A Ucrânia será dividida e, em caso afirmativo, como?

(The Saker, in Blog The Saker, 16/08/2022, Trad. Estátua de Sal)

Algumas informações interessantes hoje. Em primeiro lugar, o Serviço de Inteligência Exterior da Rússia, através da declaração de um coronel-general, fez a seguinte declaração ( traduzida pelo meu amigo Andrei Martyanov em seu blog ):

Os conservadores ocidentais praticamente já descartaram o regime de Kiev e já estão planeando a divisão da Ucrânia“, disse o porta-voz do Serviço de Inteligência Estrangeira, coronel-general Volodymyr Matveev, na Conferência de Moscou sobre segurança internacional. “Claramente, o Ocidente não se importa com o destino do regime de Kiev. Como mostram as informações recebidas pelo SVR, os conservadores ocidentais quase o eliminaram e estão desenvolvendo planos para dividir e ocupar pelo menos parte das terras ucranianas”, declarou. No entanto, segundo o general, o que está em jogo vai muito além da Ucrânia: para Washington e seus aliados, é o destino do sistema colonial de dominação mundial que está em causa.

Só para esclarecer, o SVR raramente faz declarações públicas e, quando o faz, você pode lê-las em modo literal porque o SVR não costuma recorrer à técnica das “fugas de informação” de “fontes informadas” e a toda essa bobagem de relações públicas das agências de inteligência (que agora foram totalmente convertidas em veículos de propaganda altamente politizados).

No mesmo dia, vejo este artigo no site da RT: “Os países ocidentais estão esperando a ‘queda da Ucrânia’ – Kiev”, que menciona uma declaração interessante do ministro das Relações Exteriores ucraniano:

“Vários países ocidentais estão à espera da rendição de Kiev e acreditam que os seus problemas serão resolvidos imediatamente”, disse o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmitry Kuleba, em entrevista publicada na terça-feira. “Muitas vezes me perguntam em entrevistas e quando falo com outros ministros das Relações Exteriores: quanto tempo você vai aguentar? Em vez de nos perguntarem o que poderia ser feito para nos ajudar a derrotar Putin o mais rápido possível”, disse Kuleba, observando que essas perguntas sugerem que todos estão “esperando que caiamos e os problemas desapareçam por conta própria”. 

Finalmente, algum tempo atrás, Dmitry Medvedev postou este “mapa futuro da Ucrânia após a guerra” na sua conta do Telegram. Este mapa mostra uma Ucrânia dividida entre os seus vizinhos e um pequeno pedaço da Ucrânia que permanece no centro.

Para dizer a verdade, sou há muito a favor da divisão da Ucrânia em vários estados sucessores: dei as razões para isso num meu artigo “Os argumentos a favor da divisão da Ucrânia” escrito no distante ano de 2016.

Agora, seis anos depois, quais são as hipóteses disso acontecer?

Sem fazer nenhuma previsão, o que é quase impossível no momento porque existem muitas variáveis ​​que podem influenciar significativamente o resultado, quero elencar alguns argumentos a favor e contra a probabilidade (em oposição à conveniência) de tal resultado.

Argumentos para a probabilidade deste resultado:

  1. Em primeiro lugar, a maioria dos vizinhos da Ucrânia beneficiaria com tal resultado. A Polónia não conseguiria o “intermarium” com que ainda sonha, mas recuperaria terras que historicamente lhe pertencem e são povoadas por muitos polacos. Neste mapa, a Roménia também se sairia bem, mesmo que a Moldávia perdesse a Transnístria, que eles não têm hipótese de controlar de qualquer maneira. A Roménia poderia, portanto, absorver toda a Moldávia. É verdade que neste mapa a Hungria não recebe (quase) nada, mas esta é uma questão que a Hungria deveria abordar com a Polónia e a Roménia, não com a Rússia.
  2. A Rússia pode nem se opor a tal desenvolvimento, simplesmente porque deixará o problema ucraniano para outros. Desde que a atual Ucrânia esteja totalmente desmilitarizada e desnazificada, a Rússia não terá problemas com tal resultado.
  3. O antigo território do Banderastão seria tão reduzido em tamanho, população e recursos que representaria pouca ou nenhuma ameaça. Os russos nunca permitirão que tenha nada mais do que uma polícia mínima e força de segurança interna (pelo menos enquanto houver vestígios da ideologia banderasta ukronazi nas proximidades da Rússia). As hipóteses reais desse alfobre do Banderastão se tornar uma ameaça serão próximas de zero. Sem mencionar que, mesmo que pudesse tornar-se uma ameaça, seria sempre muito mais fácil para a Rússia lidar com ela, do que no início de 2022.
  4. Objetivamente, os países europeus obteriam o melhor “out” possível para eles, porque estar num estado constante de guerra total por procuração será absolutamente insustentável para os países europeus.
  5. Quanto a “Biden”, supondo que ele ainda esteja vivo e no poder (?), será possível para ele retirar o assunto desta última guerra perdida (de novo!) pelos Estados Unidos das manchetes dos média e lidar com outras questões.
  6. A Ucrânia tem sido um desperdício de dinheiro, biliões e biliões, que é essencialmente um buraco negro com um horizonte que não mostra nada e além do qual tudo, dinheiro, material ou homens, tudo simplesmente desaparece. Este é claramente um dreno insustentável para as economias do Ocidente.
  7. No entanto, em teoria, se um acordo for alcançado e todas as partes concordarem, a UE poderia remover, talvez não todas, mas pelo menos as piores sanções autodestrutivas que tão estupidamente pôs em prática e que agora estão destruindo a economia da UE.
  8. Para os Estados Unidos, a principal vantagem de tal resultado poderia ser, em teoria, que “fecharia” a “frente russa” e permitiria que concentrassem o seu ódio e agressão à China.

No entanto, também há muitos argumentos contra tal resultado:

  1. Em primeiro lugar, as classes dominantes ocidentais, intoxicadas com a russofobia total, teriam que aceitar que a Rússia ganhou a guerra (mais uma vez) e derrotou as potências combinadas do Ocidente (mais uma vez). Isso significaria uma imensa perda de prestígio e credibilidade política de todos os envolvidos nesta guerra política contra a Rússia.
  2. Em segundo lugar, para a NATO seria um desastre. Lembre-se, que o verdadeiro objetivo da NATO é “manter os russos fora, os americanos dentro e os alemães no terreno”. Nesse caso, como é que uma NATO ainda maior aceitaria não poder ter feito absolutamente nada para impedir que os russos alcançassem todos os seus objetivos?
  3. Em segundo lugar, enquanto os povos da UE sofrem com as devastadoras políticas económicas dos seus líderes, as elites dominantes (o 1% da UE) estão a ter grandes benefícios, muito obrigado, e estão-.se nas tintas para os povos que dominam.
  4. Tal resultado também poria em causa diretamente o desejo dos EUA em manter um mundo unipolar, governado pelo tio Shmuel em hegemonia global. O risco aqui é ocorrer um efeito de dominó político em que cada vez mais países lutam para alcançar a verdadeira soberania, o que representaria uma ameaça direta ao modelo económico americano.
  5. É quase certo que tal resultado é inatingível enquanto os neoconservadores governarem os Estados Unidos. E como não há sinal de que o domínio de ferro dos neoconservadores em todas as alavancas do poder político nos Estados Unidos esteja enfraquecendo, tal resultado só poderia acontecer se os loucos neoconservadores fossem mandados de volta ao porão, de onde vieram e onde pertencem. O que é improvável no futuro próximo.
  6. Este foco na divisão da Ucrânia ignora o fato de que a Ucrânia não é o verdadeiro inimigo da Rússia. De fato, a Ucrânia perdeu a guerra contra a Rússia nos primeiros 7 a 10 dias após o início da OMS. Desde então, não é contra a Ucrânia per se que a Rússia está a lutar, mas contra o Ocidente consolidado. Se o verdadeiro inimigo é o Ocidente consolidado, pode-se argumentar que qualquer resultado limitado à Ucrânia não resolveria nada. Na melhor das hipóteses, poderia ser o estágio intermediário de uma guerra muito maior e mais longa, na qual a Rússia terá que desmilitarizar e desnazificar não apenas o Banderastão, mas, no mínimo, todos os países da UE/NATO.
  7. Embora para alguns a guerra na Ucrânia tenha sido um desastre econômico, foi uma bênção fantástica para o (extremamente corrupto) complexo militar-industrial dos EUA. E nem vou entrar nos óbvios laços de corrupção que a família Biden tem em Kiev. Se essa “solução Medvedev” for realizada, todo esse dinheiro fácil desaparecerá.
  8. Além disso, se entre os argumentos a favor de tal resultado citei a capacidade dos Estados Unidos de “fecharem a frente russa” e se concentrarem na China, na realidade tal argumento baseia-se numa hipótese muito rebuscada: que ainda é possível separar a Rússia e a China e que a Rússia permitiria que os Estados Unidos atacassem a China. Mas a Rússia não pode permitir que a China seja derrotada, assim como a China não pode permitir que a Rússia seja derrotada. Assim, a noção de “fechar a frente russa” é ilusória. Na realidade, as coisas foram longe demais para isso e nem a Rússia nem a China permitirão que os Estados Unidos os derrubem um de cada vez.
  9. A UE é dirigida por uma classe dominante compradora que é totalmente subserviente aos interesses dos neoconservadores dos EUA. Já existem muitas tensões internas na UE e tal resultado seria um desastre para todos os políticos europeus que ficaram presos numa guerra total contra a Rússia; e mesmo que, digamos, os polacos, romenos ou mesmo os húngaros tivessem algum beneficio de tal resultado, tal seria inaceitável para os bandidos que atualmente governam a Alemanha, o Reino Unido ou mesmo a França.

