Reunião Trump-Europa-Ucrânia: A Divisão do Trabalho e o Sequenciamento Estratégico

(Brian Berletic, in Reseauinternational.net, 21/08/2025, Trad. Estátua de Sal)


Após o recente encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o presidente russo, Vladimir Putin, no Alasca, e depois do encontro dos líderes europeus, do presidente ucraniano e do presidente Trump, em Washington, uma política previsível dos EUA começou a tomar forma.


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Como afirmou o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, em fevereiro passado, ao dirigir-se a líderes europeus no Grupo de Contato de Defesa da Ucrânia, a Europa foi encarregada de assumir o lugar de Washington na guerra por procuração contra a Rússia na Ucrânia, aumentando os gastos da NATO, a produção de armas e a transferência de equipamentos para a Ucrânia, permitindo assim que os Estados Unidos se concentrassem novamente na Ásia-Pacífico e priorizassem a contenção da China naquela região.

O secretário Hegseth deixou claro que o conflito seria congelado, não encerrado, e que tropas europeias e não europeias (não americanas) seriam transferidas para a Ucrânia para garantir esse congelamento, e então a Europa reorganizaria e reconstruiria as forças armadas ucranianas.

Como explicou o Secretário Hegseth, “a realidade da escasse ” impede que os Estados Unidos se envolvam direta e totalmente em dois conflitos de grande escala, com a Rússia e a China simultaneamente, exigindo o congelamento de um conflito enquanto os Estados Unidos se envolvem no outro.

O próprio facto de os Estados Unidos buscarem confrontar a China na região da Ásia-Pacífico, da mesma forma que confrontaram a Rússia na Ucrânia, demonstra um completo desinteresse numa paz real com qualquer um (ou todos) desses países. Os Estados Unidos acreditam que, se conseguirem conter a China mais cedo, poderão retornar mais tarde outras iniciativas para confrontar e conter a Rússia.

documento de 2024 da Iniciativa Maratona, “Sequenciamento estratégico revisitado“, escrito pelo ex-funcionário do governo Trump, Wess Mitchel, afirma explicitamente:

A ideia do sequenciamento é simplesmente concentrar recursos num adversário para enfraquecer a sua energia disruptiva antes de recorrer a outro, seja para o deter ou derrotá-lo“.

Mitchel também usou o termo “divisão de trabalho” em referência aos “aliados dos EUA na Europa e na região Indo-Pacífico“, um termo que o Secretário Hegseth repetiu literalmente em Bruxelas no início deste ano, revelando que “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico” são duas políticas paralelas adotadas por Washington.

Princípios Fundamentais: A Busca dos Estados Unidos pela supremacia americana

No final da Guerra Fria, como o New York Times  (NYT)  relatou num artigo de 1992: “Plano estratégico dos EUA exige garantia de que nenhum rival se desenvolva“, Os Estados Unidos buscaram criar “um mundo dominado por uma superpotência cuja posição poderia ser perpetuada por comportamento construtivo e poder militar suficiente para impedir qualquer país ou grupo de países de desafiar a supremacia americana“.

O mesmo artigo destacou a rejeição de Washington do “internacionalismo coletivo“, agora designado como “multipolaridade”.

O que impulsiona as ambições americanas de conter a Rússia e a China, tanto na década de 1990 quanto hoje, não são preocupações legítimas de segurança nacional, mas sim a preservação dos “interesses” americanos no exterior, dentro e ao longo das fronteiras desses dois países, de uma forma que os próprios Estados Unidos jamais tolerariam a qualquer outro país.

O “sequenciamento estratégico” americano também não se limita à Rússia e à China. Combinado com várias implementações da “divisão do trabalho“, visa explorar e enfraquecer qualquer país que desafie a primazia americana.

Embora o foco atualmente esteja na Ásia-Pacífico, países do Médio Oriente, América Latina e África também estão sendo alvos estratégicos.

A desestabilização da Síria, a pressão persistente sobre o Irão e os esforços contínuos para isolar países com laços com a Rússia e a China (como a Tailândia e o Camboja, no Sudeste Asiático) do resto do mundo multipolar, fazem parte desse plano maior. O objetivo de Washington é impedir a formação de qualquer aliança multipolar coesa que possa efetivamente contrariar as suas ambições hegemônicas.

Ao eliminar países um por um ou alguns de cada vez, os Estados Unidos esperam manter o seu domínio e impedir a formação de uma frente unida.

Enquanto a primazia continuar sendo o princípio unificador da política externa americana, a “busca pela paz” será simplesmente um meio de ganhar tempo para corrigir contratempos numa região e, ao mesmo tempo, redobrar esforços noutra.

