A morte dos estudantes

(António Guerreiro, in Público, 05/06/2020)

António Guerreiro

Giorgio Agamben, o filósofo italiano vivo mais traduzido, comentado e estudado no mundo inteiro, é, desde o final de Fevereiro, quando foi decretado em Itália o estado de emergência por causa da pandemia, a figura que concita as mais violentas polémicas e alguns ódios de estimação. Tornou-se um daqueles tios escandalosos que as boas famílias têm vergonha de exibir em sociedade.

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Primeiro, publicou uma série de textos num blog da editora de que ele próprio foi fundador (a Quodlibet, de Macerata) defendendo a ideia de que as medidas governamentais eram uma forma de instituir o estado de excepção como paradigma normal de governo, criticando ao mesmo tempo a passividade com que eram aceites as limitações da liberdade impostas por decretos privados de toda a legalidade, em nome de uma “bio-segurança” que leva ao extremo a lógica biopolítica. Ainda não se tinham extinguido os ecos, que atravessaram fronteiras, dessas intervenções em contra-corrente e já outra bomba Agamben estava a lançar, desta vez sobre a universidade: trata-se de um Requiem per gli studenti, publicado a 22 de Maio no site do Istituto Italiano per gli Studi Filosofici. Aí, tomando em consideração a medida que prolonga para o próximo ano as lições universitárias online, a didáctica à distância, vê na difusão cada vez mais alargada das tecnologias digitais a morte da ideia de universidade e afirma que é “barbárie tecnológica” a substituição da presença física por um ecrã espectral. O que o leva a declarar o fim do studentato como forma de vida e a lembrar que as universidades nasceram na Europa das associações livres de estudantes, chamadas universitates: “A vida dos estudantes era, antes de mais, uma forma de vida, em que determinante era sem dúvida o estudo e a escuta das lições, mas não menos importante era o encontro e as trocas assíduas com os outros scholarii”, ou seja, a relação entre os estudantes e entre estudantes e professores. Entoando um “requiem” por aquilo que durou dez séculos e que desde há tempos se encontrava fortemente enfraquecido e ameaçado, Agamben passa a uma analogia que indignou muita gente e pôs outra tanta a pensar: “Os professores que aceitam — como estão fazendo em massa — submeter-se à nova ditadura telemática e manter os seus cursos unicamente online são o equivalente perfeito dos docentes universitários que em 1931 juraram fidelidade ao regime fascista”. E terminava exortando os estudantes a constituírem novas universitates, recusando inscrever-se nas universidades, de modo a fazer nascer “uma nova cultura”.

Recordemos que Agamben sempre usou o seu prestígio para declarar guerra à universidade italiana (dela se retirou, aliás, prematura e orgulhosamente); e que desde há muito tempo se tinha aplicado a diagnosticar a “miséria estudantil”. Do seu ponto de vista, um dos sinais evidentes da degradação universitária é este: a “investigação”, que tem sempre em vista uma utilidade concreta, substituiu o “estudo”, uma palavra que lhe é muito querida, a cuja etimologia e história ele se refere muitas vezes, tendo mesmo escrito uma “idea dello studio” que começa pela afirmação de que “Talmud significa estudo”.

As ideias de Agamben sobre a universidade e a vida estudantil são mais facilmente compreensíveis se soubermos que elas fazem referência e devem muito a alguns textos de juventude de Walter Benjamin, escritos antes e durante a Grande Guerra, quando este filósofo alemão teve uma importante actividade nos movimentos estudantis, em Berlim. Um desses textos, de 1915, chama-se precisamente A Vida dos Estudantes e trata da “posição histórica dos estudantes e da universidade”, no momento presente, aquele em que, para Benjamin e para os seus colegas das associações livres de estudantes, se impõe uma tarefa urgente e revolucionária, com um teor de utopia que os tempos admitiam: fundar uma comunidade de homens conhecedores, em lugar de funcionários e licenciados, que deviam lutar pela arte, ao lado de escritores e poetas. A essa comunidade atribuía Benjamin um “valor espiritual”, ao qual correspondia uma “metafísica da juventude” que serviria de antídoto ao filistinismo da experiência adulta e da vida profissional. Condição indispensável da vida “espiritual” dos estudantes: a “educação erótica” que seria ao mesmo tempo uma erótica da educação.