Os argumentos a favor e contra o resultado que elenquei acima são apenas alguns exemplos, na realidade existem muitos outros argumentos em ambos os lados desta questão. Além disso, o que fazia sentido há seis anos pode não fazer sentido hoje.

Por exemplo, esta discussão é sobre o “o quê”, mas não sobre o “como”. Deixe-me explicar.

Acho que fui a primeira pessoa no Ocidente a notar e traduzir uma frase-chave russa: “incapaz de fazer acordos” (недоговороспособны). Essa expressão tem sido cada vez mais usada por muitos decisores, políticos, comentadores políticos e outros russos. Eventualmente, até os analistas ocidentais passaram a nota-la. Então, voltemos a esta questão, tendo em mente que os russos estão agora plenamente convencidos de que o Ocidente é simplesmente “incapaz de fazer acordos”. Eu diria que até ao ultimato russo aos Estados Unidos e à NATO, os russos ainda deixavam a porta aberta para algum tipo de negociação. No entanto, e como eu previ ANTES do ultimato russo, a Rússia tirou a única conclusão possível da posição do Ocidente: se nossos “parceiros” (sarcasmo) não são capazes de fazer acordos, então chegou a hora do unilateralismo russo.

Certamente, desde 2013, ou mesmo 2008, já havia sinais de que as tomadas de decisão russas estavam gradualmente a tender para o unilateralismo. Mas o ultimato russo e a OMS são agora sinais “puros” da adesão da Rússia ao unilateralismo, pelo menos em relação ao Ocidente consolidado.

Se isso for mesmo assim, então a maioria dos argumentos acima, em ambos os lados da questão, tornou-se basicamente obsoleta e irrelevante.

Além disso, gostaria de acrescentar um pequeno lembrete aqui: a maioria das operações de combate na Ucrânia nem é realizada pelas forças russas, mas pelas forças LDNR apoiadas pelo C4ISR e pelo poder de fogo russo. Mas em termos de potencial militar real, a Rússia usou menos de 10% das suas forças armadas e Putin foi bastante franco sobre isso quando disse que “nem começamos a agir a sério”.

Como acha que seria esta guerra se a Rússia decidisse utilizar todo o seu poder militar, ou seja, os 90% das forças que atualmente não participam da OMS?

Aqui está uma verdade simples que a maioria das pessoas no Ocidente nem consegue entender: a Rússia não tem medo da NATO.

Pelo contrário, os russos já compreenderam que têm os meios para impor aos seus inimigos qualquer resultado que decidam impor unilateralmente. A ideia de um ataque dos EUA/NATO à Rússia é simplesmente risível. Sim, os Estados Unidos têm uma força submarina muito poderosa que pode disparar muitos mísseis Tomahawk e Harpoon contra alvos russos. E sim, os Estados Unidos têm uma tríade nuclear ainda robusta. Mas nenhum desses elementos ajudará os Estados Unidos a vencer uma guerra terrestre contra as forças armadas russas.

