Uma reflexão de Natal

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 22/12/2017)

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(E pronto. Também nós temos que ser politicamente correctos. Não faz mal nenhum, e de vez em quando também tem que ser. E nada melhor que nesta altura do ano. Aqui deixo os meus votos de Bom Natal a todos os que me lêem e que seguem o meu blog e/ou a minha página no Facebook. Votos para que tenham tudo do melhor em 2018, que eu continuarei por aqui, na mesma senda, e na mesma luta. E como não tenho o saco das prendas do Pai Natal, deixo-vos como prenda esta deliciosa crónica do João Quadros. Divirtam-se e sejam felizes.

Estátua de Sal, 22/12/2017)


É Natal e eu gostava de fazer uma crónica que unisse todos os povos do mundo ou que, pelo menos, reduzisse a metade os insultos nos comentários, se bem que, do meu ponto de vista, os insultos são melhor do que palmas. Palmas, qualquer um bate, seja ao que for, inclusive ao discurso do nosso patrão, que não podemos ver à frente. O insulto é algo que sentimos necessidade de fazer. Quer dizer que não ficámos na mesma. Que mexeu connosco. Por isso, agradeço desde já a todos os que, nos comentários online, me têm motivado a continuar a mexer convosco. O Natal é isto, gratidão (e algumas greves).

A ideia era fazer uma crónica politicamente correcta, mas o politicamente correcto, hoje em dia, não tem o mesmo grau de aprovação do politicamente incorrecto. Imaginem que eu fazia uma piada que envolvesse o PM Costa e uma consoada com chamuças. A ausência de graça, e a referência xenófoba, era compensada pelo meu atrevimento e capacidade de ser livre e de rejeitar o politicamente correcto, mesmo sacrificando princípios.

A pergunta que mais vezes me fazem, a seguir a “Quadros, como é que aos 53 anos tens esse corpo escultural?”, é “Quais são os limites do humor?” Eu acho que os limites do humor são aquilo que deve ser ultrapassado sem darmos por isso. É uma coisa natural porque não sabíamos que havia limites.

É diferente de fazermos uma piada apenas porque queremos chocar quem tem esses limites. Uma espécie de bimby da piada politicamente incorrecta. Pomos uma lésbica, um gay, um deficiente, um judeu, um forno, um tipo a morrer de fome, uma mãe que perdeu um filho e umas pitadas de pedofilia, e temos material que faz de nós um comediante livre e sem barreiras. Achincalhar as minorias faz de nós homens corajosos.

Ninguém nega a existência de uma espécie de polícia do politicamente correcto das minorias, mas lembro-me que sempre existiu uma do politicamente correcto das maiorias. Sou do tempo em que “sketches” com bichas era na maior, mas um com o Santuário de Fátima dava origem a cancelamento de programa. Apesar de achar que Fátima é uma cena um bocado bicha. É como a Amália e a Madonna. Cá está, uma “piada” que é politicamente incorrecta e que pode ser ainda mais se eu disser que é uma “piada” que dá para os dois lados.

Tenho a certeza de que se Hitler fosse vivo, hoje, seria considerado um tipo politicamente incorrecto e sem papas na língua e escreveria para o Observador, ia à RTP 3, jogava padel com o David Dinis e estava em quase todos os Prós e Contras e a Fátima tratava-o por Doutor Adolfo.

Esta era para ser uma crónica de Natal porque eu gosto muito de vocês, estimados e magníficos leitores, e era suposto ser a minha prenda. Pela vossa cara, vejo que preferiam Mon Chéri, mas o que conta é a intenção. Bom Natal.


TOP-5

Politicamente incorrectos

1. Raríssimas. CDS-PP insiste em questionar Vieira da Silva por escrito – já fizeram com fotos, agora façam com desenhos dos filhos da Cristas.

