Como funcionam as pessoas que influenciam Costa na sombra?

(Vítor Matos, in Expresso Diário, 12/02/2022)

Fora do círculo dos ministros influentes, António Costa mantém amigos que ouve sobre assuntos do Governo e até remodelações. Não tem uma “eminência parda”, mas foi contratar um veterano da comunicação para consultor especial da campanha que lhe deu a maioria absoluta.

Primeiro faz conversa. Pode não ser explícito. Sonda, sem dizer exatamente. Procura a opinião sobre este ou aquele, antes de fechar a decisão sobre quem vai tirar, e testa as perceções sobre quem vai pôr. As remodelações não se anunciam, apresentam-se feitas. Isso faz parte das regras elementares da política. Mas há um círculo de amigos que as podiam antecipar. Em outubro passado, António Costa começou a fazer essas conversas com alguns confidentes e a medir a temperatura para remodelar em novembro, depois da aprovação do Orçamento do Estado, que não chegaria a acontecer. Um amigo de Costa, desse grupo que vive discretamente na sombra, diz que o primeiro-ministro usa uma espécie de técnica de focus group para auscultar gente de fora da bolha de São Bento, que não esteja contaminada pelas questões internas, para consolidar a decisão. “Com as suas subtilezas, por vezes o António vai fazendo essas conversas, sem dizer exatamente o que é…” Dessa vez não foi. Vai ser agora, com a formação do novo Governo.

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António Costa não remodelou no verão, depois da presidência portuguesa da União Europeia, como se previa e esperavam vários membros do Governo. Adiou. A remodelação foi empurrada para depois do Orçamento do Estado, para sair também o ministro das Finanças, João Leão, a quem os colegas apontavam dificuldades de diálogo. Mas a possibilidade havia de cair com o chumbo do OE para 2022, que desencadeou tudo o resto, a crise política, a dissolução e as eleições com o novo quadro parlamentar. Em vez de remodelar um Governo desgastado, que teria mais dificuldades em refrescar, António Costa acabou por ganhar a maioria absoluta de que não estava à espera para formar um Governo mais pequeno, estilo task force — em que os membros do seu círculo mais próximo ocuparão cargos fundamentais, mas do qual amigos que já tentou convencer noutras alturas continuarão de fora. Os que têm estado na sombra devem permanecer na sombra.

Não têm estatuto de “conselheiros especiais”, como Francisco Lacerda Machado, rotulado de “melhor amigo”, advogado ligado aos negócios, que vive entre a sombra da influência informal e as funções que o “amigo” lhe foi pedindo para exercer; ou como José Manuel dos Santos, outro velho amigo, que como Lacerda já recusou convites para o Governo e que esteve nos círculos mais próximos de Mário Soares e de Jorge Sampaio e fez parte das respetivas Casas Civis, em Belém; ou ainda como José Lemos, um consultor do Porto, que foi responsável pelas finanças do PS na era guterrista, mas cuja opinião o líder socialista continua a prezar, para receber inputs próximos da realidade das empresas e dos empresários.

Ao contrário destes, conseguiu convencer Pedro Siza Vieira, um dos amigos de faculdade que escutava informalmente e que levou a sair do conforto do escritório de advogados para entrar no Governo, como ministro-adjunto primeiro e depois na atual pasta como ministro da Economia. Vítor Escária, economista e especialista em fundos e em assuntos europeus, que pertenceu às equipas de José Sócrates, chegou a ser outro “conselheiro especial” informal, integrado na estrutura primeiro como assessor e depois como chefe de gabinete (e os chefes de gabinete dos primeiros-ministros são figuras tão discretas quanto poderosas). Fernando Medina, o delfim ex-presidente da Câmara de Lisboa, era mais uma dessas fontes privilegiadas com quem o primeiro-ministro trocava bolas — e cuja influência, por exemplo, teve consequências na redução dos preços dos passes sociais —, mas que passará agora a membro efetivo do Governo com uma pasta relevante.

A alguns destes amigos, Costa é capaz de mostrar o elenco governativo que vai levar a Belém, como já chegou a fazer, mesmo antes de ter todos os nomes estabilizados, porque há recusas de última hora a ter em conta e ajustes a fazer. Para montar o puzzle quando a estrutura já está definida, o primeiro-ministro parte para aplicar critérios como das paridades de género, regionais, de pessoal político vs. independentes, ou de experiência/juventude, explica um próximo. Resta saber se, no novo elenco, Costa abrirá espaço para um número dois político de combate que possa dar o peito às balas, para se preservar do desgaste de uma governação tão longa.

“Uma campanha não pode ser divergente da bolha mediática”, disse Paixão Martins. O consultor assume o seu “maior erro da campanha” quando Costa falou em governar com o PAN

As influências informais de António Costa têm “uma geometria muito variável”, explica um socialista que trabalhou com ele muitos anos e que também integra esse círculo de gente bem informada fora da estrutura oficial. “Tem dois circuitos: o dos ministros”, onde Mariana Vieira da Silva e Augusto Santos Silva desempenham papéis primordiais, “e os que são de fora”. E esta gente “de fora”, que Costa ouve discretamente, sobretudo ao telemóvel — cujo número mantém há anos —, é “uma rede” ligada a áreas sectoriais cuja relação ele cultiva, seja na cultura, com quem estreitou relações na Câmara de Lisboa, ou ligadas à Justiça e à Administração Interna, cujos ministérios liderou, ou atores na economia. Troca mensagens, notas, ideias. Há coisas que por vezes diz cuja proveniência nem os mais próximos conseguem traçar. Ninguém identifica, no entanto, uma ou duas “eminências pardas” que tenham uma influência política determinante junto do primeiro-ministro, no sentido literal da éminence grise, um conselheiro poderoso como Leclerc du Trembley, o frade capuchinho de hábito “pardo”, próximo de “Sua Eminência”, o cardeal Riche­lieu, de onde nasceu a expressão. A não ser quando é preciso contratar mesmo uma “eminência parda”…

As eminências pardas da campanha

O consultor de comunicação Luís Paixão Martins estava reformado desde 2015. Com o desenca­dear da crise do chumbo do Orçamento, recebeu um telefonema, em meados de dezembro, de Duarte Cordeiro, secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, já no papel de diretor de campanha do PS, para ser o “conselheiro especial” do líder socialista na disputa eleitoral de 30 de janeiro. Paixão Martins, ex-jornalista e fundador da LPM, uma das referências na área da comunicação e do marketing político em Portugal, tinha sido o estratega da maioria absoluta de José Sócrates, em 2005, da campanha presidencial de Cavaco Silva, em 2006, e trabalhara com Costa numa das campanhas autárquicas em Lisboa.

