Percorrendo a edição online de vários jornais estrangeiros, encontrei num único dia, na passada segunda-feira, estes títulos (cito, traduzindo-os):
1. “Na Bélgica, o movimento #balancetonbar ganha amplitude” (#balancetonbar é um hashtag que apela ao boicote dos bares onde mulheres foram violadas depois de terem ingerido drogas clandestinamente misturadas nas bebidas; este hashtag é o eco de um outro surgido há algum tempo em França que denunciava a “porcaria” dos homens: #balancetonporc).
2. “Os predadores da Academia. Quando o abuso do homem é de cátedra” (trata-se aqui das investidas sexuais dos professores, nas universidades italianas, aproveitando-se das prerrogativas hierárquicas do lugar que ocupam).
3. “Padres pedófilos. A Igreja francesa obrigada a vender os seus imóveis para ressarcir as vítimas”.
4. “Violências sexuais: oito mulheres acusam PPDA” (PPDA é Patrick Poivre d’Arvor, famoso ex-jornalista da TF1, que foi durante muito tempo o rosto do principal jornal televisivo desta estação estatal; as acusações já vêm de trás, mas agora algumas mulheres deram a cara, não ficaram escondidas no anonimato).
Se Freud ressuscitasse, haveria de repetir, mas agora com dados empíricos, fornecidos diariamente pelos jornais e sem precisar de grandes incursões antropológicas na ordem simbólica que determina as leis do totem e do tabu, que “a sociedade repousa sobre um crime”. Ou melhor, sobre a violência e o abuso sexuais cometidos por quem, de algum modo, ocupa posições de poder. Evocando Freud, recordemos ainda que ele, entre 1895 e 1897, formulou uma “teoria da sedução”, com a qual tentava explicar a histeria — essa neurose então considerada tipicamente feminina — que tinha diagnosticado em algumas das suas doentes. Segundo essa teoria, a histeria seria o regresso traumático do episódio de sedução exercida efectivamente por um adulto sobre a criança. Dada a quantidade de histéricas que conheceu no seu consultório, Freud, com a sua teoria da sedução, lançava sobre a alta sociedade vienense do seu tempo, muito burguesa e muito puritana, uma suspeita terrível: a de que muitos adultos seduziam sexualmente, em família, as suas crianças. As famílias vienenses puderam suspirar de alívio quando Freud reviu a sua tese, submetendo-se à acusação de ceder ao pundonor social, e passou à teoria do fantasma: a neurose histérica não era originada por um abuso sexual real, efectivo, mas por um fantasma da sedução engendrado pela criança. O que antes era imputado aos adultos, passa a ser entendido por conta da fantasia infantil de um perverso polimorfo.
Olhemos de frente a grande revolução que está a acontecer diante de nós: práticas sexuais criminosas, exercidas não com um “parceiro”, mas sobre uma vítima, estão a ser denunciadas, umas atrás das outras, e os seus “actores” submetidos ao opróbrio público, o mais terrível do nosso tempo. Mas devemos também ter a lucidez de ver que há efeitos colaterais, uma consequência que não devia ser inevitável, um preço colectivo que não devia ser cobrado na mesma factura que os criminosos do sexo têm de pagar quando são denunciados e sentenciados.
E esse preço é o do neo-puritanismo higienista que, de resto, já não é possível discernir se é uma causa ou uma consequência. E quanto mais se quer extirpar e justamente penalizar a violência sexual, mais o sexo se torna uma obsessão maléfica, uma coisa porca que merece ser denunciada por um hashtag como este: #balancetonporc. Estamos a assistir a uma verdadeira pornificação da vida. Entre o #balancetonporc e a infame “liberdade de importunar”, reivindicada por 100 mulheres, com Catherine Deneuve à cabeça, num artigo publicado no jornal francês Le Monde, não parece haver espaço habitável.
A extensão do território do moralismo e do neo-puritanismo não pára de crescer e toda a “parte maldita” (em suma, a heterogeneidade do sexo, a sua irredutível negatividade) é denegada ou sublimada no legalismo moral. Podemos ainda hoje ler um livro como Madame Edwarda, de Georges Bataille, sem sentirmos não o abalo provocado por uma experiência dos limites, mas o pobre estremecimento da auto-censura que nos está a ser inoculada? Podemos hoje evocar as regras de Deleuze e Guattari — os autores do Anti-Édipo — para “uma vida não-fascista”, quando essas regras, outrora empunhadas como armas contra os micro-fascismos, são proscritas pela revolução conservadora em curso?
