O diabo está nas pequenas coisas

(Francisco Louçã, in Expresso, 22/10/2019)

Formado o Governo, composta a lista das Secretarias de Estado, os alertas multiplicaram-se e parecem avisados: que o novo Governo é velho, que a ordem dos ministros de Estado parece recado ou ajuste de contas, que continua a não haver um número dois, o que quer dizer que o primeiro-ministro fica sempre exposto a todas as tempestades, que a rejeição de um acordo de maioria parlamentar é calculismo que pode falhar em muitos momentos difíceis, que insinuar que há um acordo secreto com um partido é ofensa, que a continuação de um ministro que anunciou a despedida é vulnerável, que alguma substituição de secretário de Estado por gente do partido reduz a capacidade técnica, que a entrada de novos-socialistas laranjas pode dar asneira, que o aparelho de negociação do Governo no Parlamento parece querer manter uma lógica muito Largo do Rato, como a dos últimos meses do Governo anterior, que isso já deu mau resultado uma vez e que um defeito não costuma melhorar com a insistência – tudo conclusões razoáveis. Mas falta notar o essencial: é que, em 2019 e talvez em 2020, o maior risco do Governo não é nem a sua autossatisfação, que abunda, nem os seus adversários à direita, que faltam, nem sequer as contas em Bruxelas, que reluzem. É antes o diabo das pequenas coisas. Era melhor não as ignorar.

As pequenas coisas são as que o Governo mais facilmente esquece, ou simplesmente classifica como uma insistência enfadonha de quem não tem visão para os grandes rasgos do futuro. Elas são a urgência pediátrica que funciona como um semáforo, o hospital que espatifa dinheiro em contratações de empresas de trabalho médico temporário e itinerante, o estaleiro de obras de uma ala pediátrica que parece ter sido antecipado para uma visita eleitoral, sobrando depois uma obra de Santa Engrácia, a escola que não pode abrir porque não tem funcionários, o metropolitano que nos faz esperar longamente antes de aparecer pelo túnel, a falta da professora de Inglês ou de Ciências durante todo o ano, os pais que se juntam à porta da escola a perguntar quando é retirado o amianto ou são substituídos os contentores por salas. Tudo isso são as pequenas coisas, todas elas sintoma de problemas comuns e persistentes. Só que o Governo não vai ligar a nada disto. Centeno ditará que estas maçadas são com o titular da respetiva pasta e esse dirá que não tem nem dinheiro nem ânimo para o pedir mais uma vez. A chefia do Governo preferirá que nem lhe falem destas arrelias minúsculas.

O problema é que este diabo das pequenas coisas anda mesmo por aí e o telejornal vai colecionar estes acontecimentos, alguns passageiros, outros exagerados, sendo que na maioria dos casos falta voz a quem pergunta por prazos ou por soluções. E assim se vai fazendo mossa num Governo que parece indiferente às pequenas coisas. Imagino que no Castelo nem se notem estes episódios de água mole em pedra dura, ou que se registe somente que quem refila é a “pequena gente”, para lembrar uma frase de Macron a propósito disto mesmo.

O problema é que vinte anos de desinteresse pela ferrovia talvez fiquem bem escalpelizados num relatório, mas não transportam quem espera um comboio, e que a perda ou o não rejuvenescimento das equipas de especialistas nos hospitais e centros de saúde servem de diagnóstico mas não abrem as portas das urgências.

Se o Governo continuar a querer fazer os grandes relatórios e os brilharetes e não se dedicar às pequenas coisas, a contratação de pessoal e a organização dos investimentos e dos serviços, bem pode esperar pelo dia em que alguém olhará para trás e cobrará pelos anos em que, havendo juro negativo, se optou pela pachorrenta lentidão.

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6 pensamentos sobre “O diabo está nas pequenas coisas

  1. Este homem terá que explicar à puridade se foi uma “pequena” ou “grande coisa” ter-se aliado à direita para derrubar um governo do PS. Este homem terá de nos explicar que contas fez ou deixou de fazer para, aliando-se à direita, não ter divisado que o “diabo” estava na “pequena coisa” que para ele terá sido, supostamente, a sua atitude política. Este é dos tais que anseio assuma um dia a governação e, em particular, abrace a pasta das finanças, para demonstrar à nação, de uma vez por todas, a arte de discernir entre “as pequenas e as grandes coisas” para conseguir o milagre de nos encher os bolsos de dinheiro sem que alguém o produza.