Luis Paixão Martins, um dos estrategas por trás da maioria absoluta do Partido Socialista, em Lisboa. FOTO TM

Aceitou. Abriu um parêntesis na sua vida campestre, em que explora a Herdade do Clube de Tiro de Monfortinho (Idanha-a-Nova), na Beira Baixa — uma propriedade com alojamentos, restaurante de caça, armaria e tiro desportivo —, para passar mês e meio a afinar o tiro político dos socialistas. O spin doctor da campanha do PS só saiu assumidamente da sombra depois das eleições, quando participou num programa da CNN e falou ao Expresso sobre a estratégia que, inesperadamente, deu a maioria absoluta ao partido do Governo. Ainda antes de contactar o veterano, Duarte Cordeiro contratou Vasco Mendonça, publicitário e consultor de marketing, autor das crónicas de futebol “Um Azar do Kralj”, que eram publicadas pela Tribuna Expresso, que montou uma equipa de 30 pessoas para tratar da imagem da campanha, do grafismo e dos vídeos e de um aspeto fundamental: as redes sociais. E da coordenação da ação de mais de 4 mil voluntários.

Ao contrário de Rui Rio — que não teve qualquer estudo ou sondagem de apoio às decisões estratégicas da campanha —, Costa preza os instrumentos que lhe permitem orientar o discurso e a ação política. Os socialistas tinham uma sondagem nacional, uma tracking poll diária, e estudos qualitativos que foram ajudando a moldar os argumentos de António Costa ao longo dos debates e depois nas duas semanas de campanha oficial. Rui Rio não tinha nada. Se o socialista reunia o núcleo duro com o “conselheiro especial” — e infletia ou adaptava o rumo quando era preciso —, o social-democrata não se encontrou com o seu consultor, João Tocha (que também já trabalhou para António Costa), nem aplicou a componente estratégica que este lhe propôs. A partir do debate com Costa, e que ainda teve alguma preparação, a campanha do PSD foi puramente “amadora”, avançando ao sabor do “instinto” do líder, diz ao Expresso um social-democrata próximo de Rio que acompanhou a caravana laranja. O trabalho invisível de Luís Paixão Martins nos bastidores teve consequências visíveis no caminho que levou ao resultado final do PS. O trabalho de João Tocha, tirando a componente gráfica, não foi sequer testado na totalidade pelo PSD.

Enquanto Paixão Martins teve reuniões quase diá­rias com o núcleo duro socialista na sede do Largo do Rato antes de o candidato ir para a estrada, o suposto homem-sombra de Rio ficou na penumbra e à distância da própria campanha, porque o líder social-democrata tem ideias estabelecidas que não se moldam ao marketing político. As fotos de António Costa para os cartazes, por exemplo, foram tiradas com esse objetivo, com o protagonista a encarnar a pose de primeiro-ministro, “com um sorriso contido, para não parecer excessivo nem arrogante”, explica Vasco Mendonça. As fotos de Rio eram antigas e não feitas com aquele propósito, como se percebia pela falta de resolução do último outdoor nas ruas, com o presidente do PSD meio desfocado, mas galvanizado, a fazer o “v” de vitória.

Rio tinha como braços direitos a assessora de imprensa de sempre, Florbela Guedes, que fazia a ponte com o pessoal do marketing, e o diretor de campanha e secretário-geral do partido, José Silvano. No círculo mais restrito do rioísmo, Manuel Teixeira, ex-jornalista e ex-diretor do “Comércio do Porto”, professor universitário, ligado ao sector do imobiliá­rio, foi sempre apontado como a verdadeira “eminência parda” de Rui Rio. Tinha a alcunha de “Cardeal Richelieu” quando era chefe de gabinete de Rio na Câmara do Porto. Aprecia e cultiva o facto de viver na sombra do poder, a influenciar sem ser visto. Embora tenha pertencido à Comissão Política do PSD ao longo destes anos, ninguém o conhece. Ainda mais discreto, desde as diretas que o líder laranja também foi recebendo sugestões e colaboração do ex-deputado do Porto Nuno Delerue, uma influên­cia externa que não terá agradado muito ao núcleo duro do líder social-democrata. Mas Rio move-se sobretudo pelas suas ideias e leituras da realidade.

De resto, a componente estratégica da campanha socialista transpôs para a estrada a organização de São Bento, que comunicava entre si através do grupo do WhatsApp intitulado “Combate 2022” e reunia em lobbies de hotéis ou à mesa de restaurantes para consolidar ou mudar estratégias. O estado-maior de António Costa era composto pelos seus conselheiros mais influentes: Duarte Cordeiro, o diretor de campanha, foi o motor operacional de toda a organização e da mobilização permanente do partido, que teve call centers regionais preparados e a telefonar para milhares de militantes e simpatizantes; Maria­na Vieira da Silva, ministra da Presidência, andou pelo país com discrição, como a “guardiã do programa e dos compromissos do PS”, como a descrevem várias fontes socialistas, papel de “consciência necessária”, que também desempenha no Governo (além de servir de tranquilizante para as fúrias de Costa); Tiago Antunes, secretário de Estado Adjunto, manteve a posição de conselheiro permanente e distribuidor de jogo que tem no Governo; Vítor Escária, o chefe de gabinete, acompanhou tudo e esteve presente nos momentos mais decisivos; David Damião, o assessor de imprensa com mais anos de São Bento (Guterres, Sócrates e Costa), fazia a ponte com a comunicação social.

Mais recuado nos bastidores do que Luís Paixão Martins — que diz tratar apenas da parte visível do icebergue —, o publicitário Vasco Mendonça foi o responsável pelos cartazes, pelo slogan “Juntos seguimos e conseguimos”, pelo verde seco do fundo de todos os suportes, para transmitir uma ideia de esperança, pelos drones que sobrevoavam as ações de campanha e que acabavam em vídeos distribuí­dos pelos vários canais ou pelos memes e mensagens a distribuir nas redes sociais, como o Face­book, o Twitter ou o Instagram. A famosa gravata verde que Costa levou para todos os debates mimetizava o fundo dos cartazes e, se não passava a ideia-chave de “estabilidade” que a campanha queria transmitir, foi um dos elementos mais estáveis do que o próprio discurso do candidato. Em todos os debates com Costa, oito a dez pessoas coordenadas por Mendonça assistiam aos duelos televisivos e, no final, já tinham material preparado para distribuir nas redes.