A Ucrânia é a guerra da América e somente da América

Em relação à guerra na Ucrânia em si, apesar das declarações recentes do governo Trump chamando-a de “guerra de Biden” ou afirmando que “O presidente ucraniano Zelensky pode acabar com a guerra contra a Rússia quase imediatamente”, esta guerra é, na verdade, o resultado da política externa dos EUA seguida por vários governos, incluindo o do presidente Trump durante seu primeiro mandato .

Os Estados Unidos atualmente comandam as Forças Armadas ucranianas, conforme foi revelado num artigo do New York Times publicado no início deste ano. Desde 2014, a CIA (Agência Central de Inteligência dos EUA) controla e dirige os serviços de inteligência ucranianos, informou também o New York Times.

Portanto, o conflito na Ucrânia só poderá terminar quando os Estados Unidos decidirem ou forem forçados pela Rússia a fazê-lo.

Entender esses princípios fundamentais da política externa dos EUA em relação ao conflito na Ucrânia é essencial para navegar com sucesso na propaganda usada pelos Estados Unidos e pelos seus estados clientes para tentar uma “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico“.

Continuidade do programa com Trump

Desde que assumiu o cargo, o governo Trump deu continuidade a todos os conflitos e confrontos herdados do governo anterior de Biden, em busca da primazia global, incluindo a guerra por procuração liderada pelos EUA contra a Rússia na Ucrânia, o confronto com o Irão que se transformou em guerra aberta em junho passado e a expansão contínua da presença militar dos EUA na região da Ásia-Pacífico, na periferia da China e até mesmo dentro das suas fronteiras, na província insular de Taiwan.

A política dos EUA em relação à Rússia é analisada em detalhe  num artigo da RAND Corporation de 2019 intitulado “Ampliando a Rússia : competindo em terreno vantajoso“.

O documento lista medidas económicas – como “obstruir as exportações de petróleo“, “reduzir as exportações de gás natural e dificultar a expansão de oleodutos” e “impor sanções” -, medidas que foram tomadas pelos Estados Unidos na época da publicação do documento e continuam desde então, inclusive durante o primeiro governo Trump, o governo Biden e agora no segundo mandato do presidente Trump.

As medidas geopolíticas listadas no documento da RAND incluíam “fornecer ajuda militar à Ucrânia“, que começou durante o primeiro governo Trump; “aumentar o apoio aos rebeldes sírios“, que resultou no final do ano passado no derrube bem-sucedido do governo sírio pelos Estados Unidos; “promover a mudança de regime na Bielorrússia”, que a Rússia neutralizou com sucesso até agora; e “explorar as tensões no Cáucaso do Sul“, que estão atualmente a desenrolar-se no governo Trump sob a forma de um arrendamento de 99 anos de um território que provavelmente hospedará tropas americanas ao longo das fronteiras da Rússia e do Irão.

Juntas, essas políticas representam uma tentativa contínua dos Estados Unidos de cercar, conter, minar e expandir excessivamente a Federação Russa, com o objetivo final de precipitar um colapso ao estilo soviético, mesmo que os Estados Unidos finjam ter interesse na “paz” com a Rússia na Ucrânia.

Assim como no passado, assim também no futuro

Quaisquer que sejam os contratempos e as limitações, enquanto os Estados Unidos continuarem a procurar ter a primazia sobre todos os países do mundo, em vez de pactuarem com uma cooperação construtiva com eles, qualquer abertura americana em direção à “paz” com países que foram rotulados como “adversários” e “ameaças” representa um padrão bem estabelecido de pausa, reorganização, rearmamento e retomada das hostilidades, não uma mudança genuína na política.

O exemplo mais recente é a guerra liderada pelos EUA para derrubar o regime sírio. Após a intervenção da Rússia em 2015, a guerra foi suspensa. Os EUA aproveitaram a pausa para rearmar e reorganizar os seus aliados dentro e ao redor da Síria, enquanto os aliados da Síria, Rússia e Irão, foram arrastados para uma série de conflitos custosos noutros lugares. Assim que a Rússia e o Irão ficaram suficientemente enfraquecidos, os EUA retomaram os combates no final de 2024, derrubando o governo sírio de forma rápida e bem-sucedida.

O colapso da Síria foi seguido por operações militares dos EUA e de Israel contra o próprio Irão, combinadas com uma ofensiva em andamento com o objetivo de eliminar o que restava dos aliados do Irão no Líbano, Iraque e Iémen.

Uma pausa na guerra por procuração de Washington contra a Rússia na Ucrânia só desviará os esforços dos EUA para outros lugares.

