O fascismo e os seus avatares

(António Guerreiro, in Público, 12/04/2024)

António Guerreiro

Muitas diferenças separam as novas direitas radicais dos seus antepassados dos anos 1930, mas não conseguimos prescindir completamente do conceito de “fascismo”.


Quando observamos as tentativas para tornar inteligível através de conceitos (à maneira de Reinhart Koselleck, o fundador da “história dos conceitos”) os elementos políticos, sociais e culturais que desenham a história das últimas décadas, verificamos que não se tem ido muito além de um uso imoderado dos prefixos “pós” e “neo”, acrescentados a conceitos quase sempre fixados desde as primeiras décadas do século passado. A “tonalidade” dessa época parece ser uma herança que não foi superada e nos cabe ainda administrar. Ou então tornámo-nos linguisticamente pobres e repetitivos.

Estas actualizações terminológicas feitas à custa de partículas que se limitam a modalizar o sentido de velhos conceitos alcançaram uma nova etapa nos neologismos formados com um prefixo de negação. É o caso de “iliberal”, para designar uma democracia – a “democracia iliberal” –, que já não se ajusta bem ao seu nome, mas para a qual ainda não se fixou um nome próprio; e é também o caso de “afascista”, palavra usada num livro italiano recente intitulado precisamente Democrazia afascista, da autoria de Gabriele Pedullà e Nadia Urbinati. É com esta palavra (cuja primeira ocorrência já vem de Mussolini) que os autores do livro reconstroem a ascendência e o parentesco político de Giorgia Meloni, a primeira-ministra italiana. Enquanto laboratório político, a Itália não podia deixar de ser também um laboratório terminológico. Ao fascismo e ao antifascismo, acrescenta-se agora o afascismo, que introduz um novo rosto nessa família polimorfa.

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Meloni nunca usou tal palavra. Mas suscitou-a no seu discurso político, no modo como tem gerido as suas relações com o fascismo histórico, enquanto líder de um partido, Fratelli d’Italia, que descende directamente do Movimento Social Italiano. O ponto de partida dos dois autores do livro é uma carta, um verdadeiro manifesto ideológico, que Meloni escreveu há cerca de um ano, publicada no Corriere della Sera.

Nessa carta, Meloni diz que o seu partido não cultiva nenhuma nostalgia pelo passado fascista e que, não se reclamando do fascismo, a direita que ela representa está em condições de considerar que o antifascismo, a bandeira que se tem erguido contra ela, é uma coisa anacrónica, uma arma de exclusão, um resíduo inútil de uma história e de uma cultura política que pertencem ao passado. Se o fascismo desapareceu de uma vez por todas, então brandir a arma anacrónica do antifascismo só serve para condicionar a democracia e amarrá-la aos vestígios do passado.

Meloni nunca usou tal palavra. Mas suscitou-a no seu discurso político, no modo como tem gerido as suas relações com o fascismo histórico, enquanto líder de um partido, Fratelli d’Italia, que descende directamente do Movimento Social Italiano. O ponto de partida dos dois autores do livro é uma carta, um verdadeiro manifesto ideológico, que Meloni escreveu há cerca de um ano, publicada no Corriere della Sera.

Nessa carta, Meloni diz que o seu partido não cultiva nenhuma nostalgia pelo passado fascista e que, não se reclamando do fascismo, a direita que ela representa está em condições de considerar que o antifascismo, a bandeira que se tem erguido contra ela, é uma coisa anacrónica, uma arma de exclusão, um resíduo inútil de uma história e de uma cultura política que pertencem ao passado. Se o fascismo desapareceu de uma vez por todas, então brandir a arma anacrónica do antifascismo só serve para condicionar a democracia e amarrá-la aos vestígios do passado.


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Des-Natal é que é!

(António Guerreiro, in Público, 23/12/2023)

António Guerreiro

A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.


É Natal. É tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o “Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente para uma mobilização total.

Ainda a Itália, o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea, impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de onde na verdade nunca saíram.

Agora, já não se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”, pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis Italiae”.

Nele se afirma: “Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria precisão a data do fim, este é a Itália (…). A perdurar, este declínio [demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua viva, como Primo Levi a lia em Auschwitz ao seu companheiro Pikolo.”

