Irão e do ministro dos negócios estrangeiros a Beirute realçam a aliança existente e a assinatura de um pacto de defesa entre o Irão e a Rússia. E isso significa que a reprodução da estratégia de vitória por esmagamento que presidiu à estratégia ocidental durante cerca de cinco séculos tem grandes probabilidades de degenerar num desastre a vários títulos, militar, desde logo, mas também económico e, mais profundamente ainda, civilizacional.

Apenas para recordar, os princípios filosóficos em que assenta o pensamento europeu foram transpostos do grego para a Europa através dos árabes e foram-no principalmente durante os sete séculos em que eles estiveram na Península Ibérica no Al Andaluz. Já agora, os nossos algarismos ainda são conhecidos por números árabes.

A estratégia de terra queimada que o Ocidente está a desenvolver em Gaza e no Líbano, mas que já utilizou na Líbia, no Iraque e na Síria é a-histórica e a Europa vai pagá-la com o definhamento que ocorre às árvores a quem cortam as raízes.

Os Lusíadas são a epopeia de uma península que era a proa de um continente que viajava ao encontro de outras gentes e culturas e ali aportava. Da epopeia dos portugueses no Oriente cantada em Os Lusíadas mantiveram-se e desenvolveram-se civilizações tão pujantes como a Índia, a China, a Indochina, o Japão, enquanto nas Américas nada restou, além de ruínas e a humilhação espelhada nos rostos daqueles a quem arrogantemente o Ocidente uniformizou sob a designação de “índios”. Na expansão para Ocidente, os europeus provocaram terror a todos os que encontraram com o barulho ensurdecedor das armas, o cheiro insuportável da pólvora e com os “monstros de quatro patas”, o cavalo, desconhecido pelos povos do continente americano. Tal como acontecerá em Hiroshima e Nagasáqui com as duas bombas atómicas e acontece hoje em Gaza e no Líbano com as mais mortíferas armas ocidentais.

A anti epopeia da Europa terminou com a sua derrota na Segunda Guerra Mundial, quando foi substituída por uma entidade sem alma, que funda o novo mundo com um imenso genocídio e uma exploração sem regras nem limites da natureza, expressa na célebre carta do cacique de Seattle ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, em 1855:

O grande chefe de Washington mandou dizer que desejava comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também a sua amizade e benevolência. Isto é gentil da sua parte, pois sabemos que não precisa da nossa amizade. Vamos, porém, pensar na sua oferta, pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com armas e tomará a nossa terra. […]

Cinco séculos após a passagem do Cabo das Tormentas, rebatizado em da Boa Esperança, o Adamastor venceu, o Ocidente perdeu. O Oriente apresenta hoje ao mundo uma civilização vencedora, mais aberta, mais flexível, mais adaptada ao mundo. O Ocidente seguiu o caminho na direção contrária ao que Camões celebrou e, em vez de respeitar o ‘Outro´, aniquilou-o, esquecendo-se que as sementes do ódio são eternas. São estas sementes que o Ocidente continua a espalhar.

Há uma diferença radical entre a chegada dos europeus às Américas e a de Vasco da Gama à Índia. Entre a dominação e uma aliança, Vasco da Gama propõe uma aliança ao Samorim:  E se queres, com pactos e lianças/De paz e de amizade, sacra e nua, Comércio consentir das abondanças/Das fazendas da terra sua e tua, Por que creçam as rendas e abastanças/(Por quem a gente mais trabalha e sua)/De vossos Reinos, será certamente/De ti proveito, e dele glória ingente.

Os Lusíadas não fazem parte das leituras nem na sede da UE, nem da NATO.

Israel — Um Estado Rottwiller

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 02/10/2024)


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A análise do comportamento de Israel na estratégia dos Estados Unidos tem de partir da caraterização da relação do Estado de Israel com os Estados Unidos. É essa relação que determina as ações de Israel e permite ler os passos que os Estados Unidos dão para atingirem o seu objetivo decisivo e vital de manterem a supremacia mundial.

É à luz da questão de hegemonia do sistema mundial, assente na força, que permite emitir o dólar, a moeda de troca mundial sem qualquer valor de referência, a não ser as rotativas da Reserva Federal Americana, que as ações dos atores no Médio Oriente devem ser analisadas.

