A cimeira do desespero e do terror

(José Goulão, in AbrilAbril, 01/07/2022)

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky (no ecrã), fala durante a Cimeira da NATO em Madrid, a 29 de Junho de 2022

Foi um desfile de arrogância, ameaças, irresponsabilidade, insensibilidade para com as pessoas, alto risco para o planeta – de terror. A Cimeira da NATO em Madrid teve tudo o que é de esperar dos donos do mundo (ou que, pelo menos, ainda se julgam como tal) para ditarem aos súbditos na Terra como vai funcionar a partir de agora, mas sempre sob chuvas de balas e de mísseis, a «ordem internacional baseada em regras». A peça e a encenação, com fausto aristocrático – e repercussões mentais a condizer – servidas por uma oligarquia globalista recolhida numa bolha virtual mais e mais instável, não disfarçaram, porém, um alarmado desespero, maleita que afecta seriamente a organização expansionista pela primeira vez na sua história.

Além desse desespero, e apesar da parafernália de estruturas e meios exibidos para dar ao evento as tonalidades dramáticas de tropas em campanha, a Cimeira da NATO padeceu também de um comprometedor anacronismo, afinal mais uma expressão da teimosia negacionista com que encara as transformações em curso num mundo onde são cada vez mais frequentes (e eficazes) os sinais de irreverência, distanciamento e afirmação soberana. Estas tendências manifestam-se principalmente no interior da esmagadora fracção de mais de 85% do planeta, que tem estado submetida, em maior ou menor grau, à arbitrariedade colonial e imperial – a tal «ordem baseada em regras» usada para subverter o direito internacional e o conceito básico e elementar de igualdade entre países e povos.

As «regras» são, afinal, os «nossos valores partilhados», a «democracia liberal» e outras muletas de oratória esvaziadas de conteúdo e transformadas em ferramentas de propaganda que servem essencialmente para cultivar o medo inibidor e o primado da violência militar à escala global. Daí que as tais «regras», «valores» e «democracia» se tenham fundido num único conceito económico e político, o neoliberalismo selvagem, e numa exclusiva actividade, a da guerra, que o chamado «mundo ocidental» – menos de 15% do planeta – manipula agora desesperadamente, de maneira perigosa e suicida, para travar as transformações internacionais que, por linhas direitas e linhas tortas, já estão a fazer o seu caminho.

O efeito Ucrânia

A causa próxima do desespero entranhado na Cimeira da NATO em Madrid é a maneira como está a correr a guerra que a organização atlantista trava com a Rússia através da transformação cruel da Ucrânia num país mártir, com desprezo absoluto pelo seu povo.

Depois das derrotas humilhantes no Afeganistão e no Iraque, do flagrante insucesso na operação para desmantelar a Síria, da caótica e sangrenta situação deixada na Líbia por uma criminosa agressão militar, a NATO está a perder a guerra na Ucrânia. É um contexto desastroso para a organização que tem como missão garantir o «excepcionalismo» ocidental para grandeza e usufruto dos Estados Unidos da América.

E a única saída que a aliança continua a cultivar, como se percebeu na reunião na capital espanhola, é a acumulação de incentivos de guerra em cima da guerra para prolongar artificialmente um conflito que, segundo um número cada vez maior de analistas militares sérios e objectivos, deveria passar imediatamente à fase de negociações para que uma entidade ucraniana possa continuar a existir e, sobretudo, não se percam mais vidas humanas.

Para a NATO, porém, a Ucrânia é terra queimada. A organização que se considera o braço armado e global da democracia e dos direitos humanos está disposta a mergulhar os povos dos Estados-membros na pobreza e numa crise económica e social profunda para sustentar um regime nazi, corrupto e falido em Kiev, com um exército em frangalhos. É uma insistência desgovernada no objectivo declarado de «enfraquecer a Rússia» e mudar o regime político em Moscovo acreditando que assim conseguirá travar a ordem multipolar em construção.

