O Elogio do Otimismo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 03/02/2023)

Cão a ladrar à Lua (Miró)

Os telejornais e os grandes órgãos de comunicação portugueses e europeus em geral despejam sobre os seus clientes vagas sucessivas de manifestações de organizações de trabalhadores e patronais. São professores, enfermeiros, agricultores, ferroviários, aviadores, médicos, polícias, uns em greve, outros em manifestações. Os temas mais comuns são, além dos habituais aumentos salariais, as contagens de tempo para a reforma (Portugal) e outros a contestação do aumento da idade da reforma (França).

Esta agitação social é apresentada pelos «simplícios» da comunicação social como reveladora de mal-estar contra os governos. Na verdade, estas manifestações revelam um grande otimismo (um inconsciente otimismo) e um generoso apoio às políticas dos governos europeus. Estas manifestações querem dizer que os seus promotores e figurantes acreditam que vivemos tempos de normalidade (da normalidade do pós-segunda guerra), mas não, vivemos tempos de loucura e de suicídio! Esse mundo está a morrer às mãos dos que dirigem a UE e dos que em vez de se manifestarem contra a corrida para o abismo para saltar sem paraquedas andam a manifestarem-se pelo que não haverá.

Erasmo de Roterdão (1469–1536) um dos maiores intelectuais europeus do século dezasseis escreveu um livro a que deu o título «Elogio da Loucura», onde abordou a realidade europeia de forma irónica, usando a loucura como instrumento constante na vida humana. Descreveu-a num monólogo de Moria, a deusa da loucura. Ela dirige as cidades, os governos, a religião e a vida. Sem a loucura nenhuma sociedade, nenhum relacionamento feliz poderia durar. O povo cansar-se-ia do príncipe; o servo, do amo; a serva, da patroa; o professor, do aluno; o amigo, do amigo; a mulher, do marido; o hóspede, do anfitrião; Sei que estas vos parecem enormidades, mas ainda ouvireis piores. Agora devo acrescentar que nada de grande se pode empreender sem o meu impulso, pois é a mim que se deve a invenção de todas as nobres artes.

Sabedoria, diz Erasmo, é não querer ser mais sábio do que lhe cabe pela sorte, concordar com os costumes da multidão e participar de bom grado das fraquezas humanas. Mas, dizem, é justamente isso a Loucura!

Eu, por meu lado, valendo-me ora da ignorância, ora da irreflexão, às vezes fazendo esquecer os males, às vezes suscitando esperanças de coisas favoráveis, excitando os prazeres, sou tão consoladora que ninguém quer deixar a vida. Pelo contrário, quanto menos motivos têm para permanecerem vivos, mais amam a vida. Que a sua conduta costume ser considerada vergonhosa é algo que pouco importa aos meus loucos. Levar uma pedrada na cabeça, isso sim faz mal. A vergonha, a infâmia, a desonra, as ofensas são nocivas na medida que fazem sofrer. Para quem não se importa, não são sequer um mal. Que te importa se todos te vaiem, se tu te aplaudes? Que isso te seja possível, é algo que deves só à Loucura.

Se trocarmos Loucura por Otimismo percebemos porque são otimistas, ou loucos, os que andam por praças, ruas e calçadas a exigir contagens de tempo para a reforma, a contestar o aumento da idade da reforma, a pedir a extensão dos prazos para pagamento de empréstimos aos bancos de 30 para 40 anos, de subsídios a longo prazo se os governos já decidiram envolver os europeus numa guerra que, com elevada probabilidade, imporá aos europeus o modelo de sociedade do estado-imperial, lhes retirará o direito à reforma, substituindo-o pr fundos privados. São otimistas, ou loucos. Tão loucos ou tão otimistas como a chefe da Europa que foi à Ucrânia com uma comitiva prometer a entrada na União Europeia quando a Ucrânia é um estado sem soberania, que não produz riqueza, que não tem um sistema produtivo nem na agricultura, nem na industria, nem nos serviços, a não serviços militares, em que desde os funcionários aos caixões tudo depende do estrangeiro. Cujas receitas são os “empréstimos” e ajudas. Um Estado que já perdeu mais de 20% do território, que está em vias de perder o acesso ao mar, um estado onde os cidadãos não se podem manifestar, onde à pressa e antes da chegada da comitiva de Bruxelas foram expulsos uns oligarcas, ou atempadamente aconselhados a afastarem-se por uns tempos, levando as malas com o dinheiro das ajudas, uns para Israel, outros para o Mónaco. Estamos pois perante mais uma manifestação de Loucura ou de Otimismo.

