E se fosse a D. Maria José e a menina Constança?

(José Soeiro, in Expresso Diário, 25/01/2019)

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José Soeiro

Para o futuro, o facto mais importante dos acontecimentos dos últimos dias é este: a afirmação de um movimento e a emergência dos jovens negros como um sujeito político capaz de se mobilizar para defender os direitos humanos e o direito à segurança para todos, como fizeram quando desceram a Avenida da Liberdade. Tanto discurso sobre a “cidadania”, a “participação”, a importância do “envolvimento dos jovens na democracia” e afinal, quando essa cidadania, essa participação e esse envolvimento são negros, achamos que é motivo de pânico e de tiros de borracha? Ouçam as declarações produzidas na manifestação – enaltecidas, por exemplo, por Francisco Assis – ou o apelo da família relativamente aos protestos que se desenrolam nesta sexta-feira – destacado hoje no editorial do Público – e notem o contraste com o rancor que andou à solta nas redes sociais: nenhum ódio, só bom senso e o mais que legítimo desejo de justiça.

Portugal precisa que esta voz auto-organizada exista. Por muitos motivos.

O primeiro é que há racismo e é preciso combatê-lo. Isto mesmo ficou demonstrado no modo como se reagiu a este episódio. Imaginem que, para utilizar o exemplo do Peter Castro, o que aconteceu no bairro da Jamaica (o vídeo está aqui, para que todos vejam com os seus próprios olhos) acontecia noutro bairro e a PSP ia a Campo de Ourique para intervir numa “disputa” de uma família branca de classe média e havia um vídeo com a polícia à bofetada à D. Maria José e a menina Constança a levar pontapés e a ser arrastada pelo chão, porque a festa lá em casa durou até tarde de mais? O que diriam as televisões, os responsáveis políticos ou os comentadores perante tais imagens? Talvez o mesmo que se disse quando a polícia agrediu cidadãos brancos em jogos de futebol. Quando foi esse o caso, há cerca de um ano, o Correio da Manhã, que divulgou o vídeo dessas agressões, fez notícias sobre a “violência e evidente abuso de autoridade” captadas pelas câmaras da CMTV, que filmaram um adepto do Benfica a ser detido e espancado, “com um bastão de aço, em frente aos seus filhos de 9 e 13 anos pelo Subcomissário Filipe Silva” e acompanhou, nos meses seguintes, o caso do “subcomissário agressor” que reassumira as funções mesmo depois dos “atos de violência filmados pela CMTV” e de “ter sido acusado pelo Ministério Público de dois crimes de ofensa à integridade física qualificada”. Alguém se lembra de o Correio da Manhã ter sido acusado de “acirrar ânimos” ou de “perturbar o trabalho das forças de segurança”? A Sábado, que divulgou o mesmo vídeo, fez o seguinte título: Agressão policial “sem justificação” sobre adeptos. Um outro site de notícias, a propósito de outro caso na Luz, titulou assim a notícia: deo de polícia a agredir adepto holandês indigna redes sociais[http://./]. Pergunto: há ou não há uma diferença no modo como reagimos à violência? É ou não errado que sejamos tão seletivos? E o que chamar a essa seletividade racial e de classe no tratamento noticioso – e político – se não um racismo entranhado, contra os negros em primeiro lugar, mas também os brancos pobres que habitam os mesmos bairros? Já para não falar dos apelos a que cidadãos portugueses negros “vão para a sua terra” (que por acaso é Portugal…), de cartas infames sobre os “verdadeiros portugueses” ou das ameaças de morte a quem criticou a violência.

A segunda razão por que este movimento é importante é por haver uma voz própria da juventude negra da periferia. Essa inscrição no espaço público é em si mesmo um facto político relevante. Porque a verdade é que, apesar da intervenção importante e continuada de algumas associações e coletivos com muitos anos, o ativismo negro está a ganhar uma nova força, a juventude negra portuguesa está hoje mais capaz de se defender, tem mais escolarização e está mais politizada, consegue furar o cerco da invisibilidade através dos vídeos e das redes sociais, tem formas de articulação que lhe permitem existir no espaço público e não ficar em silêncio. A par disso, essa juventude ganhou alguns aliados, nomeadamente na comunicação social, que, lentamente, e ainda de forma excepcional e minoritária, vêm abrindo alguns espaços para visibilizar a experiência da desigualdade racial e para a luta que se trava contra ela.