A NATO confirmou em Madrid que ficou encurralada num beco sem saída ao apostar tudo na Ucrânia para derrotar a Rússia. A estratégia está a atingir extremos inimagináveis: Scott Ritter, antigo oficial de inteligência dos Marines norte-americanos e que actuou no Iraque como inspector de controlo de armas ao serviço da ONU, explicou num dos seus últimos artigos que a quantidade de peças de artilharia e de sistemas de lançamento múltiplo de foguetes pedida pelo regime do idolatrado Zelensky à NATO excede o stock de serviço activo do Exército e do Corpo de Fuzileiros dos Estados Unidos juntos; e que os 500 tanques de batalha igualmente solicitados por Kiev superam os stocks combinados da Alemanha e do Reino Unido. Ao mesmo tempo, a República Checa advertiu que já enviou para a Ucrânia todo o material de guerra que tinha desde os tempos do Tratado de Varsóvia. Será que a NATO aposta o que tem e o que não tem à mão numa vitória de Kiev que parece cada vez mais distante enquanto a Rússia continua a progredir no Donbass recorrendo a um dispositivo e a uma estratégia de guerra que correspondem a menos de um quinto das suas forças militares totais?

Se assim for, o desespero atlantista é compreensível, mas também da sua única e exclusiva responsabilidade. Uma notícia que a propaganda oficial naturalmente escamoteou dá conta do gesto repugnante de Zelensky de pedir autorização ao parlamento, o que vale por um decreto porque na «democracia» ucraniana ocidental a oposição está proibida, para que até os cidadãos portadores de deficiências físicas sejam recrutados para as forças de reserva territorial que estão a ser deslocadas, sem qualquer preparação operacional militar, para a frente de combate à medida que as tropas regulares e especiais são aniquiladas. O presidente ucraniano, pelos vistos, ainda não assimilou bem o conceito de direitos humanos e «valores partilhados», mas isso não é problema para a NATO, trancada no seu beco sem saída, uma vez que continua a desconhecer o que são negociações diplomáticas, da mesma maneira que ignorou a existência dos Acordos de Minsk, a chave que teria fechado a porta à tragédia ucraniana.

Uma situação como esta é provavelmente a ameaça à vida do planeta mais alarmante de sempre. A NATO escolheu a guerra como o único caminho para tentar garantir a sobrevivência de uma «ordem internacional baseada em regras», isto é, do domínio imperial, e impedir a todo o custo as transformações em curso no sentido de um mundo multipolar. O alarme radica nas possíveis repercussões de alcance global do desespero atlantista perante o previsível fracasso da estratégia ucraniana para reduzir a Rússia ao papel de animal de estimação de Washington, como foi nos tempos do alcoólico Ieltsin.

Resta por hipótese, no caso do fracasso total da operação Ucrânia iniciada com o golpe fascista de 2014, uma mudança de estratégia da NATO para continuar a guerra contra a Rússia. E qualquer alteração poderá ter como consequência a entrada das armas nucleares em cena, pois não parece haver outra opção à vista. Uma ameaça de extermínio em massa nunca esteve tão próxima; e a partir daí deixará de haver qualquer ordem internacional, ou mesmo vida no planeta tal como hoje a conhecemos. O agravamento desse risco foi, podem crer, a principal consequência da encenação de Madrid, onde os dirigentes políticos e militares que usurparam os votos e as vontades de centenas de milhões de pessoas se irmanaram como irresponsáveis e potencialmente criminosos senhores da guerra.

As nações «dispensáveis»

Num discurso proferido em 2014 aos futuros oficiais do Exército norte-americano, na Academia de West Point, o então presidente Obama, a eminência parda da administração Biden tirando proveito das visíveis limitações do titular, afirmou que «os Estados Unidos são e continuarão a ser a única nação indispensável». E explicou: «Do Brasil à Índia, as classes médias em ascensão competem connosco; é tarefa da vossa geração responder a este novo mundo.» Ou seja, garantirem que a ordem de sempre continue a vigorar.