Quando acabou o confronto Costa-Rio, tinham e-mails escritos para os milhares de voluntários da base de dados, para espalharem a mensagem pelas redes sociais, “que permitia defender os pontos de vista da campanha e explorar as fragilidades do outro lado”, explica Mendonça. Avançaram com as frases fortes mais favoráveis a Costa e as mais desfavoráveis para Rio, com clips de vídeos para distri­buir, incluindo pelo WhatsApp, onde era possível fazer uma segmentação por idade e localização geo­gráfica dos recetores. A linha da campanha do PS era “explorar as contradições de Rui Rio e eviden­ciar que o candidato era menos sério e mais ambíguo do que aparentava”, diz Mendonça, que municiou as pessoas “com a informação de que Rio era contra o aumento do salário mínimo” ou com a posição de “toca e foge sobre Saúde que teve no debate” — ambos eixos de comunicação inoculados no discurso do próprio António Costa.

Vasco Mendonça, uma das pessoas por trás da vitória do PS nas Legislativas de 2022. Em Oeiras. FOTO TM

Mais tarde haveria de aparecer um vídeo a circular nas redes sociais — estava António Costa a começar uma arruada em Coimbra ao lado de Marta Temido — com declarações de Rui Rio contra os aumentos do salário mínimo, cuja autoria Vasco Mendonça nega mas que levou o líder do PSD a acusar os socialistas de “campanha negra” baseada em “mentiras” e frases “truncadas” (o que, aliás, também se tornou um eixo de comunicação dos so­ciais-democratas). “Mas não se fez uma campanha negra”, garante Vasco Mendonça. Uma “campanha negra” é outra coisa, como aquela com que Paixão Martins tinha lidado em 2005, quando fez consultoria para José Sócrates e apareceram notícias através de um jornal brasileiro, secundado depois pelo “Crime”, de uma suposta homossexualidade do candidato socialista. Foi antes da era das redes sociais…

A iminência do maior erro: a colagem ao PAN

Durante a campanha, Costa falou pouco com os amigos de fora da bolha, mas aqueles com que foi falando dizem que esteve sempre confiante de que ganhava, embora oscilante sobre a dimensão da vitória. “Quanto maior a aflição, maior o otimismo”, chegou a dizer aos jornalistas depois de uma visita aos Caretos de Podence, em Trás-os-Montes. As sondagens internas do PS deram sempre o partido à frente do PSD, e com a possibilidade de chegar à maioria absoluta, mais otimistas do que as publicadas nos jornais e nas televisões (sobretudo por causa da distribuição dos indecisos). O núcleo duro da campanha ia trabalhando com as médias de todas as sondagens, mas o que lançava mais dúvidas no espírito dos socialistas e tornava o resultado imprevisível era mesmo não saberem qual seria o nível de participação dos confinados e dos idosos, que se podiam assustar com o facto de os infetados irem votar.

A “eminência parda” regressada da reforma ajudou Costa a recalibrar o discurso e a mudar de agulha quando foi preciso. Antes de mais, o argumento da maioria absoluta que Costa foi introduzindo aos poucos no discurso servia para fugir à pergunta sobre com quem ia negociar os Orçamentos, se com a esquerda, se com o PSD. Qualquer resposta seria inconveniente. Segundo Luís Paixão Martins, todos os estudos lhe diziam que os portugueses não gostam de maiorias absolutas — sobretudo os eleitores potenciais do PS —, mas os inquéritos também apontavam que os portugueses não são maioritariamente a favor de nenhum tipo de Governo (e aquele que mais aceitam até é o bloco central). Isso chegara para descansar o consultor. Mas, quase no fim da primeira semana da volta, foi de emergência a Évora ter com António Costa e com os principais conselheiros para travar esse discurso, durante um almoço de petiscos alentejanos num restaurante conhecido da cidade. Nos estudos qualitativos que tinha na mão, uma espécie de focus group assinalava que era melhor acabar com os pedidos de maioria absoluta e fugir do tema da TAP. E as sondagens daquela quinta-feira não estavam a ajudar.

O consultor de marketing Vasco Mendonça chefiou mais de 4 mil voluntários que espalhavam memes pelas redes sociais e pelo WhatsApp. Enviaram mais de 2 milhões de e-mails

Naquele dia, 20 de janeiro, a campanha socialista recebeu a sua sondagem da GfK, que dava o PS com 39,2% e o PSD com 32,6%, uma vantagem que lhe permitia chegar à maioria absoluta na margem máxima. Mas tanto o inquérito da Católica para o “Público” como a tracking poll da CNN, que já eram conhecidos do “Combate 2022”, mostravam o PSD a aproximar-se perigosamente e a perspetiva de maioria absoluta a esfumar-se. Mesmo que o voto consolidado (sem a distribuição de indecisos) fosse o mesmo para PS e PSD no estudo da Católica e no da GfK, não valia a pena continuar a insistir. A perceção estava a mudar. Os jornalistas não acreditavam na possibilidade da maioria absoluta. “E uma campanha não pode ser divergente da bolha mediática”, explicou Paixão Martins na última edição do Expresso.

Esse discurso desapareceu ainda nessa noite do cardápio, apesar de o Expresso citar Costa no dia seguinte, em primeira página, a dizer que “pela primeira vez” acreditava que a maioria absoluta era “possível”. Esta não era a primeira inflexão. O conselheiro especial já tinha cometido um erro, a contribuir para a sensação de uma campanha ziguezagueante, cujas curvas e contracurvas iam sendo apontadas pelos comentadores nas televisões.

“O maior erro da campanha é o PAN, e a culpa foi minha”, assume Paixão Martins ao Expresso. Parecia óbvio, na preparação para os debates televisivos, o que responderia o candidato sobre com quem falaria primeiro para fazer uma maioria estável. “Ocorreu-me o PAN”, diz o consultor, porque “foi o único partido que se absteve na votação do Orçamento”, ou “o único que não contribuiu para a crise”, como diria o próprio Costa no confronto com Inês Sousa Real. “Tenho uma reserva de caça, sou armeiro e organizo montarias”, conta Paixão Martins, que tem o perfil mais carnívoro e distante do PAN que se possa imaginar. Mas “não estava à espera da reação no partido e de Manuel Alegre”, que escreveu no “Público” que colocar o PS “na dependência do PAN” era ir contra a sua “cultura de liberdade”. Mais um tiro corrigido. A partir daí, Costa passou a evitar a ‘ecogeringonça’.