E não, enviar alguns milhares de soldados americanos para este ou aquele país da NATO para “reforçar o flanco oriental da NATO” é pura propaganda, militarmente nem é relevante, é risível. Nem vou comentar sobre o envio dos F-35, que são tão ridículos e inúteis contra as forças aeroespaciais e defesas aéreas russas que nem me vou dar ao trabalho de discutir com quem não entende o quão ruim é o F-35 (e até mesmo o F-22!) são muito ruins.

Não farei outro comentário sobre as capacidades militares da UE senão este: os países que agora defendem seriamente tomar banho com menos frequência para “mostrar a Putin” atingiram tal nível de insignificância e degeneração que não podem ser levados a sério, e certamente não na Rússia.

Então, para onde vamos a partir daqui? Como eu disse, eu não sei, há muitas variáveis. Mas algumas coisas me parecem claras:

  1. A Rússia decidiu assumir um unilateralismo completo nas suas políticas em relação à Ucrânia e ao Ocidente. É claro que, se e quando necessário, os russos sempre concordarão em falar com seus “parceiros” ocidentais, mas isso deve-se à velha política russa de sempre falar com todos e qualquer um, até mesmo com seus piores inimigos. Porquê? Porque nem a guerra nem o unilateralismo político são um fim em si mesmos, eles são apenas meios para alcançar um objetivo político específico. Então, é sempre bom sentar-se com o seu inimigo, especialmente se você tem aumentado lenta mas seguramente a dor dele nos últimos meses! Os europeus sendo os “grandes invertebrados protoplasmáticos supinos” (para usar os termos de BoJo) podem ceder rápida e repentinamente, ou pelo menos tentarão melhorar a sua sorte tentando contornar as suas próprias sanções (assim o Tio Shmuel o permita, ainda que com relutância).
  2. A única parte com a qual a Rússia poderia negociar seriamente é, obviamente, os Estados Unidos. No entanto, enquanto os Estados Unidos estiverem sob total controlo neoconservador, esse exercício será inútil.
  3. Se um acordo fosse concluído, só poderia ser se fosse total e totalmente verificável. Ao contrário da crença popular, muitos tratados e acordos podem ser totalmente auditáveis, o que não é um problema técnico em si. No entanto, com as atuais classes dominantes do Ocidente, é provável que nenhum acordo desse tipo seja elaborado e aceite por todas as partes envolvidas.

O que resta então?

Há um ditado russo que minha avó me ensinou quando eu era criança: “As fronteiras da Rússia estão na ponta da lança de um cossaco“. Este ditado, nascido após 1000 anos de guerra existencial sem fronteiras naturais, simplesmente expressa uma realidade fundamental: são as forças armadas russas que decidem onde termina a Rússia. Ou podemos inverter os termos: “As únicas fronteiras naturais da Rússia são as capacidades das Forças Armadas Russas”. Podemos pensar no unilateralismo russo pré 1917.

No entanto, levanta-se a questão da base moral e ética para tal posição. Afinal, isso não sugere que a Rússia se dá ao direito de invadir qualquer país só porque pode? De jeito nenhum!

Embora a história da Rússia tenha sido marcada por guerras imperialistas e expansionistas, em comparação com os 1000 anos de imperialismo ocidental continuado, a Rússia é apenas um doce cordeiro! Não que isso desculpe alguma coisa, é apenas um fato. As outras guerras russas foram quase todas guerras existenciais, pela sobrevivência e liberdade da nação russa. Não consigo imaginar uma guerra mais “justa” do que as que 1) foram impostas; 2) aquelas em que o único objetivo é sobreviver como uma nação livre e soberana, especialmente uma nação multiétnica e multirreligiosa como sempre tem sido a nação russa, ao contrário dos inimigos da Rússia que sempre foram movidos por um fervor religioso, nacionalista e até abertamente racista (que é o que todos podemos observar novamente hoje, muito depois do fim da Segunda Guerra Mundial).

