Elites e o exército de soldadinhos de chumbo

(Carlos Matos Gomes, in Medium.com, 17/02/2025, Revisão da Estátua)


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O “espanto” e a “surpresa” que os dirigentes europeus dizem ter sofrido com o discurso de J. D. Vance, vice presidente dos EUA, na conferência de Munique deve ser entendido, isso sim, como causa de espanto e surpresa por parte dos cidadãos europeus. Esse espanto e essa surpresa das elites europeias revela a sua incompetência para entenderem vários aspetos essenciais mas básicos nas relações entre a Europa e os Estados Unidos.

Em Munique estiveram em confronto dois conceitos de sociedade e dois conceitos de elites, de classe dominante (ruling classes), que foram expostas numa obra clássica de 1945; “The American Business Elite: A ColIective Portrait”, Journal of Econorruc History de Wright MiIIs. Os burocratas europeus não leram e agora agitam-se como moscas dentro de um prato de azeite.

O que Wright Mills explicou, ainda mal a Segunda Guerra havia terminado, é que a elite americana é constituída por um grupo cujo elemento definidor se encontra no domínio do poder económico, o que a distingue das elites europeias que surgem associadas à produção de ideias e à administração pública. Na Europa a entrada na elite é feita maioritariamente através formação técnica, e pelo acesso às grandes escolas, depende em boa parte do background social dos candidatos que são maioritariamente destinados a administrarem o Estado. Pelo contrário, as elites dos Estados Unidos, são recrutadas no mundo dos negócios e dos produtores de violência (militares e agentes de serviços secretos — makers of violence). É esta elite económica e de ação violenta que controla o processo de tomada de decisão política para obter ganhos económicos. Para esta elite as guerras são negócios, um deve e haver.

Em Munique estiveram em confronto estes dois tipos de elites. A elite de Trump, semelhante à elite de Bush Jr que conduziu a invasão do Iraque e do Afeganistão, a elite de Clinton que conduziu o ataque à Sérvia e o desmantelamento da Jugoslávia. Os atores da trupe de Trump não são diferentes do vice Dick Cheney e de Rumsfeld no que diz respeito ao desprezo pelos europeus e pelos princípios! Os europeus presentes desconheciam estas personagens? Desconheciam Vitoria Nuland, funcionária da CIA (da elite dos makers of violence) que serviu nas administrações de Trump e de Biden e pilotou o processo que levou a Ucrânia à política de ameaça à Rússia?

J D Vance referiu que o inimigo da Europa é a cristalização em que a Europa vive, a sua resistência à mudança, o emaranhado de poderes que se esgotam em quezílias de vaidades. A União Europeia, em contra ponto à Rússia e à China, vive hoje como se o mundo fosse o da Guerra Fria, as suas elites são burocratas que administram programas a que falta um desígnio, um objetivo estratégico, além de satisfazer clientelas ao sabor das circunstâncias.

J D Vance foi a Munique o dizer o óbvio: a Europa não justifica um inimigo externo! (O desprezo é a mais dolorosa ofensa.) Veio dizer que os Estados Unidos concluíram que a Europa é um peso morto e as elites americanas no poder, as do MAGA, partilham essa visão com as novas elites russa e chinesa, pragmáticas, rudes e focadas nos resultados.

Um oligarca americano está muito mais próximo intelectualmente dos novos oligarcas russos ou até dos chineses (que são mais sofisticados) do que de um “enaca” ou de um politécnico francês, ou um de um graduado por Oxford ou Cambridge.

Sendo esta a visão que as elites americanas e russas partilham da Europa e dos seus dirigentes, porque carga de água a Rússia iria invadi-la e tomar conta dela, vir por aí abaixo, no imortal resumo de Ana Gomes, especialista em slogans dos gloriosos tempos de ouro do MRPP; para ocupar um continente de velhos e de burocratas, um asilo?

E assim chegamos ao absurdo delirante de, sem saberem o que fazer para se manterem no poder, os cérebros dos líderes europeus, os tais burocratas políticos, terem acendido a ideia luminosa de constituir um exército europeu! Isto num continente que não fabrica uma turbina para aviões de combate: a Rolls Royce a General Electic e a  Pratt&Whitney são americanas.