Eis que entra em cena mais uma vez um protagonista inesperado, o “Zé Albino”, estrela no Twitter do dono, quando Rio publica mais uma foto do gato, “desolado com esta aproximação do PAN ao PS”. O líder do PSD gosta de baralhar, e os spin doctors de Costa iam ficando baralhados. “Andava às voltas, à procura do racional da campanha do Rio, e não conseguia perceber. Porque é que ele foi buscar isto do gato? Passei dias a pensar nisso”, confessa Luís Paixão Martins. Fontes próximas do líder do PSD contam que não havia racional, que eram impulsos da exclusiva responsabilidade de Rio. Mas Vasco Mendonça fez uma leitura do que estava a ver, até por saber que a BLAT, uma agência de marketing digital, que já tinha trabalhado com Carlos Moedas em Lisboa, estava em campo com a máquina laranja (no site da agência aparecem o PS e o PSD como clien­tes): “Parecia que estavam a apostar numa campanha de entretenimento, para garantir que o candidato era mais amigável.” Se não era intencional, “funcionou”, diz o publicitário. “O alcance orgânico de uma foto do gato é enorme”, e esse engagement “aumenta o alcance superior nas comunicações seguintes”. Nos bastidores, a campanha do PS ficou alerta e valorizou os mais de 3 mil retuítes do post do gato. Costa havia de reagir e atacaria a campanha de Rio, baseada em “graçolas”, mas também comentaria o bicho, certo de que, “com uma vitória do PS, o ‘Zé Albino’ ia sentir-se menos só”, com o regresso do dono a casa. Os seus cães, a “Nana” e o “Docas”, já estavam habituados às ausências dele.

No caso da campanha do PS, foram alcançados cerca de 3,5 milhões de utilizadores nas redes so­ciais ao longo do período pré-eleitoral, segundo dados de Vasco Mendonça. Havia mais de 4 mil voluntários registados e mil utilizadores ativos todos os dias na aplicação dos voluntários. Foram distribuídos mais de 2 milhões de e-mails, mais de 300 mil envios de WhatsApp e mais de 50 mil chamadas feitas a partir dos call centers regionais. A mobilização da máquina foi massiva. Podia não ter resultado, Mendonça diz que é fácil analisar agora o “resultadismo”, mas a estratégia de comunicação integrada parece ter funcionado.

Sobretudo na última semana da campanha, a estratégia de Costa focou-se em “transformar Rui Rio no incumbente”, explica Paixão Martins, e fazer-lhe oposição como se o líder do PSD fosse o primeiro-ministro, para assustar o eleitorado de esquerda com uma possível vitória do “papão” da direita com tendências privatizadoras no SNS e na Segurança Social, e ao mesmo captar votos ao centro e na classe média. O mantra era contrapor às posições de Rio os “conteúdos” do programa do PS, como a descida do IRS, a subida do salário mínimo e médio, o aumento extraordinário das pensões. E acenar com o Orçamento, que já estaria em vigor se tivesse sido aprovado, sem outras promessas. Os ataques cada vez mais violentos, na última semana, a colar um Governo do PSD à dependência do Chega visavam gerar dúvidas ao centro e gerar “abstenção útil” entre os votantes sociais-democratas mais moderados. Os banhos de multidão que envolviam Costa ser­viam de mensagem subliminar para mostrar energia e aceitação popular. O voto útil na esquerda já tinha sido garantido, sobretudo no debate em que Costa esmagou Jerónimo de Sousa e depois com Catarina Martins. O foco agora eram os moderados.

Quando faltavam poucos dias para os portugueses irem às urnas, mais uma reunião com Paixão Martins, desta vez no Sheraton do Porto, quartel-general na ponta final da corrida, com todo o núcleo duro, para afinar os detalhes: começou já de madrugada e seria retomada no dia seguinte de manhã. Foi decidido simplificar a mensagem e repeti-la nas arruadas nas conversas com as pessoas que falavam com António Costa. Na verdade, quando abordado, antes de mais, o socialista dizia que nada estava ganho, porque era preciso mesmo era ir votar. Esse apelo permanente à mobilização do voto foi o alfa e o ómega desde o início, uma vacina para combater a síndrome de Lisboa — de ter a vitória como certa — e que acabou por ser dramatizado quanto mais apertadas eram as sondagens. Depois, o candidato repetia sem cessar a conversa sobre o aumento das pensões quando encontrava um idoso, ou o IRS quando falava com um jovem. Para passar nas televisões.

“As sondagens não estavam a nosso favor, mas usámos a narrativa a nosso favor”, diz Paixão Martins. Quando Rui Rio mostrou excesso de confiança e disse que já estava a pensar na estrutura do Governo ou recomendou a Costa que perdesse com “dignidade”, o PS voltou a subir nas tendências. Na caravana, Duarte Cordeiro continuava a comentar, mesmo com o nível de incerteza que mantinha, que os dados de que dispunha davam vantagem aos socialistas. E António Costa parecia tranquilo, mas afinal não acreditava na maioria absoluta que pela primeira vez achara ser possível. Mesmo na noite eleitoral, já no Altis, era um cenário “extremo” que tinha excluído ao início da noite. Ao longo de anos, Costa achava que nunca ganharia eleições, conta um amigo: tinha perdido para a associação de estudantes por uma unha negra, tinha deixado escapar a Câmara de Loures por um punhado de votos, e em 2007 não tinha sido fácil convencê-lo a avançar para Lisboa. Apesar da reputação de ser mau em campanha, de todo o núcleo duro era o que tinha mais experiência nesta lide. Uma reportagem do “Observador” sobre as reuniões internas da candidatura, mostra um Costa impaciente com a equipa, por vezes ríspido, a discutir detalhes dos horários, das entrevistas, a comentar que o debate com todos os candidatos nas rádios era “um horror”, com que deviam acabar. Ou a pedir “independentezinhos” para abrilhantar os comícios.

Apesar de demonstrar disciplina a cumprir as decisões estratégicas tomadas, o front man desta banda não é um boneco de plasticina para encaixar no molde preparado pelas “eminências pardas”. A equipa é sobretudo de “executores” das ideias dele, diz uma fonte de São Bento. “Não se treina o António Costa, nem se faz media training”, acrescenta Paixão Martins. Acabou por ter o resultado que talvez não tivesse conseguido se fosse esse o resultado mais previsível.

Os special ones são assim tão especiais?

Em Inglaterra, os special advisers de Downing Street têm sido mais tema de controvérsia do que os assessores de São Bento, pintados como as figuras do mal que engendram as mais perversas conspirações ou manipulações, como foram os casos de Alas­tair Campbell, o “conselheiro especial” do ex-primeiro-ministro Tony Blair, ou de Dominic Cummings, no caso de Boris Johnson, mas de quem já se afastou. Não tem havido, em Portugal, figuras sem funções governativas tão catapultadas para a primeira linha da opinião pública como estas, mas já passaram por São Bento figuras mais influentes do que outras.