Quis o acaso que a COP26 coincidisse com a maior crise energética dos últimos anos. A contradição entre cidadãos preocupados com o ambiente e a sua exigência por energia mais barata resume o dilema. Mas como podem países com mais de 150 anos de revoluções industriais poluentes exigir que economias emergentes, como a Índia, saltem etapas? Mesmo em cada país, a distribuição de sacrifícios é assimétrica. Não basta coragem política. É precisa uma autêntica revolução.
A cimeira do clima acabou como começou: uma vitória para a diplomacia para um acordo inconsequente. Em Glasgow, ficou visível o alcance limitado de medidas que precisam de união à escala global, mas que dependem da convergência de vontades políticas e interesses muito contraditórios. Entre países ricos e países em processo de industrialização, entre produtores de energia fóssil e os que apostaram na reconversão energética. E, no meio, cidadãos preocupados com a sustentabilidade ambiental, mas com medo de perder os seus empregos e o acesso a mínimos de conforto, com o aumento do preço da energia e de produtos e primeira necessidade.
O previsível flop desta cimeira – que, ao contrário do que estava escrito na declaração levada à sessão de encerramento, se contenta com a diminuição do uso de algum carvão – pode resumir a falta de coragem de políticos presos a uma teia de interesses contraditórios. Mas simplifica quem pensa que é apenas uma questão de coragem. A impopularidade das medidas necessárias ou de uma mudança que seja vista como hostil pelos cidadãos – normalmente os mais vulneráveis, que são sempre quem mais sofre com a mudança – pode ter como efeito, pelo menos nas democracias, a um recuo ainda maior, com a vitória de correntes negacionistas ou, para ser mais rigoroso, “indiferencistas”. E levar a um retrocesso em tudo. Estamos entalados entre o que é preciso ser feito e os enormes riscos políticos de o fazer.
Quis o acaso do calendário e a persistência dos efeitos da pandemia que a cimeira global do clima coincidisse com a maior crise energética dos últimos anos. A contradição entre cidadãos preocupados com a proteção ambiental e a sua exigência por energia mais barata é um bom resumo do dilema que enfrentamos. Sabemos o que é preciso fazer para mitigar o efeito da atividade humana nas alterações climáticas, mas os problemas precipitam-se quando os países se juntam para discutir as medidas necessárias.
A equação não é tão simples como gostaríamos. O mundo consome cada vez mais energia – resultado do crescimento populacional ou de hábitos de consumo multiplicados com a emergência de classes médias consumidoras na Índia e China – e a produção energética é direta ou indiretamente responsável por 73% das emissões poluentes. Esta sede interminável de energia levou estes dois países, os mais populosos do mundo, a desenhar planos para aumentar em 20% a produção de carvão. O tema foi um dos principais motivos de polémica na cimeira, liderada por alguns dos países mais ricos e industrializados, alertando para o efeito catastrófico no aumento de emissões.
Ninguém discute os problemas da produção energética com a queima de carvão. A questão é saber como podem países que concentraram níveis inusitados de riqueza com mais de centena e meio de anos de revoluções industriais altamente poluentes exigir que economias emergentes, como a Índia, saltem de um modelo pré-industrial para um modelo de energia limpa e sustentável? É a imposição de uma segunda desvantagem competitiva, acrescentando um lastro a quem quer sair da pobreza inominável em que ainda vivem centenas de milhões de pessoas.
Tudo isto acontece ao mesmo tempo que o país anfitrião da cimeira, o Reino Unido, se prepara para explorar mais um poço de petróleo e uma mina de carvão. Como o discurso sai mais barato do que abrir os cordões à bolsa, os prometidos apoios financeiros de larga escala para a transição energética nos países menos desenvolvidos, que deviam ter começado em 2020, foram chutados para a frente e o fundo de apoio para combater os efeitos climáticos mais extremos que já se fazem sentir está limitado a uns esclarecedores dois milhões de libras.
Na Austrália, líder destacado na sua dependência da indústria do carvão por habitante, nem os fogos florestais cada vez mais violentos fazem mudar a rota de um dos países mais empenhados em atrasar as metas climáticas. Entre a economia e as alterações climáticas, que o país já sente de forma tão aguda, escolhe-se a primeira. Como dizer à India ou à China, que ainda trata de coisas básicas na vida dos seus cidadãos, que façam diferente?