Como o Secretário Hegseth indicou em fevereiro, qualquer pausa seria acompanhada por uma ocupação da Ucrânia por tropas europeias, assim como os Estados Unidos e a Turquia ocuparam a Síria. Isso incluiria o rearmamento e a reorganização das Forças Armadas ucranianas — como mencionado especificamente na recente reunião EUA-Europa-Ucrânia em Washington — e a retoma das hostilidades posteriormente, quando os fatores forem novamente favoráveis ​​a Washington.

Não é apenas isso que as declarações do Secretário Hegseth sobre uma “divisão de trabalho” e “sequenciamento estratégico” implicam, mas é também o que os Estados Unidos têm feito durante a Guerra Fria e que continuam a fazer atualmente.

Durante o governo Bush Jr., é sabido que os Estados Unidos procuraram derrubar os regimes de vários países do Leste Europeu, bem como da Geórgia, na região do Cáucaso. Em 2003, os Estados Unidos derrubaram com sucesso o governo georgiano, assim como o governo ucraniano em 2014. Tal como na Ucrânia, os Estados Unidos começaram a reorganizar e a fortalecer as forças armadas georgianas e, em 2008, após a conclusão de uma investigação da UE , a Geórgia lançou uma guerra curta e malsucedida contra as forças russas.

No ano seguinte, já no governo Obama, os Estados Unidos buscaram “reiniciar” as relações EUA-Rússia, com a ex-secretária de Estado americana Hillary Clinton, literalmente entregando ao ministro das Relações Exteriores russo Sergei Lavrov um botão físico de “reinicialização” simbolizando o novo relacionamento.

Na realidade, os EUA estavam simplesmente a tentar ganhar tempo e espaço para se prepararem para a próxima rodada de provocações, o que fizeram a partir de 2011, dividindo e destruindo grande parte do mundo árabe, incluindo ataques contra os aliados da Rússia, Líbia e Síria, e derrubando com sucesso o governo ucraniano em 2014, juntamente com o “pivô para a Ásia” dos EUA, que começou durante o governo Obama e continua até hoje.

Não apenas as políticas atuais dos EUA parecem ser unicamente o episódio mais recente de um ciclo de apresentação como um ator de paz enquanto se preparam para a próxima etapa do confronto, mas os EUA praticamente declararam que congelar o conflito na Ucrânia tem a intenção de ganhar tempo e espaço para dar prioridade à contenção da China, o que implica que, após isso, retornarão para se oporem à Rússia na Ucrânia.

Só o tempo dirá até que ponto a Rússia aceitará ou interromperá as tentativas dos EUA implementarem uma “divisão de trabalho” em relação à Ucrânia, a fim de executarem um processo de “sequenciamento estratégico” visando derrotar a Rússia, a China e os seus aliados, e se o resto do mundo multipolar se unirá o suficiente para ajudar a Rússia ou se se deixará dividir e distrair por esforços semelhantes dos EUA para interromper e desestabilizar os seus respectivos países.

O cálculo da Rússia será baseado na sua confiança em continuar a Operação Militar Especial (OME) até à sua conclusão, no colapso do exército ucraniano e no derrube do regime fantoche instalado pelos EUA em Kiev desde 2014, ou na necessidade de aceitar uma pausa que Moscovo acredita que pode aproveitar melhor do que o Ocidente coletivo e confrontar os EUA e seus representantes no futuro a partir de uma posição ainda mais forte.

A Rússia pode estar a procurar libertar recursos para o seu próprio “pivô” a fim de auxiliar aliados como Irão e a China, enquanto os Estados Unidos voltam a sua atenção para o leste. Ao contrário dos Estados Unidos, porém, a Rússia não possui uma longa lista de Estados-clientes que possa recrutar para gerir um conflito enquanto se desloca para outro, como Washington pode e já faz.

O futuro do mundo multipolar pode depender tanto de ajudar os países a impedir a sua captura e exploração política pelos Estados Unidos quanto da cooperação entre os países multipolares para se defenderem contra a invasão, coerção e captura pelos EUA.

O teste definitivo para a Rússia e o mundo multipolar emergente reside não apenas na capacidade de resistir aos desígnios dos EUA contra eles, mas também na capacidade de voltar essa estratégia contra\ Washington. Se a Rússia conseguir realizar com sucesso a sua operação militar especial na Ucrânia, ao mesmo tempo em que fortalece as suas alianças com países como a China e Irão, poderá tornar a “divisão do trabalho” desnecessária.

Da mesma forma, se a China usar esse período para consolidar a sua influência regional e aprofundar os seus laços com países fora do bloco ocidental, os Estados Unidos verão a mudança do seu foco para a Ásia-Pacífico perder muita da sua eficácia.