Uma passagem de olhos pela história da Europa revela que o último ataque à Europa ocorreu no cerco dos turcos (Império otomano) a Viena em 1693! Uma leitura superficial sobre os conflitos do século XX permite concluir que os exércitos europeus são exércitos historicamente derrotados. Na Primeira e na Segunda Guerra, os exércitos francês, alemão, polaco e italiano foram derrotados desde os Alpes a Estalinegrado, o exército inglês na Segunda Guerra, retirou-se da Europa continental com a dramática operação de Dunquerque. Foram os Estados Unidos e a União Soviética que impuseram a descolonização à Europa através das dinâmicas do Movimento Descolonizador. No século XX quem decidiu a sorte das armas na Europa foram os Estados Unidos, a ocidente, e a União Soviética, a leste, que dividiram o continente entre si em Ialta e Potsdam, como o vão fazer atualmente, parece que na Arábia Saudita, uma zona decisiva, essa sim, para negociar a divisão do poder do futuro entre dois dos atores que verdadeiramente contam.

Enquanto pelas arábias dois dos grandes poderes de facto decidem lancetar o furúnculo da Ucrânia para passarem ao sério conflito do Médio Oriente, em Paris um pequeno grupo de funcionários reúne-se para discutir um “exército europeu”!

Um “exército europeu” é uma figura que não passa de uma representação em miniatura da Grand Armée em miniaturas de soldadinhos de chumbo, um diorama! Os líderes europeus estão hoje em Paris, com Macron, de rabo para o ar a construir um diorama, ou um Lego. No final, se entre eles existir algum com senso e sentido de humor, esse gritará: Vamos mas é comer umas ostras!

14 pensamentos sobre “Elites e o exército de soldadinhos de chumbo

  1. Apenas um pequeno apontamento que não põe em causa o texto, muito bem escrito como sempre.
    A França produz turbinas (SNECMA Atar 9K-50) através da empresa com o mesmo nome (Snecma Atar).

  2. Sempre uma lição de excelência os comentários de Carlos Matos Gomes. Para aprender. Para refletir. Para nos munirmos de coragem. Sempre obrigado.

  3. Querem saber qual tem sido a verdadeira política da Europa em relação à Ucrânia?
    «Somos todos ucranianos (a D. Ursula, ainda que se parecendo com uma empregada do Lidle, até se veste, quando é preciso, de azul e amarelo), mas vão lá vocês, nativos, dar o corpo ao manifesto, enfraquecer os russos, enquanto de copo de whiskey na mão ficamos a vê-los, para que possamos, depois, com um qualquer alcoólico Yeltsin.2, pilhar-lhes as riquezas até Vladivostoque!»
    Não viram como Macron, acaba de receber outros «compagnons de route» no Eliseu para «tratar», mais uma vez, da Ucrânia, fazendo-o, com largos sorrisos e afetuosas beijocas pelo meio (o António terá mamado logo duas e duas deu), como quem fazia a receção para uma alegre rave?

  4. Tudo isto, todas estas novas teses magnificas inteligentes, sensatas e realistas, me trazem à lembrança uma Rosa polaca que há mais de cem anos dizia que o resultado seria socialismo ou barbárie. Do socialismo nem sinais

  5. Ai ai, Carlos Matos Gomes, se um dia me desse para mudar de sexo, não descansava enquanto não me casasse contigo! Bendito Nun’Álvares de Tomar, que provavelmente ajudou a moldar o homem que hoje nos consola com festivais de lucidez, neste triste deserto de confrangedora aridez!

  6. A coragem, o saber e a clarividência de um mestre: Carlos Matos Gomes. Sempre obrigado por nos sentir mais Homo Sapiens, homens e mulheres de espírito crítico, livres do pensamento vocal bolorento e colonizador da classe política que nos governa.

  7. Belíssimo artigo! Como dá gosto ler textos escritos por pessoas inteligentes, sensatas e realistas como é Carlos Matos Gomes, neste deserto de ideias sábias e equilibradas que é a “união europeia” e dentro dela a nossa parvónia em bicos dos pés… Uma vez mais agradeço à Estatua de Sal.

    Valha-nos JD Vance para dizer o óbvio: que o “rei europeu” vai nu e que a UE é apenas um simples vassalo e, pior, não se apercebe! Mas, com o poder entregue a costas, kallas, ursas e outra fauna imprestável, medíocre e profundamente má e ignorante, apesar de armada em chica esperta, só podia dar nisto.