Evidentemente, os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a fazer a sua “viagem a Itália”).

A preocupação é de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política, mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou positiva.

A questão fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa “dívida” e “culpa”?).

O débito público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida, isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o colapso.


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Tempo dos balanços

(António Guerreiro, in Público, 15/12/2023)

António Guerreiro

Os balanços são uma máquina cruel de produzir passado. São a “magia negra” do jornalismo a desafiar a historiografia.


Final do ano, tempo de “balanços”. Na cultura, na política, na economia – todas as áreas são submetidas a uma recapitulação, como se o calendário anual, o início e o fim do ano civil, correspondesse a um ciclo da história, a um antes e um depois capazes de sinalizar uma época autónoma rigorosamente delimitada. De onde vem e como se impôs esta mania de fazer esboços cartográficos espontâneos, determinados pelos caprichos da memória e pela lógica do jornalismo, dos últimos 365 dias do ano?

Evidentemente, trata-se de um “género” jornalístico que não pode ser confundido com a historiografia. Mas falharíamos o seu significado se não percebêssemos que este fenómeno de superfície é uma manifestação sintomática de uma formação de sentido muito mais profunda: os balanços anuais são uma versão popular da tendência do nosso tempo para escandir o tempo histórico contemporâneo em épocas.

Já se disse até que nós somos a “época das epoquizações”. Muitas das “novas” épocas anunciadas acabaram por não trazer nada de novo. O 11 de Setembro, olhado à distância de pouco mais de 20 anos, marcou porventura uma nova época, uma cesura na história universal, como se afirmou na altura com toda a convicção? Esta mania de procurar marcos e novidades que inauguram novas épocas históricas (essa mania que também determina os balanços anuais, que são uma espécie de laicização do Juízo Final) entrou desde há muito tempo em modo de escalada aceleracionista.

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O historiador François Hartog ensinou-nos com rigor analítico e um excepcional alcance teórico que passámos de uma aceleração da história enquanto modalidade do regime moderno a uma espécie de aceleração da aceleração, isto é, uma aceleração que tem um fim em si mesma. E assim ele chega à ideia do “presentismo” – um regime de historicidade que só conhece o presente como experiência do tempo. As categorias do passado e do futuro deixam de existir.

A obsessão pelos balanços anuais (a que se juntam outros modos de escandir o tempo: as décadas, as rentrées, etc.) é uma manifestação deste regime de historicidade. A aceleração que nos faz viver exclusivamente no presente produz este efeito: as coisas mal nascem já são passado. De tal modo que nenhuma época produziu em tão pouco tempo tanto passado como a nossa. É isso que os balanços fazem, na sua maneira de trazerem à superfície um fenómeno muito mais profundo: eles são uma máquina cruel de produzir passado. São a “magia negra” do jornalismo a desafiar a historiografia.

Do futuro, resta apenas uma metáfora: o relógio fictício do apocalipse, o Doomsday Clock, que os físicos do Projecto Manhattan puseram em 1947 a contar o tempo que nos resta. Também esse relógio acelerou. No seu início, os ponteiros marcavam 23h53m. Depois, a ameaça nuclear no tempo da guerra fria fez os ponteiros avançar. Porém, depois da queda do Muro de Berlim, quando alguns “futurólogos” anunciavam o “fim da história” e o triunfo universal da democracia liberal, o relógio recuou para as 23h43. A promessa do fim dos tempos parecia estar agora mais distante e remetida para a pura condição da escatologia judaico-cristã. Actualmente, os ponteiros do relógio metafórico estão fixados em 90 segundos da meia-noite. Esse é o tempo que nos resta antes do fim do mundo, avisa o relógio que os “colapsólogos” consultam diariamente.

Deste modo, o pouco tempo que nos resta é um tempo que falta. E o tempo que falta é necessariamente um tempo dos balanços. Já não há tempo para mais nada. Resta talvez esta última esperança, que um profeta do apocalipse nuclear, Günter Anders, formulou desta maneira: “A nossa paixão apocalíptica não tem outro objectivo senão o de impedir o apocalipse”.


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