“Os conselheiros especiais podem ser vistos como atores políticos de direito próprio”, escreveu o britânico Andew Blick no livro “People Who Live in the Dark” (Politico’s, 2004), onde este professor em King’s College analisou o papel dos conselheiros especiais nos governos britânicos ao longo dos anos. “Alguns deles já eram figuras de relevo, sobretudo no campo intelectual, e levaram esse peso consigo para o gabinete; alguns tinham qualificações e contri­buíam com ideias que, se não fosse assim, estariam fora da Administração; outros eram forças motivadoras de iniciativas políticas que nasceram das suas características pessoais.”

Nos governos portugueses, tem sido menos comum haver conselheiros de gabinete com uma influência superior aos membros efetivos do Governo. No caso de Cavaco Silva, por exemplo, que tinha como grandes conselheiros políticos Fernando Nogueira, Manuel Dias Loureiro ou Luís Marques Mendes, sobressaiu o assessor de imprensa Fernando Lima, que se orgulhava de desempenhar um papel fundamental na ligação do primeiro-ministro ao mundo real. Sempre na sombra, a sua função como filtro e estratega na relação com os media foi determinante no jogo político ao longo de anos, até ter sido afastado da linha da frente pelo próprio Cavaco, já como Presidente da República, depois de uma polémica sobre uma alegada vigilância de São Bento a Belém, nos idos de Sócrates — informação que o consultor de comunicação presidencial teria passado a um jornalista e que fez correr rios de tinta em 2009, marcando essa campanha para as legislativas. “Desde que fui afastado, quem passou a rodeá-lo, e que fez segredo de quase tudo, meteu Cavaco Silva numa concha”, chegou a escrever Fernando Lima, anos mais tarde, no seu livro de memórias, que se chamava exatamente… “Na Sombra da Presidência” (Porto Editora).

Costa cultivou a informalidade dos conselhos de amigos como Lacerda Machado. Nos próximos quatro anos, quem lhe dará uma visão de fora não contaminada pelos ares de São Bento?

Noutros governos, como no de José Sócrates, os que mais se aproximariam dessa figura do special adviser seriam o assessor de imprensa Luís Bernardo e Almeida Ribeiro, o ex-espião do SIS formado em Filosofia que dava densidade aos discursos do primeiro-ministro e que foi visto ao longo desses anos como uma “eminência parda” do gabinete. Até ser promovido a secretário de Estado Adjunto já na fase final da governação socrática.

António Costa, no entanto, nem sempre interiorizou esse tipo de conselheiros na estrutura. O caso mais célebre foi o de Lacerda Machado — amigo da faculdade que chegou a ser seu secretário de Estado na Justiça e era administrador da Geocapital, do macaense Stanley Ho —, que lhe começou a dar apoio, e sem remuneração, no caso dos “lesados do BES”, mesmo antes das legislativas de 2015. Depois, Lacerda foi “conselheiro especial” e um dos negociadores do acordo entre o CaixaBank e a angolana Isabel dos Santos no BPI, para reduzir a exposição deste banco a Angola. E esteve na “renacionalização” ou recompra da TAP pelo Estado, em que passou a integrar a administração. Forçado pela polémica pública a formalizar as ajudas de Lacerda Machado, Costa acabou por o contratar com uma avença simbólica de 2 mil euros mensais. Para tratar dos assuntos difíceis. Numa longa entrevista à revista “Sábado”, Lacerda Machado diria que a amizade com Costa o tem “prejudicado mais do que beneficiado”. Como não pôde ir para o Governo em 2015, sentiu-se em dívida e foi ajudando o “melhor amigo”.

Antes de deixar a sociedade de advogados Linklateres, para entrar no Governo, Pedro Siza Vieira — outro colega de faculdade — também tinha colaborado com Costa em matérias como a reforma da supervisão financeira e até tinha chegado a ser nomeado para a Estrutura de Missão para a Capitalização das Empresas. Era comum discutirem ideias quando o líder socialista era presidente da Câmara de Lisboa: fazia parte desse círculo com que Costa trocava impressões, notas e pensamentos.

Menos visível tem sido Vítor Escária, o chefe de gabinete que já tinha sido assessor económico de José Sócrates e que António Costa repescou para o gabinete, até ele ter de se demitir com o rol de arguidos do Galpgate, o caso das viagens ao Euro 2016 a convite da petrolífera. Saiu de São Bento em 2017, para voltar em 2020, com as funções que tem hoje, e é descrito por um amigo como “competentíssimo, muito seguro em tudo o que tenha a ver com Europa e economia internacional”, com a vantagem de não ser militante e por isso não ser encarado com uma ameaça pela máquina. No interregno daqueles três anos, também teve a sua fase de consultor contratado por uma agência governamental, presente numa viagem de Costa à Hungria para debater com o controverso Viktor Órban o fundo de recuperação europeu (a ‘bazuca’), porque estava a acompanhar a negociação do Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia como coordenador de um grupo de trabalho enquanto professor do ISEG. Fundamental na fase da presidência da União Europeia, no primeiro semestre de 2021, todas as decisões políticas passam por ele, distribui jogo pelos vários ministros, tem a incumbência das relações com Belém e pelas funções “tem o filtro da porta de entrada em São Bento”. “É muito independente e não é o assessor que lhe diz o que ele quer ouvir. Não sei se ele gosta, mas ele precisa disso, mesmo quando fica irritado”, diz um antigo membro do Governo.

O único “conselheiro especial” com esse nome foi o independente António Costa Silva, administrador da Partex, nomeado pro bono para ajudar o Governo a preparar o programa de recuperação económica, mas este não fazia parte das relações pessoais do primeiro-ministro. Quanto ao Governo que aí vem, há dúvidas e certezas: Mariana Vieira da Silva, a ministra da Presidência e voz do bom senso, vai manter o papel proeminente que foi conquistando nos últimos anos para “não deixar flutuar a narrativa” e não deixar Costa derrapar; Duar­te Cordeiro passará certamente de secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, para um papel mais influente; Tiago Antunes, secretário-adjunto, deve manter-se como uma das principais figuras do núcleo duro de aconselhamento; resta saber se Augusto Santos Silva, a “eminência” da experiência (mas nada parda), continuará no Governo, como a principal voz da estratégia política, seja no núcleo duro seja nos Conselhos de Ministros. Com quatro anos de maioria absoluta pela frente, António Costa, como todos os líderes que perduram no poder, precisará mais que nunca dos conselhos informais de quem olha para o mundo a partir de outros postos de observação. O ar em São Bento costuma ficar saturado com o passar dos anos. Os primeiros-ministros precisam de oxigénio.


