A lei do mais forte

(Daniel Oliveira, in Expresso, 19/04/2019)

Daniel Oliveira

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É natural e positiva a multiplicação de greves. É quando se destapa a panela que a paciência transborda. As pessoas sentem que os tempos estão melhores e querem parte da bonança para si. Só assim desequilibrarão uma balança que, em crise ou fora dela, cai sempre para o lado de lá. Só que nem todos os trabalhadores têm o mesmo poder. Por isso tenho escrito sobre o cuidado que o movimento sindical deve ter perante o crescente desnível de capacidade reivindicativa entre trabalhadores do público e do privado. Nem dentro do mesmo sector o poder é partilhado por igual. Os maquinistas da CP ou os pilotos da TAP sempre conseguiram mais do que os seus colegas. Porque param o país. E isso até criou, dentro destas empresas, situações de intolerável injustiça. Só sindicalistas politicamente conscientes conseguem evitar que prevaleça a lei do mais forte. E, com todas as críticas justas que se fazem ao sindicalismo marcado pela cultura do PCP, ele sempre teve a vantagem de se basear numa solidariedade de classe entre trabalhadores e não numa pertença a um grupo profissional. Historicamente, essa foi a grande fronteira entre os sindicatos socialistas e fascistas. Pelo contrário, a fragmentação do sindicalismo em minúsculos sindicatos de nicho sem relações de solidariedade entre si alimenta a intransigência egoísta de grupo. E isto será cada vez mais difícil de gerir.

Veremos até que ponto serão atendidas as reivindicações dos motoristas de matérias perigosas, que até podem ser justas. Mas os ganhos não podem ser apenas para eles, só porque transportam a gasolina que faz andar o país. Foi a consciência do seu poder que levou à fundação de um sindicato de nicho um mês depois de um acordo histórico entre sindicatos e patrões pelo qual todos os camionistas esperaram 21 anos. E que lhes permitiu ignorar serviços mínimos e da requisição civil. Além impor a lei, o Governo pouco podia fazer num confronto entre privados. Podia, como acabou por conseguir, obrigar as partes a sentarem-se à mesa. Mas um acordo com este sindicato, meses depois de outro ter sido fechado com todos, tem vários riscos. Os trabalhadores concluirão que o sindicalismo eficaz é o que isola pequenos grupos para cada um tratar de si, deixando para trás os que não conseguem paralisar o país. Criará insegurança em todos os processos negociais. Depois de um acordo ser assinado pode nascer um sindicato de nicho que faça tudo voltar ao princípio. Sindicatos que acreditam na solidariedade entre trabalhadores e patrões que acreditam na negociação ficarão mais frágeis perante pequenos grupos de interesse.

A justeza de uma greve depende sempre do princípio da proporcionalidade. 800 pessoas não podem ter 10 milhões como reféns. Um processo negocial que durou meses e que resultou num acordo histórico não pode ser destruído por uma pequena parte de uma classe sem que todos os que nele foram abrangidos sejam incluídos em novas negociações.

Qualquer greve que ignore a solidariedade de classe e faça mal ao sindicalismo é uma greve injusta. Ao travar a greve, o Governo teve uma vitória circunstancial e Assunção Cristas fez uma triste figura. Mas um novo acordo não pode criar uma situação injusta, que beneficie 800 pessoas que nos têm como reféns em relação a todos os seus colegas. Realmente urgente: mudar a distribuição de combustível para que um país inteiro não volte a depender de umas poucas centenas de pessoas.


“Petróleo, não!” Nesta semana já estivemos perto

(Daniel Deusdado, in Diário de Notícias, 19/04/2019

Daniel Deusdado

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1 Uma coisa é termos uma vaga ideia de quão estupidamente dependemos dos combustíveis fósseis. Outra, vivê-la em concreto. Obrigado aos grevistas. A memória perdida sobre o “petróleo” voltou. Ficou a nu que temos de fugir dos senhores feudais do Médio Oriente, das oligopolísticas, campanhas energéticas com preços afinados ao milésimo de euro e, finalmente, deste tipo de sindicatos e associações patronais com um poder absolutamente desproporcionado.