Será isto só propaganda? Se você pensa assim, então você pode estudar a história russa ou melhor ainda estudar a doutrina militar atual da Rússia e você verá que o planeamento da força russa é totalmente defensivo, especialmente no nível estratégico. A melhor prova disso é que a Rússia apoiou todas as políticas racistas e russófobas da Ucrânia ou dos três estados bálticos por décadas sem intervir. 

Mas quando a Ucrânia se tornou um representante de facto da NATO e ameaçou diretamente, não apenas o Donbass, mas também a própria Rússia, (alguém ainda se lembra que alguns dias antes da OMS, “Ze” disse que a Ucrânia deveria ter armas nucleares?!), então a Rússia entrou em ação. Você tem que ser cego ou fantasticamente desonesto para não admitir esse fato autoevidente.

Nota do autor

A propósito, os três estados bálticos, dos quais a Rússia não tem necessidade, estão constantemente a tentar tornar-se uma ameaça militar para a Rússia, não apenas hospedando forças da NATO, mas também fazendo planos realmente estúpidos para “bloquear” o Báltico com a Finlândia. Acrescente-se a isso as políticas nazistas de apartheid anti Rússia em relação às minorias russas e você será perdoado por pensar que os Bálticos realmente querem ser os próximos a serem desnazificados e desmilitarizados. Mas… mas… – você me dirá – “como são membros da OTAN, não podem ser atacados!”. Bem, se você acredita 1) que um membro da NATO lutará contra a Rússia por essas ilhotas ou 2) que a NATO tem os meios militares para os proteger, então ainda tenho muito a ensinar-lhe. Mas mais, a maneira mais eficaz de lidar com os bálticos é deixá-los matarem-se economicamente, o que basicamente fizeram, e depois prometer-lhes algumas “cenouras económicas” para que adotem uma atitude mais civilizada. Há um ditado russo que diz que “o frigorífico ganha à televisão” (победа холодильника над телевизором), o que significa que quando o frigorífico está vazio, a propaganda na televisão perde todo o poder. Penso que o futuro dos 3 estados bálticos será definido por este aforismo. 

A Ucrânia será, portanto, dividida?

Sim, com certeza, já perdeu grandes pedaços de seu território e só vai perder mais.

Podem os vizinhos ocidentais decidir ficar com um bocado da Ucrânia Ocidental? Claro! É uma possibilidade real.

Mas tal será feito sempre através de ações unilaterais ou acordos coordenados muito informalmente, envoltos em negação plausível (como o envio de “capacetes azuis” polacos para “proteger” a Ucrânia Ocidental). Mas, acima de tudo, prevejo que duas coisas acontecerão: 1) a Rússia alcançará todos os seus objetivos unilateralmente, sem fazer nenhum acordo com ninguém e 2) a Rússia só permitirá que os vizinhos ocidentais da Ucrânia tomem partes da Ucrânia se, e somente se, essas partes não representarem uma ameaça militar para a Rússia.

Lembra-se do que Putin disse sobre a adesão da Finlândia e da Suécia à NATO? Ele disse que, por si só, isso não era um problema para a Rússia. Mas ele alertou que, se esses países abrigarem forças e sistemas de armas dos EUA/NATO que ameaçem a Rússia, a Rússia tomará contramedidas. Acho que essa é também a posição do Kremlin sobre o futuro de um possível banderastão e sobre qualquer iniciativa dos países da OTAN (incluindo Polónia, Roménia e Hungria) visando recuperar territórios que historicamente lhes pertenceram ou onde têm importantes e minorias.

No momento, estamos apenas na segunda fase da OMS (que está centrada no Donbass) e a Rússia nem sequer lançou operações para penetrar mais fundo na Ucrânia. Quanto à guerra real, aquela entre a Rússia e o Ocidente combinados, já dura há não menos que dez anos, se não mais, e essa guerra durará muito mais do que a OMS na Ucrânia. Finalmente, o resultado desta guerra trará mudanças tectônicas e profundas pelo menos tão dramáticas quanto as mudanças resultantes dos resultados da Primeira e Segunda Guerras Mundiais.