Três quartos das emissões poluentes em todo o mundo são responsabilidade direta ou indireta da energia que move o planeta (produção de eletricidade; sector automóvel e transportes; energia para casas e escritórios). Curiosamente, o sector que mais energia consome, a indústria (a energia que usa é responsável por 24,2% do total das emissões), é aquele de que menos se fala e exige quando procuramos reconverter modelos energéticos e até de vida em sociedade. A produção de aço e ferro é responsável por 7,2% do total de emissões, mas só há uma siderurgia em todo o mundo alimentada por “energia limpa”.
A falta de ambição dos políticos, a frase mais ouvida nas manifestações em Glasgow, é real, mas ela é tanto reflexo das contradições económicas existentes, como do medo da repercussão dos cidadãos que exigem energia mais barata, têm medo justificado de perder o emprego com a reconversão industrial ou não estão dispostos a pagar mais para alterar o seu modelo de vida. O equilíbrio não é fácil, até porque, mesmo em cada país, a distribuição dos sacrifícios é assimétrica. Quem vive no centro das cidades poderá fazer o seu quotidiano muito mais facilmente sem veículos a combustão, pagar combustíveis mais caros ou ir a uma mercearia com produtos de agricultura sustentável. Outros não. O dinheiro, como sempre, conta.
O que aconteceu nas autárquicas, em Lisboa, onde um voto contra as ciclovias foi responsável por uma parte da penalização eleitoral do PS, não é circunscrito à capital portuguesa. Mesmo nos países escandinavos, os movimentos contra qualquer medida limitadora da circulação automóvel são fortes e têm peso eleitoral. Nas últimas eleições locais na Noruega, em 2019, um partido criado apenas com o propósito de bloquear as taxas de circulação dos automóveis ficou em terceiro lugar na segunda cidade do país e elegeu um representante em Oslo, tendo assumido um papel de destaque na agenda das próprias campanhas. Os coletes amarelos em França ou o voto fora das cidades em Trump são um produto do descontentamento popular com um progresso que sentem ser feito da imposição política de um modelo de vida que sentem incompatível com a sua vida e as suas dificuldades.
Nos EUA, o Departamento do Estatísticas do Trabalho calcula que os empregos com mais rápido crescimento entre 2020 e 2030 sejam os técnicos de turbinas eólicas e os instaladores de painéis solares. A reconversão energética tem de ser vista, também, como aquilo que é na verdade: a melhor oportunidade das últimas décadas para criar novas indústrias e postos de trabalho. A questão é que os empregos não se dirigem aos mesmos que os perdem, nem estão disponíveis no momento em que eles se perdem, e podem nem ser, a longo prazo, no mesmo número dos postos de trabalho perdidos.
Quem sente que pode vir a ser deixado para trás, como os trabalhadores menos qualificados, agarra-se mais facilmente ao que tem, rejeitando a mudança, do que as promessas abstratas de um emprego futuro. E é compreensível que o faça. Nos EUA e na Europa temos assistido a um crescimento das desigualdades, destruição de almofadas sociais, aumento da precariedade e a convicção fundada de cada vez mais gente de que, para a maioria da população, os filhos viverão pior do que os pais. A que se junta uma distância cada vez maior em relação ao poder político. As pessoas não confiam e têm todas as razões para isso. Eu também não.
É por tudo isto que qualquer debate ambientalista que não se divorcie da agenda económica e social neoliberal está fadado ao fracasso. Até porque o debate sobre a forma como hoje produzimos e consumimos, a importância da proximidade e a mudança radical do funcionamento das cidades, desafia o movimento de financeirização do capitalismo global a que assistimos. Uma proposta de transição, nestas condições políticas e económicas, nunca vencerá a convicção mais do que justificada que serão os de sempre a pagar a fatura. As ditaduras resolvem isto à sua maneira. Mas em democracias, as vítimas do costume que têm, felizmente, o voto.
É esse o desafio da classe política e de todos os que pretendem influenciar o debate e as políticas públicas: mostrar que a defesa do ambiente pode ser feita com os cidadãos. Sem os ganhar com uma agenda social e económica agressiva nunca haverá a coragem que exigiram a ONU e manifestantes e movimentos ambientalistas. E continuaremos a ver cimeiras inconclusivas presas por uma vírgula num documento vago de conteúdo. Não basta coragem política. É precisa uma autêntica revolução.
Provavelmente os leitores mais atentos da Estátua de Sal já lhe teriam notado a ausência e o silêncio de alguns a dias, quase mesmo uma semana. Causas? Uma colecistite aguda – infeção na vesícula -, manifestou-se no último dia 7 através de dores e febres altas, o que originou o internamento no Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, do qual a Estátua só saiu ontem pelas 16 horas.