A Europa e os europeus vivem em estado de euforia, dos professores de Portugal à confraria de Bruxelas que foi vender otimismo em pó a Kiev. As manifestações de trabalhadores e patrões europeus exigindo medidas aos seus governos são uma manifestação de apoio aos governos e á loucura ou otimismo de Bruxelas. Representam a confiança que depositam na possibilidade dos governos tomarem decisões autonomamente, não sujeitas a quem os obrigou a envolver-se num conflito causador dos problemas que os manifestantes pretendem que eles resolvem! Confiam nos seus governos para garantir prestações sociais, reforma, saúde e ensino públicos, que serão substituídos pela iniciativa privada, os patrões reclamam subsídios que serão desviados para o apoio à Ucrânia e para pagar a energia mais cara aos Estados Unidos.

Ir a Kiev prometer que a Ucrânia vai entrar na UE é tão abjeto, ou hipócrita como um cangalheiro ir a casa de um doente terminal prometer-lhe umas férias de luxo. Ou, atendendo a que a senhora Von der Leyen é médica, é como ela ir prometer a um amputado dos membros inferiores a restituição das pernas perdidas e que ainda o vai admitir como primeiro bailarino da Ópera de Berlim! As Tvs transmitiram ao mundo o beijo que selou este acordo! os otimistas bateram palmas com a maior alegria pela boa nova!

O jornal eletrónico Crises 24 — especializado em análise de crises para informação de empresas e organizações — considera como causa de agitação social acontecimentos que provoquem emoções fortes, caso de leis impopulares, aumentos de preços de produtos essenciais e a deterioração de condições económico-sociais, caso dos juros dos empréstimos para a habitação. Esqueceu-se da loucura e do otimismo!

Independentemente do resultado do confronto na Ucrânia, a Europa será um estado vassalo dos EUA e será administrada com um modelo social neoliberal, onde cada um trata de si e apenas os exércitos e os oligopólios tratam de todos. Sendo esta a realidade, a atual agitação social na Europa ou é sintoma de loucura, de inconsciência ou de euforia e otimismo. Tem a mesma racionalidade dos cães ladrarem à Lua!

Os políticos e deputados mais ou menos esbracejantes e berrantes que clamam contra a administração da TAP, são uns otimistas que querem uns votos à custa de uma companhia que provavelmente deixará de existir curto prazo. E o otimismo irmão da loucura também infetou os que acreditam que um altar gigante nos livra de uma crise de sobrevivência.


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A guerra que a Rússia perdeu em … março de 2022

(Daniel Vaz de Carvalho, in Resistir, 20/01/2023)

1 – A guerra psicológica

Em março de 2022, os “comentadores” de serviço explicavam que a Rússia havia perdido a guerra – iniciada um mês antes, além disso tinha ficado sem munições, os soldados sem vontade de lutar, até de falta de alimentos os militares russos padeciam. Estas afirmações foram repetidas mês após mês.

Na revista Visão, de 20/junho o sr. Luís Delgado (eminente administrador e dono da sociedade Trust in News, 12 revistas compradas por 10,2 milhões de euros em 2018) assegurava que com as novas armas americanas – “a vitória da Ucrânia é inquestionável, unidades russas correm o risco real de ficarem isoladas, cercadas e rendidas”. Tratava-se então dos HIMAR que mudariam o curso da guerra. Afinal a Rússia ainda não tinha sido derrotada… Deviam ter tomado atenção às palavras dos responsáveis russos: a resposta seria proporcional às iniciativas da NATO e os ataques ganhariam profundidade.

Porém havia outras “visões”: o Der Spiegel de 17/agosto, explicava porque uma grande ofensiva de Kiev no sul da Ucrânia dificilmente era possível. Uma guerra subversiva e ataques terroristas da Ucrânia são prováveis. Às Forças Armadas da Ucrânia “faltam experiência ofensiva e preparação para manobras maiores”. A Ucrânia carece de unidades bem treinadas e de armas.

As contradições da cobertura jornalística da guerra da NATO contra a Rússia na Ucrânia, assemelham-se – tal como a estratégia militar no terreno – às práticas nazis na fase em que a derrota se evidenciava, mas mostram também o baixo nível que a NATO atingiu, celebrando triunfante o assassinato de uma jornalista, Daria Dugina, de 29 anos – sujeita a sanções – cujo delito foi ter opiniões favoráveis ao seu país.