Estamos naquele momento de adesão aos transportes públicos e à mobilidade elétrica. Não podia ser melhor para mudarmos de vida.

O caso dos “oleodutos imaginários” é o expoente máximo das decisões político-carbónicas. Como explicar esta displicência de décadas na não construção dos gasodutos Sines-Aveiras e Estarreja-Leixões? O statu quo era bom para o setor dos camiões-cisternas de materiais perigosos. Portanto, mais de duas centenas de camiões-cisternas atravessam diariamente as duas principais áreas metropolitanas do país como bombas ambulantes – numa contagem decrescente até que um dia algo de absolutamente catastrófico aconteça, como estabelece a lógica das probabilidades. Vai ser agora que acabamos com este escândalo de segurança nacional?

2 Olhe-se para o que está a acontecer já em muitas cidades da Alemanha e da Escandinávia – mas também Madrid – nas limitações ao uso gasóleo no centro das cidades. Fica claro como a crise das alterações climáticas se está a impor na opinião pública. Não por masoquismo (as alternativas de mobilidade elétrica ainda são caras e de baixa autonomia) mas as pessoas já perceberam que as consequências interferem diariamente com a saúde e o bem-estar.

Do ponto de vista ético, sabemos também, sem margem para dúvidas, que estamos a comprometer de forma irreversível o futuro das próximas gerações.

A propósito disso, o The New York Times de ontem incluía um artigo de Anna Sauerbrey – “Como o clima se tornou na nova contenda alemã” – em que assinalava que o tema “imigrantes” está a ser substituído pela “discussão climática” e será o tema número um das eleições no outono que substituirão Angela Merkel.

A questão será ferozmente disputada entre os que consideram um exagero as limitações ao gasóleo e os que sentem já não haver mais tempo para concessões.

Não é algo menor: estamos a falar do país da Volkswagen, da Mercedes, da BMW, da Audi e da Porsche. Estamos a falar do país que cometeu a maior fraude alguma vez feita para omitir emissões – e com isso potenciando a liderança mundial da Volkswagen.

Em simultâneo, a Alemanha parece ter perdido a dianteira da indústria automóvel na transição para a mobilidade elétrica. Sacrificou o pioneirismo pelas economias de escala para maximizar os lucros até ao limite absoluto. Como foi possível?

Sabe-se que a situação vai ser difícil nos próximos anos para as marcas automóveis. O modelo de negócio atual chegou ao fim. Ou as fábricas deixam de produzir tantos carros movidos a petróleo ou vão ter de começar a oferecê-los… Já vemos isso: há cada vez mais promoções extraordinárias para se comprar carros a gasóleo que não vão sobreviver à dinâmica das cidades, dos países e das opiniões públicas. Querem enganar quem?

3 Os factos têm de nos fazer pensar e mudar. Comecemos pelo ciclone Idai que arrasou o centro de Moçambique. Raramente estas regiões de África são sujeitas a choques meteorológicos deste cariz. Mas a “tempestade perfeita” é mesmo isso: água cada vez mais quente nos oceanos, levando a maior evaporação, aumentando a velocidade dos ventos nos fenómenos meteorológicos extremos, caindo chuva a uma quantidade impressionante por minuto – o que impede as estruturas de escoamento (quando as há) de atuarem. O que é isto? Alterações climáticas. Ponto.

Como se chega aqui? A concentração de dióxido carbono na atmosfera está já nesse número abstrato de “410 partes por milhão” e ultrapassou a barreira de segurança de que anda a falar Al Gore há mais de dez anos. Repare-se que em registos de mais de 800 mil anos de vida na Terra, nada de igual aconteceu.

