Quanto mais me financias, mais gosto de ti

(João Quadros, in Jornal de Negócios, 29/12/2017)

quadros

João Quadros

Queria começar esta crónica desejando um magnífico ano de 2018 para todos os leitores, excluindo os que pertencem a partidos. A esses é escusado desejar porque já o garantiram. Isto foi a forma irónica – ou, segundo o spin partidário, populista – de fazer uma “piada” à recente lei do financiamento dos partidos.

Para começar, o facto de termos de acautelar um limite para as doações é uma espécie de confissão dos partidos – agarrem-me, senão eu roubo. Vou usar de todo o meu populismo para dizer que somos um país onde os políticos ganham pouco, mas gastam muito.

Podíamos estar aqui horas a falar da forma e conteúdo desta nova lei, mas estamos todos demasiado cansados das consoadas e das conversas em família. Das alterações à lei, a que me faz mais confusão é a isenção total de IVA para os partidos políticos, com efeitos retroactivos.

Vamos lá ver. Se os partidos acham que era injusto o IVA que pagaram em tempos e querem recebê-lo de volta, eu também quero receber o IVA que paguei a mais nos restaurantes no tempo da PAF. Este Governo já confirmou que era injusto. Isenção do IVA com efeitos retroactivos aos processos pendentes dá vontade de chorar, não fosse o IVA dos lenços.

Acho espectacular que se pague IVA de fraldas e que, a seguir, se façam comícios e as bandeiras não paguem IVA e nem para limpar o rabo servem. Segundo o que li, os partidos passam a ter IVA mais favorável do que as IPSS. Pelo menos, já dá para comprar verdadeira roupa de alta-costura.

O mais extraordinário do spin partidário é o querer reduzir a indignação de muitos a populismo, logo aqueles que todos os dias o usam. A forma de tentar anular uma indignação que, estranhamente, muitos sentem é tentar diminuir intelectualmente quem a tem. Não resulta porque somos nós que vamos votar em vocês. A verdade é que, talvez por isso, julguem que somos intelectualmente fraquinhos.

Tal como resulta mal as falsas virgens ofendidas. Ver Santana Lopes e Rui Rio ficarem chocados com esta lei é o tipo de lição de moral que não consigo aceitar. É como ver Maradona chocado com o doping no ciclismo.

Ou ver Assunção Cristas, agora, depois de meses e reuniões mais secretas do que aquelas a que vai o Nuno Magalhães na casa Mozart, vir dizer que saltou fora. Imagino que jamais o CDS vai aceitar devoluções e IVA, a não ser que venham em nome de um Jacinto Leite Capelo Rego. O CDS é o partido que fica do outro lado do muro a guardar enquanto os outros vão roubar as nêsperas, mas se aparece o dono diz que os outros foram às nêsperas.

Para acabar, o nosso sempre presente e opinativo Presidente Marcelo diz que não pode pronunciar-se “já” sobre as alterações à lei do financiamento dos partidos. Fico impressionado, até sobre o sentido da vida ele conseguiria falar mas, sobre isto, tem de meditar.

Termino como comecei, desejando um bom ano de 2018 para todos e uma excelente passagem de ano, mas deixo uma sugestão: depois desta lei do financiamento dos partidos, proponho trocar as cartolas compradas pela CML por auréolas para todos os portugueses. Bom ano.


TOP-5

Financiamentos

1. Costa faz as últimas compras de Natal no mercado de rua do Príncipe Real – Se estivesse na Raríssimas…

2. Braga. Dois anos e quatro meses de prisão efectiva por roubo de tablet – O Salgado roubou o equivalente a meia Apple.

3. Empregados de lar de idosos ganham 10 milhões na lotaria de Natal de Espanha – Lá vão os velhotes ficar sozinhos.

4. Doces e salgados proibidos nos hospitais – Só entra legionela.

5. Portugal perto de défice zero até Setembro – Vão distribuir dividendos por todos.

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3 pensamentos sobre “Quanto mais me financias, mais gosto de ti

    • O Jacinto, não, não é o de ‘A Cidade e as Serras’, é o o do leite ou do lête, como falam os alentejanos, o do capelo, e aqui já estamos mais próximos do Largo do Caldas e da Santa Madre Igreja e o do rego, fora o Hospital.Este Jacinto tem sete fôlegos como os gatos. Desconfio que vai durar ainda uns tempinhos. Claro que ‘A Bem da Nação’. Que saudade dos bons velhos tempos de outrora, em que não havia luta de classes.

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