Previsões para 2018 (depois logo se vê)

(Ricardo Paes Mamede, in Diário de Notícias, 25/12/2018)

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Todos os anos por esta altura os jornais pedem a dirigentes político-económicos e outros comentadores que digam o que esperam para o ano que aí vem. É um exercício heróico. Antecipar a evolução das sociedades humanas é, em certa medida, mais difícil do que prever o tempo.

Tal como a meteorologia, a dinâmica social é feita de choques imprevisíveis que alteram o rumo dos acontecimentos – guerras, catástrofes naturais, ataques terroristas, mortes inesperadas, surgimento de heróis acidentais, revelação escandalosas, etc. Como em qualquer sistema complexo, uma multiplicidade de agentes estabelece um número astronómico de interações, em sequências que simplesmente não é possível antecipar, tornando algo inglória a tentativa de ditar o futuro.

Há no caso das sociedades humanas um fator que simultaneamente dificulta e simplifica o esforço de previsão. Ao contrário do vento, da chuva ou dos raios solares, cada ser humano processa a informação que lhe chega e a ela reage de modos muito diversos. No ato de deliberação sobre agir ou não agir e como, os seres humanos constroem a sua própria história. A vários níveis, as pessoas são menos previsíveis do que os átomos, as moléculas e a energia em interação.

Por outro lado, precisamente porque estamos treinados para agir ou não agir em função da informação que nos chega, prezamos a estabilidade. Por muito que alguns admirem a transformação permanente, todos nos sentimos bloqueados na ausência de referências estáveis para orientar a nossa ação. Isto, por si só, torna as ações individuais mais previsíveis.

Ainda mais importante do que as ações individuais, a busca de previsibilidade leva os seres humanos a construir (ou a aceitar) sistemas estáveis de relações sociais – como os contratos verbais e não-verbais, as regras e as leis, as instituições formais, ou simplesmente os comportamentos rotineiros que definem em cada sociedade o que é e não é correto fazer e dizer. Por vezes, as regras que as sociedades humanas estabelecem para si próprias são de tal modo rígidas que as mudanças só acontecem sob a forma de cataclismos ou revoluções. Mas tais eventos são tão drásticos que é muito difícil antecipar se e quando poderão acontecer.

Tudo isto faz com que seja tanto ou mais interessante contrastar o presente com as previsões que dele se fizeram, quanto tentar prever o que aí vem.

A vários níveis terminamos 2018 com as mesmas expectativas com que iniciámos o ano. As nuvens de incerteza que rodeiam a administração Trump, seja a nível interno nos EUA ou nas relações com o resto do mundo, podem ou não vir a transformar-se em tempestade. O imbróglio do Brexit pode ou não vir perturbar as economias europeia e mundial. A eterna instabilidade no Médio Oriente pode ou não vir a originar uma crise petrolífera e o acentuar do estado de guerra que há muito caracteriza aquela parte do mundo. O que surpreende no mundo de hoje é que a mera expectativa de sobressalto já não chega para causar mossa. Os mercados antecipam o risco, os preços dos ativos ajustam-se e os negócios prosseguem, até que algo de muito grave aconteça.

No meio de tanta instabilidade, a União Europeia surpreendeu uma vez mais pelo seu imobilismo, para o bem e para o mal. Há um ano anunciavam-se “avanços” na integração europeia em resultado da incerteza mundial, o potencial de uma nova era protagonizada por Macron, riscos do populismo em Itália, eventuais alterações na política monetária do BCE. Um ano depois quase nada se alterou.

Perante isto, uns dizem que a UE não sai da cepa torta, continuando a caminhar para o colapso inevitável; outros elogiam a sua resiliência face a um mundo instável. De uma forma ou de outra, a UE que temos foi concebida para isto mesmo: para que nada nem ninguém a possa mudar. Será mais fácil transformar um Hollande, um Tsipras, um Macron ou um Salvini do que alterar o Tratado da UE. Quem não está preparado para apostar em cataclismos ou revoluções no curto prazo, melhor faria em assumir que nada de substancialmente novo virá de Bruxelas.

Quanto a Portugal, esperavam-se poucas mudanças para 2018. A surpresa é mesmo o pouco que mudou. Ao nível económico, o desemprego continuou a cair e a economia a crescer, ainda que com alguma desaceleração – como quase todos previam. Em parte por isso mesmo, o quadro político manteve-se praticamente inalterado, com as sondagens de fim de ano a mostrarem uma distribuição de intenções de voto muito semelhante às do início de 2018 (apenas com uma pequena descida do PSD nas sondagens, compensada por uma ligeira subida do CDS).

A estabilidade do quadro político é surpreendente para quem acompanha o dia-a-dia do país através dos jornais e televisões. A julgar pelos media, não faltaram em 2018 escândalos, polémicas e tensões na política portuguesa: Tancos, touradas, Robles, passwords falsas, reembolsos indevidos, coletes amarelos, entre outros. Poucos previam estes acontecimentos no final de 2017. Pouco parece importar.

O que 2018 parece querer ensinar-nos é isto: enquanto o mundo lá fora não nos pregar partidas, o país não está para grandes mudanças. Depois logo se vê.

DOS ANJOS 

(José Gabriel, 25/12/2018)

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Séculos de discussão sobre magnos problemas como o sexo dos anjos, quantos anjos se podem sentar na ponta de uma agulha e, até mais simplesmente, onde residem e o que fazem os anjos, foram, de um golpe, resolvidos pela palavra de António Ventinhas, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público.

Os anjos são, aleluia, os senhores Magistrados. Estão muito acima de nós – voam, portanto -, restantes mortais. O problema do sexo das puras criaturas fica, pois, a caminho de solução satisfatória – por assim dizer. Sobre o de quantos anjos se podem sentar na ponta de uma agulha é melhor não me adiantar em considerações, não me puxem pela língua, que apesar do apelido tenho pouco de angelical. 

Fica, agora, a magna questão das hierarquias, que nos anjos são as ordens Ordens Angélicas: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potestades, Virtudes, Principados, Arcanjos e Anjos, distribuídas em três Hierarquias. Muito simples e organizado, como aconselha o estatuto da divindade. 

Já nas instâncias terrenas as coisas são muito mais complicadas – é conhecida a incurável vocação dos homens para provocar os que lhes estão muito acima! Por isso, reina o escândalo no reino dos homens sobre quantos deles se podem abeirar do Coro ou Ordem maior, o mais próximo da divindade – coisa mui abominada pelas aladas figuras .

É de mais para mim, que ainda apanho uma alergia a penas. Mas os anjinhos que tenham cuidado, que não é a primeira vez que há confrontos nas celestiais paragens e, nesses tempos remotos como agora, quem se lixa é o mexilhão, perdão, o povo – que, de resto, veio a descobrir nesses eventos que os anjos também podem ser corruptos.

A improvável jornada da luz de Natal que brilha em Damasco e se vê em Lisboa. Hoje como há dois mil anos

(Christiana Martins, in Expresso Diário, 2412/2018)

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Uma bola sem árvore, uma ceia com avós mas sem os netos, a saudade de tantos. E a luz, sempre a luz a brilhar. Nas lâmpadas e nos olhos de quem a quer ver. Porque é Natal, lá na Síria e aqui em Portugal. É Natal e há sempre tanta gente que falta. Um conto natalício sob a forma de retratos reais dos abraços que o pensamento é capaz de dar quando faltam os braços para se agarrar…


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