Os comentadores avocados pelos grandes aparelhos de comunicação centraram as suas arengas em dois pontos: o tipo de ataque do Irão, com aviso prévio, com meios facilmente interceptáveis e de modo a não causar grandes danos pessoais e o tipo de reação de Israel. No fundo, limitaram-se a replicar o que os painéis de comentadores do futebol fazem ao apreciar o “jogo do dia”. A questão, no entanto, é a existência de um campeonato e a estratégia que cada equipa montou para o disputar, quais os investimentos e quais os objetivos dos donos dos clubes. Existem, como sabemos, clubes de primeira e clubes filiais. Israel é um clube filial. Tem, com certeza objetivos próprios, mas o seu papel é o de servir de guarda do proprietário. A relação entre ambos é do mesmo tipo da de um cão rottweiller com o seu dono,

O rottweiller é um tipo de cão desenvolvido na Alemanha, julga-se que descendente de cães romanos e utilizado como cão de guarda. No início do século XX, quando foram pesquisadas diversas raças para a função policial, o rottweiler demonstrou ser extraordinariamente adequado e estas tarefas. Quando não são educados de modo a reconhecer quem manda, podem ser agressivos e necessitar de reeducação. Não parece que seja o caso de Israel, pese embora as justificações para os crimes de Israel atribuídas à fuga à justiça de Netanyahou, ou ao domínio do grupo ultrasionista que domina o governo e tem por objetivo a criação do Grande Israel e a eliminação dos palestinianos, considerados animais.

Na realidade a ação de Israel segue o guião da estratégia dos Estados Unidos para a região e que é conhecida. O essencial desta estratégia pode ser lida em duas obras produzidas por personalidades que desempenharam funções de alta decisão nas administrações americanas e que expõem as linhas mestras da ação dos Estados Unidos. O primeiro é o livro The Grand Chessboard American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, O Grande tabuleiro de xadrez. A supremacia americana e as suas implicações estratégicas, de Zbigniew Brzenski, que foi Conselheiro Nacional de Segurança da administração de Jimmy Carter, no qual expõe a importância da região que designou como Eurásia e que explica a decisão de atacar a Rússia a partir da Ucrânia. O segundo livro, menos conhecido, Winning Modern Wars — The Clark Critique, escrito por Wesley Clark, um general vedeta, de quatro estrelas do Exército dos EUA e ex-comandante supremo aliado da OTAN na Europa de 1997 a 2000. Diretor do conselho do Atlantic Council, bem como presidente e CEO da Wesley K. Clark and Associates, uma empresa de consultoria estratégica e que chegou a ser candidato à presidência dos Estados Unidos. Ele relata o primeiro contacto com a administração de Bush Jr, no seu regresso aos Estados Unidos e ao Departamento de Defesa, o que lhe foi dito a 20 de setembro de 2001, apenas nove dias depois dos ataques às Torres Gémeas. A administração Bush (Dick Cheney e Donald Rumsfeld) tinha concebido um plano para atacar sete países de maioria muçulmana após os ataques de 11 de setembro.

O plano incluía ações militares contra Iraque,  SíriaLíbanoLíbiaIrãoSomália e Sudão, sendo o Iraque o primeiro alvo. Três semanas depois da conversa informal, o mesmo oficial entregou a Clark um memorando a descrever como os EUA iriam derrubar sete países em cinco anos. “Começava no Iraque, e depois Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e, a terminar, Irão”.

No livro referido, sob a forma de conselhos ao presidente dos EUA, Wesley Clark explicita a estratégia a seguir: “O que o presidente dos EUA necessita de saber.” Linha de partida: O pós guerra fria terminou. Vivemos uma nova era geopolítica que necessita de uma nova visão e a renovação dos fundamentos do poder americano. O Sistema Internacional depende em exclusivo do sucesso dos Estados Unidos na nova era.

O primeiro passo na renovação dos EUA é encarar a realidade. Os Estados Unidos estão a enfrentar um grupo emergente (BRICS), cada vez mais alinhado, de potências opostas à ordem internacional baseada em regras (sic) e liderada pelos EUA. A Rússia, alinhada com a China, e agora ao lado do Irão e apoiada pela Coreia do Norte, está no centro de uma manobra para destruir a preeminência americana, redistribuir o poder global e dividir o mundo em esferas de influência. Essas potências estão a cooperar cada vez mais. Como o presidente chinês Xi Jinping declarou ao despedir-se do presidente russo Vladimir Putin, em março de 2023, juntos estão a promover “mudanças” que “não víamos há cem anos”. Essas mudanças referem-se ao desmantelamento da ordem global (sic). A invasão da Ucrânia pela Rússia e a intenção da China para tomar Taiwan são apenas dois esforços entre muitos desses atores que visam reduzir a influência dos EUA e mitigar as leis, regras e restrições do atual sistema internacional.