Trata-se, sem dúvida, da reafirmação do programa imperial e do «excepcionalismo» norte-americano, conceito equivalente ao de «domínio de espectro total», todos eles emanados dos centros de conspiração norte-americanos a partir da queda do muro de Berlim. Todas as outras nações do planeta são, portanto, «dispensáveis». A começar pelas que foram prestar vassalagem em Madrid, no âmbito de uma organização militar com ambições de controlo global, à sua incontestável chefia, exercida pela única nação «indispensável». É um facto que todos os outros membros da NATO aceitaram por inerência esse estatuto de não-países ao abdicarem das soberanias militares e, no caso da maioria deles, das soberanias económicas e políticas no interior de comunidades geridas por não-eleitos, como a União Europeia. Dissolvendo-se assim a democracia e a capacidade de intervenção internacional de cada um deles por obra de governos sofrendo de total falta de brio, de dignidade e, sobretudo, de respeito pelos seus povos.

A teoria das nações «dispensáveis» é aliás uma das bases da estratégia de Great Reset, o grande reinício, do Fórum Económico Mundial de Davos (FEM), assente na perspectiva da instauração de um governo global num mundo sem fronteiras e sem barreiras habitado por «cidadãos felizes que nada têm de seu» – tudo lhes é servido num universo de controlo digital, segundo pode ler-se no site do próprio FEM.

Como seria de esperar, nem todas as nações, pelos vistos a maioria delas e que representam muito mais de três quartos da população mundial, se revêem neste panorama tão futurista como orwelliano e não abdicam da soberania, da independência e da intervenção no quadro do direito internacional, rejeitando, por isso, a «ordem internacional baseada em regras». O que representa uma atitude subversiva perante a gestão imperial, seus agentes e instituições.

A União Africana não quis saber de Zelensky

Chegámos, portanto, a um confronto existencial entre uma ordem vigente decadente (a História ensina-nos que os impérios acabam) e uma ordem nascente funcionando segundo novos mecanismos de coexistência internacional suportados pela cooperação mutuamente vantajosa e igualitária entre Estados fortemente soberanos. Exactamente o oposto do colonialismo e do imperialismo vigentes.

Os senhores do mundo, habituados a porem e disporem de um planeta submetido às suas ordens, interesses e rapinas, reagem muitas vezes sem nexo e lucidez às transformações. Não as admitem e com a finalidade de as travarem inventam «regras» sempre em formato de guerra, sanções e outras arbitrariedades penalizadoras para tentarem manter um sistema de diktat internacional cada vez mais feroz. A guerra é, como se percebe, a única ferramenta a que recorrem para tentarem atingir os seus fins.

A cultura da guerra, da violência e da mentalidade de confronto como norma fundamental no contexto de um pensamento único define, por isso, a essência dos anos que este século tem de vida.

Reaccionário por inerência, o imperialismo ataca as mudanças em estilo cada vez mais precipitado e desesperado, como é próprio de quem sente que entrou num beco sem saída. Foi tudo isso que a Cimeira da NATO expôs em Madrid e que nem a irresponsável euforia mediática, funcionando como central de propaganda belicista onde a palavra «paz» tem conotações subversivas, conseguiu disfarçar.

Entre a velha ordem e a consolidação das transformações susceptíveis de criar um novo sistema de relações entre nações que se respeitam independente das características que assumam os seus governos, existe um interregno que começámos a atravessar. Um período extremamente perigoso, instável, propício ao aparecimento de comportamentos irresponsáveis, terroristas e persistentemente provocatórios. A Cimeira da NATO confirmou, tragicamente, a actualidade destas ameaças de alto risco.

Como existem milhares de armas nucleares nos arsenais de pouco mais de meia dúzia de países, a situação tornou-se aterradora para a espécie humana. Já repararam certamente que os senhores do império deixaram, de um momento para o outro, de falar em alterações climáticas, «transições digitais» e economias «verdes», e não hesitam sequer em recorrer de novo ao carvão como fonte de energia. O que confirma o princípio defendido pelos verdadeiros pacifistas e ecologistas de que o combate à guerra é a prioridade da luta pela sobrevivência do planeta, nunca devendo estar isolado das acções contra os problemas ambientais e vice-versa. Uma bomba nuclear provoca em minutos as catástrofes que as mudanças climáticas ameaçam fazer em décadas.