2. PSP com ordem para fazer revistas surpresa na rua no Natal e Ano Novo – querem descobrir se vão receber meias.

3. Príncipe herdeiro saudita comprou a propriedade mais cara do mundo por 275 milhões – e o mais incrível é que não é em Lisboa.

4. Pela primeira vez em quase oito anos, os mercados financeiros colocaram os juros portugueses abaixo dos italianos – Il diavolo.

5. Cristas reitera exigência de esclarecimentos sobre participação da Santa Casa no Montepio – O CDS está na fase qual Fitch?! Não levantaram a argola da sanita!

 

 

Time after time

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 15/12/2017)

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João Quadros

A personalidade do ano da Time em 2017 são as pessoas que denunciaram casos de assédio sexual. De uma forma ou de outra, Donald Trump tinha de ser capa. Segundo ouvi dizer, o Presidente dos Estados Unidos, assim que soube desta notícia, foi abrir a Time nas páginas centrais, na vertical, na esperança que uma delas aparecesse seminua. Se eu pudesse escolher a palavra do ano, escolhia “assédio”, seguido de “alegado”.

No último ano, “descobrimos” que Hollywood é um enorme metro cheio na estação do Chiado. Tudo a apalpar o que pode. É triste descobrir que a meca dos sonhos é povoada pela mesma malta que buzina em Lisboa quando passa por uma jeitosa.

São pessoas com síndrome de Tourette nas mãos, que me desculpem os que o têm. Ser capa da Time não é para todos mas, infelizmente, neste caso, é para quase todas.

Se eu fosse o Trump, podia dizer – “eh, eh, o assédio é capa da Time, devem ter dormido com poucos para conseguir isto!” Ou melhor, “se não fosse eu, o assédio nunca tinha sido capa da Time. Ainda dizem que tenho mão pequeninas.” Para nós, todas estas revelações são chocantes. Apesar de termos um Presidente dos afectos – e beijoqueiro, é verdade -, não temos um Presidente dos apalpões.

Todos tivemos desgostos quando soubemos que o nosso actor preferido, ou realizador favorito, era, na verdade, um tipo todo nu com uma gabardina. Não sou dos que acha que a obra seja apagada. Não podemos confundir o artista com a obra. O importante é que se um dia dermos de caras com esse artista que nos desiludiu, em vez de lhe pedirmos um autógrafo, é optar por um pontapé nos testículos. Seguido de um – “Gosto muito do seu trabalho”.

A esta hora, a caixa de comentários está cheia de garbosos machos a dizer que o Quadros é feminista. Não sou, tenho defeito de fabrico. Dou por mim a olhar para as fotos das assediadas e a dizer – fazia, não fazia, fazia, fazia, arrrrrrrgggghhh! Quem é que pôs aqui uma fotografia da Teodora Cardoso?! Vocês têm cá uma piada!

O facto de o assédio ser capa da Time é um momento importante. Sinceramente, eu estava à espera que fosse o Centeno. É uma grande vitória e um tema intemporal, pode a revista ficar esquecida num consultório de dentista que continua a ser sempre actual, infelizmente. Relembro que, há vinte e tal anos, a capa da Time foi a fome em África.


TOP-5

Time

1. Raríssimas: Vieira da Silva está “de consciência tranquila” – Sou só eu que acho que o ministro fica com gaguez quando fala da Raríssimas? Se calhar, aquela senhora que estava com ele na conferência de imprensa era a terapeuta da fala.

2. Assédio. Empresas norte-americanas estão a optar por jantares de Natal sem álcool – É tornar a coisa ainda mais insuportável.

3. Parlamento Europeu atribui nome de Mário Soares a sala de reuniões em Bruxelas – Onde os deputados costumam ir fazer a sesta.

4. Isabel dos Santos transferiu 238 milhões poucas horas antes do congelamento de bens – É como aquelas senhoras de idade que sabem que amanhã vai estar de chuva porque lhes dói o sítio onde fracturaram o braço.

