Felizmente, uma democracia de baixa patente

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 25/04/2019)

Daniel Oliveira

O sociólogo norte-americano Robert Fishman, que conhece muitíssimo bem a realidade política ibérica, deu, em “Democratic Practice – Origins of the Iberian Divide in Political Inclusion” (Oxford University Press), base analítica a uma intuição que tenho há muitos anos: a de que a democracia portuguesa é mais inclusiva e profunda do que a espanhola. Ele vai mais longe e afirma que, em alguns aspetos, a nossa democracia se aproxima mais dos países nórdicos do que dos latinos.

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Começando por explorar a possibilidade das diferenças entre as democracias portuguesa e espanhola resultarem das nacionalizações portuguesas, da guerra civil espanhola, da dimensão ou da heterogeneidade de Espanha, Robert Fishman concluiu que a diferença resulta, antes de tudo, de aspetos culturais que foram estabelecidos durante a transição.

O exemplo mais claro encontrado por Fishman é a relação que o poder político e, por arrasto, as forças de segurança têm com as manifestações. Enquanto em Espanha elas são, mesmo quando toleradas, vistas como um risco para o poder e para a paz social, aqui são encaradas como sinal de saúde da democracia. A cedência de Passos Coelho às enormes manifestações contra as alterações na TSU (que foram, na realidade, um levantamento nacional contra a estratégia de desvalorização interna) foram um sinal desta relação com o exercício da cidadania entre eleições. Segundo o sociólogo, esta reação seria impensável num líder da direita espanhola. Por lá, a cedência à rua é vista como um enfraquecimento das instituições e do Estado. Por cá, saber “ouvir a rua” faz parte das qualidades que se exigem a um político.

Esta postura em relação às manifestações é extensiva às greves, ao orçamento participativo e a todas as formas de participação política que extravasem o mero ato eleitoral. E a razão não é histórica ou institucional. É cultural. Uma cultura política construída, diz o sociólogo, no nascimento da nossa democracia, “uma fusão rara de revolução social, mudança cultural ativa e democratização convencional”.

O nascimento da nossa democracia não se limitou a um ato institucional feito de cima para baixo. Muito menos uma cedência dos herdeiros da ditadura à democracia. Foi uma conquista de baixo para cima, feita na rua e no quotidiano. Até o golpe militar veio de baixas patentes. Isto fez com que a democracia portuguesa seja mais inclusiva, profunda e madura do que a espanhola

Toda a fase inicial da instituição da nossa democracia foi fortemente participada. Não se limitou a ser um ato institucional feito de cima para baixo. Muito menos uma cedência dos herdeiros da ditadura à democracia, resultando de uma transição negociada e controlada por quem abandonava o poder. Foi uma conquista de baixo para cima, feita na rua e no quotidiano. Até o golpe militar foi levado a cabo por baixas patentes. Em muitos casos, o poder político e institucional limitou-se a ir atrás dos acontecimentos, legalizando cada nova conquista nascida de ilegalidades consentidas. O sociólogo recorda quando o ministro de dois governos provisórios, Mário Murteira, disse a Vasco Gonçalves, vendo da varanda do parlamento os manifestantes cá em baixo, que eles os dois eram, mais do que atores políticos, espetadores de um movimento popular. Romantismo à parte, a própria mitologia da nossa revolução apela a esta relação com o protesto cívico.

Portugal não viveu apenas uma mudança de regime. Viveu, depois do 25 de Abril, uma revolução social. Como diz Roberto Fishman na entrevista (https://www.publico.pt/2019/04/21/politica/entrevista/diferencas-democracia-portuguesa-espanhola-nasceram-anos-1970-1869752) que deu a Bárbara Reis, “Portugal não é apenas um caso de rutura, é um caso no qual a formação de novas instituições e a organização de novas eleições foram condicionadas por um processo social no qual as hierarquias são desafiadas com ações ilegais e ninguém os trava durante um ano e meio”. O sociólogo recorda a frase famosa de Salgueiro Maia, que até surge no trailer promocional do filme de Maria de Medeiros, em que o capitão diz que “há momentos em que a única solução é desobedecer”. E considera que esta frase é subscrita pela generalidade dos portugueses e dos seus políticos, o que os aproxima mais da cultura política dos EUA do que de Espanha. A cultura da desobediência faz parte da nossa democracia.

Esta tem sido a minha tese de há muito: a natureza revolucionária da nossa fundação democrática, que permitiu uma apropriação popular de cada conquista, seja ela a liberdade de imprensa ou o Serviço Nacional de Saúde, o direito à manifestação e à greve ou a Escola Pública, trouxe muitos conflitos de que Espanha se livrou mas tornou a nossa democracia mais sólida do que a espanhola. Ainda hoje temos como consensual e normal o que em Espanha divide ou é tolerado a custo. Porque o povo é visto, no nosso imaginário coletivo e no discurso dos políticos, como ator quotidiano da democracia. Mesmo que isso seja hoje muito menos verdade do que foi no passado, é um legado com efeitos políticos. Isso, e o facto de, ao contrário dos espanhóis, termos construindo algum consenso sobre o que foi o Estado Novo. Coisa que só só é contestado em franjas marginais da política ou por alguns revisionistas mais afoitos.

