Votei, mas não inalei

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 12/01/2018)

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João Quadros

“É verdade que a canábis ajuda no sofrimento de cancros terminais, mas depois essas pessoas podem ficar agarradas.” Provavelmente, vão para o céu fazer filtros.


Ontem debateu-se (escrevo esta crónica na quarta-feira) na Assembleia da República as propostas do BE e do PAN sobre os projectos de lei para legalizar a canábis para fins medicinais. O CDS e o PSD estão contra. É pena. Até porque a primeira autorização para plantação de canábis para fins de medicinais em Portugal, para exportação, foi dada em 2014.

Acho que o PSD e o CDS podiam ter sido convencidos se lhes disséssemos que é tradição fumar charros em Portugal. Nas Festas de Reis, na aldeia de Vale Salgueiro, em Mirandela, as crianças são encorajadas a fumar cigarros, uma tradição que teve direito esta semana a uma reportagem da Associated Press. “Pais encorajam os seus filhos, alguns com menos de cinco anos, a fumar cigarros.” A reportagem salienta que a idade legal para adquirir tabaco em Portugal é 18 anos, “mas ninguém proíbe os pais de darem cigarros às crianças e as autoridades não intervêm para parar esta prática”. Os entrevistados justificam a mesma com os costumes locais. Que fixe. Se calhar, os miúdos injectam-se no Carnaval e vão às meninas na Páscoa.

Nada como imaginar um roteiro tradicional, como as crianças a arder de Vila Nova de Sardão, o “striptease” forçado de septuagenárias em Poço de Sete Mães ou a largada de cabrestos e grávidas bêbedas de Fonte de Castelo Coiso.

Os deputados do PSD, pelo menos alguns dos que conheço, votam contra a canábis para uso medicinal, mas usam para fins recreativos. O PSD e o CDS são contra a utilização em Portugal de canábis para fins medicinais, mas autorizaram plantações onde produzimos canábis para venda para fins medicinais noutros países. É espectacular, somos grandes exportadores de marijuana para uso farmacêutico, mas segundo o PSD e o CDS aquilo só faz mal. Ainda recentemente, a maior plantação de canábis em Portugal foi anunciada no Web Summit. É proibir essa malta toda de cá entrar e deitar fogo a estes projectos todos. Porque não vamos deixar produzir cá uma coisa que até é proibida para efeitos medicinais.

Recordo que, em 2012, a JSD, na altura liderada por Duarte Marques, apoiou a Marcha Global da Marijuana em Lisboa. Grande maluco. A desculpa do PSD para chumbar a legalização da canábis para uso medicinal é: “Pode causar habituação.” Ou seja: “Coitados, é verdade que a canábis ajuda no sofrimento de cancros terminais, mas depois essas pessoas podem ficar agarradas.” Provavelmente, vão para o céu fazer filtros.

Resumindo, no país de horas e mais horas de publicidade ao cogumelo do tempo e ao Calcitrin, que é vendido directamente ao público, sem intermediação das farmácias, nem pensar em permitir a canábis para efeitos terapêuticos. Não aguento tanta hipocrisia, preciso de fumar uma.


TOP 5

Faz-me um filtro

1. Marques Mendes diz que investimento da Santa Casa no Montepio “vai acabar num inquérito parlamentar e numa investigação judicial” – Ou seja, o negócio não passou por uma das empresas dele.

2. Há 147 mil empregos vagos nas indústrias tradicionais – Deve ser porque pagam bem.

3. Mulheres vestem-se de preto nos Globos de Ouro contra o assédio – Este ano, o Óscar de melhor actor devia ir para uma mulher.

4. Danos da fuga de touro em Arruda ultrapassam os 25 mil euros – A RTP faz uma corrida de touros para ajudar.

5. Marques Mendes: “Diziam que eu tinha talento para guarda-redes de futebol” – De matraquilhos.

Dia de Reis explicado aos republicanos

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 05/01/2017)

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João Quadros

O Dia de Reis é muito importante para os espanhóis. Em Espanha, os miúdos só amanhã é que recebem os presentes. Já os nossos destruíram os deles, ainda os outros não os receberam. O mundo é injusto.