Por isso, mais do que reagir replicando a estratégia Bolsonaro (como fez o PSD) ou com a mesquinhez da trica partidária que repete sem tirar nem pôr esse discurso “ridículo” da Direita (como fez Carlos César, e o adjetivo ridículo tomo-o de empréstimo a Assis), o que os partidos têm de fazer, se querem encarar verdadeiramente este problema, é defender que a segurança é para todos, que seria absurdo ter de escolher entre segurança e direitos humanos, que a agenda política deve abrir-se ao combate ao racismo estrutural e institucional, com políticas de igualdade de oportunidades e com ação afirmativa. Isso implica uma agenda de políticas sociais que pensem nas questões do emprego, da saúde, da educação, da habitação, da cultura, tendo em conta que em todas elas se reproduzem as várias formas de desigualdade, como a de género ou a racial. Não é por acaso que a taxa de desemprego entre afrodescendentes é o dobro da média nacional, que as remunerações médias mensais são de menos 103 euros, que as profissões onde se concentram são as mais desvalorizadas, que a percentagem de pessoas negras que vivem em habitações com condições precárias é 7 vezes maior que a percentagem do resto da população portuguesa ou que as vítimas da violência são sobretudo os jovens negros da periferia. E isto é um tema político.

De resto, a reação do Ministério Público e da própria Direção Nacional da PSP foi bem mais decente e elevada que a da generalidade dos partidos. No dia seguinte aos acontecimentos no Bairro da Jamaica, o Ministério Público anunciou em comunicado a abertura de um inquérito sobre a atuação da polícia. O mesmo fez a Direção Nacional da PSP, anunciando, além disso, processos disciplinares “a todos os agentes que tenham comportamentos violadores da lei, de natureza racista, ou de discurso de ódio e incitadores à violência”, e exigindo a extinção dos dois Grupos de Facebook dinamizados por agentes da polícia e infiltrados da extrema-direita, onde constam afirmações sobre o caso que, para a direção da PSP, “não são compatíveis com a função policial”. A direção da polícia parece ter percebido melhor o problema que a maior parte dos dirigentes políticos: existe racismo e impunidade na polícia, ele tem de ser combatido. Existe uma infiltração perigosa da extrema-direita na polícia, ela tem de ser combatida. Nada que não tivesse sido já dito pela Conselho da Europa em outubro, quando chamou a atenção quer para os fenómenos de racismo quer para a infiltração da extrema-direita na PSP. A autoridade do Estado depende da sua capacidade de proteger os cidadãos. Todos. E todos são todos mesmo. Sem justiça, não pode haver paz.

Preparem-se

(Virgínia da Silva Veiga, 25/01/2019)

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Estive há pouco a ver a RTP 3. Um debate com três mulheres, uma delas aquela Lourenço, de que nem vale a pena falar, uma jornalista da Lusa, cujo nome não recordo, e a nossa Maria Flor Pedroso.

A nossa Directora de Informação – somos nós quem paga – é, efectivamente, um caso. Uma brilhante pessoa onde se estranha ver ideias absurdas. Que lhe dê tempo, dizem-me. Mas que tempo, que diabo? A RTP ainda ontem emitiu uma reportagem nojenta que fazia de Portugal um País tão corrupto como o pinta o convidado do Goucha e o sobrinho do Barreto, implicando pessoas que nunca na vida foram condenadas por nada e outras que foram absolvidas. Que porcaria de programa era aquele, que hedionda Direcção de Informação temos? – Perguntei-me. Todos os dias me pergunto, aliás. Em frente. Não era o tema.

Vale ao caso, onde quero chegar, que Flor Pedroso parece ter dupla personalidade: uma é ela, outra a que aceitou o cargo que ocupa. Porque, a dada altura, uma opinião que emitiu sobre políticos que comentam no Facebook, defendendo os jornalistas deverem continuar intermediários de opiniões a chegar a terceiros. fez-me tirar uma conclusão que fiz para mim e que se reconduz a uma questão: já se perguntaram? 

Daqui a uns anos, os políticos no activo que não tenham tido uma página no Facebook e interagido com os cidadãos directamente vão ser uma raridade tão grande como um porco a andar de bicicleta.

Hoje, Flor incluída, alguns ainda não pararam para pensar nisso e julgam que tudo se passa à época de outros critérios Os currículos de agora e do futuro têm diferente exigência. 

Quase ouço as conversas de bastidores sempre que alguém pensa numa nomeação: “tás maluco? Aquela gaja? Ó pá, a gaja tem uma página no Facebook e farta-se de fazer comentários. Nem pensar!”

Pois daqui a uns tempos, muito próximos, vai ser exactamente ao contrário: “o quê, esse gajo nunca teve página no Facebook? O tipo nunca se sujeitou a comentários? Esquece. Nem pensar!”.

E percebe-se. As pessoas vão ser também aferidas pelas páginas que têm e a receptividade positiva que merecem. O número de “gostos” é outro assunto, embora também conte.

