Uma lição de democracia

(José Manuel Correia Pinto, in Facebook, 01/03 de 2025, Revisão da Estátua)


O que se passou em Washington – o encontro de Zelensky com Trump e Vance, na sexta-feira -, é um exemplo para todo o mundo. Os hipócritas de todo o mundo estão alarmados. Os acordos nas costas do povo, a invocação de valores que nunca cumprem e que somente servem como arma de propaganda têm os dias contados.

Quando se ouve falar esta nomenclatura europeia, covarde e hipócrita, é preciso fazer um grande esforço para admitir que eles não vivem num mundo irreal. Infelizmente, apesar do que já se está a passar e do que aí seguramente virá – uma crise de proporções catastróficas de que a Alemanha é já um bom prenúncio -, eles continuam a ter a aprovação tácita da maioria dos eleitores, que, também eles, acordam sempre tarde quando um cataclismo se aproxima.

Mas voltemos ao que interessa: doravante acabaram as conclusões inferidas a partir de suposições ou de percepções, as manipulações cuidadosamente preparadas. A realidade está à vista de todos. J. D. Vance já tinha advertido em Munique. Os velhos processos, as trafulhices, o desrespeito pela vontade popular estão a chegar ao fim. Outro tempo está a nascer, outro tempo virá.

Hoje, tivemos oportunidade de ver Zelensky a mentir descaradamente sobre o que se passou em 2014 e o que se passou depois, em 2022. E tivemos também a felicidade de assistir ao vivo – imagens que ficarão para a posteridade – ao resultado do que tem sido a política internacional dos democratas americanos, desde o fim da Guerra Fria e às mudanças que lhe estão sendo introduzidas, deixando completamente desarticulada a cabeça dos seus fiéis apoiantes e servidores.

Posso orgulhar-me de dizer que nada disto é novidade. Assisti, como toda a gente, à política perversa de Clinton em relação à Rússia. Ainda o corpo da extinta URSS não tinha arrefecido e já Clinton, com o auxílio das instituições financeiras internacionais dominadas pelos Estados Unidos (FMI, Banco Mundial devidamente acolitados por experts do Departamento de Estado), estava a pôr em prática um plano que, na pior das hipóteses arrumaria a Rússia por 50 anos, e na melhor levaria à sua inevitável desagregação, com base numa estratégia económica magistralmente descrita por J. Stiglitz, vice-presidente do Banco Mundial, economista-chefe de Clinton e Prémio Nobel da Economia, articulada com uma política militar que passava, como passou, por insuflar vida à NATO, então em articulo mortis, mediante um estruturado plano de cerco à Rússia, disfarçado com a vergonhosa artimanha da “Parceria para a Paz”.

Assisti, como toda a gente, à continuação desta estratégia por George Bush (filho), no que respeita ao avanço da NATO para Leste, então levada a cabo num contexto económico diferente, resultante da chegada ao poder de um governante – Vladimir Putin – que, compreendendo muito bem o que se estava a passar no plano económico e militar, começou por restaurar a economia, pondo ao serviço dos interesses da Rússia os oligarcas criados pelo escandaloso saque do património coletivo e apoiados pelos Estados Unidos e pelas instituições de Bretton-Woods, para “facilitar a transição de um regime coletivista para um regime de mercado livre e de iniciativa privada”. O que, em última instância, levou a que a Rússia fosse gradualmente adquirindo a sua autonomia, e passasse a ter poder para no plano militar tentar impor certas “ linhas vermelhas”, acerca das quais, aliás, havia um larguíssimo consenso político-social, atingindo, inclusive, os protagonistas do capitalismo liberal.

 “Linhas vermelhas” que Bush terá tentado desrespeitar (mas o episódio não é claro) na Geórgia por intermédio de Mikheil Saakashvili. Mas sem êxito. Em cinco dias, com a intermediação de Sarkozy, o assunto ficou arrumado: a Rússia não tomou Tiblissi. Bush respeitou as “linhas vermelhas” (Geórgia e Ucrânia), apesar da “revolução laranja”.

Mas depois veio Obama, o tal que iria libertar os sequestrados de Guantánamo e que assistia, em direto, nas caves da Casa Branca, com a Sra Clinton e companhia ao assassinato de “inimigos da América” e que, pior do que tudo isso, tinha como Vice-Presidente Joe Biden. Foi na administração de Obama que se urdiu toda a complexa teia que levou à guerra na Ucrânia. Foi um trabalho moroso, apoiado por rios de dinheiro, desenvolvido ao longo dos anos por Biden e muitos outros agentes no terreno como a diplomata Victoria Nuland que culminou com o golpe da “Praça Maidan” e a destituição do Presidente em funções.

Nos dias que levaram ao golpe valeu tudo, tendo ficado como exemplo emblemático das atrocidades. então e posteriormente cometidas, os tiros dos snipers escondidos nos telhados contra os seus próprios apoiantes para gerar um forte movimento de revolta entre os manifestantes.