Os russos entendem que o que eles devem fazer agora é realmente acabar com a Segunda Guerra Mundial e que o fim formal da Segunda Guerra Mundial em 1945 apenas marcou a transição para um tipo diferente de guerra, ainda imposta por um Ocidente unido e consolidado, agora não mais por nazistas alemães, mas por (principalmente) neoconservadores americanos (que, é claro, são nazistas racistas típicos, exceto que seu racismo é anglófono e judaico/sionista).

Concluirei com uma breve citação de Bertold Brecht que creio ser profundamente compreendida pela Rússia de hoje:

“Aprenda então a ver e não a olhar.
Fazendo em vez de falar o dia todo.
O mundo quase foi conquistado por tal macaco!
As nações colocaram-no no lugar dos seus companheiros.
Mas não se alegre tão cedo com sua fuga –
A barriga da qual ele saiu ainda está forte. “

– Bertolt Brecht, “A Resistível Ascensão de Arturo Ui”

A Rússia matou muitos macacos ocidentais ao longo de sua história, agora é a hora de finalmente lidar com a barriga da qual eles saíram.

PS: Para sua informação, a investigação russa declarou que as explosões no aeródromo da Crimeia foram um ato de sabotagem/propaganda. Explicação que desde o início surgia como a mais plausível.

Fonte aqui


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O caso nacional do homem do marketing para o ministério

(Por oxisdaquestao, in Blog oxisdaquestao, 17/08/2022)

Sérgio Figueiredo. Havia um ministro das finanças que se sabe não percebia nem percebe patavina delas, finanças. Mas que precisava de um homem de “marquetingue” para nos convencer a todos exatamente do contrário…


Continuar a ler em: o caso nacional do homem do marketing para o ministério – oxisdaquestaoblog


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A luz ao fundo do túnel

(António Filipe, in Expresso Diário, 16/08/2022)

A possibilidade real da eleição de Lula da Silva nas eleições presidenciais é a luz ao fundo do túnel para a derrota da barbárie levada ao poder na sequência do golpe de Estado iniciado em 2014 e para o regresso do Brasil a uma governação democrática.


O golpe de Estado que destituiu ilegalmente Dilma Rousseff de Presidente do Brasil em 2016, que prendeu ilegalmente Lula da Silva para o impedir de se candidatar em 2018, que lesou gravemente a economia, o Estado de Direito e a democracia no Brasil em nome de um suposto combate à corrupção e que levou ao poder uma camarilha obscurantista, corrupta e boçalmente reacionária em torno de Jair Bolsonaro, pode vir a ser derrotada nas urnas por uma frente ampla para a defesa da democracia em torno da candidatura de Lula da Silva.

A verificar-se essa eleição, dado que em política não há vitórias antecipadas, será na verdade a derrota de um golpe de Estado iniciado em 2014, concretizado através de uma gigantesca mobilização de meios com que a elite brasileira pretendeu reverter os avanços sociais conseguidos durante os Governos de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Quando terminou o seu segundo mandato em 2010, Lula da Silva tinha uma aprovação de quase 90% apesar dos ataques sistemáticos que lhe eram movidos pela comunicação social dominante. O Brasil tinha saído mapa da fome, uma classe média tinha surgido devido à melhoria significativa das condições de vida das camadas sociais mais desfavorecidas, o Brasil tornou-se uma grande economia mundial e era um país respeitado, como nunca tinha sido, a nível mundial.

Se Dilma Rousseff foi eleita tranquilamente em 2010, o mesmo já não aconteceu em 2014. Muita coisa tinha mudado na economia mundial com a crise que se instalou no início da segunda década do Século XXI. A economia brasileira também foi afetada e a reeleição de Dilma Rousseff em 2014, tendo sido democraticamente inquestionável, foi mais apertada que a anterior, sendo que das eleições parlamentares resultou uma composição do Congresso (Câmara dos Deputados e Senado) adversa ao Governo e disposta a criar dificuldades à ação governativa.

Sucede que o candidato derrotado, Aécio Neves, se recusou a aceitar o resultado da eleição e promoveu desde o primeiro dia uma ação desestabilizadora visando derrubar a Presidente democraticamente eleita.

Os tempos que se seguiram foram de intensa contestação social fortemente mobilizada pela comunicação social, amplamente financiada pelas associações patronais (a poderosa FIESP chegou a distribuir refeições gratuitas aos manifestantes), e levando atrás de si setores da própria esquerda atraídos pela justeza dos propósitos invocados pelos promotores das manifestações que exigiam hipocritamente mais investimento na saúde e na educação.