  2. Adriano Lima

    Sendo legítima esta sua opinião (glosada ao transe, ao longo dos anos, tal como “a bancarrota” de Sócrates, de que o PSD e o CDS, afirmam mentirosamente, não ter assinado o acordo com a “troica” e dele não ter culpa nenhuma…), afinal,sobre o texto de Francisco Louçã, ele põe em relevo ou não a realidade “das pequenas coisas” que todos os dias nos entram pela janela, e que o governo, “ameaça”, tal como fez o anterior, ir empurrando, displicentemente, com a barriga ?

    • Adriano Pernalta: «… “das pequenas coisas” que todos os dias nos entram pela janela», que poema!

      Nota. Que tal fechares a janela, substituires os vidros partidos ou comprares um espanador, pázinho?

      José Lima: «Este é dos tais que anseio assuma um dia a governação e, em particular, abrace a pasta das finanças, para demonstrar à nação, de uma vez por todas, a arte de discernir entre “as pequenas e as grandes coisas” para conseguir o milagre de nos encher os bolsos de dinheiro sem que alguém o produza.», que poema e que discernimento!

      Nota. Supra, que convosco é sempre a descer! Confusos, pás?

  3. Partilho a opinião expressa de que são “as pequenas coisas” que mais mossa fazem. Penso até que foram essas “pequenas coisas” que não deram maioria absoluta ao PS, muito mais do que a questão de Tancos tão responsabilizada pela descida nas sondagem. Evidentemente, teve o seu peso mas, mais do que causar indignação em potenciais eleitores, serviu sobretudo para sublinhar uma desconfiança latente num governo ao qual se reconhece influência positiva na diminuição do desemprego e na reversão de alguns cortes efectuados pelo anterior, mas que também não foi capaz de evitar a deterioração de diversos serviços públicos, designadamente a saúde. Alguns dir-me-ão que a responsabilidade não é apenas do Governo Costa, que o problema começou antes, nos cortes de financiamento do tempo de Passos Coelho. Não discordo, porém, muito tempo passou e a mudança sentida não foi relevante. Pior do que isso, o ministro de Passos Coelho responsável pelos cortes foi premiado por António Costa com a liderança do banco público – o qual, de resto, tem sido campeão dos aumentos de taxas e taxinhas sobre serviços reais e imaginários.
    Na minha modesta opinião, para a maior parte do eleitorado, o que conta na hora de depositar o voto é a realidade concreta. E esta traduziu-se no aumento do salário (no caso dos trabalhadores que aferem o salário mínimo) ou da pensão de reforma. Não é por acaso que entre os pensionistas, o PS teve resultados assinaláveis em 6 de Outubro. Mas essas pessoas são precisamente aquelas que passam horas em filas de espera de hospitais ou desesperam pela marcação da cirurgia ou do exame, são aquelas que passam horas para renovar o cartão de cidadão e não o conseguem fazer, são também aquelas enumeradas por Louçã neste artigo, as das “pequenas coisas”, pessoas que se sentem injustiçadas pelo poder e sem outra voz que não seja aliviarem-se para um microfone da CMTV e uma efémera aparição num noticiário da tarde, uns poucos segundos de interrupção do silêncio que as encurrala. Posso estar enganado, mas suspeito que para a maior parte desses portugueses, Tancos foi incompreensível ou insuportável. Já as pessoas coisas…

    P.S: Não penso de todo que o roubo de armas de Tancos e a sua mirambolante recuperação seja assunto menor, bem pelo contrário. Pretendo apenas manifestar o que creio ser a opinião de boa parte dos portugueses votantes (e também muitos não votantes). A chamada maioria silenciosa.

  4. Nota. Adriano: eu o Louçã e o Jerónimo e, ainda mais rapidamente, os eleitores portugueses perceberam tudo muito bem, por isso é que o São José perdeu as últimas eleições legislativas a que se apresentou, onde o PS levou um cabazada!*, e logo a seguir fugiu e foi filosofar para Paris, mas-mas-mas, azar, o MP percebeu-o tanto-tanto que o malvado de um juiz o mandou esticar os costados na prisão de Évora. Lembras-te disto, pázinho? Ou tu e o Pernalta ainda não perceberam uma coisa tão simples, e é certinho que daqui a uns dias lá terei eu de perder tempo a educar-vos novamente?

    Asterisco, eis os resultados nacionais em 2011-a-data-da-fuga:

    Partido Social-Democrata
    Pedro Passos Coelho
    2 159 181 (38,7%)

    Partido Socialista
    José Sócrates
    1 566 347 (28,1%)

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