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Terapia de grupo

(Carmo Afonso, in Expresso Diário, 24/01/2022)

O contributo que cada um pode dar, para que a noite de domingo não seja outro desgosto, vai para além do voto. A esquerda deve combater a direita e não combater-se entre si. A guerra deve acabar. Qualquer voto à esquerda tem a utilidade de contribuir para uma solução, são todos úteis. Os partidos já o disseram. António Costa, ontem, afirmou finalmente que chegou o tempo de dar força a quem ao longo da vida se dedicou a erguer pontes. Está aqui o momento de viragem.


A democracia portuguesa foi uma conquista. O valor que se dá à revolução que nos deu a democracia é um bom critério para aferir o posicionamento político de uma pessoa ou de um partido político. Também é um bom medidor para avaliar a evolução do posicionamento político de país. A gratidão e o reconhecimento da importância do 25 de abril estão com níveis baixos. O país tem vindo a movimentar-se para a Direita e a desvalorizar o impacto da revolução, a apontar-lhe falhas e a quem a protagonizou. Defender que o 25 de novembro é que foi importante tornou-se habitual.

Complementarmente também se tornou habitual ouvir, dos tempos da ditadura, que não foi nenhuma ditadura, que não era bem fascismo e, claro, que tinha algumas virtudes. Ainda anteontem ouvíamos Rui Rio afirmar que “Em termos de eficácia, a justiça piorou desde o 25 de Abril.”

As afirmações, como esta de Rui Rio, são normalmente feitas no espaço público de forma a terem uma possibilidade de recuo. Podem sempre ser compostas como uma piada, uma ironia, justificadas como uma maneira de dizer as coisas que só quem é muito quadrado é que não entende. Ser muito quadrado – o nome que agora se dá é ser extremista de esquerda – significa que não se aceita relativizar a leitura de factos.

Neste momento talvez já nem seja preciso qualquer recuo. A Rui Rio, que quer ser o próximo primeiro-ministro, não é exigido que justifique o que disse, que diga se estava a falar a sério ou se era mais uma piada como a do avanço do fascismo nos Açores, que se retrate junto das famílias de quem foi torturado, preso ou perdeu a vida nas mãos da eficácia da justiça nos tempos da ditadura.

E porquê?

Este fenómeno está integrado num maior. As linhas vermelhas foram recolocadas, estão agora muito distantes. Às vezes já é difícil localizá-las. Nada parece ser suficientemente sério ou grave a ponto de determinar que a generalidade dos portugueses ponham o pé no travão.

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Recentemente assistimos a imagens em que homens, da Guarda Nacional Republicana, trataram de forma criminosa imigrantes em Odemira. Não se trata apenas de não respeitarem a vida e a dignidade daquelas pessoas. Cometeram crimes. Violaram a lei que estão obrigados a fazer cumprir. Não vejo que, a partir destes factos, se tenha iniciado uma reflexão sobre alguns aspectos que são inultrapassáveis: existe racismo estrutural em Portugal e esse problema está especialmente enraizado nas forças de segurança. Forças de segurança racistas colocam numa situação de fragilidade comunidades que já têm bastantes razões para se sentirem fragilizadas. Mais, elementos das forças de segurança que se sentem impunes perante o não cumprimento da lei, não são verdadeiras forças de segurança, são um perigo efetivo para a segurança de todos.

O tema aqui é a normalização do inaceitável.

O tema aqui somos todos nós como povo. Qual é o limite? Porque damos estes sinais de que quase nada tem a gravidade de nos abalar?

Vamos a eleições no dia 30 de janeiro e claro que não devemos temer os resultados. Se o fizermos estamos a temer a própria democracia e a temer-nos a nós próprios. Não podemos defender os valores democráticos e depois não aceitar os resultados da dinâmica da democracia.

Mas é claro que o partido Chega é uma exceção aqui. Outra vez: não deveria lá estar. Não deveria ser uma possibilidade de escolha no boletim de voto. Nunca se combateu o fascismo a votar. Tudo isto é profundamente ridículo mas claro que não terá consequências ridículas, o adjetivo aplicável às consequências deverá ser outro.

Sucede que a exceção está no meio de nós e sucede que podemos ter uma solução governativa que integre André Ventura. Ainda ninguém à direita,

interessaria sobretudo que fosse Rui Rio a fazê-lo, afirmou de forma inequívoca que em circunstância alguma haverá entendimento com o partido Chega.

Várias observações podem ser feitas a esse respeito mas novamente a mais importante é sobre nós como povo. O líder partidário do maior partido de direita português está, segundo as sondagens, a passar impune (falo de impunidade nas intenções de voto) fazendo uma admissão tácita de um entendimento com um partido de extrema-direita neofascista e racista.

Há cinco anos seria uma impossibilidade. Agora é possível. Atrevo-me a ir mais longe: parte do eleitorado da direita espera que Rui Rio chegue a um entendimento com o partido Chega se tal entendimento for condição necessária para a formação de um governo de direita.

As pessoas são boas a encontrar justificações para aquilo que pretendem ver feito. A leitura de que, se António Costa se pode apoiar na “extrema-esquerda” para formar governo, também Rui Rio tem legitimidade para o fazer à direita é a mais frequente.

E esta foi outra linha que se cruzou recentemente. Bloco e PCP passaram a ser a extrema-esquerda. Esta classificação – errada do ponto de vista da ciência política – foi intencional e tem vindo a passar. Está agora firme na voz de muitos protagonistas de direita. Trata-se de chamar extremismo ao combate às desigualdades sociais, à luta pelos direitos dos trabalhadores, à reivindicação do aumento do salário mínimo nacional, à exigência da correção do valor da reforma de quem tinha longa carreira contributiva e do pagamento das horas extraordinárias.

Ou seja: se António Costa pôde chegar a entendimento com esta esquerda, então é mais que justo que Rui Rio possa chegar a entendimento com quem incita ao ódio à comunidade cigana, assenta o seu programa em diferenciações entre portugueses e, de um modo geral, sugere aos portugueses que devem desconfiar dos outros portugueses, os mais pobres, pois na verdade são uns aproveitadores com Mercedes à porta de casa.

Este é o raciocínio. Estamos falados.