Mais um exemplo: dados registados pelas seguradoras a nível mundial revelam que nos últimos três anos houve perto de 700 sinistros de elevado impacto causados por alterações climatéricas. Valor recorde.

Entretanto, o Acordo de Paris tenta obter uma neutralidade carbónica de 2050 em diante, apesar de os Estados Unidos liderarem uma corrente negacionista. Ora, como chegaremos a um resultado concreto sem o maior poluidor do mundo per capita?

4É aqui que entramos nós, todos. A economia não pode continuar assim. Se não há sustentabilidade, não há futuro. Num mundo de economia circular, tudo acaba por gerar um efeito boomerang.

No site da NASA – ainda não proibido pelo presidente dos Estados Unidos… – está reunido um conjunto de informação que deveria fazer-nos pensar todos os dias. Um dos mais impressionantes é o gráfico sobre alterações climáticas (eventos de temperatura fora dos padrões médios) entre 1880 e 2018. A imagem de um planeta a tornar-se incandescente é impressionante.

Noutro vídeo do mesmo site, há uma análise à subida recorde de temperatura da primeira metade do ano de 2016 e de como isso teve um tremendo impacto no degelo do Ártico.

Factos como estes geram não só a subida do nível do mar como agudizam o aumento de temperatura do solo na Sibéria, região onde se concentra o permafrost, uma camada de subsolo repleta de dióxido de carbono e metano cuja extensão agudizaria ainda mais o efeito estufa que estamos a sentir.

E se for pouco, outro vídeo sobre a imparável subida do nível do mar nos últimos 22 anos ou o degelo da Gronelândia.

As pequenas tragédias já nos tocam por cá, como se viu em 2017 nos dramáticos incêndios ou em 2018 na destruição de Monchique. Mas seja cá ou lá, não há mais tempo.

É certo que as pessoas não mudam os hábitos, exceto quando são obrigadas. Mas o que não mudar a bem vai infelizmente surgir pelos acontecimentos. Portanto, podemos pôr em prática uma ideia que ocorreu certamente a muitos nesta semana: diminuir os abastecimentos até nunca mais precisarmos de meter combustível fóssil numa bomba de gasolina. Aqui está um objetivo a ser perseguido pelas melhores razões do mundo.


Que saudades do Pedro

(Por Valupi, in Blog Aspirina B, 17/04/2019)

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Com o Pedro a mandar nisto, espalhando magnânimo a sabedoria adquirida nos altos voos proporcionados pelos aeródromos da Região Centro, não havia cá greves de professores, enfermeiros, procuradores, juízes, camionistas. O País vivia na maior das calmas, com os desordeiros, estroinas e madraços já na estranja, ou com voo marcado para fora da zona de conforto, e o resto do povo piegas com a bola baixa e a contar os tostões (que é para o que o povo tem jeito, é da genética). A situação era tão paradisíaca que alguns ministros até despachavam resoluções bancárias inauditas e catastróficas de chapéu de palha na cabeça e os pezinhos a chapinhar na piscina. A impunidade tinha acabado, o filha da puta estava preso. O tempo podia ser tranquilamente passado a vender o que restava das jóias do Estado.

Agora, com estes socialistas corruptos a mandar nisto, qualquer macaco acha que tem direito a uma vida melhor, exigindo mais dinheirinho no bolso só para o ir gastar logo a seguir a comprar isto e aquilo. Querem imitar a gente séria que tem empresas e posição, que tem apelidos. Que falta nos faz a Troika, esses senhores do Norte da Europa que fizeram o sacrifício de vir ao cu do Mundo dar lições a quem não se deixa governar.

Volta Pedro e traz a tua vontade indomável, o teu desprezo pelas eleições. Chega de greves e de consumismo, chega de regabofe. Basta.

(já agora, sempre é verdade que preferes votar Ventura a votar Rio?)


Fonte aqui