Nada do que se passou na Cimeira da NATO é tranquilizador em relação aos tempos que estamos a viver. Pelo que é urgente restabelecer uma cultura de paz mesmo que isso represente um comportamento subversivo perante os senhores que nos governam e os seus esbirros mediáticos, que persistem em tentar robotizar-nos em modo suicida de pensamento único.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A Guerra real: O imperialismo dos valores arbitrários ocidentais versus a soberania das nações

(Simon Chege Ndiritu, in Southfront.org, 03/07/2022, trad. Estátua de Sal)

Biden e Johnson desviam fundos das economias nacionais, sem a aprovação dos cidadãos, para armar a Ucrânia “democrática”, pelo que o imperialismo abandona a sua fachada de democracia. À medida que a Rússia avança no Donbass, a NATO continua a aumentar o seu fornecimento de armas à Ucrânia. Enquanto isso, a inflação cresce nos países da NATO, e os políticos não fazem nenhum esforço para remediar a queda nos padrões de vida dos cidadãos, pois dão prioridade à guerra e às ameaças da NATO.


O Pano de fundo

O final de junho e o início de julho de 2022 estão a ser um período historicamente interessante. Houve uma rápida sucessão de reuniões dos imperialistas começando com o G7 seguida pela NATO. A reunião do G7 foi interessante porque, além das declarações para defender valores ocidentais indefinidos , a única conclusão foi uma sessão de piadas sobre as fotos caprichosas de Putin a montar a cavalo de peito nu. A reunião da NATO terminou com mais ameaças contra a Rússia e a assunção de considerar a China, localizada no lado oposto do Atlântico Norte, como inimiga. Enquanto isso, em 30 de junho, as forças russas foram tão bem-sucedidas em torno de Lisichansk que pareceram excessivamente cautelosas em anunciar o seu progresso. Por exemplo, em 29 junho, informaram controlar apenas 30% de Lisichansk enquanto as notícias da Sky, obtidas junto das forças ucranianas afirmavam que a cidade estava irremediavelmente perdida. A partir de 2 de julho, as cidades ao redor de Severodonetsk-Lisichansk estavam a cair a um ritmo sem precedentes. Os russos estavam praticamente a esmagar os seus oponentes, mesmo com custos notáveis ​​em homens e material. Neste contexto, os imperialistas prometeram ainda mais armas à Ucrânia, de acordo com o seu estilo habitual. A NATO começou por fornecer massivamente armas de pequeno porte e progrediu, num padrão quase linear, aumentando a complexidade do armamento mas reduzindo as quantidades fornecidas. Alguns aliados dos EUA já alegaram estar sem stocks.

O resvalar freudiano dos valores liberais igual a corrupção

Façamos uma comparação das opiniões da média ocidental antes e depois da operação especial. Num artigo de 2015, The Guardian relatava que a Ucrânia era o país mais corrupto da Europa, mas em 27 de fevereiro de 2022, a mesma média afirmava que lutar pela Ucrânia representa lutar pelos ideais liberais. Tal contradição externa constitui um lapso freudiano, pois ambos os artigos mostram ocidentais a saquear quer a Rússia quer a Ucrânia. Deve sublinhar-se que entre os fatores que contribuíram para a corrupção da Ucrânia estão as atividades corruptas e confessas de Joe Biden e o saque à Ucrânia empreendido pelo seu filho Hunter Biden. The Guardian, convenientemente, omitiu tais detalhes no artigo em que descreve a corrupção perversa na Ucrânia.