5. “Ninguém deve ser membro do Governo contrariado”, diz Santos Silva sobre a demissão de Manuel Delgado – Resumindo, “duck face”, sim, beicinho, não.

O cisne feio

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 07/12/2017)

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João Quadros

Mário Centeno é o novo presidente do Eurogrupo. Está confirmado, o tempo anda tão avariado que tivemos um primeiro de Abril em Dezembro.

O ministro das Finanças mais perigoso da Europa do euro, apoiado pelas forças danadas de esquerda, temido pela sua loucura, no que diz respeito à austeridade, fica a mandar no Eurogrupo. O euro está nas mãos da geringonça! O Eurogrupo, finalmente, rendeu-se aos copos e às mulheres. – Não podes vencê-los, junta-te a eles – terá pensado Merkel depois de uma garrafa de Gatão.

Também pode estar a acontecer o contrário. O Eurogrupo, vendo que uma das ovelhas negras do Sul estava a ficar lãzuda, com ideias diferentes do que a UE defende, decidiu trazê-la para a frente do rebanho para a arrebanhar. Isto pode ser perigoso. Parece-me essencial que Mário Centeno entre visivelmente bêbedo na primeira reunião a 13 de Janeiro para marcar logo a nossa posição.

O nosso ministro das Finanças tem de mostrar aos seus colegas que era ele que fazia festas em Harvard quando todos tentavam dormir. Que foi ele que desligou o quadro eléctrico só para um dia não terem aulas, que enfiava rãs nas calças dos colegas e que era conhecido por ter sempre erva escondida nos calhamaços de Economia. Se Centeno começa a relaxar, passa de ter ar de tresloucado para ter ar de totó. A linha é muita fina e convém não dar muita confiança àquela gente pardacenta do Eurogrupo.

Convém lembrar que o nosso ministro das Finanças chamou míope ao Eurogrupo. É assim mesmo, esse é o caminho. Agora que já é o chefe, devia dizer: – O Eurogrupo é uma caixa-de-óculos. Um bocadinho de “bullying” para verem quem manda e para perceberem ao que vamos.

Acho que tudo isto começou com a saída de Portugal dos défices excessivos. Pessoalmente, nunca me senti bem por estar fora do procedimento por défices excessivos. Acho que não cumprir o défice dava-nos mais estilo. Ser marrões e bons alunos é muito pouco sexy. Não cumprir o défice é de quem anda de moto sem capacete e faz cavalinhos e usa blusão de cabedal. O ar de que não respeita certas regras dá outra pinta.

Centeno tem de levar a ribaldaria para o Eurogrupo ou eles tomam conta dele com as suas ideias chatas. Tenho receio de que deixem de vir tantos turistas para Portugal, se começa a constar que nós somos do género dos alemães. Quando é para ir viajar, escolho sempre os países com praia e défices excessivos. Presumo que deve ser onde há mais ribaldaria e menos gente chata.

Força, camarada Centeno!


TOP-5

Patinhos lindos

1. Trump informou Autoridade Palestiniana que Embaixada dos EUA vai para Jerusalém – Vai construir uma Trump Tower só para isso.

2. Centeno eleito presidente do Eurogrupo – Neste momento, Passos Coelho deve estar a pensar: “Não fosse o golpe de Estado na Assembleia, a esta hora, era a Maria Luís quem presidia ao Eurogrupo, e o Bruno Maçães estava no lugar do Hugh Hefner.”

3. Juízes da decisão polémica sobre violência doméstica alvo de processo disciplinar – Espero, no mínimo, um pau com pregos no lombo.

4. Assaltou gasolineira e cabeleireiro com pistola de plástico em Aveiro – Faz lembrar Tancos.

5. Trump diz que vai reconhecer Jerusalém como capital de Israel e causa tensão no Médio Oriente – Acho que a solução poderia ser levar a capital de Israel para o Porto.