Os potenciais adversários dos EUA estão cada vez mais decididos a usar a força. A invasão em larga escala da Rússia na Ucrânia em 2022 foi um choque (embora não devesse ter sido). Agora, os países europeus temem que, se for bem-sucedida na Ucrânia, a Rússia possa avançar mover contra a Moldávia, Geórgia, Cazaquistão, Polónia ou os estados bálticos. A China, embora ainda cautelosa e calculista, investiu num grande poder militar e está a utilizá-lo para intimidar Taiwan. O Irão continua a procurar a destruição de Israel e está aumentar o seu poderio para adquirir a hegemonia regional. As armas nucleares importam novamente. Putin e os seus aliados têm repetidamente, e com sucesso, ameaçado o uso de armas nucleares para impedir a assistência criticamente necessária dos EUA e do Ocidente à Ucrânia. O medo aberto de confronto com uma potência nuclear prejudica a credibilidade dos EUA em todo o mundo. A Rússia e a China estão a ampliar e modernizar os seus arsenais de armas nucleares, incluindo armas nucleares estratégicas que podem atingir os Estados Unidos. A Rússia produziu uma nova geração de armas nucleares táticas mais facilmente utilizáveis ​​e os meios para as lançar, e Putin fala como se a Rússia tivesse alcançado a superioridade nuclear estratégica.

As sanções económicas dos EUA revelaram ser inadequadas e, às vezes, até contraproducentes. As sanções dos EUA para cortar os fluxos tecnológicos e financeiros para a Rússia após sua invasão da Ucrânia em 2022 não se mostraram eficazes em interromper o uso da força pela Rússia. Tecnologia como chips e máquinas-ferramentas vitais para a indústria militar da Rússia difundiu-se entre um regime de sanções multilaterais que tem sido difícil de aplicar e sujeito a evasão. A Rússia ainda está a exportar petróleo e algum gás, e a obter moeda forte através de uma rede de contrabando, manifestos falsos e mistura de produtos petrolíferos para disfarçar a sua origem. Mas mesmo sem serem totalmente eficazes, essas sanções alienaram muitos países que estavam em cima do muro sobre o conflito na Ucrânia e incentivaram mais esforços para minar o sistema financeiro global dominado pelos EUA.

Os esforços dos EUA para cortejar e conquistar o Sul Global não estão a obter sucesso. Os poderes atrativos do sistema democrático dos Estados Unidos diminuíram com o sucesso do modelo autoritário da China, o surgimento de regimes autoritários em países como a Turquia e o Egito e os problemas óbvios que a governo dos EUA enfrenta em casa. Em África, os esforços dos EUA para pregar a democracia e os direitos humanos são às vezes vistos como uma forma de “imperialismo cultural” e contrastados com as ofertas de ajuda e capital da China sem interferência em assuntos internos.

No Médio Oriente, o Irão criou um arco de milícias e outras forças opostas aos Estados Unidos e muitos atores parecem ver as declarações do governo dos EUA de que não procura a escalada com Teerão como reflexo da fraqueza dos EUA. Em todo o Sul Global, muitos líderes que avaliam o apoio vacilante dos Estados Unidos à Ucrânia parecem ter decidido que a Rússia é a potência mais forte.

A estratégia americana deve assentar entre outros na renovação do seu poder e incluir o fortalecimento da dissuasão nuclear dos EUA e todos os sistemas auxiliares que lhe dão credibilidade. Os líderes dos EUA devem reexaminar a necessidade de sistemas táticos e de teatro, bem como a modernização das ogivas. A dissuasão nuclear dos EUA deve ser uma pré-condição para a negociações estratégicas sobre armas nucleares com a Rússia e a China.

Quanto à Ucrânia o apoio americano deve ser o necessário para expulsar as forças russas do seu território. A China está a observar como os Estados Unidos e outros países respondem a esse desafio. Washington deve encorajar aliados e parceiros que compram armas dos EUA, como sistemas ATACMS e Patriot, a adiar a aceitação e, em vez disso, doar seus sistemas para a Ucrânia conforme necessário para derrotar a agressão russa lá.

O governo dos EUA deve concentrar a construção naval para dissuadir a China, e melhorar as capacidades estratégicas de defesa nuclear dos EUA. Procurar oportunidades como a exploração de petróleo no Mar da China Meridional para repelir economicamente o expansionismo chinês e manter as políticas económicas de investimento robusto em infraestruturas no Estados Unidos, evitando a posse de tecnologias-chave na China. Além disso, Washington deve dar maior prioridade à proteção do dólar como o principal meio de comércio internacional e reserva de valor.

