A política, sob o signo da empatia

(António Guerreiro, in Público, 26/01/2018)

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António Guerreiro

A entrada da palavra “empatia” na linguagem corrente é um fenómeno que não tem mais do que uns vinte anos. Na bolsa de valores lexicais, a “empatia” conquistou uma massa de investidores que deixaram cair a “simpatia” nos índices de baixo apreço e escassa fluidez. E assim a palavra deixou de ter um uso erudito e científico enquanto conceito da Estética (surgido na segunda metade do século XIX), da Psicanálise (com Freud) e da Fenomenologia (com Husserl), para se alojar na fala quotidiana que prolonga em casa e na rua o idioma mediacrático.

A imitação como lei fundamental dos tropismos sociais, que Gabriel Tarde – um sociólogo pioneiro – analisou ainda no final do século XIX, é um automatismo maravilhoso de se ver, quando age como uma força cega, sem origem nem destino, e comanda os contágios afectivos que se difundem na neblina. Alguém que estudasse a história semântica da palavra “empatia” enquanto ideia, iria perceber que é preciso ligar a fortuna muito recente dessa palavra ao triunfo dos afectos públicos. As afecções que dantes eram da ordem do privado e só na arte – ou pouco mais – ganhavam uma elaboração pública e eventualmente colectiva (como acontece, por exemplo, no teatro), configuram hoje toda a esfera pública: da publicidade à indústria da comunicação, das sociedades empresariais (que chamam “colaboradores” aos trabalhadores e integraram as técnicas do management afectivo) à vida política. Em suma: do capitalismo afectivo à política dos afectos. O que podemos facilmente perceber é que a afecção, sob o nome mágico de “empatia”, está terrivelmente inflacionada na teoria e nas práticas contemporâneas.

Por cá, a “empatia” tornou-se também um valor muito apreciado e um ideal a perseguir, bem visível nesse aparelho de captura que são os afectos sub specie política. Dantes, bastava aos políticos parecer simpáticos; agora, têm de ser empáticos. Falo aqui dos afectos não como um cínico que é impermeável aos seus efeitos e os recusa de maneira ácida, mas como alguém que muitas vezes se sente capturado. Essa gaia política até nos pode encher de júbilo nos momentos em que aspiramos por um suplemento, mas o preço que pagamos por ela é alto e não podemos esquecê-lo.

Sem prescindirmos dos afectos, melhor seria que eles não contaminassem a política. O que é afinal uma política dos afectos? É a última estação da despolitização moderna, da neutralização do político. É o ideal do consenso (palavra cujo sentido é muita próximo de “empatia”), realizado por meio de automatismos pouco racionais. É, na sua dimensão de espectáculo, a produção de experiências pré-fabricadas.

Em última análise, o investimento afectivo na esfera pública (não apenas aquela a que a política dá forma), tal como ele hoje é feito por meios poderosos (veja-se como emerge por todo o lado um populismo digital que depois se transmite a todos os domínios da experiência cultural, social e política), faz-nos regressar aos sonâmbulos de Tarde, magnetizados por emoções que se difundem como manchas de óleo no corpo social. Uma tarefa da política à altura do nosso tempo deveria consistir em interromper esta lógica e não em potencializá-la. A política e o capitalismo afectivos criaram as condições para um regresso à “ética”, que se tornou uma musa de invocação. A ética, neste caso, seguindo uma tradição moderna, é mais ou menos sinónimo de moralidade e acaba por se tornar uma “ideologia”. Na vida política, mais vazio e neutralizante do que o discurso afectuoso, é o da “viragem ética”, sob o qual se esconde um outro aparelho de captura que funciona em sintonia com o primeiro, o da empatia.

 

A Internet, uma nova religião

(António Guerreiro, in Público, 19/01/2018)

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Evgeny Morozov é o autor de um bestseller publicado em 2013, nos Estados Unidos, intitulado To Save Everything, Click Here. Este especialista das implicações políticas e sociais da tecnologia nasceu na Bielorrússia, viveu em Berlim e instalou-se depois nos Estados Unidos. Morozov é um crítico, com muito humor, da tecno-utopia e denuncia no seu livro aquilo que ele classifica como uma “ideologia” com duas feições complementares: uma é o “Internet-centrismo” e outra é o “solucionismo”. A primeira consiste na visão da Internet como um credo para a vida, uma filosofia da existência em que até se perde de vista que se trata de uma ferramenta criada por seres humanos falíveis; a segunda consiste na ideia de que a Internet fornece soluções para tudo e promete o melhoramento incessante. Nesta visão que faz da Internet um centro absoluto, é como se ela, que nasceu há tão pouco tempo, já estivesse fora da história, elevada à condição de um deus supremo. Partindo de um prudente e racional tecno-cepticismo (que não se confunde com uma atitude passadista e reaccionária), Morozov critica a ideologia da transparência e a busca compulsiva da certeza e da perfeição, ao mesmo tempo que nos adverte de que devemos desconfiar das “soluções” com as quais os “problemas” são identificados, já que a faculdade suprema da Internet é a de inventar  os problemas que ela parece resolver. Os promotores da “ideologia” analisada por Morozov projectam na Internet certos valores que eles imaginam que são como uma “natureza” própria dela – valores intrínsecos, em suma, e imperativos de eficiência. Para a ideologia do “Internet-centrismo” o conhecimento é criado através da recolha de dados e da análise algorítmica; e a quantificação minuciosa da existência é o caminho para a autoconsciência. Os médicos são provavelmente a classe profissional que mais se confronta com os malefícios e perigos desta “ideologia”: os doentes chegam à consulta já com o diagnóstico feito, bastou ir à Internet e fazer uma busca pelos sintomas.