Gostava de começar o ano com um tema leve e fresco e que não ofende ninguém. Vou tentar, prometo.

Amanhã é Dia de Reis e eu tenho uma especial predilecção pelos Reis Magos. À partida identifico-me com gente que chega atrasada. Em relação aos Reis Magos, muita gente ainda se questiona por que raio é que eles traziam aquelas prendas parvas: ouro, incenso, e mirra. E a mirra, ainda por cima, nem sequer era da Chico.

Como é óbvio, as ofertas não era apenas estas, havia muito mais prendas. Ninguém faz milhares de quilómetros de camelo, a olhar para uma estrela, para levar incenso a um recém-nascido.

Além das prendas que eles entregaram, na lista de ofertas, havia ainda: trinta faisões estufados, seis lampreias de ovos, uma dúzia de sapateiras, etc. Tudo coisas que se estragavam, e como eles se atrasaram, acabaram eles por comer tudo, em vez de se estragar.

Supostamente, os nomes das criaturas eram: Gaspar, Baltazar e Melchior. E nesta altura surge sempre a dúvida, qual deles é o negro? É o Baltazar. Eu arranjei uma maneira fácil de decorar: O negro é o que acaba em -azar.

O Dia de Reis é muito importante para os espanhóis. Em Espanha, os miúdos só amanhã é que recebem os presentes. Já os nossos destruíram os deles, ainda os outros não receberam . O mundo é injusto.

Voltando aos Reis Magos, dizem os estudiosos de pessoas que oferecem mirra a crianças que as relíquias dos Magos foram transportadas para Constantinopla, e de lá passaram para Milão, de onde, depois foram transladados para Colónia, em cuja catedral são até hoje veneradas. Agora que já sabem onde estão os restos dos Reis Magos, não há desculpa para não darem um salto a Colónia nem que seja para depositar uma coroa de flores e um cheque incenso/mirra no túmulo onde estão partes do que outrora foram os bonitos Reis Magos dos vossos presépios.

Os camelos também lá estão, porque os Reis perderam-se no caminho para casa, e ficaram sem nada e tiveram de comer os camelos. Por azar, aquilo até nem eram camelos. Eram dromedários. Camelos árabes. Que, infelizmente, têm só uma bossa o que dá logo para menos picanha. Mas da cauda faz-se uma sopa de rabo de camelo que vai muito bem com areia.

Adeus e cuidado porque andam por aí pessoas que se escondem dentro do bolo-rei, no lugar da fava, e que, durante a noite, quando estamos a dormir, assaltam as casas. Pelo sim pelo não, é melhor não comprar bolo-rei em sítios esquisitos. Fiquem-se pelo bolo-rei tradicional das bombas de gasolina.

Até para a semana , e deixo aqui uma aviso importante de fim de festas: não abandonem as vossas árvores de Natal perto de casa, levem-nas para longe, senão, depois, vão dar com elas a arranharem a porta de casa a quererem voltar. Está bem?

Bom ano.


TOP-5

Mirra

1. Novo Banco arrisca perder 34 milhões nos cogumelos apadrinhados por Marcelo– Tivessem apostado noutros cogumelos. Para quem sai tanto à noite, o Marcelo percebe pouco disto.

2. Bispos da IURD são obrigados a fazer a vasectomia – Ainda há quem se queixe dos patrões. Imaginem se na Autoeuropa o patrão dissesse – Vai ser promovido, vai ganhar mais, mas vai ter de ir operar esse escroto.

3. Governo diz que Portugal não vai sair do programa de isenção de vistos dos EUA – Ministro dos Negócios estrangeiros, Santos Silva, diz que tem um botão maior do que o de Trump.

4. China é um dos maiores importadores de cerveja portuguesa – Mas é para festejar o que lucram com a EDP.

5. Marcelo veta lei do financiamento partidário – Para o PR a lei foi feita em segredo por isso aconselha que desta vez contratem o Doutor Eduardo Barroso para nos vir informar, com detalhe, o que se está a passar de meia em meia hora.