A fase seguinte foi o lançamento do processo de destituição (impeachment) de Dilma Rousseff. Nos termos constitucionais, a destituição só seria possível havendo crimes de responsabilidade cometidos pela Presidente, reconhecidos por dois terços de ambas as câmaras parlamentares. Em sessões parlamentares que ficarão na História pelas piores razões, onde se assistiu a intervenções de uma ignomínia sem limites, Dilma Rousseff foi afastada por “crimes” que todos sabiam inexistentes.

Consumado o afastamento de Dilma Rousseff, era preciso impedir Lula da Silva de se recandidatar. Nessa vertente do golpe, entraram em força a comunicação social e o sistema judiciário.

A invenção dos processos contra Lula da Silva teve a assinatura de um procurador (Deltan Dalagnol) e de um juíz (Sérgio Moro). Dalagnol exibiu perante o país um power-point em que Lula era acusado de ser o centro de uma associação criminosa ligada à corrupção.

Os processos contra Lula foram associados artificialmente a uma operação que já havia sido lançada, de nome lava-jato. Essa operação, posta em prática com a prestimosa “colaboração” da CIA, visou, através de mecanismos processuais famigerados como a “delação premiada”, liquidar a maior empresa de construção civil da América latina (Odebrecht) e a petrolífera pública brasileira (Petrobrás). Num país com uma corrupção reconhecidamente endémica, e onde a necessidade de a combater reúne um largo consenso social, era, e é possível, em nome do combate à corrupção, com forte apoio da opinião pública e publicada, instrumentalizando seletivamente os mecanismos legais de combate à corrupção e usando-os para outros fins. Tudo isto num quadro em que a comunicação social dominante se empenhou em condenar publicamente Lula da Silva, forjando convicções na ausência de provas.

Tal como aconteceu com o processo de Dilma Rousseff, os processos contra Lula da Silva eram manifestamente fantasiosos, mas para saber isso era preciso conhecer os processos. Só que a comunicação social corporativa, com a TV Globo na dianteira, dedicava horas infinitas às teses da acusação e silenciava tudo o mais. O poder económico brasileiro usou intensivamente o seu poder mediático para forjar a condenação de Lula na opinião pública e com isso facilitar a aceitação da condenação judicial. Qualquer pessoa que tivesse a possibilidade de conhecer os factos concretos e não apenas as acusações e pudesse olhar para esses factos de forma objetiva perceberia estar perante uma monumental farsa judicial, mas tudo o que contrariasse a versão dominante era silenciado ou convenientemente marginalizado.

Em Portugal, onde a generalidade da comunicação social se limitava a reproduzir as teses da TV Globo, da TV Record, da Folha ou do Estado de São Paulo, poucos se atreviam a acreditar na inocência de Lula. Alguns por inocência ou cobardia, outros simplesmente por não dispor de elementos que permitissem contrariar as teses dominantes. Para isso era preciso romper o círculo político e mediático que estava montado e ter acesso ao conteúdo dos próprios processos ou a opiniões que, contra a corrente, desmontavam pedra por pedra as teses fantasiosas da acusação.

A informação que pude obter na altura sobre os processos deu-me a certeza de estar perante uma farsa judicial imprópria de um Estado de Direito. Desde logo, o Tribunal de Curitiba onde pontificava o juiz Moro nem sequer era competente para julgar Lula da Silva. O julgamento em Curitiba consistia numa usurpação de competência baseada num artifício que consistiu em associar as acusações abusivamente à operação lava-jato.

Os processos não tinham pés nem cabeça. Lula era acusado de ser proprietário de um triplex quando ao mesmo tempo decorria na Justiça um processo de penhora do triplex ao verdadeiro proprietário. Lula era acusado de ser o dono de um “sítio” com o qual nada tinha a ver. Era acusado de corrupção por conferências dadas ou por ter defendido a indústria brasileira no exterior e como não se encontrava nada das fantasiosas riquezas de que era acusado de possuir era acusado de branqueamento de capitais. E como se não bastasse, toda a família era perseguida judicialmente: a esposa que veio a falecer e que também viu os seus bens arrestados, os irmãos e os filhos.