As centrais de desinformação alimentam os noticiários com narrativas, cujo objetivo é condicionar a capacidade de discernimento e interpretação dos factos, criando uma ambiente virtual, em que os desejos são tomados como realidades. Em “Lutando contra a Psyopcracy” é afirmado:   “O constante reforço dessas mentiras entrincheira-se na mente pública e, com o tempo, passa a ser aceite como verdade inquestionável”. “É difícil de combater porque não é um inimigo físico, mas sim mensagens que se alojam na mente das pessoas”. “Propositadamente não são informadas de que a guerra realmente começou em 2014, depois do golpe apoiado pelos EUA, que levou os falantes de russo no Donbass a declararem independência, após o que o governo golpista os atacou militarmente. Outros fatos são removidos da história, como os tratados propostos pela Rússia aos EUA e à NATO em dezembro de 2021, que teriam impedido a intervenção da Rússia na guerra civil ucraniana”.

As reportagens sobre a Ucrânia têm sido uma mistura de ilusões e propaganda, organizada por agências de notícias e serviços secretos ocidentais, omitindo a verdade, a lógica e a realidade. Reportagens essencialmente destinadas a manter os povos ocidentais sob controlo nas dificuldades que enfrentam em resultado das decisões suicidas das suas elites políticas controladas pelos EUA.

No entanto, não é difícil distinguir entre a propaganda e a realidade. Basta comparar o que foi sendo dito ao longo do tempo, as contradições, as inconsistências. Claro que é necessário ter memória, sem memória não há associação de ideias nem, portanto, raciocínio consistente.

2 – Da propaganda à realidade

Como é que o que está a acontecer na Ucrânia se compatibiliza com o que os media andaram a dizer antes? Um dos aspetos é que as perdas ucranianas nunca são mencionadas. Só recentemente se foi por vezes apresentando “pesadas perdas de ambos os lados”, contra toda a lógica dos combates, em que o exército da Ucrânia/NATO era antes dos avanços russos massacrado com intensas ações de artilharia e mísseis.

A retirada da Rússia de algumas zonas foi festejada como uma eminente derrota e a garantia que Kiev tomaria conta do território como existia antes de 2014, numa intensa campanha psicológica. Na verdade a NATO, que é quem na realidade comanda as operações, fornece homens e armas, caía numa armadilha. As unidades ucranianas e mercenários da NATO, ocupantes daquelas zonas – conquistadas com pesadas perdas – foram sujeitas a constantes bombardeamentos com perdas de vidas e material.

O comandante do batalhão neonazi Svoboda, cuja unidade tenta manter Bakhmut, disse aos media ocidentais no início de dezembro que os campos e florestas ao redor estão repletos de cadáveres de soldados ucranianos”. Segundo fontes ocidentais as perdas diárias ucranianas perto de Bakhmut/Artyomovsk chegam a um batalhão (500-800 pessoas), os hospitais estão superlotados e escolas estão sendo convertidas em hospitais.

Um surpreendente relato colhido no terreno por um jornal ucraniano, o Kiev Independent, é ignorado pelos media. “Para os soldados ucranianos com a tarefa de suportar as primeiras linhas há pouca esperança de uma trincheira ou abrigo não ser atingido diretamente. Algumas unidades estão simplesmente a ficar sem pessoal. Nestas condições a crença acerca da pobre eficácia das forças de combate russas pode ser rapidamente posta de parte. Fala-se das enormes perdas sofridas pelas russos, mas pelo que pude ver em Bakhmut as coisas estão mais ou menos bem para eles. Em termos de coordenação geral no terreno entre as suas brigadas e artilharia, pode dizer-se que o fazem muito bem e como é difícil lutar contra eles”.

O fundador e chefe da PMC Mozart, o coronel aposentado dos Fuzileiros Navais dos EUA Andrew Milburn, em entrevista à American Newsweek, afirmava que as Forças Armadas da Ucrânia estão sofrendo “perdas incrivelmente altas” em Bakhmut/Artemovsk, recrutas não treinados são enviados como reforço. Os números de mortes e desaparecidos em combate estão na casa das centenas de milhares.

Afinal os tais mísseis que já não existiam continuam a cair sobre a Ucrânia. Depósitos de equipamentos, munições, combustíveis, lubrificantes são destruídos. Centros ferroviários essenciais para a movimentação de tropas e material, deixam de existir. Por exemplo, em resultado de um ataque em Drumzhkovka, à plataforma para descarregar comboios militares, 120 militares ucranianos morreram sendo destruídos lançadores HIMARS, veículos de combate, rockets, veículos, etc. São também atacadas concentrações de tropas da Ucrânia na retaguarda operacional de Bakmut/Artyomovsk.

