O Estado profundo usa o errático Trump como arma

(António Gil, in Substack.com, 21/02/2026, Revisão da Estátua)


Não é acidente, é design.


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A expectativa corrente é se Trump vai ou não bombardear o Irão. Uma questão mal colocada por duas ordens de razões:

1- Não é Trump quem decide um assunto tão sério e muito menos o Congresso ou o Senado, esses verdadeiros lares geriátricos para pessoas da quarta idade.

2- Não será nada do que Trump diz, faz, ou diz que fará que iniciará uma eventual guerra; no ponto em que as coisas estão há muito percebemos – ou devíamos ter percebido – que a decisão está a montante dele, não a jusante.

Trump é útil ao Estado Profundo, porque lança a confusão, divide as pessoas, e no fim, como ele não manda nada, corre para apanhar os louros mediáticos, os mesmos que seus patronos desprezam porque sabem que o poder real é discreto.

Mas mesmo nisso de querer medalhas, Trump é desajeitado; veja-se o que ele fez por um Nobel da Paz que não teve e acabou por aceitar de presente.

É provável que a decisão de bombardear o Irão ainda não tenha sido tomada, em face da ‘comoção mundial’. Houve certamente um impulso de atacar esse país, naqueles dias pós manifestações e, desde aí, um paulatino mas evidente cerco marítimo começou a ser montado perto das águas do Golfo.

Mesmo antes de todo aquela pornografia militar – mais uns navios, mais um porta-aviões, mais uns bombardeiros, mais uns mísseis – o Irão já estava muito condicionado, nas suas trocas comerciais. Imaginem, agora, com as águas vizinhas às suas agitadas por corsários pós modernos.

Esta tática de ‘sufoco’ não resultou em Cuba, apesar dessa nação insular estar tão próxima dos EUA e tão longe de Deus, como alguém disse. O Irão, porém, é um bicho completamente diferente e está mais próximo da Rússia e da China do que dos EUA, geograficamente falando, quero dizer.

Na verdade o Irão nem precisa de fechar o estreito de Ormuz, oficialmente: basta que diga que não garante a segurança de nenhum petroleiro com destino ao Ocidente, para que os seguros disparem o que, naturalmente, encarecerá os combustíveis em todo o mundo.

A ironia de tudo isto é que os EUA estão neste momento, tão focados no domínio de certas parcelas do mundo que descuraram o seu próprio país. O cerco ao Irão, desenhado como uma demonstração de força, revelou que os EUA não poderiam agora defender seu território, caso ele fosse atacado, tal a dispersão militar que enfrentam. ao enviarem os seus militares para tão longe de casa.

Evidentemente ninguém espera que os EUA sejam atacados, muito menos quem agita esse fantasma, caso contrário colocaria as suas costas a salvo em vez de dispersar forças lá, onde Judas perdeu as sandálias. Mas ninguém deixará de notar a fragilidade deste conceito de ‘dominar o mundo’ enquanto já nem a própria casa se é capaz de defender.

Lembrei-me então de Aníbal e do seu exército assediando as muralhas de Roma, enquanto a sua bela Cartago permanecia relativamente desguarnecida. Então, numa manobra ousada liderada pelo general romano Cipião Africano, os romanos decidiram atacar Cartago ainda com a sua capital imperial sob cerco.

Quase se produziu um facto inédito na História – os cartagineses tomando a capital inimiga e os romanos tomando Cartago -, mas Aníbal desistiu do cerco para socorrer Cartago, então uma cidade exposta, candidata ao título de cidade aberta. Aníbal foi derrotado na Batalha de Zama, e Cartago foi destruída, para sempre.

Não estou a sugerir que algo semelhante vá acontecer de novo; apenas que a lição de Cartago não foi bem aprendida pelos actuais candidatos a hegemonia mundial.

Fonte aqui

Vivemos numa Era Pós-Verdade?

(António Gil, in Substack.com, 08/02/2026, Revisão Estátua)


Já estamos para lá disso: Bem vindos à Pós Realidade.


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Muitos de vós talvez pensem que pós verdade e pós realidade sejam a mesma coisa mas não são: há uma enorme diferença em grau e género. Quando se admitia existir apenas uma realidade, mesmo se povoada de mentiras e manipulações, já um número indeterminado de verdades podiam coexistir, mesmo se existisse tensão e contradição entre algumas delas.

Agora, existem várias realidades fabricadas: numa delas, por exemplo, a Ucrânia está a vencer a guerra com a Rússia. Noutra há um impasse militar. Numa terceira a Ucrânia precisa de negociar para garantir a sua sobrevivência como Nação. E ainda há aquela que nos diz que a Rússia não só já venceu a Ucrânia como está a invadir os Países Bálticos e por isso é preciso accionar o artigo 5º da NATO (o que nos conduziria a uma guerra nuclear, pela certa).

Notem que todas elas são promovidas pelos políticos e pela imprensa ocidental, não raro até, alguns dizem uma coisa hoje e dirão outra coisa completamente diversa amanhã, estas dissonâncias já foram normalizadas e poucas pessoas as estranham.

Em cada um destes universos paralelos coexistem ‘verdades’ sabendo nós que mesmo num só desses universos muitas dessas ‘verdades’ excluiriam outras.

Há quem defenda que a pós realidade surgiu graças às IAs (sim, elas são muitas e não dizem todas o mesmo) que produzem vídeos, artigos e outras ‘provas’ da realidade que garantem ser a verdadeira e única. Mas já temos um número incontável dessas verdades ‘únicas’.

De resto, se grosso modo é assim, fino modo isto sempre se fez mas com meios mais limitados. A ficção sempre coexistiu com a realidade e alguém chegou a dizer (Oscar Wilde , creio) que a Vida (a realidade) copiava a Arte ( e o que é a Arte senão uma ficção bem sucedida?).

