Alta depressão

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 15/01/2020)

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No princípio do ano passado, finalmente alguém fez as contas à filiação partidária do comentariado em Portugal. O resultado não pode ter surpreendido vivalma, pois basta consumir a comunicação social nacional para ter empiricamente feito a mesma contagem há décadas. A existir motivo para reparo ele está na modéstia com que se objectiva a diferença entre direita e esquerda. A influência dos comentadores isolados é apenas uma parte, e menor, do sistema onde estes actuam; o qual condiciona editorialmente quase toda a informação que se produz profissionalmente – a escolha das notícias, o tratamento enviesado, o seu alinhamento e as figuras que as comentam, factores que a entrar na aludida contabilidade pintariam um quadro onde a direita tem sido esmagadoramente dominante no condicionamento da opinião pública desde que o Público deu início à perseguição a Sócrates e ao PS para se vingar da OPA falhada à PT.

Até a informação da RTP tem estado na mão da direita, como os nomes de Judite Sousa, José Rodrigues dos Santos, Vítor Gonçalves e João Adelino Faria, entre outros, deixam patente. E precisamente por causa deste domínio ubíquo foi possível manter durante anos a campanha canalha da “asfixia democrática”, onde dezenas de órgãos e comentadores agitaram o fantasma de um demencial plano onde os socráticos iriam ter um grupo de comunicação social ao serviço do Diabo.

Um grupo como a direita tem vários, nem mais nem menos, e com os quais actua com agenda política. O País vota à esquerda, e cada vez mais, mas a imprensa tem estado na sua enorme maioria a remar para a direita.

A introdução acima para chegarmos a um Expresso da Meia-Noite de Dezembro. O tema foi o “balanço do ano político”, um balanço dado todo na mesma direcção pois nos cinco intervenientes no programa era possível identificar cinco apoiantes do PSD e da direita em geral. Miguel Pinheiro e Vítor Matos são dois furiosos caçadores de socráticos, Graça Franco representa o braço político da Igreja Católica e Anselmo Crespo participou na campanha para a renovação do mandato de Joana Marques Vidal. A embrulhar esta fina flor do entulho sectário, o mano Costa e a sua inteligência sobre-humana ao serviço do militante Nº 1 do PSD. Quem ingerir a laranjada poderá ficar na posse de preciosas informações. Pois parece, garante o colégio de sábios ali reunido, que Rui Rio só se aguentou nas legislativas porque se agarrou a Tancos com o desespero dos afogados, e que Sócrates é o papão que impede o PS de ter maiorias. Donde, a receita parece simples: mesmo que a decadência intelectual e moral seja o que define a direita portuguesa após a traição e fuga de Barroso, ter jornais, rádios e televisões na mão permite salvar os dedos que vão ficando cada vez mais longe dos anéis.

Como ilustração deste estado de agonia em que os direitolas se encontram, o mesmo Vítor Matos assina dois prantos que merecem ser lidos por espíritos dados à curiosidade antropológica: Um partido bipolar. A vitória de um derrotado e a derrota da ausência + E se Marcelo não se recandidatasse?…. Tratando-se da Impresa, órgão oficial do Marcelismo e fiel soldado do combate contra a esquerda, podemos presumir que até em Belém se mergulhou na depressão.


A Igreja católica espanhola

(Carlos Esperança, 12/01/2020)

Pedro Sanchez toma posse

Filha do papa Pio XI, que concedeu à sedição de Franco o carácter de Cruzada, contra a República, é a Igreja que manteve silêncio perante o genocídio que o ditador praticou, depois de ter ganhado a guerra.

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A Igreja que goza de pingues contribuições do Estado, isenções de impostos e, até há pouco, do direito à apropriação de bens públicos, é a Igreja que não tolera a democracia, humilha a mulher e esconjura os direitos humanos.

Os clérigos são ainda, na sua maioria, filhos da falange e de pai incógnito, guerrilheiros da extrema-direita e terroristas ideológicos. São talibãs romanos, com colar ao pescoço e batina sebenta, a pedir a Deus que derrube o Governo, mantenha a mulher submissa e consinta aos padres o direito de decidir sobre a sua sexualidade.

A Igreja que João Paulo 2 e Bento 16 abasteceram de cardeais reacionários, bispos ultramontanos e, de defuntos pouco recomendáveis, fizeram um ror de santos, continua a ser o alfobre onde germina a extrema-direita e nascem, como cogumelos, quadros para o VOX, saudosistas de Franco e falangistas fora de prazo.

A tomada de posse do novo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, sem bíblia e crucifixo, deixou aquele bando de parasitas de Deus a espumar de raiva, a uivar imprecações, a ruminar vinganças, e a pedir ao seu Deus que amaldiçoe estes governantes, derrube o governo e faça ajoelhar a Espanha aos seus pés.