Até acredito que Rui Rio sinta repugnância por estas ideias – é certo que Marcelo Rebelo de Sousa a manifestou, e de forma inequívoca, no debate presidencial com André Ventura – mas isso não conta para nada, talvez até agrave o que aqui está em causa. Mas também é verdade que existem no PSD pelo menos duas direitas e que esta direita de Rui Rio não é a de Marcelo Rebelo de Sousa ou a de milhares de militantes que poderão até estar mais perto de António Costa do que estão de Rui Rio.

Se com esta possibilidade implícita de acordo com o Chega em cima da mesa Rui Rio ganhar as eleições, então será totalmente merecida a sorte que nos espera a seguir. As eleições não são apenas uma avaliação do desempenho dos partidos e dos dirigentes partidários. Elas permitem também uma avaliação do desempenho dos eleitores, de nós próprios.

Esta avaliação deve começar pelos abstencionistas (estabelecer aqui uma diferença entre abstencionistas e os que votam nulo/branco. É um grande tema. Há milhares de portugueses que participam no sufrágio eleitoral, e nessa participação manifestam o seu desagrado com a política nacional, com um voto nulo/branco. Estes sim, são a terceira força política do país): quem se abstém de participar em eleições não tem grande direito a queixar-se seja do que for. Nem que o dinheiro dos seus impostos está a ser mal gerido, nem que a extrema-direita está a avançar muito e nem que a classe política em Portugal não tem qualidade ou qualquer outra queixa. Quem não participa no ato mais importante da vida democrática está a excluir-se das soluções e, com todo o respeito por essas pessoas, de discutir política no espaço público ou de lhe pedir contas. Queixo-me aqui de todos os que não vão votar. Dos que olham para os céus – que numa versão contemporânea significa fazer desabafos nas redes sociais – com revolta mas que não saem de casa naquele dia.

O PSD não está unido em torno de Rui Rio. É de notar a estratégia que Rui Rio usou nas eleições internas do partido e que mantém: a de dizer que, se o Partido Socialista ganhar as eleições, contará com o PSD para viabilizar uma solução governativa. Muito interessante e uma grande armadilha: ao dizer isto Rui Rio apresenta-se como um moderado do Bloco Central. Rui Rio, o mesmo que não consegue afirmar inequivocamente que jamais fará entendimentos com o Chega. Quem vota neste PSD tanto pode estar a viabilizar um governo do Partido Socialista como a votar no primeiro governo, da história da democracia portuguesa, que integra um entendimento com um partido de extrema-direita.

Pode ser o oito e pode ser o oitenta. Que PSD tão elástico.

Já a estratégia de António Costa tem passado por deixar claro que não tem intenções de se entender com o Bloco e com o PCP. Vamos lá analisar esta posição de António Costa. É que ela é altamente intrigante. Há muitas possibilidades de justificação e, claro, a esquerda vai-se entretendo numa verdadeira guerra civil entre si enquanto as intenções de voto na direita estão aparentemente a subir. Há que conseguir pensar enquanto ainda estamos no olho do furacão, enquanto não chega o momento em que olhamos para os destroços e contamos baixas. Desta vez fomos avisados.

Porque é que António Costa não tem acolhido as aproximações que o Bloco e o PCP lhe apresentam? Poderia ser por ressentimento a propósito dos últimos tempos, concretamente por não ter existido acordo para viabilizar o Orçamento do Estado. Só que não faz grande sentido que assim seja. Não indo buscar a saturada arqueologia da falta de entendimento à esquerda que nos trouxe até aqui, é relativamente seguro pensar que, se fosse por essa razão, Bloco e PCP não estariam no mesmo saco. Deve ser reconhecido ao PCP um esforço acrescido, sobretudo na fase anterior à da discussão deste orçamento, de viabilizar as políticas deste governo, de negociar. Os três partidos não se entenderam, diria que o PCP é quem tem menor responsabilidade nessa falta de entendimento.

Mas adiante na análise das motivações de António Costa. Não acredito em ressentimentos políticos quando está em causa ganhar ou perder uma eleições legislativas. Restam então dois cenários: O primeiro é que a António Costa, como se afirma por aí à boca cheia, não interessa assim tanto ganhar as eleições e que apenas o prenderá cá uma maioria absoluta. Este cenário considera que António Costa tem outros planos pessoais, na União Europeia, e que está farto (não me atreveria a criticá-lo por estar farto e cansado) da dureza destes últimos anos. Segundo esta teoria, António Costa põe o pé no acelerador a fundo e conviverá muito bem com qualquer resultado no próximo domingo. Se puder formar governo sem Bloco e PCP será precisamente o que vai fazer. Se precisar de negociar com Bloco e PCP, como aconteceu em 2015, então António Costa prefere ir à sua vida.

Vamos lá ver: recuso este cenário por várias razões. A principal é que não acredito que António Costa tenha a sua vontade de ganhar estas eleições condicionada por uma circunstância pessoal que só a si diz respeito. Há boas razões para se crer, independentemente da apreciação que se faça do seu trabalho, na sua dedicação ao país.

Há ainda um segundo cenário a considerar e este também dói: António Costa não tem dado conversa ao Bloco e ao PCP porque na sua leitura inicial a maioria do eleitorado português não quer uma qualquer reinvenção da geringonça. O eleitorado português deslocou-se para a direita. A narrativa de que a falta de entendimento da esquerda é culpa destes partidos também está bem difundida e assente junto de parte do eleitorado socialista. E é certo que a simpatia da direita pela geringonça também nunca abundou. Existe uma possibilidade de António Costa ter entendido que teria melhor resultado admitindo entendimentos com a associação protetora de direitos dos animais que se constituiu como partido político e com o Livre (Rui Tavares saiu-se magnificamente nos debates, mostrou bem a sua preparação e, deve ser dito, foi o primeiro a defender publicamente uma convergência à esquerda) do que com esta esquerda. E reparem que o anúncio forte foi o da possibilidade de entendimento com o PAN, o do Livre foi mais discreto e não simultâneo.

Este último cenário entristece. Estará a maior parte do eleitorado português farto desta esquerda e das suas reivindicações? Sempre foi minoritária mas, depois da governação de Passos Coelho, era atrativa. As votações obtidas foram boas e o eleitorado socialista não se opunha ao entendimento. Claro que foi graças a esta esquerda que existiu um governo de esquerda, o melhor governo que conheci e também graças às suas exigências e contributos. Mas em política não há agradecimentos.

Faço parte de um grupo de pessoas que vivem a vida política de forma intensa. O grupo das pessoas que sofre e que delira com resultados eleitorais. Também é verdade que os respeito. E aqui um há detalhe que é novamente intrigante: Rui Rio apresenta a tranquilidade própria de quem convive bem com qualquer resultado eleitoral. Ele próprio já esclareceu o que fará se perder as eleições e parece evidente que não será o fim de nada, antes o princípio de uma fase política nova, nova como foi a que se seguiu às eleições de 2015. Teremos tempo, se for o caso, para pensar nela.