As infraestruturas energéticas estão destruídas em 70%, o resto funciona precariamente com ligações provisórias e geradores móveis fornecidos pela UE/NATO. Vastas regiões estão sem a energia necessária e de modo fiável. Há também interrupções no fornecimento de água, Internet móvel e comunicações por telemóvel. Afirma Vitali Klitschko, autarca de Kiev: “Está muito frio na Ucrânia agora, viver sem eletricidade e aquecimento é quase impossível. A situação é crítica. Estamos a lutar para sobreviver”.

Escrevia Die WeIt, segundo um diplomata: “Estamos muito preocupados que, devido a ataques à infraestrutura energética, muitas pessoas sejam forçadas a deixar a Ucrânia em condições de frio congelante” ( t.me/s/intelslava 04/12). De facto, ao mesmo tempo que os bem instalados elogiam a capacidade de sofrimento da população ucraniana, incentivam-nos a viver e morrer em condições terríveis.

Os ataques à Rússia, propalados como importantes vitórias, saldam-se por represálias muito dolorosas. Em resposta ao ataque a uma concentração temporária de militares russos em Makeyevka, em que morreram 120 soldados, em 24 horas, foram atacados pontos de concentração de militares ucranianos em Kramatorsk, tendo morrido mais de 600 soldados.

Na realidade, no campo militar a guerra na Ucrânia foi vencida pela Rússia que decide o ritmo das operações. Os soldados ucranianos mais qualificados e experientes foram mortos ou capturados, os recrutas idosos e jovens não farão a diferença, tal como mais armas da NATO, cujo destino será o das anteriores. É triste que um país seja forçado por potências estrangeiras a lutar até o último homem sem esperança no futuro, apenas com a perspetiva de maior destruição. É o que é dado perceber da realidade.

Stoltenberg, que antes proclamava que a Rússia tinha de ser derrotada, diz agora: “a Rússia não pode ganhar a guerra”. É uma significativa nuance. Mas há duas questões que os jornalistas nunca colocaram aos prolixos “comentadores”: Em que condições a UE vai existir na base de sanções à Rússia – e a outros países? Como vai a “Ucrânia” (leia-se NATO) vencer a Rússia nesta guerra que os EUA iniciaram em 2014? Também gostaríamos de saber.

3 – A NATO na guerra da Ucrânia

A posição da NATO nesta guerra tem qualquer coisa de hipócrita e cobarde. Por um lado, é uma guerra que existe porque os dois acordos de Minsk foram um logro para dar tempo à NATO armar e treinar a Ucrânia para atacar as regiões russófonas que recusavam o golpe anticonstitucional de 2014 que iria permitir que a NATO se instalasse em Sebastopol (Crimeia). Por outro, chorando as vítimas civis (de facto mínimas comparadas com as das guerras dos EUA/NATO) fomentam o prosseguimento da guerra que só continua com o fornecimento de dinheiro, material e homens vindos dos países da NATO. Além disto. as negociações entre a Ucrânia e a Rússia foram interrompidas pelos EUA em abril, dizendo contudo que as negociações serão como e quando a Ucrânia desejar. Tudo isto é triste…

Há algo de cobarde da parte da NATO, ao acusar a Rússia de crimes de guerra e apoiar o terrorismo, mas não ter a coragem de frontalmente fazer-lhe um ultimato e/ou chamá-la para a mesa de negociações. Continuam insistindo em sanções, que só prejudicam outras nações europeias e se tornaram ridículas aos olhos da grande maioria dos países que não as seguem.

Stoltenberg, normalmente sem noção real do que diz, acabou por desmascarar este jogo de interesses imperialistas: “a derrota da Ucrânia significa uma derrota para a NATO”. Na verdade a Ucrânia foi derrotada há muito tempo, o que se trata aqui é a derrota da NATO na Ucrânia.

Uma importante derrota da NATO deu-se ao perder o controle de todo o território de Soledar e com isso também, a maior produção de sal da Europa que agora pertence à Rússia. Soledar mostrou que nenhuma participação da NATO pode ajudar onde a velocidade e a pressão são a principal regra da batalha. Foram lançadas as melhores forças na defesa de Soledar, forças especiais de vários tipos, mercenários, nazistas selecionados, um monte de equipamentos, artilharia e aviação. No final, a batalha foi perdida. Soledar, (como Mariupol) teve defesas tornadas ainda mais fortes por oito anos de preparativos. Além de mais de 200 km de túneis e minas, Soledar tem uma zona industrial muito grande que tornou os avanços muito difíceis e perigosos.