Deixem-me lembrar-vos só um – entre muitos – dos factos históricos que provam isso: depois de Goethe ter publicado Werther, o trágico romance de um sensível jovem alemão que se suicida porque a sua amada não pode corresponder ao seu amor, já que está presa pelo comprometimento com outro homem e não pode fugir a isso.

Ela não é uma Julieta tardia, é só uma mulher do seu tempo, que está enredada numa teia de compromissos familiares e não concebe sua vida fora desse contexto.

O romance foi publicado e foi um sucesso de tal ordem que muitos jovens alemães se suicidaram, seguindo esse exemplo ficcionado. Goethe respondeu com alguma arrogância a quem o tentou responsabilizar por isso: “todos os anos os nossos notáveis generais prussianos arrastam jovens para a morte em número muito superior e por causas mais frívolas que o amor. Permiti que pelo menos uma vez, um pobre escritor faça algo semelhante mas por algo superior”.

Mas então a ficção era só literatura e ainda assim cobrou seu preço. Hoje ela invadiu todas as áreas da nossa vida e mobiliza todo o tipo de recursos de que a IA já se apoderou, incluindo o das vidas virtuais, que decorrem, por exemplo, nos multiversos da Meta, nossa anfitriã na nossa página do Facebook.

Para quem não sabe, os habitantes dessas vidas virtuais (seus avatares, enfim) até aí compram, com dinheiro real, propriedades fictícias: mansões, fazendas, o que seja.

Pós realidade pois, não é exagero, muito menos ficção: já cá está.

Não se admirem pois, que as pessoas andem tão confusas tantas delas nem sabendo bem a que realidade pertencem nem em qual delas se desenrolam suas vidas. Na dúvida, compartimentalizam e vivem várias vidas o que quer dizer que não vivem vida nenhuma.

Se a isto podemos chamar progresso é muito discutível mas podemos recear que não haja mais, como não houve no passado relativamente a outras aquisições tecnológicas, nenhum caminho de regresso. Melhor não entrarmos por aí – esse é um caminho para a loucura e, quem queira saber o que realmente se passa num certo local, opte por ir lá, para verificar com seus próprios olhos.

Fonte aqui

A grande descoberta de Merz

(António Gil, in Substack.com, 16/01/2026)

Imagem: ‘Caminhante acima do mar de nevoeiro’, óleo sobre tela por Caspar David Friedrich

(Isto é ironia, claro).


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Aventureiros de todo o Mundo, alegrem-se, ainda há algo para desvendar na geografia do nosso planeta. Merz, o chanceler alemão acaba de fazer uma descoberta espantosa: a Rússia é um país europeu.

Provavelmente Hitler julgou estar a invadir a África sub-sahariana quando da Operação Barbarossa em busca de um vasto Lebensraum ou espaço vital. Ou então ele já sabia coisas que o pau de virar tripas entretanto esqueceu.

Claro que o conceito de Europa é mais cultural que territorial e também por isso os iluministas dos séculos XVII e XVIII não se lembrariam de questionar a Rússia enquanto membro de pleno direito da ‘grande família europeia’. Ninguém estranhava então que cazrina russa (de origem alemã) Catarina II , dita a Grande), trocasse correspondência regular com Diderot, Voltaire e Montesquieu.

E por falar nisso, as famílias reais europeias casavam seus príncipes e princesas com suas congéneres russas. Isso incluíu a Rainha (imperatriz, na verdade) Vitória. Será que o fariam com nobres da Ásia ou África? Ou dar-se-ia o caso de estarem equivocadas nessa convicção da Rússia ser uma nação europeia?

Também no capítulo cultural, a Europa desde há séculos consagrava escritores, músicos, bailarinos e pintores nascidos no vasto Império russo. Nem vou citar todos esses nomes porque correria o risco de me esquecer de alguns de suma importâncias porque, como dizia o nosso (português) Fernando Pessoa, enumerar é esquecer.

Na verdade muitos deles tinham mais leitores e público na Europa que no seu país natal. Então de onde veio essa súbita amnésia – agora corrigida por Merz, como se ele tivesse acabado de descobrir a pólvora – da Rússia como nação europeia?

Nós sabemos quem durante estes últimos anos, mais de uma década, baniu escritores russos, renomeou o Lago dos Cisnes como ballet ucraniano e retitulou pinturas russas de modo a sugerir outras origens de seus autores e temas. E também sabemos por quê.

Infelizmente essas manobras de pura manipulação encontraram muita compreensão em praticamente todos os países da Europa, sobretudo por parte de jornalistas francamente ignorantes. E outros que sendo melhor informados, recearam por seus empregos.

Mas bom, pode ser que a loucura tenha começado a reverter e esperemos que não seja tarde demais para que as evidências sejam restabelecidas. Desejavelmente teríamos então uma Europa de Lisboa a Vladivostock, como Putin chegou a propor.

Os anões políticos da Europa devem ter ficado estarrecidos com essa vastidão porque nada assusta mais a gente limitada do que saber que há mundo para lá do que sua obstruída visão abarca. Porque, como também Fernando Pessoa escreveu: ‘somos do tamanho de tudo aquilo que vemos’ e curiosamente, neste caso, ele considera que os citadinos são mais limitados do que os aldeãos. É uma boa forma de terminar esta peça, citar esse seu poema:

Eu Sou do Tamanho do que Vejo

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não, do tamanho da minha altura…

Nas cidades a vida é mais pequena

Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,

Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,

Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,

E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.


Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema VII”. Heterónimo de Fernando Pessoa.

Fonte aqui