O segundo artigo do The Guardian, referido acima, tinha um subtítulo: “Durante muito tempo os Conservadores adoraram receber dinheiro russo pondo em causa os valores democráticos que agora afirmam que lhes são queridos. Assim, os Conservadores receberam dinheiro dos russos sem dar nenhum produto ou serviço em troca, mas continuam mantendo alguns valores queridos. Quais seriam esses valores? Neste contexto, os únicos valores que o Reino Unido, a UE e a NATO prezam são a corrupção e o imperialismo. Ambos os artigos mostram que a atual guerra travada pela UE e pela NATO visa criar condições para saquear a Rússia, a Ucrânia, a China, o Irão e o Sul global. Um dos ideais liberais do Ocidente é a crença de que todos os recursos do resto do mundo (incluindo da Rússia) devem ser negociados de uma maneira que pague tributos ao Ocidente. É por isso que esta guerra não terminará em breve.

Para além dos mísseis, projéteis de artilharia, granadas e munições que voam através das linhas de batalha na Ucrânia, a verdadeira guerra está a ocorrer noutro lugar e é dirigida por uma minoria desprezível que quer controlar o mundo, pretendendo coordenar a maioria. Eles desejam manter o império financeiro liderado pelos EUA amplamente descrito por Michael Hudson, que lhes permite obter o melhor das commodities e do trabalho e ter lucros a troco de nada. Putin e a maioria estão pedindo um mundo mais justo. Esta guerra é o confronto final entre a moeda-dívida (moeda fiduciária) e a moeda real das commodities. Amplia o apelo por um mundo mais equitativo desejado, entre outros, por Thomas Sankara, Mohammad Mosaddegh, Muammar Gadaffi e agora Nayib Bukele e Vladimir Putin. Todas essas personalidades argumentaram que todas as regiões teriam desenvolvimento equitativo se os seus países tivessem liberdade suficiente para trocar os seus recursos por dinheiro real. No entanto, as potências coloniais atlânticas, começando pela Espanha, Portugal, França, Inglaterra, Holanda e EUA, prosperaram apoderando-se dos recursos de qualquer lugar do mundo usando a violência e/ou o papel-moeda. Assim, a marca Atlântico Norte da NATO deve ser sublinhada. São apenas esses países que ficaram ricos sequestrando e escravizando africanos, negociando-os, roubando os recursos da África e da Índia e travando guerras contra a China para a vergar. De tais ações passadas, podemos deduzir o que é a ordem liberal transatlântica e quais as suas aspirações. Mosaddegh, Sankara e Gaddafi foram rapidamente empurrados para debaixo do autocarro por serem contrários a tais aspirações do Atlântico Norte, mas as coisas mudaram porque perderam o monopólio da violência que detinham.

Agindo acima do Estado-Nação

A cabala transatlântica pretende coordenar o comércio global de cereais e petróleo para obter lucros supernormais, distorcendo os preços e os fornecimentos, usando ameaças, violência, emissão de moeda, e uma narrativa falsa de valores ocidentais a que o resto do mundo deveria aspirar. Veja-se, por exemplo, o mercado do trigo e como eles pretendem regular a produção, mas não produzir. Em janeiro de 2021, o USDA informou que a Rússia planejava restringir a venda de cereais e oleaginosas até meados de 2021. Em fevereiro de 2021, a Rússia impôs tarifas de exportação sobre o trigo e limitou a exportação a 8 milhões de toneladas a partir de fevereiro de 2022. A média internacional sublinhou esses anúncios no contexto em que a Rússia era o principal exportador mundial de trigo.

A Gro Intelligence reportaria,

“O última decisão do país pode contrair ainda mais a já apertada oferta global de trigo”.

A Reuters concluiu,

“Os preços do trigo europeu subiram na segunda-feira depois da agência de notícias Interfax ter informado da proibição da Rússia às exportações de cereais”.  