Algumas fontes afirmam que foram perdidos 14 batalhões numa tentativa desesperada de evitar a derrota. Lavrov afirmou que o “ocidente” perdeu na Batalha de Soledar 25 mil soldados entre ucranianos e mercenários ocidentais. Agora Bakhmut/Artemovsk está prestes a cair com todas as suas fortificações.

Bakhmut/Artemovsk é considerado o ponto central da Frente Oriental e um centro logístico sério, com capacidades únicas de defesa, que incluem a divisão da cidade por barreiras de água e um complexo de povoações num sistema de defesa unificado. Além disto existe um sistema de túneis, na verdade uma rede de cidades subterrâneas, onde não apenas pessoas, mas também tanques e veículos de combate de infantaria se movem. “(Intel Slava Z – Telegram 07/01)

As tropas da NATO contratadas por empresas privadas (PMC) são consideráveis, são principalmente polacos, britânicos e também dos EUA. Contudo, a sua situação é extremamente difícil devido aos incessantes ataques da artilharia. A Rússia nesta fase procura destruir o exército da Ucrânia/NATO, sendo destruídas posições de defesa antiaérea e antitanque. A Rússia tem assim preparado um cenário de batalha favorável, para garantir sucesso com mínimo de perdas, enfraquecendo oponentes e infraestruturas.

Os contra ataques da Ucrânia são lançados apenas por razões de propaganda política, saldando-se por pesadas perdas. A NATO tentou atacar em Kherson, mas falhou sucessivamente, reduzindo-se agora a principalmente voos de reconhecimento de UAV e artilharia. Idem para Kharkov onde os ataques dos ucranianos foram praticamente interrompidos. A Rússia tem também avançado noutros locais e destruindo posições ucranianas e equipamentos com artilharia de alta precisão.

A guerra na Ucrânia mostrou a falta de preparação do ocidente para conduzir hostilidades de longo prazo, afirmou o jornal espanhol El País. Os países ocidentais enfrentam problemas devido ao esgotamento dos arsenais e à má preparação da indústria militar para resolver sérios problemas militares.

É bastante claro que (além de alguns enraivecidos) poucos europeus têm estômago para uma guerra continental em grande escala na Europa que deixaria os seus países em ruínas. No entanto, eles obedecem aos neocons dos EUA, sendo arrastados para o precipício.

4 – Ucrânia, Estado fantasma

A NATO mostra ser o contrário do rei Midas que transformava em ouro tudo em que tocava, a “aliança defensiva” transforma em caos e miséria tudo em que interfere. A Ucrânia é mais um exemplo, transformada em Estado fantasma. São de uma insensibilidade criminosa as bazófias de apoio vindos de dirigentes da UE/NATO.

O que define um Estado? Território, população, economia, grau de independência política. O território é definido pelas suas fronteiras e nada mais equivoco que as fronteiras da Ucrânia. A oeste a Polónia tem em vista ocupar uma parte das terras ricas, alegando direitos históricos. A Leste, para a Rússia são umas, para o Ocidente são outras.

Como Republica Soviética a Ucrânia tinha cerca de 50 milhões de habitantes. Em 2000, 48 milhões, em 2020, 41,7 milhões (sem Crimeia). A guerra causou a fuga de mais de 14 milhões de pessoas – 6,5 milhões de deslocados internos e mais de 7,8 milhões para países europeus. O número de refugiados na Rússia ultrapassa 5 milhões de pessoas, a população no Donbass conta 6 milhões. Assim, a Ucrânia teoricamente controlada por Kiev contará no máximo 25 milhões de pessoas. Tenha-se ainda em conta que a taxa de natalidade cai catastroficamente.

Cerca de 17,7 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento. A UE/NATO tem de alimentar, vestir, alojar todas estas pessoas e financiar o Estado. A maioria dos refugiados não irá nem poderá retornar à Ucrânia.

Em termos económicos o pais afunda-se. O desemprego é estimado em 30% da população ativa, em algumas regiões pode atingir 80%. Os salários são baixíssimos: a maioria da população empregada recebe cerca de 381 dólares por mês. No entanto, o preço dos bens aumentou de 40 a 80%, de modo que as pessoas existem à beira da sobrevivência.

Segundo o BM o PIB caiu 35% em 2022, porém se os ataques continuarem, o PIB afundará 50%. No quarto trimestre a produção industrial caiu entre 50 a 90%, dependendo da região. De facto, um país sem energia elétrica em condições normais, não pode ter uma economia funcional. Apenas pequenas empresas e lojas que trabalham com geradores podem ir funcionando; as instituições bancárias e municipais operam de forma limitada. Não há na atual situação soluções para esta crise energética.