Ora, superado o quadro clínico disfuncional e os padecimentos associados, resta-me analisar o comportamento dos vários atores que concorreram para tal superação e a resposta global do SNS.
Do ponto de vista dos tempos de resposta da urgência – e não sendo o meu caso considerado grave ou crítico -, os tempos nunca excederam os 40 minutos, exceção feita ao tempo de espera por uma TAC: 3h e 20m entre a prescrição e a realização. Mas, após a saída do relatório da TAC e de ser tomada a decorrente decisão de internamento, este veio a concretizar-se sem grandes delongas. O que prova que a insuficiência de equipamentos pode ser uma das causas limitadoras da resposta eficaz e em tempo do SNS, sobretudo em casos críticos onde a presteza da resposta terapêutica é fator decisivo.
Depois de passar uma semana inserido nas rotinas hospitalares, vários dias só a soro e chá, dependente dos profissionais de saúde para “manter o corpo vivo”, satisfazendo-lhe as quotidianas necessidades, só posso elogiar e agradecer o desempenho daqueles profissionais. Enfermeiros, enfermeiras e auxiliares são a coluna vertebral dos hospitais e a eles se deve a aplicação das terapias gizadas pelo setor médico e a monitorização constante do bem-estar dos doentes. Ora, encontrei pessoal a cumprir as suas tarefas com brio e dedicação, não se escudando por detrás do anonimato funcional, mas sim criando uma relação de empatia pessoal com o doente. Inexcedíveis, nesse campo. E, admitindo que este espírito não é monopólio deste hospital em particular mas que se acha relativamente bem representado em todo o SNS, talvez tenha sido essa a causa mais importante de o SNS não ter soçobrado nos tempos mais críticos da pandemia Covid-19.
É por isso também que a valorização dos recursos humanos do SNS é mais que urgente: melhorar-lhes as condições de trabalho e de remuneração, como se depreende do anterior parágrafo, é um ato da mais elementar justiça. E foi exigindo essa Justiça que a adesão à greve da Função Pública da última sexta-feira, dia 12/11/2021, teve enorme adesão entre o pessoal de enfermagem e auxiliares do Hospital Pedro Hispano.
Dormitava eu, pelas 9h da manhã do dia 12. A enfermeira de serviço tocou-me ao de leve no ombro. Acordei, olhei-a e ela foi dizendo:
– Olhe, estamos em greve. Só vamos cumprir os serviços mínimos. Onde costumam estar sete pessoas só vão estar três. A enfermeira de fisioterapia que costuma vir ajudá-lo a levantar, hoje não vem porque tal não faz parte dos serviços mínimos. Sim, eu sei que isto vai ser difícil e complicado para vocês, mas tem que ser.
De facto, por vezes “o que tem que ser” tem mesmo muita força. Mas era um “tem que ser”, que era também um pedido de desculpas: entre uma luta e uma causa justas e as suas consequências – que vão cair sobre quem não merece nem quereríamos prejudicar-, não se afigura fácil decidir. Fiz uma breve pausa e foi a minha vez de responder:
– Não me conheces, para além do que consta da ficha clínica: ideias, posicionamento ideológico, prática política. Esclareço-te então, e em síntese: sempre fui um homem “de esquerda”. Logo, sempre fui e serei solidário com as lutas dos trabalhadores em greve, e neste caso também o sou com a tua luta, e estou disposto a sofrer na pele o desconforto que tal me irá causar e do qual me vieste avisar. Agradeço-te por o teres feito porque assim já não vai custar tanto, pois é em nome de uma causa que reputo de justa. Ela nada respondeu, virou-se lesta num impulso brusco e desandou. Sobre a face direita rolara rebelde uma furtiva lágrima.
Pelas dez da manhã, surgiu a visita dos médicos e mais uma consequência da greve:
– Se os indicadores dos últimos dias continuarem com a mesma tendência tem hoje alta. Mas, como há greve e não se estão a fazer análises clínicas não urgentes, não podemos aferir. Logo, só pode sair amanhã.
Foi um autêntico balde de água fria. Todos os doentes anseiam ficar bons para saírem dos hospitais. Estar já, quase de certeza, bom e ter que ficar mais um dia é uma espécie de tortura requintada. Mas lá me auto confortei: sempre, sempre ao lado do Povo, tudo em nome de uma boa causa…