Podemos mesmo deduzir desta nova forma cumulativa de conhecimento uma concepção da história que não anda longe de um certo hegelianismo. Deste modo, Silicon Valley, que é o lugar sagrado para onde se voltam, nas suas orações, os devotos do credo de que fala Morozov, pode ser visto como o lugar de realização do Espírito Absoluto, na época em que ele se realiza sob a forma de sociedades tecnológicas. Silicon Valley integra actualmente as cinco empresas mais rentáveis do mundo. E conseguiu este milagre, do qual também fala Morozov: enquanto Wall Street se tonou um alvo do descontentamento público dos cidadãos, símbolo da corrupção institucional e sinónimo de práticas de exploração desenfreada, Silicon Valey é uma verdadeira indústria “Teflon”, essa matéria plástica que repele tudo: por muito grande que seja a quantidade de porcaria que lhe seja lançada, nada lhe fica colado à pele. Os patrões destas empresas têm uma imagem pública que hesita entre dois pólos: são anarcas e heterodoxos ou os máximos representantes da nova ordem? São filantropos ou máquinas tão poderosas de absorção que estão para além de todos os fins que possamos conceber para a riqueza e tornaram-se a medida do incalculável e exemplos do sublime matemático?

A verdade é que as empresas de tecnologia funcionam cada vez mais segundo o modelo do tecno-populismo (do qual, a chamada “economia da partilha” é um exemplo eloquente): apresentam-se como puras e virgens, cultivam uma imagem de benfeitoras. E até se dão ao luxo de nos convencer que têm um efeito de “disrupção” (como se diz hoje) do capitalismo mundial.

 

A geração delapidada

 (António Guerreiro, in Público, 12/01/2018)

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António Guerreiro

Há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções.


Anunciando a intenção de perscrutar o futuro, de “saber o que aí vem e quem serão os grandes protagonistas das mudanças que se seguem”, e evocando a seguir uma sabedoria antiga segundo a qual “os velhos dão invariavelmente lugar aos novos”, publicou o Expresso, na sua última edição, o resultado de um desafio lançado “aos nossos consagrados” para identificarem uma figura que seja uma promessa que no futuro se irá cumprir. Este exercício é um entretenimento, um jogo que só não é tão inocente como parece porque sabemos bem que esta corrida para não falhar a nova época é uma forma de nos roubar o tempo, transformando-o imediatamente em história.

No jogo, notei que dois dos “nossos consagrados”, António Lobo Antunes e António Barreto, apostaram respectivamente no poeta João Luís Barreto Guimarães, que nasceu em 1967 (tem 50 anos), e no historiador, ex-deputado europeu e fundador do Livre, Rui Tavares, que nasceu em 1972 (tem 45 anos); notei ainda que o artista Igor Jesus, que ainda não tem 30 anos, apostou no consagrado Rui Chafes, que nasceu em 1966, invertendo assim os papéis; notei que Jorge Silva Melo levou o jogo a sério e apostou em três jovens (“gente decidida, tenaz, inventiva”, isto é, com qualidades próprias de um espírito juvenil) que “estão a começar, claro, não têm casa, não têm dinheiro, não têm nada” (são eles João Pedro Mamede, Nuno Gonçalo Rodrigues e Catarina Salgueiro); notei ainda que o professor Carlos Fiolhais escolheu uma bióloga de 44 anos, Mónica Bettencourt Dias, que já é directora do Instituto Gulbenkian de Ciência.

A julgar pelos resultados deste “jogo”, que tem a eloquência dos sintomas, a não ser no teatro o futuro não pertence aos jovens. Há uma geração inteira de espoliados e obrigados ao silêncio que, em dia de festa (o Expresso fazia 45 anos), pode ter direito a ser nomeada por um patriarca que selecciona algum dos seus elementos para ilustração dos filisteus. E quando os patriarcas escolhidos para a missão envergam a máscara da “experiência”, da maturidade, da razão e da boa vontade (poderosa ideologia!), então não aparece sequer um exemplar jovem no horizonte e todo o filistinismo surge encarnado na personagem de um velho (a velhice que não tem idade), para o qual o futuro só pode pertencer a um “realista sensato” (é assim que António Barreto define Rui Tavares, que já não é jovem e envelhece bastante neste retrato) ou a um poeta que, pelo que nos diz António Lobo Antunes, é um homem com qualidades, adorável, modesto e quente (foi esta a impressão que deixou ao Grande Escritor, quando o visitou em Lisboa, acompanhado pela mulher e pela filha).

Eis como de um jogo inocente se chega a um assunto sério: há uma geração jovem que não tem direito a existir, que não pode ter esperanças e ideais como tiveram aqueles que de vez em quando lhe passam certificados de inexistência, com umas alíneas a nomear as excepções. É uma geração privada de época, de sonhos, de projecções de um futuro possível.

Apetece evocar as palavras que serviram ao linguista russo Roman Jakobson para definir o que aconteceu aos poetas russos dos anos 1920, Maiakovski, Blok, Essenine e outros. Eles pertenceram a uma “geração que delapidou os seus poetas” — aqueles que, tendo participado na revolução, foram capazes de compreender, com uma consciência trágica, o rumo que esta tinha seguido. Morreram todos entre os trinta e os quarenta anos. A esta juventude de hoje, delapidada, rasurada, silenciada, já não é concedido o sentido do trágico, nem sequer a vontade de gritar que “a pátria da criação é o futuro, de onde sopra o vento dos deuses do verbo” (Maiakovski).