Quanto ao Irão, que está na ordem do dia, Clark expõe a estratégia em vigor: forçar os governantes do Irão a escolher entre a sua luta pela hegemonia regional e a sobrevivência do regime. O governo dos EUA deve alterar a sua política em relação ao Irão de “relutância em escalar” para “acabar com o Eixo da Resistência “, incluindo o apoio de Teerão aos Houthis no Iémen. O governo dos EUA deve alertar o Irão de que, a menos que o Eixo da Resistência seja desmantelado e as ameaças terroristas e nucleares do Irão cessem, os Estados Unidos e os seus aliados usarão todos os meios necessários para efetuar mudanças no Irão. Ataques militares dos EUA dentro do Irão que coloquem em risco os ativos mais valorizados pelo regime, começando com instalações de produção de drones e mísseis, não devem ser excluídos da consideração se o Irão atacar forças dos EUA.

É quanto a este ponto da estratégia de impedir que o Irão se torne uma potência regional no Medio Oriente, ameaçando o papel que tem sido desempenhado por Israel, como rottwiller dos EUA que vai ser decidida a “retaliação de Israel”. Ou os EUA entendem que já estão em condições de aniquilar o poderio militar-industrial do Irão e provocar uma mudança de regime em Teerão e nesse caso a ação de Israel será violenta e preparatória de um ataque principal, ou os EUA entendem que ainda não estão reunidas as condições para essa operação e a retaliação de Israel será destinada a “amolecer” a resistência de Teerão a um futuro ataque decisivo. Decisivo é, no entanto, uma demonstração de força dos Estados Unidos, que convença os estados na região de que ainda são eles os mestres do jogo. Certo é, também, que em qualquer momento ocorrerá um confronto decisivo entre os Estados Unidos e o Irão para impedir este de disputar a hegemonia de Israel como potencia regional e de se tornar uma potencia nuclear. Seria mais um Estado dos BRICS a aceder a essa condição, juntamente com a Rússia, a China, a Índia.

Os Estados Unidos, como referiu Wesley Clark, têm de se mostrar eficazes na luta contra os aliados de Teerão, o Hamas, os Hezbollah, os Houthis, que é o trabalho de rottwiller a cargo de Israel e também manterem a ocupação de parte da Síria, como o estão a fazer à margem de qualquer justificação que não seja o poder da força.

A afirmação da administração Biden, de que os Estados Unidos não se iriam envolver na retaliação de Israel é pura retórica, todos os meios utilizados por Israel são americanos, os aviões, as armas, o sistemas de comando, controlo, comunicações, informação por satélite, localização de alvos são americanos e são também os Estados Unidos que fornecem a reserva de emergência com duas esquadras na região.

A eficácia da retaliação de Israel dependerá muito das capacidades de defesa antiaérea que Teerão tenha entretanto desenvolvido para proteger as suas infraestruturas criticas. Uma informação que com certeza os Estados Unidos dispõem.

Por fim, na distribuição dos custos das duas guerras, a de Israel será paga pelos americanos, com emissão de moeda que criará um efeito de bola de neve de inflação repercutido pelos estados do dólar, os europeus em particular. A guerra na Ucrânia será paga diretamente pelos europeus, com fundos retirados dos apoios sociais e do investimento produtivo.

As ações no Médio Oriente e na Ucrânia dependem da análise da situação que for feita em Washington. Existe um guião. Falta a fita do tempo. Somos todos, os cidadãos das democracias ocidentais, democraticamente impotentes para intervir no nosso futuro.

Links:

Memo to the president: The United States needs a new strategic approach fit for a new geopolitical…

The urgent task before American leaders is to renew the foundations of US power, ensuring that the country’s power of…

www.atlanticcouncil.org

Na periferia do Império e da sorte

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 29/09/2024)

(Deixem a guerra para quem sabe de guerra, digo eu. Ao ler este artigo e comparando-o com os dislates que todos dias ouço da grande maioria dos ditos “especialistas” das televisões, lembrei-me logo do antigo ditado que rezava assim: «Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?» 🙂

Estátua de Sal, 29/09/2024)


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A atual fase da manobra dos Estados Unidos no Médio Oriente através de Israel constitui uma evidente consideração do papel da União Europeia como um ator subordinado na periferia do império — um esfregão.

As atuais ações dos Estados Unidos no Médio Oriente inserem-se numa estratégia apresentada há anos pelo domínio do grande espaço da margem oriental do Mediterrâneo que inclui a Síria, o Iraque e tem como objetivo principal o Irão.