A média ocidental relatou satisfeita que essas medidas teriam um impacto adverso na oferta global. Portanto, os ocidentais milagrosamente concederam a si mesmos o poder de regular o fornecimento global de trigo, mas não de produzir seu próprio trigo. Tais visões são interessantes especialmente no contexto das recentes propostas ocidentais para “descolonizar” a Rússia e torná-la um ator responsável no “palco internacional”. De acordo com os ocidentais, a Rússia e outras nações devem apenas produzir, mas não devem ter voz sobre como esses recursos são comercializados, incluindo se as suas populações têm acesso preferencial a essa produção. Por exemplo, em maio de 2022, a Índia também proibiu a exportação de trigo e os ocidentais responderam. A CNBC observou que a Índia era o segundo maior exportador global de trigo e prosseguiu;

“Os compradores globais estavam a apostar nos fornecimentos do segundo maior produtor mundial de trigo após as exportações da região do Mar Negro terem caído devido à invasão da Ucrânia pela Rússia no final de fevereiro”.

Mais uma vez, os ocidentais assumiram a pesada responsabilidade de aconselhar a Índia sobre o que fazer no interesse dos “compradores globais”. Uma abordagem mais construtiva seria reconhecer que, quer o governos russo quer o governo indiano, têm a responsabilidade fundamental de alimentar prioritariamente as suas populações em detrimento do resto do mundo. Além disso, os governos ocidentais deveriam defender a produção localizada de alimentos para salvar o meio ambiente, em vez de promoverem o transporte de trigo por longas distâncias usando combustível intensivo em carbono, admitindo que o combate às alterações climáticas é para levar a sério. No entanto, os britânicos ficariam felizes ao ver a Índia ou a Rússia exportando todo o seu trigo para os mercados ocidentais, onde os preços são sempre mais altos devido à maior oferta de dinheiro, e existindo em consequência russos e indianos a morrer à fome.

Especuladores imperiais versus trabalhadores em países em desenvolvimento

No entanto, o comportamento dos países ocidentais ‘desenvolvidos’ neste caso é um bom indicador dos problemas reais. A Rússia não foi sempre o maior exportador de cereais, e só ultrapassou outros produtores recentemente. Porque aconteceu tal facto? A resposta mais prática “é a má alocação de capital”. Há um pequeno grupo, que manipula os preços das commodities para obter lucros sem trabalho. Um exemplo disso pode ser ilustrado com base na decisão da Índia sobre a exportação de cereais. Em 20 de dezembro de 2021, a Reuters informou que a Índia havia suspendido as negociações de futuros de commodities para conter a inflação. O raciocínio por detrás da restrição das exportações da Rússia também foi reduzir os seus preços internos. Os esforços da Índia e da Rússia foram projetados para impedir a especulação sobre cereais em que grandes operadores ocidentais usando dinheiro barato comprariam futuros de cereais na Rússia e na Índia, entre outros mercados, para criar ‘escassez’ e obter lucros supernormais e, portanto, levar o mercado a praticar preços altíssimos. Com tal modelo económico, as grandes corporações ocidentais não podem empenhar-se na produção agrícola, e este é um sistema económico que a minoria do G7 quer manter. 

Um mundo em que os países em desenvolvimento fazem todo o trabalho, enquanto as megacorporações ocidentais colhem todos os lucros que as acções da Rússia, entre outros países, ameaçam atingir. Portanto, a NATO continuará armando inexoravelmente a Ucrânia e poderá mesmo intervir diretamente.

Fonte aqui


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.

A Nova Guerra Fria Mundial da NATO é agora oficial

(In Strategic-Culture.org, 01/07/2022, Trad. Estátua de Sal)

A Rússia e a China, mantendo-se firmes, podem ser suficientes para empurrar o eixo dos EUA para a sepultura que merece.


Finalmente, a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, denominada NATO, tornou explícitas as suas ambições globais em relação à guerra fria. Finalmente, a organização belicista saiu do armário enganador em que há muitos anos se tem escondido. E, portanto, doravante será condenada por todas as pessoas de bem do mundo.

Numa cimeira realizada esta semana em Madrid, a Organização do Tratado do Atlântico Norte lançou um novo Conceito Estratégico que declarou a Rússia como uma “ameaça directa” e a China como um “desafio” aos “nossos valores e interesses”. Quais são exactamente esses valores e interesses? O belicismo e a dominação!