Livro de recitações

 “Quando um festival de música não se realiza, o impacto económico para a região é brutal”
Ministra da Cultura, no programa “Prós e Contras”, RTP 1, 1/6/2020

Ao fazer esta afirmação, uma evidência de que estamos todos conscientes, a ministra teve o cuidado de legitimar os acontecimentos culturais com razões não puramente económicas (ocorrendo-lhe no entanto as questões da “identidade” que parecem mais nobres, mas não passam de mitologias, isto é, tretas), mas a verdade é que se consumou há muito o que Nietzsche formulou nestes termos: “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura”. Se é ingénuo ou quase uma alucinação defender hoje que a cultura tem de resistir a toda a “recuperação” (uma palavra muito usada por um dos expoentes dos anos 60 da “crítica da cultura”), não devemos no entanto prescindir de uma consciência crítica da “utilidade”, a qual, sabemo-lo bem, é o não-dito — mas também o mais importante e o mais coercivo — da política cultural.


A interrupção em curso

(António Guerreiro, in Público, 13/03/2020)

António Guerreiro

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Por estes dias excepcionais, iniciou-se em Itália um debate filosófico-político sobre o modo como o governo italiano está a conduzir a guerra ao coronavírus e sobre o sentido da catástrofe que chegou de repente e que muitos já a imaginam acompanhada pelos anjos do apocalipse. A Itália, que desde há quase um século tem sido considerada um “laboratório político”, acaba de dar um passo espectacular para a literalização dessa metáfora, tornando-se por fim num autêntico laboratório onde se experimentam medidas de isolamento e combate a um vírus que já tem uma difusão quase planetária.

A discussão foi inaugurada por Giorgio Agamben, num texto publicado no jornal Il Manifesto em 26 de Fevereiro, no momento em que se iniciavam os alarmes e as medidas de prevenção, mas ainda não tinha sido decretada a quarentena que começou por atingir a população da Lombardia e foi estendida poucos dias depois a todo o país até 3 de Abril, criando uma situação sem antecedentes. O texto de Agamben intitula-se Lo stato d’eccezione provocato da uma emergenza imotivada (também publicado no site da editora Quodlibet, ganha aí outro título: L’invenzione di un epidemia). É um daqueles textos que não são apenas um exercício de análise e compreensão, mas são também uma tomada de posição. E a tomada de posição de Agamben, nesse momento, era contra aquilo que ele considerava ser a instauração de “um clima de pânico, provocando um verdadeiro estado de excepção, com graves limitações dos movimentos e uma suspensão do normal funcionamento das condições de vida e de trabalho em regiões inteiras”. E, a seguir, remetia as medidas de emergência (ainda bastante limitadas, na altura, quando comparadas à decisão recente de pôr o país de quarentena) para o que ele considera ser uma tendência crescente a partir da experiência política dos totalitarismos: fazer do estado de excepção a própria regra — o paradigma normal — da governação.

Esta tese do estado de excepção que estaria a ser aplicado em Itália sem outro motivo que não seja a regra a que se conformou o modo de gestão política e governação das democracias liberais gerou uma onda de críticas e contestações. Houve mesmo quem tivesse iniciado um artigo sobre o assunto com esta frase jocosa: “Não se percebe se a chegada do coronavírus a Itália anuncia o fim da liberdade, o fim da economia ou o fim de Agamben”. Mas a contestação mais pesada veio de França, de um filósofo que em tempos podia ser incluído na mesma “constelação” filosófica de Agamben, Jean-Luc Nancy, que escreveu para uma revista online italiana chamada Antinomie um pequeno artigo dirigido ao “velho amigo” Agamben (alguma inimizade filosófica adveio entretanto, tendo como motivo a questão biopolítica, que sempre provocou grandes resistências em Nancy), onde podemos ler esta afirmação: “É preciso não errar o alvo: uma civilização inteira é posta em questão, sobre isto não há dúvidas. Existe uma espécie de excepção viral — biológica, informática, cultural — que nos pandemiza. Os governos são apenas os tristes executores dela”.

