A interrupção em curso

(António Guerreiro, in Público, 13/03/2020)

António Guerreiro

Por estes dias excepcionais, iniciou-se em Itália um debate filosófico-político sobre o modo como o governo italiano está a conduzir a guerra ao coronavírus e sobre o sentido da catástrofe que chegou de repente e que muitos já a imaginam acompanhada pelos anjos do apocalipse. A Itália, que desde há quase um século tem sido considerada um “laboratório político”, acaba de dar um passo espectacular para a literalização dessa metáfora, tornando-se por fim num autêntico laboratório onde se experimentam medidas de isolamento e combate a um vírus que já tem uma difusão quase planetária.

A discussão foi inaugurada por Giorgio Agamben, num texto publicado no jornal Il Manifesto em 26 de Fevereiro, no momento em que se iniciavam os alarmes e as medidas de prevenção, mas ainda não tinha sido decretada a quarentena que começou por atingir a população da Lombardia e foi estendida poucos dias depois a todo o país até 3 de Abril, criando uma situação sem antecedentes. O texto de Agamben intitula-se Lo stato d’eccezione provocato da uma emergenza imotivada (também publicado no site da editora Quodlibet, ganha aí outro título: L’invenzione di un epidemia). É um daqueles textos que não são apenas um exercício de análise e compreensão, mas são também uma tomada de posição. E a tomada de posição de Agamben, nesse momento, era contra aquilo que ele considerava ser a instauração de “um clima de pânico, provocando um verdadeiro estado de excepção, com graves limitações dos movimentos e uma suspensão do normal funcionamento das condições de vida e de trabalho em regiões inteiras”. E, a seguir, remetia as medidas de emergência (ainda bastante limitadas, na altura, quando comparadas à decisão recente de pôr o país de quarentena) para o que ele considera ser uma tendência crescente a partir da experiência política dos totalitarismos: fazer do estado de excepção a própria regra — o paradigma normal — da governação.

Esta tese do estado de excepção que estaria a ser aplicado em Itália sem outro motivo que não seja a regra a que se conformou o modo de gestão política e governação das democracias liberais gerou uma onda de críticas e contestações. Houve mesmo quem tivesse iniciado um artigo sobre o assunto com esta frase jocosa: “Não se percebe se a chegada do coronavírus a Itália anuncia o fim da liberdade, o fim da economia ou o fim de Agamben”. Mas a contestação mais pesada veio de França, de um filósofo que em tempos podia ser incluído na mesma “constelação” filosófica de Agamben, Jean-Luc Nancy, que escreveu para uma revista online italiana chamada Antinomie um pequeno artigo dirigido ao “velho amigo” Agamben (alguma inimizade filosófica adveio entretanto, tendo como motivo a questão biopolítica, que sempre provocou grandes resistências em Nancy), onde podemos ler esta afirmação: “É preciso não errar o alvo: uma civilização inteira é posta em questão, sobre isto não há dúvidas. Existe uma espécie de excepção viral — biológica, informática, cultural — que nos pandemiza. Os governos são apenas os tristes executores dela”.

Ao falar dos perigos que ameaçam uma “civilização inteira” (perigos que vêm de uma “excepção viral” mais vasta do que aquela criada por este novo vírus), Nancy aproxima-se daquilo a que os colapsólogos franceses chamam l’effondrement, o colapso. E a pergunta que esta colapsologia de largo espectro suscita é esta: o que é hoje o apocalipse, para nós? Até há poucas semanas, ele era, sobretudo, o desastre ecológico, a perspectiva de um mundo sem nós.

Quanto a apocalipses económicos, uma longa história já nos habituou às crises cíclicas, a convicção generalizada é aquela que foi formulada desta maneira: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Mas eis que, de repente, se apresenta uma emergência epidémica, um vírus que viaja nos mesmos circuitos globalizados da economia. E acontece algo completamente inesperado: o mundo seguia o seu curso a alta velocidade, conforme à lei instituída desde os primeiros tempos da modernidade, era impensável que algo viesse interromper o seu curso, e de repente dá-se uma interrupção.

O apocalipse, começamos a perceber, dá-se sob a forma da interrupção: interrupção, por exemplo, do fluxo turístico em Veneza, que antes colapsava sob o peso do turismo e hoje colapsa sob a forma de uma cidade-fantasma.


Livro de recitações

“[Importa] desconstruir uma imagem tradicionalmente masculina que durante muitos anos foi a única que a Defesa Nacional e as Forças Armadas reflectiram”
João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, um PÚBLICO, 4/3/2020

Mirabile dictu, coisa espantosa de dizer-se, diriam os latinos se ouvissem o nosso ministro da defesa usar a palavra “desconstruir”, se assistissem a esta familiaridade com que um ministro usa publicamente a palavra que se tornou um emblema do pensamento do filósofo Jacques Derrida, a palavra com que outro filósofo francês menos conhecido tinha traduzido, de Heidegger, a palavra alemã Abbau. É verdade que as palavra “desconstruir” e “desconstrução”, sabe-se lá por que vias, já não estão confinadas ao discurso filosófico. Mas o nosso ministro, manifestamente, queria ir além deste uso comum e, com um alto treino no pensamento da “desconstrução”, o que ele queria mesmo dizer e só não disse porque a circunstância exigia contenção e pudor, que é preciso desconstruir o falogocentrismo das Forças Armadas (o phallus e o logos andam sempre a par: é o que se chama pensar com a cabeça de baixo).


2 pensamentos sobre “A interrupção em curso

  1. «“[Importa] desconstruir uma imagem tradicionalmente masculina que durante muitos anos foi a única que a Defesa Nacional e as Forças Armadas reflectiram”
    João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, um PÚBLICO, 4/3/2020» Pois:
    A) Brandão Ferreira, Tenente-coronel Piloto aviador:
    SERÁ QUE O MINISTRO DA DEFESA ESTÁ DE POSSE DAS SUAS
    FACULDADES?
    B) Na linha dos capatazes da Defesa/FA, os incapacitados MDN:
    «Uma reforma que define um novo modelo para a DN» -Aguiar Branco (2013)
    «A reforma da instituição militar estará concluída em 2007» – Severiano Teixeira (2006)
    «O ministro está a fazer uma revolução tranquila no MDN» – Luís Amado (2005)
    C) Faltava-nos agora este capataz da pequenitude política tuga: das creches nos quartéis à salvação dos recursos humanos com o mulherio!

  2. «“[Importa] desconstruir uma imagem tradicionalmente masculina que durante muitos anos foi a única que a Defesa Nacional e as Forças Armadas reflectiram”
    João Gomes Cravinho, ministro da Defesa, um PÚBLICO, 4/3/2020»
    SERÁ QUE O MINISTRO DA DEFESA ESTÁ DE POSSE DAS SUAS
    FACULDADES?
    Z

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