Também António Costa manifesta a tranquilidade de quem convive bem com qualquer resultado e pouca vontade de descer à cave dos grandes esforços para dar tudo por tudo para um entendimento mesmo que ele seja preciso.

Um dos dois será o próximo primeiro-ministro de Portugal. Têm-se apresentado extremamente calmos e diria até pouco combativos. Irritados, e até fraticidas, estamos nós todos.

Mas vamos ao osso: existe a possibilidade de estarmos num Portugal diferente do de 2015 (um Portugal que, mesmo assim, deu a vitória a Pedro Passos Coelho. Uma vitória que não lhe serviu de muito. O sistema permite o que foi feito. E bem). Parte dos portugueses pode ter-se fartado da geringonça de esquerda e pode mesmo acreditar que Bloco e PC são extrema-esquerda e que, se não fosse o entendimento de 2015, o Chega não teria crescido tanto.

Tem de se admitir esta hipótese e tem de se tirar conclusões sobre ela. Talvez António Costa não acredite que o anúncio da vontade de entendimento à esquerda beneficie o PS. Rui Rio certamente não acredita que não desmentir a possibilidade de um entendimento com o Chega (que aliás já fez nos Açores) o prejudique.

Ambos concluem que este é o estado a que chegou o eleitorado português. Não quero acreditar que tenham razão. Uma coisa é certa: ainda não houve eleições. Tudo pode acontecer no domingo e, deste tudo, o melhor para a esquerda será que ganhe, e no seu conjunto, e que António Costa seja o próximo primeiro-ministro. Acredito que será também o melhor para o país. Digo que esta direita (que traz consigo a Iniciativa Liberal, partido que é contra a existência de um salário mínimo nacional, e eventualmente o Chega) não é o melhor para ninguém ou será para poucos, alguns do costume.

O contributo que cada um pode dar, para que a noite de domingo não seja outro desgosto, vai para além do voto. A esquerda deve combater a direita – e tanto há para recordar das consequências da última governação de direita em Portugal – e não combater-se entre si. A guerra deve acabar.

O mais à esquerda a que conseguimos chegar, a melhor defesa das propostas fundamentais para os portugueses, será num entendimento com um governo socialista. Qualquer voto à esquerda tem a utilidade de contribuir para essa solução, são todos úteis. Os partidos já o disseram. António Costa ontem afirmou finalmente que chegou o tempo de dar força a quem ao longo da vida se dedicou a erguer pontes. Este foi o momento de viragem. O Partido Socialista precisa da esquerda e o contrário também é verdade. Não vai haver nenhuma maioria absoluta. A posição de isolamento do Partido Socialista apenas o tem desfavorecido.

No domingo vamos jogar snooker, um jogo que traduz a lógica atual de participar num sufrágio eleitoral. Uma pessoa chega lá e o que pretende é dar uma tacada seca e certeira – uma daquelas que produzem o “plock” do taco que acertou mesmo no centro da bola e com força. Reparem que neste jogo nunca se dá uma tacada na bola que queremos que entre no buraco. Bate-se na bola branca de forma a que essa bola bata no sítio certo da “bola objectivo” de forma a entrar lá dentro. Há aqui umas série de regras – matemáticas e da física – que se devem dominar para então se tentar jogar. Já as dominamos.

Já consentimos a normalização de desgraças a mais. Que não seja normalizado o nosso desentendimento. Ele não é uma luta política, é um atirar as culpas de fim de relação.

Esse passado trata-se em terapia.

O futuro trata-se em eleições.


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Costa diz que falará com a esquerda

(Liliana Valente, in Expresso Diário, 24/01/2022)

No jogo de pressão à esquerda, ninguém quer ficar com o ónus da culpa pelo fim passado da ‘geringonça’ e pela morte futura de um entendimento, muito menos a dias das eleições em que se joga, da parte do PS, um forte apelo ao voto útil. É neste tabuleiro que se podem ler as mensagens que Catarina Martins e António Costa deixaram nos últimos dias. A primeira, desafiou Costa a marcar uma reunião no dia 31 de Janeiro, o dia a seguir às eleições, para conversarem sobre uma solução de Governo. O segundo, respondeu que não fechou portas.

Em entrevista à Rádio Renascença, o secretário-geral do PS, questionado sobre o desafio da coordenadora bloquista, respondeu: “Com certeza a seguir às eleições todos vamos ter de falar com todos. Nunca recusei conversas com o Bloco de Esquerda, só tive mesmo pena que o Bloco de Esquerda tenha impedido que as negociações do Orçamento do Estado tenham tenham prosseguido para a especialidade”, disse relembrando o voto contra do BE no OE de 2021 e de 2022. Mas a ideia que queria passar era que apesar disso, o PS falou sempre com o BE, nomeadamente na reforma do SEF: “Nunca tivemos nenhuma porta fechada ao Bloco”, frisou.

Nos últimos dois dias, António Costa suavizou o pedido de maioria absoluta, nesta entrevista voltou a suavizar esse pedido e focou-se, sobretudo nesta questão da governabilidade, de tentar mostrar que é dialogante – lembrando com “imodéstia” que foi quem derrubou os muros que “impediam um diálogo construtivo à esquerda do PS” – e que encontrará a “melhor solução de Governo para futuro” que sair dos resultados eleitorais. “A seguir às eleições teremos conversas com todos os partidos, com excepção do Chega com quem não há muito a falar”, garantiu.

A ‘geringonça” não é no entanto “a única solução”, quis frisar. E foi aqui que se percebeu que a estratégia de Costa estava agora a afastar-se um pouco do tal pedido de maioria absoluta. Na sua análise, diz que os portugueses “não têm um grande amor pela ideia de maiorias absolutras” e questionado se irá insistir, respondeu que dirá sempre aquilo que pensa que é a melhor solução, ma que não fará “o mesmo que outro no passado” de dizer “ou maioria absoluta ou o caos ou maioria absoluta ou vou enbora”, numa referência implícita a Cavaco Silva.

O que fará então, falar com o PSD? “Nunca falo dos partidos como ‘este PSD’, ‘este PCP’, ‘este Bloco’. Cada partido escolha a sua liderança e nada pessoal me impede de falar com os líderes partidários, tenho estima e consideração por todos”, respondeu. Contudo, nestas eleições o que conta é a bipolarização e por isso defendeu que o que está em causa são as opções programáticas para o país entre as do PS e as do PSD.


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