Ao falar dos perigos que ameaçam uma “civilização inteira” (perigos que vêm de uma “excepção viral” mais vasta do que aquela criada por este novo vírus), Nancy aproxima-se daquilo a que os colapsólogos franceses chamam l’effondrement, o colapso. E a pergunta que esta colapsologia de largo espectro suscita é esta: o que é hoje o apocalipse, para nós? Até há poucas semanas, ele era, sobretudo, o desastre ecológico, a perspectiva de um mundo sem nós.

Quanto a apocalipses económicos, uma longa história já nos habituou às crises cíclicas, a convicção generalizada é aquela que foi formulada desta maneira: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Mas eis que, de repente, se apresenta uma emergência epidémica, um vírus que viaja nos mesmos circuitos globalizados da economia. E acontece algo completamente inesperado: o mundo seguia o seu curso a alta velocidade, conforme à lei instituída desde os primeiros tempos da modernidade, era impensável que algo viesse interromper o seu curso, e de repente dá-se uma interrupção.

O apocalipse, começamos a perceber, dá-se sob a forma da interrupção: interrupção, por exemplo, do fluxo turístico em Veneza, que antes colapsava sob o peso do turismo e hoje colapsa sob a forma de uma cidade-fantasma.


Livro de recitações

“[Importa] desconstruir uma imagem tradicionalmente masculina que durante muitos anos foi a única que a Defesa Nacional e as Forças Armadas reflectiram”
João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, um PÚBLICO, 4/3/2020

Mirabile dictu, coisa espantosa de dizer-se, diriam os latinos se ouvissem o nosso ministro da defesa usar a palavra “desconstruir”, se assistissem a esta familiaridade com que um ministro usa publicamente a palavra que se tornou um emblema do pensamento do filósofo Jacques Derrida, a palavra com que outro filósofo francês menos conhecido tinha traduzido, de Heidegger, a palavra alemã Abbau. É verdade que as palavra “desconstruir” e “desconstrução”, sabe-se lá por que vias, já não estão confinadas ao discurso filosófico. Mas o nosso ministro, manifestamente, queria ir além deste uso comum e, com um alto treino no pensamento da “desconstrução”, o que ele queria mesmo dizer e só não disse porque a circunstância exigia contenção e pudor, que é preciso desconstruir o falogocentrismo das Forças Armadas (o phallus e o logos andam sempre a par: é o que se chama pensar com a cabeça de baixo).


Um nome impróprio

(António Guerreiro, in Público, 31/01/2020)

António Guerreiro

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Desde que o CDS tem um novo Presidente cujo apelido passou a ser publicamente usado (ou ele nasceu na esfera pública e nunca teve outra existência anterior?), tornou-se possível lermos um título como este: “Não há mulheres na direcção de Chicão” (revista Sábado, 26/01/20). Quem proclamou a vontade de tornar o CDS “um partido sexy”, recebeu imediatamente em troca a insinuação de que no território a que ele preside com mandato de super-macho, outorgado num nome — Chicão — cheio de evocações adjectivas e sugestões onomatopaicas, as mulheres não entram. Antes da desejada viragem sexy, já se instalou um vago ambiente pornográfico e misógino.

Um comentário a esta frase merece ser posto em contraponto ao que escrevi no texto ao lado. A “vítima” de uma nomeação vagamente injuriosa no espaço público mediático parece não compreender nada do funcionamento do discurso e converte em nome comum um nome próprio — ele, que passou a carregar no nome próprio o que de comum os outros encontraram na sua pessoa. Que curiosa simetria! Joacine está de facto do lado oposto: é alguém que foi publicamente despojada do seu nome próprio e passou a designar uma série de nomes comuns, muitos deles insultuosos. O nome comum que Francisco Rodrigues dos Santos lhe atribui é apenas mais um de uma série deles. “Joacine”, o nome, já não designa uma pessoa, designa uma entidade construída colectivamente, de maneira maciça e em série. E hoje, basta dizer “joacine” e já estamos a praticar um acto.