    Alguém tem de por ordem na barraca neoliberal europeia e vai ser Trump e a sua administração. Estamos reféns duns badamecos que mandam na “união europeia” ao serviço de outros mafiosos maiores e precisamos com urgência que isto rebente para se construir algo novo…e espero que melhor.

    Por isso, ainda bem que estes gringos (que também não são flor que se cheire) estão a ignorar e desprezar estes repugnantes servos europeus. Que acabem com eles rapidamente! Não precisamos de capatazes apalhaçados como os actuais! Se é para mandar na barraca, que venha já o dono, ponha os pontos nos i’s, desmantele tudo de vez e acabe com a hipocrisia, a manipulação e a mentira. Assim como com a falsidade e fingimento de que vivemos num espaço democrático, progressista, respeitador das liberdades e garantias dos cidadãos, gerido por políticos e diplomatas a sério.

    O meu desejo é que Trump e JD Vance varram estes corruptos e sociopatas políticos europeus rápido para as profundezas do inferno da insignificância. Deveriam também ser julgados e condenados num novo tribunal como aquele que condenou os nazis, pois causaram demasiado sofrimento aos seus povos e ao mundo! Têm todos as mãos cheias de sangue!

  8. Filosofando, que, também, tenho direito:
    O que significa fobia? Ter-se medo de algo. Como tal, por exemplo, acrofobia é ter-se medo das alturas. Logo, será correto falar-se em russofobia com respeito a climas antirrussos que possam ser sentidos? Dir-se-á que umas vezes sim, quando se tem medo que eles entrem Europa fora e só parem no restaurante do vermelho (benfiquista) Barbas, na Caparica, para aí, finalmente, descansarem e beber umas mínis; por outro lado, não, quando esse clima é ditado, não por medo, mas por todo um sentimento de superioridade em relação a eles, um sentimento racista, neles se vendo simples «pretos das neves».
    O que, naturalmente, não invalida que, mesmo se sendo racista, não se tenha medo!

  9. Será que o Petit Roi quer mesmo mandar oficialmente soldados europeus, os mercenários há muito que já estão, para a frente de batalha na Ucrânia?
    Será que a cambada de psicopatas que se foi reunir com ele em Paris despreza tanto as vidas dos filhos e netos dos seus “súbditos” para o fazer?
    Pior ainda, será que um pais tão insignificante como Portugal, que nem sequer foi convidado para o encontro, vai mandar desgraçados para morrer onde tiverem de morrer?
    Oficialmente já perdemos três na Ucrânia e de certeza que foram mais.
    Queremos mesmo voltar aos tempos da guerra colonial?
    Nesse tempo muitos dos nossos jovens fugiram para a Europa para não irem malhar lá com as costas.
    Terão agora de fugir para o outro lado do mar?
    Tipo Brasil pois que para os Estados Unidos arriscam se a voltar acorrentados como animais e na Europa sao enviados para a frente ucraniana.
    Não há hoje nesta Europa até se diz livre, democrática e amante da paz nenhum país para onde um jovem possa fugir para fugir a guerra se este bando de bandalhos decidir mandar marchar para Leste.
    Um bravo a Robert Fico, a quem levar quatro tiros no bestunto não tirou a coragem, que criticou este encontro e já garantiu que por ele nenhum eslovaco vai malhar com os costados a Ucrânia.
    Mas por aqui parece que toda a gente bateu com os cornos numa azinheira.
    Vão ver se o mar da tubarão branco faminto.

  10. Mais um artigo “incompreensível”, tal a sua “densidade”, “opacidade” e parcialidade. E “putinista”.
    O conhecimento, a honestidade intelectual sempre provocaram problemas aos propagandistas desonestos, porque num ápice desmontam as suas falácias. Daí a recorrer à censura vai um passo… não é senhora van der Leyen, senhor António Costa? “Por que no te Kallas”?

  11. Se há sítios que gosto de ler via Internet, creio que no topo estará o “Estátua de Sal”. Os artigos próprios como os em destaque de outros locais são de uma lucidez e esclarecimento que incomoda qualquer indígena que se crê ‘líder’ de qualquer coisa. Se dez por cento dos nativos ‘tugas’ ocupassem cinco minutos por dia para lerem o “Estátua de Sal”, ai! como haveriam mais mentes abertas neste país amordaçado. Obrigado “ESTÁTUA”, nunca te deixes silenciar pelos psicopatas imbecis que Vos odeia.
    FernandoPPereira

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