A última vez que a NATO publicou um documento estratégico foi em 2010. Nessa altura, a Rússia era descrita como um “parceiro” e a China nem sequer era mencionada.

Durante a última década, o bloco militar dominado pelos EUA tem vindo a adoptar cada vez mais uma política hostil tanto em relação à Rússia como à China. A procura de uma nova guerra fria tem sido implacável, implacável, e largamente implícita. Agora, porém, o eixo liderado pelos EUA declara abertamente a sua hostilidade.

Os 30 membros da NATO convidaram formalmente dois novos Estados europeus a juntarem-se às suas fileiras, a Finlândia e a Suécia. Os dois países nórdicos estão a pôr fim a décadas de neutralidade nominal no que só pode ser visto como um movimento provocatório calculado contra a segurança nacional da Rússia. Os novos membros irão duplicar a fronteira terrestre da NATO com a Rússia e aumentar a já crescente presença da aliança com armas nucleares na região do Ártico. Moscovo advertiu contra uma tal expansão da NATO como uma desestabilização irresponsável do equilíbrio estratégico. O facto de o bloco estar a avançar com a expansão é demonstrativo do desrespeito imprudente pelos esforços de encontrar segurança mútua e manter a paz internacional.

A cimeira da NATO desta semana também deixou claro que o eixo militar liderado pelos EUA está a adoptar uma base de guerra contra a China. Por que outra razão uma organização atlântica convidaria pela primeira vez a presença de quatro nações do Pacífico que têm debitado cada vez mais a retórica americana anti China? Líderes da Austrália, Nova Zelândia, Japão e Coreia do Sul estiveram em Madrid para formar os chamados “Quatro da Ásia-Pacífico” (AP4). Tal como com o Diálogo Quadrilateral de Segurança liderado pelos EUA, ou Quad, e o pacto AUKUS, o Pacífico está a ser transformado numa zona de combate da NATO contra a China, da mesma forma que o Atlântico é dominado pela hostilidade da NATO em relação à Rússia. Em última análise, são os Estados Unidos e os seus interesses imperiais que estão a ser prosseguidos e a definir orientações. É isto que realmente se pretende dizer com a vaga e aparentemente benigna formulação dos “nossos valores e interesses”.

Este culminar em 2022 é em tudo coerente com o papel histórico da NATO. Foi formada em Washington em 1949 como um instrumento ofensivo para a agressão dos EUA contra a União Soviética. A ideologia de soma zero do imperialismo americano é necessariamente baseada na hegemonia e dominação. Outras nações ou são vassalos ou inimigos. Um mundo multipolar de parceria mútua é um anátema. De facto, o próprio conceito das Nações Unidas é um anátema. O mundo tem de ser demarcado em “aliados e inimigos” para que o capitalismo militarista dos EUA possa sobreviver.

Quando a anterior guerra fria terminou em 1991, devido ao colapso político e económico da União Soviética, a euforia inicial da suposta vitória americana rapidamente se dissipou. O autor e comentador John Rachel analisou a forma como as conversas sobre o fim do militarismo e os gastos militares excessivos e a antecipação de um “dividendo de paz” maciço e transformador foram cruelmente postas de lado. Porquê? Porque os governantes americanos e os seus vassalos da NATO perceberam que, sem militarismo e guerra, terminaria o seu jogo de extorsão capitalista empresarial.

Surgiu então a Doutrina Wolfowitz e o “domínio de todo o espectro”, em que os Estados Unidos e os seus lacaios europeus declararam literalmente guerra ao planeta para capturar os recursos naturais e manter sob controlo as potências concorrentes. Uma Rússia ressurgente e uma China ascendente não seriam toleradas, pois seriam impedimentos às ambições hegemónicas americanas.