Corremos os mesmos riscos que outros e temos, pela nossa pobreza e atrasos históricos, um Estado que funciona mal e uma sociedade civil muito pouco robusta. Mas, por vezes, são os que olham de fora que veem melhor. E esses notam uma particularidade: a nossa liberdade e democracia são celebradas, no mesmo dia, na rua e nas instituições. Esta sintonia é uma raridade nas democracias europeias. E esta ideia de que a democracia se exerce nos dois lados, sem que isso seja um risco para as instituições, faz a nossa democracia mais moderna e madura. A tendência para a inclusão do conflito no sistema, resultado de uma convivência natural do poder com esse conflito, é uma enorme vantagem Com todas as criticas que cada um tenha a fazer a cada protesto concreto, ela pode regenerar a nossa democracia.


Governo deu ao BE um guião para ultrapassar veto de Marcelo. Era este

(In Expresso Diário, 26/04/2019)

(READ MY LIPS

Depois desta notícia acho que António Costa se devia esconder debaixo da mesa por ter sido apanhado a roubar chocolates depois de dizer que quem roubou foi o  menino do lado. Uma vergonhaça das grandes. Não se percebe as razões pelas quais o PS, nos últimos tempos só dá tiros nos próprios pés. Será que António Costa já se cansou de Portugal e quer mesmo perder as eleições?! Será que vai fazer como Durão e largar asas para um lugar na Europa?! Será que não é só o Centeno que está de mala aviada?!

A Estátua fartou-se de pensar e não encontrou explicação melhor para tanta azelhice…. 🙂

Comentário da Estátua, 26/04/2019)


Para além de ter aceite o fim total das PPP na Saúde, o Governo chegou a entregar ao BE e PCP um guião para ultrapassar o veto certo de Marcelo.


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Assim não, António Costa

(Por Estátua de Sal, 25/04/2019)

Nada pior, como prenda de aniversário do 25 Abril, do que este zig-zag do PS no caso da Lei de Bases da Saúde, que António Costa não se cansou de informar o país que a Assembleia da República iria aprovar brevemente com o apoio dos partidos à sua esquerda. Em suma, seria verdadeiramente uma Lei subscrita pelo espírito da Geringonça.

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É feio um líder político dar o dito por não dito com tanta leviandade. Cai mal ao olhar dos eleitores, revela fraqueza, calculismo político e falta de lealdade para com um ideário político firme e consistente. São tergiversações deste género que minam a confiança dos eleitores na classe política, que afastam os eleitores das urnas, e que são o terreno fértil para o crescimento dos populismos.

É óbvio que é sabido que o PS não é um bloco unânime no que toca às opções de gestão, mais ou menos liberal, da economia. É óbvio que sempre existiu no PS uma ala permeável às pressões emergentes do mundo dos negócios privados, seja na área da saúde, nas autoestradas ou nas empresas públicas. Costa sempre conviveu com uns e com outros conseguindo, em última instância, fazer uma bissectriz mais ou menos consensual, satisfazendo umas vezes mais a ala direita, e de quando em vez a ala esquerda. Neste caso, parecia claro que o pensamento pessoal do próprio António Costa seria mesmo acabar com a inscrição da possibilidade de PPP na Lei de Bases da Saúde a aprovar.

Só que, entre o parecer e o ser, pode existir alguma distância significativa. Marcelo foi fazendo as suas prédicas preventivas contra tal opção, num exercício de ingerência e de abuso dos poderes presidenciais sobre o Governo e sobre o Parlamento, e Costa parece ter cedido ao cerco da direita, dando uma imagem de líder fraco e pusilânime.

E, ainda que seja difícil de quantificar, tal cedência terá certamente influência na prestação eleitoral do PS, quer nas próximas eleições europeias, quer nas legislativas de Outubro. Os eleitores não solidificam a sua confiança em políticos que alteram as suas propostas só porque são acossados pelos seus opositores. E sem confiança não há seguidores, não há apoiantes, e os votos fogem, seja para outras forças políticas, seja para a abstenção, como resposta ao desencanto.

Acresce que o BE, surgindo como o consorte traído e corneado em toda esta história, só pode ter razão em se sentir como tal, pelo que amplificará a sua vitimização perante o eleitorado e só terá a ganhar eleitoralmente com o sucedido.

Na verdade, o BE – apesar de por vezes ser demasiado lesto a dar conta do estado das suas negociações com o Governo de forma a colher os louros da aprovação de certas medidas -, neste caso não exagerou naquilo que anunciou, no que toca ao acordo que já tinha fechado com o Governo. Ver a notícia do Expresso e cópia do documento da Presidência do Conselho de Ministros enviada pela Ministra da Saúde, Marta Temido, ao BE, aqui.

Depois de termos passado semanas a discutir a endogamia que perpassa pelo Governo e pelos gabinetes que o apoiam, os primos dos primos e demais familiares à mesa do orçamento. Depois de termos andado a discutir leis a haver, tanto mais ridículas quanto mais apertadas, para acabar com tais promiscuidades malsãs, o que parece concluir-se deste recuo do PS é que há outro tipo de endogamia muito mais perigosa e onerosa para o erário público.

É a endogamia entre o poder político e os interesses económicos rentistas privados, que tão mal tem feito a Portugal e aos portugueses.

Assim não, António Costa. Mal por mal sempre é melhor contratar os primos até ao quarto grau. Fica mais barato e há mesmo Ministros que tem familiares muito competentes.