Como era preciso agir depressa, Moro fez a festa, deitou os foguetes e apanhou as canas. Dirigiu a instrução, deu ordens aos procuradores, fez o julgamento, reconheceu não ter provas, mas convicções, ditou a sentença e mandou prender. Tudo em tempo recorde e perante um Supremo Tribunal Federal acobardado em face da pressão mediática. Escusado será dizer que num Estado de Direito que se preze, o juiz que dirige à instrução não pode, em caso algum, proceder ao julgamento.

Sucede também que, num Estado de Direito que se preze, para se cumpra uma pena de prisão é preciso que a condenação seja definitiva, mas mesmo isso tinha de ser ultrapassado. O recurso da sentença de Moro foi levado rapidamente à segunda instância que ainda agravou a pena e pouco depois o Supremo Tribunal Federal veio alterar a sua jurisprudência permitindo que Lula começasse a cumprir a pena mesmo sem haver uma decisão transitada em julgado. Importa referir que a decisão do Supremo Tribunal Federal foi antecedida de ameaças por parte das chefias militares. Faltava a componente militar do golpe, mas ela acabou por se fazer sentir através de ameaças feitas em momentos chave.

Todo o ambiente político-mediático que foi criado no Brasil entre 2014 e 2018, assente no descrédito da política e dos políticos e na demagogia em torno de um suposto combate à corrupção, levou a que os principais patrocinadores do golpe contra o PT – o chamado centrão (principalmente PSDB e PMDB) – fossem, quais aprendizes de feiticeiro, arrastados na voragem de um discurso supostamente antissistema que levou ao poder, com Bolsonaro, o pior e mais corrupto que o sistema alguma vez gerou. E mais uma vez a mão de Washington, através do famigerado Steve Bannon, dotou o bolsonarismo com a assessoria necessária para uma gigantesca campanha de falsidades difundidas por via das redes sociais.

Pouco tempo era passado sobre a governação de Bolsonaro para que muita gente se apercebesse da tragédia que se abateu em 2018 sobre o Brasil. A boçalidade do discurso e da prática governativa que se revelou uma vergonha nacional e internacional, o regresso do Brasil ao mapa da fome com o abandono de projetos de apoio social e o regresso ao neoliberalismo, a venda ao desbarato do mais valioso património empresarial público, a criminosa gestão negacionista da pandemia de covid 19, o escandaloso nepotismo da família Bolsonaro, a apologia da violência e do uso das armas, o aumento da violência política com o recurso a assassinatos e as ameaças diretas ao poder judicial e à democracia, mostraram a verdadeira face de Bolsonaro e da camarilha política que o rodeia.

Podemos dizer que a libertação de Lula, após 500 dias de prisão, foi um ponto de viragem. Constantemente acossado por ameaças bolsonaristas contra o poder judicial e contra a sua própria existência, o Supremo Tribunal Federal decidiu, embora tangencialmente, o que nunca deveria ter sido posto em causa, isto é, que não se pode cumprir uma pena de prisão sem que haja uma condenação definitiva. A partir daí, o Juiz Moro (que tinha, entretanto, passado de juiz a ministro de Bolsonaro, até se demitir) foi considerado parcial e as suas decisões anuladas. Foi denunciada a falsidade do power-point de Dalagnol e toda a farsa judicial começou a cair como um castelo de cartas. Lula da Silva obteve na passada semana a 26.ª vitória judicial. É hoje óbvio que foi um preso político durante 500 dias, vítima de um golpe de Estado que o povo brasileiro tem em breve condições para derrotar.

A frente social e política que apoia Lula da Silva não se limita aos partidos e personalidades considerados de esquerda. Trata-se de um amplo movimento que anseia pelo regresso a uma governação que respeite os mais elementares valores democráticos.

A luta eleitoral até outubro será extraordinariamente exigente. O bolsonarismo não desarma e não hesitará em recorrer aos métodos mais sórdidos de intervenção política. E não faltarão aqueles que em nome de uma suposta neutralidade preferem ficar em cima do muro. Todavia, o povo brasileiro tem nas suas mãos a possibilidade de virar mais uma página infeliz da sua História e ser feliz de novo.


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