A dívida governamental é de mais de 100 mil milhões de dólares. Para o Wall Street Journal a Ucrânia está à beira do colapso financeiro. Kiev luta para encontrar fundos, pondo em risco a estabilidade do sistema financeiro. Os impostos cobrem apenas cerca de 40% do orçamento, mais de 60% do qual são gastos militares. O Express dos EUA revela que o défice mensal da Ucrânia é de 5 mil milhões de dólares. O governo de Kiev apenas sobrevive com as ajudas de Washington e Bruxelas.

A Ucrânia, o país mais corrupto da Europa, é um buraco negro para o dinheiro e equipamentos militares ocidentais. Para a manutenção da guerra com a Rússia e a sobrevivência do regime nazifascista da Ucrânia os EUA já comprometeram mais de 10 mil milhões por mês desde fevereiro, a que acrescem as verbas da UE, que chegam a milhares de milhões por mês. Há ainda que sustentar 14 milhões de refugiados internos e na UE e a administração pública. Para o ano fiscal de 2023 os EUA consignaram 44,9 mil milhões de dólares para a Ucrânia.

Sem tais subsídios, Zelenski não teria durado mais de dois meses na guerra. A questão é quanto tempo vai durar esse fluxo? A congressista Marjorie Taylor Green exigiu uma auditoria à utilização dos fundos que os EUA entregam à Ucrânia, A proposta foi chumbada na comissão respetiva: 22 parlamentares votaram a favor do documento, 26 contra.

A propaganda e os políticos da NATO/UE repetem que “a Ucrânia defende o mundo livre”, que “defende o Ocidente”, que “defende os Estados Unidos”. É um absurdo. Como pode um país fraco, dos mais pobres da Europa, defender os EUA, dito o país mais poderoso do mundo? Os ucranianos têm que sofrer e derramar seu sangue na “defesa” de um país que dista mais de 10 mil km?

À medida que a guerra progride, o fluxo de dólares cresce, e numa Ucrânia devastada por bombardeamentos russos e ucranianos, sem vida económica real, que vive do dinheiro da UE/NATO para funcionários públicos, importações de alimentos, equipamentos, soldados, mercenários, é toda uma população submetida à guerra e que vai morrendo ou fugindo.

É neste panorama que Zelensky exige que todo o território da Ucrânia pré-2014, incluindo a Crimeia, deve ser colocado sob o poder instalado em Kiev. Bem, se o clã de Kiev quisesse assim tanto aos seus cidadãos, não teria assassinado 14 mil deles nos últimos oito anos e retomado os bombardeamentos no início de fevereiro de 2022, antes da invasão russa.

A Ucrânia está a perder tudo o que foi criado no seu território nas décadas passadas. É impossível imaginar quanto custará repor centrais, redes elétricas e ferroviárias, zonas habitacionais, infraestruturas. Como diz Alyona Zadorozhnaya, Zelenski alcançou resultados únicos e trágicos na destruição da Ucrânia. Ele conseguiu reduzir a população da Ucrânia ao nível de um século atrás, colocar o país em escravidão ao ocidente e privar os concidadãos dos benefícios mais elementares da civilização.

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Os Leopardos de Davos

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 19/01/2023)

O Ocidente reuniu-se em Davos para decidir a emprego dos Carros de Combate (tanks) Leopardo na Ucrânia. O título parece cabalístico, mas não encontrei melhor para resumir o atual estado da guerra que está a decorrer na Ucrânia. Ler as entrelinhas da imprensa internacional ajuda a perceber.

O jornal Le Monde de 18 de Janeiro publicava: “No Forum económico de Davos o fim da mundialização (globalização) está na cabeça de todos. A guerra comercial entre a China e os Estados –Unidos assim como a corrida às subvenções estatais para manter ou recuperar as fábricas (reindustrialização) serão os temas principais da reunião. (Protecionismo liderado pelos Estados Unidos). A mundialização morreu, a livre troca morreu, reconheceu o patrão do fabricante de chips TSMC diante do presidente Biden, e dos patrões da Apple, AMD ou Nvidia, alguns dos seus principais clientes. Biden, ao intensificar a guerra comercial contra a China desencadeada por Trump deu o golpe de misericórdia na globalização, interditando as exportações de tecnologia para a China e despejando torrentes de subsídios do Estado (liberal?) para atrair empresas de regresso à América depois da moda da deslocalização”.

Em conclusão, a verdadeira guerra trava-se entre os Estados Unidos e a China, que já tem um PIB superior. A globalização foi um estratagema para os Estados Unidos imporem a sua supremacia e durou enquanto lhes conveio. Os crentes no neoliberalismo vão ter de se reconverter, virar casacas e cantar loas e salmos ao protecionismo. As Business Scholl, que funcionaram como madrassas do neoliberalismo vão passar a estudar Marx e Keynes, do antecedente proscritos.