O assassinato a sangue frio de dezenas de pessoas que estavam do lado dos revoltosos é uma imagem muito elucidativa, não apenas do tipo de forças que buscavam o poder na Ucrânia, mas também do que a seguir se passou desde 2014 e depois de desencadeada a guerra. Há conversas gravadas entre um ministro dos bálticos e a, à época, Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, Catherine Ashton, sobre este assunto, nas quais ele lhe diz que há provas de que os snipers não eram apoiantes do presidente deposto, mas dos revoltosos. E a diplomata faz de conta que não está ouvir a conversa, o telefonema é desligado e retomado no dia seguinte, mas ela muda rapidamente de assunto. 

Trump conhece tudo isto. Sabe também o que se passou durante o mandato de Biden. Conhece as traições de Zelensky que iam levando à perda do seu mandato em 2020. Sabe, como toda a gente informada sobe, o que se passou entre 2014 e Fevereiro de 2022.

Dizer que Putin é o agressor e a Ucrânia a agredida, mesmo sem o recurso a múltiplos exemplos históricos e mesmo fazendo de conta que o mundo começou em 2014, é uma afirmação muito redutora. A guerra teria sido evitável, como foi na Geórgia, como foi em Cuba em 1962, mas houve quem não a quisesse evitar!

A guerra dura há três anos. A ocupação do território da URSS pela Alemanha nazi não durou tanto tempo. A Ucrânia, mesmo tendo perdido uma parte significativa do seu território, não teria resistido tanto tempo, se não tivesse o apoio americano. A União Europeia não teria tido condições, nem tem, para suportar, só ela, o peso da guerra na Ucrânia.

Todavia, a atual estratégia da União Europeia passa por ai. Esperar que Trump seja assassinado, esperar que haja uma reação do Congresso, esperar pelas eleições intercalares de Novembro de 2026 que alterem a correlação de forças no Congresso. O problema é que Zelensky não tem tempo para esperar nem consegue aguentar-se por mais dois anos se apenas contar com o apoio da União Europeia.

Zelensky não pode esperar. Precisa de continuar a ter o apoio militar que tem tido. E esse apoio está ameaçado pelo lado dos Estados Unidos. Mas também não pode resolver nada por si, nem render-se, nem sequer demitir-se, a menos que se demita numa qualquer viagem a um país da UE que de imediato lhe assegure asilo político.

Porque Zelensky está nas mãos dos ultranacionalistas neonazis que não aceitam qualquer rendição. Assim sendo, é muito difícil antever o futuro da Ucrânia. Como difícil é antever o que se vai passar lá dentro. E, esse sim, esse é que será um grande problema para a Europa, tanto para os que apoiam a guerra como para os que a combatem.

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12 pensamentos sobre “Uma lição de democracia

  1. Por muito que preze a liberdade de expressão e a opinião de cada um, não calar a minha revolta perante o seu comentário infame.
    É no essencial a voz, a sua, de um desterrado mental.
    Antes de emitir a sua opinião estude .

    • Amigo José Barreira, em que é que o comentário publicado pela Estátua é infame? Diga-nos. É que isso de apelidar José Manuel Correia Pinto de “desterrado mental” está para além da infâmia. Eu não vou descer ao seu nível porco e boçal, conquanto vontade não me falte. Explique-se, onde está a infâmia? Estude o senhor, antes de vir para aqui insultar os outros.

  2. Considerar Trump é JD vance professores de democracia é um bocado forçado.No lhe querem juntar V.Putin para compor o ramalhete?

  3. E certos comentários fazem lembrar a rabula do Nicolau Breyner “e piratas somos nós”.
    Os líderes europeus querem cortar na saúde, educação e direitos sociais para continuar a sustentar uma guerra destrutiva e falam em mandar os filhos e netos dos outros para a frente de combate.
    Arriscando também uma escalada que ninguém sabe como acabara.
    E quem defende o fim desta loucura toda e que tem a mente vazia e o coração empedernido.
    Faz sentido.
    E se este blog já aqui anda há anos e toda a gente sabe o que defendem a maior parte dos articulistas para que é que cá vêem?
    Para terem o prazer de insultar os articulistas e os comentadeiros?
    O que é que procuram? Ver se convertem alguém porque é preciso unanimidade na estupidez?
    Dizer atrocidades até levarem uma corrida em osso como levou um que no início da guerra enchia a caixa de comentários de z’s ou um certo JgMenos que desatou a insultar os comentadeiros mais ainda do que já insultava por condenarem o genocídio em Gaza e exporem a ignomínia do estado racista de Israel?
    Para depois poderem dizer que são vítimas de ataque a liberdade de expressão?
    Vão ver se o mar da choco.
    Já agora, simpatia pelo Tiranossauro não tenho nenhuma.
    Mas que foi um gozo ver aquele destruidor do seu povo e que se comportou como se fosse dono da Europa toda e até dos States, levar um xaringote parecido com o que os velhos dão a miúdos malcriados lá isso foi.
    Dada a diferença de tamanhos e até idades era o que parecia.
    Um merecido xaringote dado a um miúdo malcriado que muito sangue custou a um povo a quem prometeu a paz e por isso foi eleito.
    Mas por falta de tomates deixou a país ser sequestrado por nazis e o futuro foi aquilo que se viu, não sabendo ninguém como tudo isto acabara.
    Mas quem tem o coração empedernido somos no nos.
    Vão ver se o mar da Kraken.

