Como se reconhece um fascista

(António Guerreiro, in Público, 15/09/2017)

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António Guerreiro

Confirmei na semana passada a existência de um exemplar da espécie: chama-se Henrique Raposo e é cronista do Expresso.


No nosso tempo, não é fácil reconhecer um fascista: porque eles não ousam dizer o seu nome ou nem sequer sabem que o são; porque um antifascismo demasiado espontâneo provocou uma inflação demagógica dessa classificação e retirou-lhe todo o rigor.

O critério de reconhecimento do fascismo, disse uma vez Deleuze, é este: “Alguém que diz ‘viva a morte!’ é um fascista.” Raposo não satisfaz todos os critérios de definição de um fascista, mas está dotado do afecto fascista que encontra beleza na morte. É verdade que se trata da morte de animais e não de homens, mas a máquina antropológica do humanismo (que Raposo defende de maneira acérrima), aquela que exacerba a diferença zoo-antropológica, é exactamente o mesmo dispositivo que serviu para exterminar os judeus.

O melhor vem a seguir. Henrique Raposo desenvolve a sua ideia de uma mística da caça e da morte do animal como um sacrifício onde se manifesta a categoria estética da beleza. E fazendo o elogio de umas declarações do cozinheiro Ljubmir Stanisic, sentencia: “Ljubmir Stanisic e Anthony Bourdain [são] cozinheiros que não pedem desculpa por serem homens, heterossexuais e carnívoros.”

Na sequência lógica do grito necrófilo vem a virilidade ostensiva, a afecção fascista do pensamento viril. O fascista “tem colhões” e gosta de os mostrar. Isto é suficiente para definir um pequeno fascista. Ele só se torna um pouco maior quando usa continuadamente a estratégia do espantalho universal, isto é, a estratégia que consiste em fundir as grandes questões políticas, sociais e morais (o fascista é sempre hipermoral) nos problemas privados e da vizinhança. Trata-se de categorizar os grandes sujeitos colectivos a partir de pessoas singulares. Chama-se a isto o pathos da totalidade. Uma pequena vila do Alentejo, uma periferia urbana ou o senhor José da oficina fornecem então a Henrique Raposo a universalidade de uma visão do mundo. E só não digo Weltanschauung porque é uma palavra demasiado fascista para o nosso pequeno fascista, que começou a semana a fazer um mea culpa por causa de na semana anterior ter levado demasiado longe a sua estratégia do espantalho universal da pedofilia (o espantalho eram, então, os educadores de infância masculinos). Ora, um fascista, ao contrário do pequeno fascista que apresenta algumas afecções da estrutura psicológica do fascismo, nunca se arrepende.

A tirania da luz

(António Guerreiro, in Público, 08/09/2017)

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António Guerreiro

Um longo e interessante artigo do astrofísico Raul Cerveira Lima, Deixar a Noite Ser Noite, publicado neste jornal no domingo passado, faz-nos perceber, com eloquência analítica, um tipo de poluição que se esconde no seu excesso de visibilidade: a poluição luminosa. É hoje difícil, mesmo em zonas do Alentejo interior, diz Raul Cerveira Lima, encontrar condições para contemplar o esplendor da noite porque a luz artificial das cidades e das vilas propaga-se a todo o lado. Até nos campos, onde quer que exista uma casa, foram disseminados postos públicos de luz. Estamos submetidos a uma tirania da luz, mas essa tirania não começou no nosso tempo nem é explicável apenas como um resultado da urbanização generalizada e da colonização tecnológica: ela tem atrás de si uma longa história filosófica, cultural e política. Goethe, ao morrer, pediu mais luz, “mehr Licht”. E essa exigência, que poderia ser apenas a resistência de um homem de muita idade à extinção, ganhou uma outra dimensão. No pensamento ocidental, um traço fundamental é a relação entre a luz e a razão, e entre a sombras e o irracional. Daí que se tenha considerado a luz, enquanto metáfora da verdade, uma “metáfora absoluta”, instrumento de organização do nosso mundo, como se pode perceber nas palavras e expressões que serviram para designar certas épocas: a Idade Média foi designada durante séculos como Idade das Trevas por se entender que não procurava a claridade racional. E o Iluminismo, ou Idade das Luzes, foi a designação metafórica para uma época que inaugura a razão crítica moderna, com a sua ideia de secularização, de progresso histórico e de emancipação através do saber. Na base da tirania da luz, de que sofremos hoje, está evidentemente o “ocularcentrismo”, um conceito que designa o privilégio epistemológico concedido à visão: ver é o fim — o objectivo — e o critério do pensamento.

Impedir que a noite seja noite tem sido o desígnio alcançado com grande eficiência pelo capitalismo contemporâneo. Dessa conquista, tratou um ensaísta e crítico de arte americano, chamado Jonathan Crary, num livro de 2013 intitulado 24/7. Late Capitalism and the Ends of Sleep. Crary descreve e analisa este mundo que permanece em funcionamento vinte e quatro horas durante os sete dias da semana, para que a produção e o consumo não tenham interrupções. Para conquistar o tempo inútil do sono, para erradicar o shabbath e impor um tempo homogéneo sem feriados nem dias festivos, impôs à noite luzes cada vez mais fortes.