A Europa (UE) que tem andado a cumprir os mandamentos neoliberais de privatizar tudo e até um par de botas (Saramago) viu-se de repente no papel do marido enganado. Bruxelas andou anos a cumprir as ordens dos neoliberais da Escola de Chicago e dos oligarcas neocons que governam os EUA. O mercado livre era a panaceia universal que traria riqueza e bem-estar. Bastou os Estados Unidos sentirem ameaçado o seu poder e o do seu dólar para tocarem as trombetas e mandarem às urtigas aliados e princípios — um comportamento de pistoleiros que já constitui tradição e que foi utilizados na Coreia, no Vietname, no Iraque e há pouco no Afeganistão. A América primeiro!

Esta recorrente atitude dos americanos levou os dois chefes europeus, o da França e o da Alemanha, a engendrar uma resposta que não os deixasse perante os seus eleitores como os vietnamitas pendurados no último helicóptero que ia partir de Saigão, ou como os afegãos junto ao aeroporto de Cabul. O desenrascanço surgiu sob a forma de uma proposta de criação de “fundo soberano” europeu para, oficialmente, evitar a fragmentação do mercado único e responder às ajudas dos Estado chinês e americano à suas empresas e à lei americana de reduzir o seu IVA!

Escreve o articulista do Le Monde: A nova doutrina de apoio estatal, ao abrir as veias dos subsídios nacionais, será proveitosa especialmente os grandes países ricos (a Alemanha e a França , que receberão 53% e 24% dos subsídios e, menos a Itália, 7% — estes três, em conjunto, vão receber 84% do dito fundo soberano). Uma solução de grande solidariedade europeia! Esta solução implicará a reafectação dos fundos já existentes!

Esta “ideia” repete a da “mutualização da dívida”, que tinha sido avançada quando os países do Sul viveram momentos de aperto (as troikas da Grécia e Portugal) e que foi liminarmente rejeitada pelos grandes países. Mudam-se os tempos…

A mudança dos tempos tornaram-se visíveis com a pandemia e com a guerra na Ucrânia. As mudanças dos tempos são hoje visíveis com o realinhamento dos poderes mundiais, em que os Estados Unidos se sentem ameaçados pela emergência de potências económicas e militares com a China à cabeça e por novas alianças — caso dos BRICs. A Ucrânia é, para já, o tabuleiro onde se travam os primeiros confrontos entre a superpotência dominante, os EUA, e os desafiantes , a Rússia na primeira linha (o elo mais próximo e mais fraco), a China, a Índia e as alianças que estabelecem entre si.

A necessidade imperiosa dos Estados Unidos colocarem um grande número (200) de carros de combate Leopard na Ucrânia e de estes serem fornecidos pela Alemanha surge no contexto de uma guerra que os Estados Unidos não podem perder de forma evidente na Ucrânia, desde logo porque é a primeira de uma longa campanha que está previsto seja decidida no Pacífico, e depois porque limitaria as possibilidades de sucesso e, por fim, afastaria possíveis aliados, sempre atraídos pelos vitoriosos e finalmente, porque é necessário implicar a Alemanha no realinhamento mundial nas hostes americanas.

Porquê a necessidade de uma grande massa de CC Leopard na Ucrânia?

Os Carros de Combate são sistemas de armas desenhados para ações ofensivas. E atuam no terreno apoiados por aviação a muito baixa altitude (helicópteros), a média altitude. São muito vulneráveis a aviões antitanque, a misseis e, principalmente a munições de neutrões, ou bomba de radiação aumentada (arma ER), uma arma de fissão-fusão termonuclear na qual a explosão de neutrões livres gerada pela reação da fusão nuclear não é absorvida intencionalmente dentro da arma, mas permitindo o escape. Um dos usos para os quais esta arma foi concebida é principalmente como armamento antitanque. A introdução de um grande número de Carros de Combate de alta capacidade ofensiva e teoricamente superiores aos CC russos no teatro de operações da Ucrânia provocará provavelmente uma resposta russa com bomba de neutrões, elevando o patamar da guerra para o limiar da guerra nuclear. É essa resposta que os Estados Unidos e os seus aliados mais submissos pretendem como pretexto para uma destruição de setores importantes do poder russo e como demonstração de força ao mundo e, em particular, à China. A utilização de unidades blindadas — que fornecem massa, fogo e proteção — tem como vulnerabilidade as exigências logísticas e de comando e controlo. Estas unidades obrigam a uma escalada na guerra, a uma internacionalização de ainda maior amplitude, pois serão necessárias oficinas, sobressalentes, criação de unidades de helicópteros, de proteção NBQ…

