Era de prever – e fede

(Por José Gabriel, in Facebook, 28/10/2024)

Qual deles o pior e mais perigoso, mas sempre levados ao colo pelas televisões…

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Era de esperar e foi aqui esperado. As televisões dão tempo de antena abundante a André Ventura & Companhia e à sua torpe defesa. A situação que se vive é percebida, compreendida e respondida de diversos modos. A esquerda a sério sente o perigo e tenta enfrentá-lo. A esquerda moderada vai afastando a coisa e tentando recusá-la de modo vário, ora claramente, ora, por vezes, non tropo – lembro a afirmação televisiva de Sérgio Sousa Pinto, que achava que o grupo parlamentar “do Chega deve ser tratado com todo o respeito e consideração democrática”.

A direita governamental tenta fazer jogos e joguinhos para ver o que pode aproveitar da situação, quer agora quer nas próximas eleições, agitando o repugnante argumento de que a extrema-direita é simétrica da “extrema-esquerda” – noção imbecil que só recentemente surgiu na língua-de-trapos da direita, por razões que nada devem à verdade e pouco à inteligência.

A direita abutre – IL – faz o mesmo e, sem o espalhafato do Chega, mal esconde que os seus objectivos programáticos são os mesmo: devastar os serviços sociais do Estado e, prevendo respostas populares, reforçar as forças repressivas.

E a comunicação social? Essa, como era de esperar, quer é carnaval, circo, merda na ventoinha, enfim, tudo o que, nada tendo a ver com jornalismo, aumente, pensa ela – e, valham-nos os deuses, talvez consiga – audiências, cujo embrutecimento considera um dever para com os chefes e os acionistas.

 Ela adora chafurdar, procurar o escândalo, o bronco mais conspícuo, a notícia mais brutal – independentemente da sua validade ou grau de verdade. Basta notar que, até o primeiro-ministro Montenegro, é batido em tempos de antena e horário conveniente, por figuras como Netanyahu, Zelensky, André Ventura. Isto tem custos sociais e políticos a curto e longo prazo? Claro que sim. Mas os canais televisivos gostam mais do cheiro da cloaca que do perfume do conhecimento e do trabalho sério.

A extrema-direita anda por aí e é bom que nos manifestemos contra ela

(Por oxisdaquestão in Blog oxisdaquestao, 27/10/2024, revisão da Estátua)

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A manifestação de milhares TAMBÉM foi contra o fascismo de Ventura, o nosso Bolsonaro de Xabregas. É o que o título não diz e sugere muito mal. A extrema-direita está infiltrada nas forças de segurança e é o chefe do Chega que o mostra quando proclama que os agentes devem disparar a matar, aliás como fazem nos EUA, o que garante milhares de assassinados por ano às mãos dos agentes “da ordem”.

Não basta usar o ódio racial contra as minorias para se afirmar e conquistar votos, os votos pidescos que a nossa sociedade ainda alberga; é um arruaceiro que se assume, tendo as costas quentes de organismos da segurança estrangeiros e muito dinheiro a correr em notas de dólares e sobras da fuga ao fisco de patrões nacionais e, talvez, espanhóis.

A televisão pública deu tempo de antena desmesurado a este energúmeno e ao seu capanga gordo; é o que a comunicação social vem fazendo, usando o seu sensacionalismo no negócio de bosta em que se transformou. Disputa-se a imbecilidade e falta de decoro do homem que é um político artificial e folclórico, mas perigoso, muito perigoso! É que o ódio NUNCA serve para boas realizações por ser primitivo, ignorante e violento. Não faltam golpes de estado nem guerras com origem em sentimentos e comportamentos de ódio.

Mais uma vez o jornal Público faz de detergente. A foto ao lado é de UMA manifestação, que esteve contra a morte de um homem inocente às mãos da polícia, ou seja da violência do Estado. Diz o título “implorou-se que se olhe para os bairros”. Também, talvez.

Mas a manifestação foi de repúdio pela ação da polícia e o assassinato de um cidadão. Contra o perigo da extrema-direita, em geral, e da que está presente nas forças de segurança; contra o partido que promove e beneficia de liberdade para atentar contra a paz e tranquilidade dos cidadãos nas suas palavras e actos.

Mas, então, se “os bairros” são fruto do regime capitalista na pobre colónia que somos, quem é que vai “olhar” para os “bairros” como algo que está mal e deve ser de OUTRA maneira? Há quantas décadas existem “os bairros”, servindo para abrigar trabalhadores pobres, desempregados e excluídos? Certo: há demasiado tempo. É Moedas-Montenegro que vão “olhar” para eles? Algum socialista, tipo Ana Gomes ou Assis, António José Seguro ou o moço atual?

Saudemos o facto de ter havido uma manifestação contra a violência e o ódio que querem instalar na nossa sociedade,  e de que Ventura – e o seu gordo ajudante -, são dois imbecis arautos e fomentadores.

Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber

(Frederico Lourenço, in Facebook, 27/10/2024)


Interregno. Exercício dominical para desanuviar as meninges. Estátua de Sal, 27/10/2024


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Podemos dar água a um cavalo, mas não podemos obrigá-lo a beber. Este conhecido ditado inglês (“you can lead a horse to water, but you can’t make it drink”) conheceu uma divertida versão alternativa pela mão da impagável Dorothy Parker: “you can lead a whore to culture but you can’t make her think”. Subindo rapidamente o nível, uma carta de Bertrand Russell a Lady Ottoline Morrell atribui a Wittgenstein posição análoga: “ele diz que uns querem filosofia; outros não: assunto encerrado”.

Mas voltando ao cavalo. O problema de querer dar cultura a beber a outrem, para depois ser-se confrontado com recusas de toda a espécie, é a história de vida de todos os professores universitários.

Ao mesmo tempo, a universidade – com a oportunidade que nos oferece de contactarmos com as gerações mais novas para lhes dar a conhecer o que foi importante para as gerações de séculos anteriores – é motivante espaço de aprendizagem também para nós, os professores, porque temos de aprender a tornar relevante para as gerações de hoje a cultura ancestral que é nossa função transmitir. E isso – quer se queira, quer não – só se aprende com as gerações de hoje, todos os anos, a partir da estaca zero.

É difícil ser apóstolo da “Hochkultur”? A estaca zero acima mencionada é difícil. Perceber o que NÃO posso pressupor em termos de conhecimentos anteriores dos estudantes é todos os anos um desafio enorme. Há vinte anos os alunos ter-se-iam desmanchado a rir, pensando que eu estaria a brincar com eles, se lhes tivesse perguntado se já tinham ouvido falar na Revolução Francesa. Hoje, é mais prudente NÃO pressupor que alguém saiba o que foi tal coisa. Há sempre surpresas. Um powerpoint mostrado a estudantes de 1º ano em que ocorria uma fotografia da celebremente inclinada Torre de Pisa ocasionou a seguinte resposta, da parte do único aluno na turma que se sentiu capaz de identificar o monumento: “não tenho a certeza, mas acho que é o Mosteiro dos Jerónimos”.

O melhor é mesmo não pressupor nada.

É mau chegar à universidade neste estado de tábua rasa? Não tenho uma resposta unívoca. A minha educação de “geniozinho” foi melhor? De facto, a minha irmã e eu crescemos sem televisão, sem rádio, sem futebol e sem banda desenhada (“gibis”, no Brasil), num universo cultural que era mais ou menos o do século XVIII, com deuses como Shakespeare que no século XVIII já eram velhos. A realidade mais moderna da nossa infância chamava-se Beethoven. Esta axiologia era perfeitamente normal para nós. Era o que conhecíamos. Era o que os nossos pais achavam normal. O que não era normal (mas sim muito injusto) foi que tenham dado esse tipo de educação à minha irmã e a mim e que depois se tenham espantado com as dificuldades colossais de integração que sentíamos relativamente às crianças da nossa idade.

O que me leva a esta outra pergunta. A alta cultura faz-nos felizes? Sempre achei que sim. Mas no fundo, se olhar bem para a minha vida, se calhar teria sido mais feliz com futebol em vez de Bach – não sei. Esta consciência bateu-me forte, vários anos atrás, quando um episódio sentimental malogrado ocasionou discussões estranhas que me fizeram ter de engolir frases como: “não consigo namorar com uma pessoa cuja ideia de espairecer é ler Schiller em alemão”. Acho que foi aí que comecei a perceber que o apostolado da alta cultura, que sempre me encheu o espírito de fervor – fervor esse que, imagino, fará de mim (para alguns alunos) um bom professor universitário – foi ao mesmo tempo um dom cuja fatura tive de pagar em termos de vida privada. Talvez. Ou talvez não. Ainda não tenho a certeza.

Ser, de alma e coração, apóstolo da alta cultura trouxe-me uma enorme riqueza: uma riqueza que tem mais valor para mim do que tantas outras coisas a que outros legitimamente dão valor. É um apostolado que não me põe acima dos outros – nunca pensei nem pensarei isso. Põe-me longe dos outros. Faz de mim um chato, eu sei, e um “pedante” (ai, se eu tivesse um euro por cada vez que me chamaram pedante!). Claro que ser chato afugenta os outros tanto ou mais que a halitose. Na verdade, em termos da procura de uma vida feliz na companhia de outrem, ser apóstolo da “Hochkultur” pode ser um bocado como sofrer de mau hálito e, muito embora hoje eu tenha a bênção de ser feliz a dois, felizmente nasci com (ou desenvolvi ao longo dos anos) jeito para ser feliz sozinho.

Também é certo que a obra completa de Schiller sempre me faz ótima companhia.