O cenário geopolítico atual é um jogo de xadrez geopolítico de alto risco, e se os Estados Unidos acreditam que podem encurralar os seus rivais um por um, um xeque-mate coordenado ao mundo multipolar que pode encerrar o jogo para sempre.

Sucesso significa um mundo definido pela paz, estabilidade e prosperidade num equilíbrio global de poder. Fracasso significa entregar o nosso futuro coletivo a um punhado de interesses particulares dos Estados Unidos que já demonstraram, ao longo de um século, ter os meios e a vontade de o destruir.

Fonte aqui.

3 pensamentos sobre “Reunião Trump-Europa-Ucrânia: A Divisão do Trabalho e o Sequenciamento Estratégico

  1. O Grande Sata foi a alcunha dada por Khomeini aos Estados Unidos e era impossível não concordar com o homem.
    Muito do que era Khomeini, que não era santo, também se deveu a forma verdadeiramente satânica como o seu povo em geral e ele em particular foram tratados.
    A infame Operação Ajax, orquestrada pelos Estados Unidos e as potências europeias lançou o seu país nas unhas de um demente mental a quem se deu poder absoluto sobre o seu povo em troca da venda a preço abaixo de saldo dos recursos do seu país.
    Para os iranianos, na esmagadora maioria, tal significou uma vida de humilhação e miséria negra.
    Para Rubollah Khomeini, um clérigo sem papas na língua, significou prisão nas masmorras da Savak, uma das polícias políticas mais sanguinárias do mundo e conhecida pela sua brutalidade extrema.
    Acabou exilado. Tal como Mossadegh era demasiado proeminente para ser transformado num mártir morrendo debaixo da tortura.
    Quando voltou era um homem com quase 80 anos a quem coube liderar o seu povo numa guerra por procuração em que o vizinho Iraque foi usado como agora a Ucrânia esta a ser usada contra a Rússia.
    A guerra custou aos iranianos mais de um milhão de mortos.
    Hoje e mesmo impossível não concordar com o homem porque o verdadeiro satanismo continua.
    Os Estados Unidos sabem que a minúscula Ilha de Taiwan não chega e preparam se para utilizar os quase 200 milhões de habitantes das Filipinas como carne para canhão.
    Rodrigo Duterte não está a apodrecer para lá do Sol posto por causa dos crimes da guerra as drogas porque a esse preço também teria de lá estar Bolsonaro.
    Esta porque com a idade de 78 anos, levantou a voz contra a loucura que se preparava, a imolação do seu povo numa guerra que as Filipinas também não poderão ganhar.
    E o bandalho do presidente do país, que nem sequer e signatário do infame TPI, tratou de mostrar o que pode acontecer a quem abrir pio.
    Estão a ver o whale project lá do sítio a saber que até o antigo presidente do país, um velho a partida com pouco para viver, foi despachado para lá do sol posto.
    Passaria certamente a ter muito mais cuidadinho com aquilo que escreve.
    Bota Grande Sata nisso.

  2. A melhor leitura de longe dos acontecimentos, manobras e movimentações mais recentes.
    E mesmo assim, sabendo toda a podridão que representam os interesses do Deep State americano (e que Trampas representa, como o actual HiPOpoTamUS a chafurdar no pântano que se propôs drenar, mas que pela sua natureza e posição nunca o fará, só os pategos MAGA caem nesses encantamentos) não faltam beija-cus sabujos – AVenturas e respectivos beija-CUs (Candidato Único), idiotas úteis “atlantistas” e seus manipuladores com e sem avental, e autênticos vendidos da estirpe de um Miguel de Vasconcelos, mais fáceis de comprar que a dívida americana em saldo. Claro que tudo isto é do mais vil e nojento que pode haver, mas para essa pategada toda que campeia pela Pategónia e restante Europa decadente e caduca é o “sonho americano”, “o farol dos nossos valores e da demo-cracia”.
    E são todos tão idiotas que desta vez, um século depois, tudo fazem para importar o crash bolsista e a grande depressão para que ecluda na Europa (UE) antes de eclodir nos EUA, e assim minimizando o impacto na Reserva Federal e na economia americana. É este o nível de subserviência, indignidade e corrupção dos “grandes líderes” europeus, puxados pelos serviçais intermediários, quase todos europes (Rutte, Lagarde, Leyen, Draghi, Stoltenberg, Barroso, Borrel, Costa, Michel, Kallas, Metsola, etc…).
    O apoio fanático aos sionistas também fica justificado e exposto na sua perversão e na alienação de qualquer Humanidade que reste a estes perigosos sociopatas e psicopatas. São uma aberração, não é por acaso que lhe chamam a mãe de todas as abominações, o Grande Satã…

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