Em resumo: A introdução de uma massa de Carros de Combate Leopard na Ucrânia é um elemento decisivo da estratégia dos Estados Unidos na recomposição de forças no planeta. A estratégia dos Estados Unidos para manter o domínio unipolar que de facto tem exercido através do seu aparelho militar que assegura a exclusividade do dólar — hoje em dia uma moeda virtual — como instrumento de troca universal e que está a assegurar com o reforço da retaguarda (o CONUS — o continente dos Estados Unidos) através de maciços apoios do Estado a empresas para se instalarem no seu território, uma reindustrialização, através de leis protecionistas no interior e de sanções económicas aos estados recalcitrantes e desalinhados.

Porquê a imposição à Alemanha de fornecer os Leopard?

Há uma razão evidente, os Leopard são fabricados pela empresa alemã Rheimetall, mas essa não é a principal razão. Porque é o assunto dos Leopard tão importante quando o Ocidente já colocou na Ucrânia algumas das suas melhores armas de artilharia e de defesa antiaérea, já instalou na Ucrânia os mais avançados sistemas de comunicações, já colocou conselheiros e assessores militares? Porque entendem os Estados Unidos que na atual situação são os Carros de Combate a arma decisiva e por isso pressionam até à descarada imposição a Alemanha a disponibilizar cerca de 200 Leopard e a autorizar que os 13 países terceiros que dispõem destes carros os possam transferir para a Ucrânia, um território não NATO? A Polónia e a Finlândia seriam os primeiros subfornecedores. Foi criado até um grupo informal designado Grupo Leopardo, que prestará assistência no teatro de operações, à semelhança do Grupo Wagner.

A principal razão da imposição dos Estados Unidos à Alemanha do fornecimento dos Leopards à Ucrânia é a de obrigar a Alemanha a envolver-se mais na guerra, a pagar mais, a acentuar a rutura com a Rússia (uma manobra que a sabotagem do gasoduto já expunha) e, enfim, a enfraquecer a Alemanha de modo a não ter qualquer hipótese de escolha de novas alianças, a não ser a submissão completa aos EUA. O Reino Unido, o aliado fiel dos EUA limitou-se a enviar 12 Carros de Combate Challenger! Compreende-se, o RU não compete com os EUA, nem tem tentações de alianças a Leste. A Alemanha, pelo contrário, tem de ser constrangida a alterar os três pilares em que assentou o seu renascimento após a II Guerra Mundial: a energia barata da Rússia, o grande mercado da China e a segurança dos Estados Unidos. Sem energia barata e sem mercado chinês a Alemanha tem de ser colocada com a trela curta para não sair do rebanho da segurança americana.

O governo alemão está perfeitamente a par da armadilha em que os Estados Unidos prenderam a Alemanha. Esta consciência de estado aprisionado levou o chanceler Sholtz a lamuriar-se, afirmando em Davos (17/01/23) “Nous agissons toujours avec nos alliés et amis, nous n’y allons jamais seuls “, perante a pressão de vários dirigentes. A Alemanha apenas tomaria a decisão de enviar os Leopard em conjunto com outros países europeus, leia-se a França. A Alemanha sabe que será a primeira vítima de uma escalada da guerra. A Alemanha sabe que é o elo franco da estratégia dos Estados Unidos de matar dois coelhos com uma cajadada, a guerra na Ucrânia tem como primeiro objetivo (declarado) tornar a Rússia impotente para não intervir no conflito com a China e castrar a Alemanha para esta não tentar liderar uma Europa com alguma autonomia.

Os Carros de Combate Leopard, com tripulações ucranianas, vão ser o chamariz para obrigar a Rússia a intervir num patamar superior ao que já foram atraídos com as ações no Leste (Donesk) desde 2014 e para os Estados Unidos puderem passar à fase seguinte de provocar a China.

Haverá sempre quem acredite que na Ucrânia estão a ser defendidos os “nossos valores”, que a Ucrânia tem direito a ser independente (isto é dependente dos Estados Unidos), que tudo se resolveria, ou resolverá com a retirada da Rússia e com o pagamento desta das obras de reconstrução da Ucrânia, a cargo de empresas ocidentais! Essa crença é sinal que a propaganda funciona. Para já a ordem do dia manda catapultar tanques para a Ucrânia e utilizá-los como chamariz dos russos. Veremos se é uma boa estratégia!


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