Quanto mais me financias, mais gosto de ti

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 29/12/2017)

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João Quadros

Queria começar esta crónica desejando um magnífico ano de 2018 para todos os leitores, excluindo os que pertencem a partidos. A esses é escusado desejar porque já o garantiram. Isto foi a forma irónica – ou, segundo o spin partidário, populista – de fazer uma “piada” à recente lei do financiamento dos partidos.

Para começar, o facto de termos de acautelar um limite para as doações é uma espécie de confissão dos partidos – agarrem-me, senão eu roubo. Vou usar de todo o meu populismo para dizer que somos um país onde os políticos ganham pouco, mas gastam muito.

Podíamos estar aqui horas a falar da forma e conteúdo desta nova lei, mas estamos todos demasiado cansados das consoadas e das conversas em família. Das alterações à lei, a que me faz mais confusão é a isenção total de IVA para os partidos políticos, com efeitos retroactivos.

Vamos lá ver. Se os partidos acham que era injusto o IVA que pagaram em tempos e querem recebê-lo de volta, eu também quero receber o IVA que paguei a mais nos restaurantes no tempo da PAF. Este Governo já confirmou que era injusto. Isenção do IVA com efeitos retroactivos aos processos pendentes dá vontade de chorar, não fosse o IVA dos lenços.

Acho espectacular que se pague IVA de fraldas e que, a seguir, se façam comícios e as bandeiras não paguem IVA e nem para limpar o rabo servem. Segundo o que li, os partidos passam a ter IVA mais favorável do que as IPSS. Pelo menos, já dá para comprar verdadeira roupa de alta-costura.

O mais extraordinário do spin partidário é o querer reduzir a indignação de muitos a populismo, logo aqueles que todos os dias o usam. A forma de tentar anular uma indignação que, estranhamente, muitos sentem é tentar diminuir intelectualmente quem a tem. Não resulta porque somos nós que vamos votar em vocês. A verdade é que, talvez por isso, julguem que somos intelectualmente fraquinhos.

Tal como resulta mal as falsas virgens ofendidas. Ver Santana Lopes e Rui Rio ficarem chocados com esta lei é o tipo de lição de moral que não consigo aceitar. É como ver Maradona chocado com o doping no ciclismo.

Ou ver Assunção Cristas, agora, depois de meses e reuniões mais secretas do que aquelas a que vai o Nuno Magalhães na casa Mozart, vir dizer que saltou fora. Imagino que jamais o CDS vai aceitar devoluções e IVA, a não ser que venham em nome de um Jacinto Leite Capelo Rego. O CDS é o partido que fica do outro lado do muro a guardar enquanto os outros vão roubar as nêsperas, mas se aparece o dono diz que os outros foram às nêsperas.

Para acabar, o nosso sempre presente e opinativo Presidente Marcelo diz que não pode pronunciar-se “já” sobre as alterações à lei do financiamento dos partidos. Fico impressionado, até sobre o sentido da vida ele conseguiria falar mas, sobre isto, tem de meditar.

Termino como comecei, desejando um bom ano de 2018 para todos e uma excelente passagem de ano, mas deixo uma sugestão: depois desta lei do financiamento dos partidos, proponho trocar as cartolas compradas pela CML por auréolas para todos os portugueses. Bom ano.


TOP-5

Financiamentos

1. Costa faz as últimas compras de Natal no mercado de rua do Príncipe Real – Se estivesse na Raríssimas…

2. Braga. Dois anos e quatro meses de prisão efectiva por roubo de tablet – O Salgado roubou o equivalente a meia Apple.

3. Empregados de lar de idosos ganham 10 milhões na lotaria de Natal de Espanha – Lá vão os velhotes ficar sozinhos.

4. Doces e salgados proibidos nos hospitais – Só entra legionela.

5. Portugal perto de défice zero até Setembro – Vão distribuir dividendos por todos.