A minha análise não incide sobre aquilo que Francisco Rodrigues dos Santos disse ou fez, mas sobre a sua condição de “objecto” de um discurso, sem procurar saber de que modo e em que medida contribuiu para ele. O nome “Chicão” não tem nada de neutro, está muito perto da injúria ou, pelo menos, da interpelação violenta. É um nome que constrói, por si só, um sujeito político, tal como a palavra “geringonça” era um juízo depreciativo do governo que nasceu de apoios parlamentares inéditos. E é muito interessante saber se tal apelido e o sujeito político que ele constrói trarão benefícios ou malefícios a quem é assim nomeado; e se o novo Presidente do CDS vai conformar-se sem resistências ao nome, como se ele não fosse uma ferida, mas um motivo de orgulho, ou, pelo contrário, se vai esvaziar o nome de qualquer legitimidade.

Mas, por enquanto, o que interessa perceber é que há um discurso jornalístico que nomeia com gáudio um líder partidário com um nome que não é como os nomes próprios que não têm nada de descritivo. “Chicão” tem um significado que toca no imaginário. Ele vale por uma diferença negativa em relação ao nome civil da pessoa que é assim nomeada, na medida em que chamar “Chicão” a alguém, publicamente e não num contexto familiar ou de camaradagem, é vagamente da ordem do insulto ou, pelo menos, da ironia.  Só quem não presta atenção ao peso e eficiência dos significantes é que não percebe isto. Tal como na filosofia e na ciência são muito importantes as decisões terminológicas, no jornalismo e na política é muito importante a nomeação (veja-se o que significou a apelido “Bochechas” para a construção da figura pública de Mário Soares). E é curioso perceber que um título como aquele da revista Sábado é para ser lido como uma denúncia do machismo retrógrado do Presidente do CDS, mas tem também outro significado muito menos evidente e nada objectivo: o poder terrível de nomear e de praticar a acção injuriosa dos nomes. Ora, o que temos visto, por parte do jornalismo, nos útimos dias, é o uso imoderado deste poder. Não se trata sequer de eleger um inimigo político, alguém que se quer aniquilar politicamente, trata-se antes de exercer com gáudio e sem distância crítica um determinado poder. Escrever ou dizer “Chicão”, quando se está a fazer jornalismo, não é uma mera e neutra nomeação: é entrar no processo de constituição de um sujeito através da linguagem. Este discurso tem uma performatividade, realiza um acto, produz efeitos: na terminologia da Linguística, chama-se “acto perlocutório”. Experimentemos repetir “Chicão” muitas vezes, para experimentarmos o que uma vez escreveu Karl Kraus: “Quanto mais se olha de perto uma palavra, mais ela parece olhar-nos de longe”.

Não faço ideia qual a relação que o dirigente partidário Francisco Rodrigues dos Santos tem com o chamado “Chicão”, não sei se ele é cúmplice da difusão pública do seu apelido, que não chega a ser injurioso, mas tem um elemento descritivo de sentido negativo. Eu posso até achar que ele merece um nome que tenha uma carga negativa ainda mais forte, mas o que eu acho e o que os jornalistas “acham” não serve o rigor que o discurso jornalístico requer. Escrevo isto não por ter qualquer simpatia pelas ideias políticas e pela atitude pública do novo dirigente do CDS, mas porque ele deve ser contestado na sede política própria e não através de uma construção feita pelo nome, que de resto talvez acabe por lhe trazer benefícios.


Livro de recitações

“No CDS não existem Joacines”
Francisco Rodrigues dos Santos, in PÚBLICO, 28/01/2020

Um comentário a esta frase merece ser posto em contraponto ao que escrevi no texto ao lado. A “vítima” de uma nomeação vagamente injuriosa no espaço público mediático parece não compreender nada do funcionamento do discurso e converte em nome comum um nome próprio — ele, que passou a carregar no nome próprio o que de comum os outros encontraram na sua pessoa. Que curiosa simetria! Joacine está de facto do lado oposto: é alguém que foi publicamente despojada do seu nome próprio e passou a designar uma série de nomes comuns, muitos deles insultuosos. O nome comum que Francisco Rodrigues dos Santos lhe atribui é apenas mais um de uma série deles. “Joacine”, o nome, já não designa uma pessoa, designa uma entidade construída colectivamente, de maneira maciça e em série. E hoje, basta dizer “joacine” e já estamos a praticar um acto.