  4. E o “melhor” disto tudo e que esta gente não acorda.
    Ontem, felizmente não fui eu que ouvi ou era capaz de ir a barbatana no focinho que não foi quando, corria o ano da Graça de Deus Nosso Senhor de 2015, numa manhã de Fevereiro gelada, a criatura defendeu com unhas e dentes que os gregos deviam ser submetidos a fome, peste e se fosse preciso guerra para pagarem uma dívida em boa parte especulativa.
    E quando eu tentava argumentar com o sofrimento de uma gente as voltas com 20 por cento de desemprego, como mais de 30 por cento sem acesso a cuidados de saúde se não fossem os que abnegados médicos voluntários prestavam em tendas, depois de acabarem turnos de trabalho ou aproveitando as férias, mais de 20 por cento das casas sem electricidade ou água porque as pessoas não tinham dinheiro para a pagar, mortalidade infantil em crescendo, a criatura cada vez gritava mais, despejando me para cima uma reportagem do Rodrigues dos Santos feita uma semana dantes na véspera das eleições que deram a vitória as enguias do Bloco de Esquerda lá do sítio.
    Uma vergonha de racismo temperado com fake news em que os gregos teriam uma corrupção especial tal como MST defendia uma especial crueldade russa.
    Enfim, a criatura já gritava e acabou por rematar com um “não vamos viver mal para eles viverem bem”.
    Eu tinha enterrado uma semana antes um amigo que tinha morrido abandonado pelos médicos e num depauperamento atroz porque a saúde estava igualmente de rastos graças aos mesmos cortes que também matavam gente na Grécia.
    Pelo que levantei me e fugi porque vi vermelho e não lhe queria achatar o focinho.
    Cortei relações com a criatura nesse dia.
    Para muitos na Grécia já nem era uma questão de viver bem mas simplesmente viver. Mas o senhor não queria saber de desgraças.
    Mas ontem a infame criatura estava indignada com o xaringote levado por Herr Zelensky e achava verdadeiramente lógico que vivêssemos mal para sustentar a guerra de Herr Zelensky se o Tiranossauro tirar o corpo fora.
    Dinheiro ou algum alívio de uma dívida especulativa, alívio de um verdadeiro garrote sobre um povo do Sul como nós, nem pensar nisso era bom.
    Mas dar dinheiro a uma gente que delira com uma ascendência viking para que continuem a matar e a morrer isso já e de valor.
    Não e dinheiro para viverem bem, e dinheiro para a destruição e a morte.
    Não e só entre a Ucrânia e Gaza que esta cambada tem dois pesos e duas medidas.
    Ora se não e mandar uma criatura dessas ir ver se o mar da tubarão branco faminto.

  5. Tenham mas e juizo. Trump tem 78 anos, vai ter medo da revelação de que segredo tenebroso?
    Mas isso de culpar o Putin já vem de longe. O homem ate é o único culpado do buraco na camada de ozono.
    Sabem as tais informações fidedignas de fonte limpa.
    Vão ver se o mar da choco.

  6. O que de bem grave e preocupante se extrai do triste episódio ocorrido na Sala Oval é que Trump está na mão do Putin. Segundo investigações fidedignas, Putin tem sob o seu controlo segredos incómodos sobre Trump que, uma vez revelados, o destruiriam sem apelo nem agravo. Ou seja, é a América que está capturada, e é a democracia americana que está com o pescoço na lámina da guilhotina.

    • Já só faltava culpar o Putin e a Rússia pelos males da América, depois de ser o único culpado pelos males da Europa, etc…
      Enfim, efeitos da propaganda “ocidental” contínua

  7. Há uma mudança de procedimentos nas visitas dos chefes europeus à Casa Branca. Elas passaram a ser públicas pelo tempo que o POTUS entende. Isto pode ser classificado de mais transparência – e veremos quanto tempo dura – mas democracia não. Os eeuu estão e sempre estiveram tão afastados da democracia como o diabo dos santos. O enfrentamento com o ex-zely foi confrangedor e nas atitudes houve ignorância, mentira e engano de parte a parte. A verdade não foi dita e se houve altura ideal para o fazer foi aquela. Em todo o caso melhor assim do que prosseguir com a forma cínica de governar dos ditos democratas, afinal a alcateia dos oligarcas do globalismo falhado.

  8. É extraordinário que se publique num blogue semelhante dejecção mental. Com que então a verdade está agora com os novos inquilinos da Casa Branca só porque estão na mão do Putin?! Há um mínimo de obrigação moral a que se deve ater, sob pena de se perder completamente o rumo e cair-se no vácuo. É lastimável que um blogue sirva apenas para dar guarida a mentes vazias e corações empedernidas.

    • O que é lastimável é que haja pessoas que façam como a avestruz. Esse é o seu caso e dos lunáticos que na Europa nos desgovernam. O senhor não apresenta um único argumento, é só uma alegada superioridade moral pífia. Enxergue se.

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