O cristo-fascismo está vivo na horda de clérigos saudosos da ditadura e da Reforma, a sonharem com a Inquisição e os autos-de-fé, enquanto rezam o breviário e, em êxtase, relembram as bênçãos que, em gozo místico, lançavam aos republicanos, nas praças de touros, antes de serem fuzilados.

É desta fauna clerical que se alimenta a contrarrevolução em Espanha, que só a pertença à União Europeia impede de porem em marcha.

Foi pena que a CEE retirasse dos conselhos matrimoniais a recomendação aos homens para, no dia em que quisessem ter sexo, deixassem dormir a sesta às esposas.

Que choldra ignóbil!


(Sobre o tema, seguir os links abaixo.)

https://www.lavozdegalicia.es/…/00031578578141232785201.htm…

https://www.elindependiente.com/…/la-conferencia-episcopa…/…

https://www.publico.es/…/conferencia-episcopal-curso-premat…

A colagem ao Chega

(Isabel Moreira, in Expresso, 14/01/2020)

Parece uma reação de pânico. Não havia cá disto. Isto é, não havia, no Parlamento, extrema-direita, direita populista. Parecia impossível. Durante mais de quarenta anos, PCP e CDS faziam de tampões aos extremismos e, por alguma razão, Paulo Portas defendia que à direita do CDS só uma parede.

O sistema político, do Presidente da República ao Parlamento, viveu sempre bem com todas as divergências, porque a convergência era o Regime e há linhas vermelhas que não se atravessam quando o Regime une todas as forças políticas.

Em Portugal, até “ontem”, era estranho um discurso intrainstitucional que apelasse diretamente ao “povo” em contraposição a uma “elite” transformada nos “outros”, isto é, nos “políticos”, discurso de clivagem antirregime que dá pelo nome de populismo.

É verdade que aqui e ali apareceu quem ensaiasse o método, mas nunca tinha acontecido, até à eleição para a Assembleia da República de um Deputado do Chega, o triunfo eleitoral de uma direita extremista e populista, que, para além de um programa eleitoral insano de destruição do Estado social, aposta na exploração das frustrações sociais legítimas culpando a democracia, isto é, o Parlamento, os Deputados, a tal “elite” transformada nos “outros”, gente que “não serve para nada”.

A reação a esta novidade no nosso sistema político parece uma reação de pânico, escrevia. Esperar-se-ia dos democratas, de todos os democratas, da esquerda à direita, que o combate ao fenómeno passasse pela afirmação corajosa do Regime que sempre nos uniu. Esperar-se-ia que perto ou longe de qualquer ato eleitoral não houvesse democrata que perdesse a oportunidade do púlpito para dizer da República, do Estado de direito, da Democracia representativa, de quantos tombaram para que homens e mulheres pudessem votar e ser eleitos Deputados em nome do Povo, naquela casa nossa, o Parlamento, onde não há a distância da elite, mas a proximidade radiosa da representação. Esperar-se-ia muito, tudo, de quem pode dizer da dignidade dos cargos políticos, sem medo, sem tibiezas.

O pânico-ai-o-que-é-que-faço instalou-se e os candidatos à liderança do PSD suavizam André Ventura admitindo alianças com o Chega, o mesmo acontecendo na corrida à liderança para o CDS.Mais grave, porém, é ouvir Marcelo Rebelo de Sousa, na abertura do ano judicial, esquecer-se da tal oportunidade do púlpito.

O Presidente da República – desejoso por alcançar o melhor resultado da histórica nas próximas eleições presidenciais – dobrou-se perante a “justíssima” alteração remuneratória dos magistrados na anterior legislatura, falando da sua “função social”, em contraposição à remuneração dos titulares dos cargos políticos, que teriam de esperar (não diz até quando, claro). A gravidade está na contraposição, evidentemente. Marcelo faz isto por pura cedência ao populismo, à tal perspetiva dos políticos como “os outros”, no sentido pejorativo. Não lhes consegue, de resto, encontrar uma função nobre, social, como encontra para os magistrados, dispondo-se a flagelar a classe para cujo ódio contribui ao explicar que é ótimo que um magistrado ganhe mais do que um primeiro-ministro. Aos políticos cabe uma função sacrificial, de exemplo e, agora, de saco de pancada.

É natural, neste concurso de pânico em que muitos dançam na lama do Chega, que não se tenha feito ouvir as palavras certas, na mesma ocasião de Ferro Rodrigues, nomeadamente quando afirmou o seguinte: “precisamos todos de estar alerta face às tendências as mais das vezes inorgânicas e difusas que desprezam o valor de uma pedagogia institucional exigente para a substituir por retóricas que fazendo tábua rasa da natureza das instituições e da sua razão de ser apostam no imediatismo do estado espetáculo e no decisionismo de circunstância”.

Dá trabalho e requer firmeza seguir o conselho do Presidente da Assembleia da República, mas é assim que se defende o Regime.

Andar na lama com o Chega em busca de dividendos eleitorais tem, de resto, o custo evidente que deveria ocorrer a Marcelo: as pessoas preferem sempre o original à cópia.