Quem não tiver página no Facebook, quem não comenta nem se faz comentar vive num mundo que não é este. Sobretudo, podendo nada ter a esconder, facto é que aparenta. Portanto, preparem-se. Ser discreto tem novo critério de aferição, é diferente de não ter coragem para ser exposto. Quem assim for, auguro-lhe fraco futuro em cargos importantes sobretudo por ir ser analisado por chefes, por um júri que desconfiará sempre de tais recatos e, sobretudo, de tal incapacidade de se sujeitar a julgamento público.

Acreditem. E preparem-se.  Flor Pedroso também, nas análises e nas selecções que fizer. Particularmente, nas que faz. É conselho.

Marques Mendes (MM) e os seus paradoxos

(Carlos Esperança, 25/01/2019)

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O ex-líder partidário que faz do tráfico de informações privilegiadas um modo de vida, que compromete o Conselho de Estado, para onde foi nomeado pelo PR, pelas opiniões que emite, que faz da sua tribuna televisiva um instrumento de combate ao Governo, na defesa das teses da direita, esqueceu-se de que já tutelou a RTP onde foi constante a sua interferência no alinhamento dos noticiários e influência nos conteúdos. Talvez, por isso, tema nos outros aquilo de que foi capaz no consulado cavaquista.

Marques Mendes, ex-líder do PSD, foi corajoso quando retirou a confiança partidária a Isaltino Morais e Valentim Loureiro, timorato na Câmara de Lisboa e cobarde perante Alberto João Jardim, cujos desmandos não teve coragem de afrontar, mas, antes de se dedicar aos negócios e à intriga aparentava grande honestidade e uma coluna vertebral direita, independentemente das opções partidárias.

Hoje, ignora-se se MM é a vuvuzela de Belém, intriguista por conta própria ou acumula.

Na penúltima homilia televisiva, o bruxo de Fafe, cujas diatribes têm eco na imprensa escrita, rádio e redes sociais, ou não refletisse ele os interesses de quem lhe paga, levou a baixeza ética de comentador ao nível do arruaceiro partidário, e disse:

1 – “Armando Vara é apenas uma ponta do icebergue de uma rede muito poderosa que durante 20 anos, ou mais, existiu em Portugal” .

2 – “Armando Vara, para ajudar a destruir a CGD e o BCP, não teve apenas o aval de Sócrates. Teve também a aprovação do Banco de Portugal”.

a – Ninguém ignora a lepra da corrupção e a necessidade de ser investigada e punida e, no que diz respeito a Armando Vara já está preso, contrariamente a governantes do PSD e CDS que não passaram os últimos 20 anos fora do poder. Nem agora, na oposição.

b – A denúncia da corrupção é um dever, e que bom seria que a corrupção fosse apenas de militantes do PS e o denunciante, em vez da intriga, apresentasse factos e não tivesse cadastro!

Ignora que foi o atual Governo que pediu a auditoria à CGD, que o governador do BP, reconduzido por Passos Coelho, sem consulta ao PS, como era tradição, recusou pedir? Ignora que foram os seus correligionários os arguidos do BPN? Em questão de Bancos MM mostrou o que sabia quando disse em 12 de julho de 2014 (SIC-N): «O banco [BES] é sólido, não há perigo nenhum para as pessoas», acompanhando o seu medíocre mentor, ao tempo PR.

Deve ter frequentado aulas de ética com um ex-vice-presidente do PSD, o Sr. Joaquim Coimbra, que o empregou em uma ou várias das suas numerosas empresas e adquirido os princípios éticos com que foi gerido por um seu colega de governo o BPN. O próprio BCP foi criado a convite do PM Cavaco Silva por um proeminente membro do Opus Dei, Jardim Gonçalves, e a sua gestão continuou com outro membro do PSD e do Opus Dei, Teixeira Pinto. Quanto à CGD, repito, foi este governo que pediu a auditoria e que procura apurar responsabilidades e entregar eventuais delinquentes à Justiça.

E quanto à sua honorabilidade, de quem se esqueceu dos submarinos, dos sobreiros, do condomínio do BPN na praia da Coelha, das privatizações da ANA, CTT, EDP, Galp, PT e outras, das mais valias de ações das SLN, não cotadas em Bolsa, e tantas outras tropelias, vale a pena recordar o seu próprio caso:

«O Fisco detetou vendas ilegais de ações da Isohidra feitas por Marques Mendes e Joaquim Coimbra, em 2010 e 2011, e que terão lesado o Estado em 773 mil euros. As ações foram vendidas por 51 mil euros, mas valiam 60 vezes mais: 3,09 milhões.» (aqui).

É difícil ser paquete de Belém sem comprometer o inquilino, mas não é saudável para o País a guerrilha feita através de fauna necrófaga, com propaganda sob o pseudónimo de ‘opinião’. Marques Mendes, vuvuzela da direita, é um dos muitos avençados pagos para a intriga e ataques à esquerda, este em equilíbrio difícil entre divergências que corroem os partidos de direita e os recados de Belém.