A extinção da noite é um fenómeno das grandes metrópoles, como Nova Iorque, difundido como uma tendência universal. Quem primeiro intuiu o que se estava a passar foi Pasolini, que num célebre texto de Fevereiro de 1975, publicado no Corriere della Sera, atribuiu um significado apocalíptico ao desaparecimento dos pirilampos por causa da poluição química e da poluição luminosa (a claridade dos “ferozes projectores”): tratava-se, nas palavras de Pasolini, da consumação de um “genocídio cultural”. Hoje podemos perceber que a tirania da luz é uma necessidade básica da sociedade da atenção e da mobilização permanentes.

O estado de vigilância (fomentado e garantido por um Estado vigilante e pela governamentalidade que lhe corresponde) e a exigência securitária impuseram-se como imperativos aos indivíduos e às instituições. E isso requer luz, cada vez mais luz. É preciso que todos estejamos acordados e, além disso, não nos ponhamos a olhar para as estrelas, perdendo o pé na superfície acidentada da terra, como aconteceu ao distraído astrónomo e protofilósofo Tales de Mileto.

O sexo, essa coisa obsoleta

(António Guerreiro, in Público, 01/09/2017)

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Talvez Cristiano Ronaldo seja a figura da neutralização do desejo, da banalização do sexo, e o seu corpo seja uma paródia do erotismo.


Na guerra dos homossexuais pelo reconhecimento, de onde a sexualidade emerge como um problema político, uma das palavras de ordem que perduram é aquela que já nos finais do século passado foi amplificada nas ruas de algumas cidades norte-americanas: “We’re queer, we’re here, so get fuckin’ used to it” (tradução livre e muito puritana: “Somos bichas, aqui estamos, vão ter que se habituar”). De maneira muito mais moderada, mas ainda assim provocando atritos públicos, esta frase começou há pouco tempo a ser declinada em Portugal. Devemos perceber que ela não tem apenas o seu significado literal: significa também que a sexualidade só pode criar uma identidade colectiva e individual quando lhe é conferido um sentido para isso, quando se acredita que é possível dar-lhe um sentido que excede qualquer descrição científica e respeitante ao comportamento. O ideal de uma homossexualidade completamente despolitizada e silenciosa, subtraída às guerras do reconhecimento, é a mais profunda aspiração dos defensores de uma ordem antiga que se disfarça com roupagens modernas. Devemos perceber que essa despolitização chegou a todas as formas de sexualidade e produziu uma sexualidade branca, isto é, uma banalização eminente do sexo. Essa banalização não se mede pelas práticas nem por um critério contabilístico, mas pelas representações no espaço público, pelo fluxo de imagens e palavras a que dá origem. Talvez percebamos melhor o que se passa se prestarmos atenção a um desaparecimento notável: o desaparecimento do “desejo”. Não do impulso e da força com esse nome (ou, pelo menos, não completamente), mas da palavra que os designa. Esta foi uma palavra-maná na literatura e na teoria que floresceram depois do Maio de 68. O desejo estava por todo o lado, era um investimento colectivo, uma pandemia. Não se falava de outra coisa: da lírica provençal a Marguerite Duras, o desejo era o motor que movia a palavra literária e garantia que ela tinha uma força que não podia ser codificada. Quem ler muitos dos estudos literários dessa época será levado a perguntar: “Mas aquela gente não pensava noutra coisa?”. Foi aliás neste contexto que Deleuze e Guattari criaram o famoso conceito de “máquinas desejantes” (por sinal, num livro chamado O Anti-Édipo) que alimentou a mais fecunda imaginação teórica de uma geração que tinha começado a substituir a revolução pelo desejo, condescendendo às vezes num flácido “desejo de revolução” — um estado em que nunca chega ao momento de satisfação. Como sabemos, tudo isto acabou num enorme desencanto e numa profunda “crise do desejo”, diagnosticada com todo o rigor e seriedade, mas que hoje já nem conseguimos vislumbrar o que é. O que podemos hoje perceber é que o sexo se tornou uma coisa completamente obsoleta. Tão obsoleta como a alma. Ele já não é a fonte dos fluxos de desejo, e até a reprodução se cumpre por meios completamente artificiais, sem vínculos com a sexualidade.

Um ilustre representante destes tempos do sexo obsoleto é o Cristiano Ronaldo: não por ter escolhido a procriação assexuada (ou, pelo menos, não exclusivamente por causa disso), mas porque fez do seu corpo uma fortaleza encerrada em si mesma, sem portas nem janelas, como uma mónada.

Por ali, não entra nem sai o desejo. O mais sexy dos futebolistas tornou-se um holograma, uma imagem descarnada. O seu corpo erótico foi impregnado de um excesso que o empurra para além dos seus fins e o anula na paródia do erotismo. Nem gay nem hetero, Cristiano Ronaldo é um género singular. Prova de que a teoria do género não é uma impostura intelectual.