Para alcançar este objetivo, os Estados Unidos necessitam de uma base segura e absolutamente dedicada e essa base é Israel. As ações que através dos israelitas os Estados Unidos estão a desenvolver na Palestina e no Líbano — o genocídio dos palestinianos e a destruição do que resta do Líbano — tem por finalidade criar uma situação em que Israel não tenha de dividir meios e forças para assegurar o seu domínio interno com perturbadores como os movimentos de resistência palestiniana e se possa concentrar no objetivo principal, o de servir de base de ataque — ou testa de ponte — no ataque ao Irão.

A eliminação dos palestinianos — sob qualquer pretexto, seja o Hamas ou a qualidade da água do Jordão — assim como o controlo absoluto do Líbano têm a finalidade de preparar o ataque ao Irão e esse ataque tem de ser efetuado antes que este passe a dispor de capacidade nuclear e de um escudo de proteção antiaéreo eficaz.

A violência, o desprezo pela opinião pública por parte dos dirigentes de Israel e as afirmações de apoio incondicional aos objetivos anunciados por Netanyahou feitas pela administração americana resultam da urgência de provocar o Irão e de o atacar e esta urgência liga-se a uma outra, a de evitar que depois de alcançados os seus objetivos na Ucrânia, a ocupação do Donbas e neutralização da capacidade militar ofensiva de Kiev, a Rússia esteja em condições de apoiar o Irão sem as limitações atuais. O tempo urge.

Nesta fase, os Estados Unidos estão a conduzir uma guerra em duas frentes relativamente barata, com sucesso absoluto em termos militares na Palestina e no Líbano (alvos moles), com grandes dificuldades na Ucrânia, mas com ganhos económicos significativos, pois eliminaram a União Europeia como concorrente económico, impuseram-lhe o seu petróleo aos preços que lhes convém para asfixiar a sua indústria, ainda a obrigaram a pagar a guerra na Ucrânia quer diretamente com as doações e empréstimos sem prazo, quer através das compras de armamento americano. Com as duas guerras que conduz à distância, os Estados Unidos têm hoje uma economia florescente que justifica a alegria de Kamala Harris e permite as rábulas de Trump. Existe apenas um problema: com uma derrota (previsível) na Ucrânia, os Estados Unidos serão tentados a demonstrar a sua força noutro cenário e esse será, com elevadas probabilidades, o Irão.

As duas esquadras americanas atualmente posicionadas como guarda-costas de Israel permitem que o objetivo da limpeza do terreno na Palestina e no Líbano seja efetuada sem resistência significativa, nem intervenção externa, mas não são suficientes para apoiar um ataque ao Irão com possibilidade de sucesso. Há que trazer mais meios quer de defesa antiaérea, quer lançadores de armas de ataque. Os Estados Unidos necessitam de um pretexto para utilizarem as armas nucleares de que dispõem em Israel, antes de empregarem as embarcadas nos seus meios navais e aéreo, e é essa necessidade que está a ser discutida embrulhada na narrativa da autorização por parte dos Estados Unidos de utilização de misseis balísticos de longo alcance a partir da Ucrânia. É evidente que a Ucrânia não é tida nem achada nessa “autorização”, os misseis de longo alcance serão utilizados ou não de acordo com a manobra dos Estados Unidos.

O momento em que os misseis — os ATACMS — serão lançados a partir da Ucrânia contra um objetivo significativo no interior da Rússia está dependente do final da operação de limpeza em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Esse ataque será a casus belli que justificará uma resposta da Rússia, desejavelmente, do ponto de vista dos Estados Unidos, com armas nucleares táticas, que dê o pretexto para um ataque nuclear ao Irão não só às suas instalações nucleares, mas a toda a sua infraestrutura económica.

É este o tabuleiro de xadrez onde se está a jogar a nossa existência. Um tabuleiro onde a União Europeia não joga, apenas paga e sofre as consequências que são previsíveis de rápido empobrecimento, como acontece com as periferias dos impérios em guerra.

A manobra dos Estados Unidos no Médio Oriente tem uma elevada possibilidade de implicar o emprego de armas nucleares e é essa possibilidade que está a ser equacionada, e para a qual os meios de manipulação já estão a preparar as opiniões públicas ocidentais, amplificando os avisos que Moscovo tem feito da alteração da sua doutrina de emprego face à manobra de envolvimento que está a observar e que não necessita, aliás, de especiais dotes de presciência.

De Bruxelas nem uma palavra.