Nos últimos 30 anos desde o fim da primeira guerra fria, tem havido nada menos do que uma orgia de belicismo dos EUA e da NATO, na qual nações mais fracas, umas atrás das outras, têm sido destruídas pelo militarismo liderado pelos americanos. O direito internacional e os direitos humanos no planeta foram esvaziados e saqueados por um ataque relâmpago liderado por Washington.

Pessoas com princípios como Julian Assange, que expôs tal criminalidade, foram perseguidos e torturados. A liberdade de expressão e o pensamento crítico independente e genuíno têm sido perseguidos e assassinados.

Com incrível hipocrisia, arrogância e ilusão, o Presidente dos EUA, Joe Biden, e outros cúmplices da NATO exaltam princípios de democracia, ordem baseada em regras e direito internacional. Quando a verdade é esta: os EUA e os seus lacaios da NATO são os inimigos da paz mundial. Martin Luther King fez uma observação semelhante há quase 60 anos. Foi posteriormente assassinado pelo estado securitário dos EUA. Washington e os seus cúmplices ocidentais ou do Pacífico são a maior ameaça a tudo o que supostamente, cinicamente, acarinham.

Os Estados Unidos e o seu bando de fracassados imperialistas na NATO têm ansiado por uma nova guerra fria durante as últimas três décadas. Quando a Federação Russa, sob a liderança do Presidente Vladimir Putin, desafiou o unilateralismo vilão dos EUA e os seus sátrapas com o seu discurso histórico de Munique em 2007, ele foi marcado como inimigo. A intervenção militar russa em 2015 para ajudar a Síria sob ataque dos EUA e da NATO numa guerra encapotada pela mudança de regime, foi uma resposta à orgia do gangsterismo imperialista liderado pelos EUA. Essa intervenção marcou ainda mais a Rússia como um inimigo que tinha de ser enfrentado e abatido.

O golpe de Estado de Washington e da NATO na Ucrânia em 2014 foi outro acontecimento marcante. Foi uma expansão, de facto, da NATO até às fronteiras da Rússia com uma ponta de lança nazi. Poderia haver maior provocação? Mas Moscovo traçou a sua linha vermelha. Apesar dos repetidos apelos a uma resolução diplomática sobre a Ucrânia e à expansão da NATO, a Rússia foi forçada a tomar “medidas militares técnicas”, neutralizando a ameaça colocada pelo regime de Kiev.

A China também demonstrou corajosamente que não está disposta a subordinar a sua independência às ordens imperiais de Washington. É por isso que Washington está a abandonar caprichosamente a sua política de meio século “Uma China”, com o objetivo ulterior de antagonizar Pequim. A provocação contra a Rússia, sob a forma de Ucrânia armada pela NÁTO, é a mesma face da moeda usada na provocação contra a China com um Taiwan armado pelos EUA e um crescente cerco da OTAN na Ásia-Pacífico.

Assim, e sem recorrer à hipérbole, pode-se dizer que a cimeira da NATO desta semana foi o equivalente a uma conferência de planeamento de guerra. O eixo liderado pelos Estados Unidos criou uma nova guerra fria global.

Isso, só por si, é condenável. Num mundo assolado pela pandemia, doenças, degradação ecológica, pobreza, fome e desemprego, as potências capitalistas estão a canalizar milhares de milhões para máquinas de guerra e a provocar uma febre de confrontação baseada no medo, fobia e demonização. A sua mentalidade é demoníaca. O imperialismo liderado pelos EUA criou grande parte das crises atuais do mundo, incluindo uma nova guerra fria.

No entanto, o mundo mudou dramaticamente desde que a NATO foi fundada há 73 anos ou mesmo desde que a última guerra fria terminou há cerca de três décadas. Existe, de facto, um perigo terrível de uma guerra catastrófica. No entanto, existe também um perigo bem-vindo: que a NATO cave a própria sepultura das suas atividades criminosas e contradições deploráveis. A Rússia e a China, mantendo-se firmes, podem ser suficientes para empurrar o eixo dos EUA para a sepultura que merece.


Gosta da Estátua de Sal? Click aqui.