Esse Brasil não!

(Miguel Sousa Tavares, in Expresso, 27/10/2018)

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Miguel Sousa Tavares

(Uma confidência para quem me segue: emocionei-me ao ler este magnífico texto, uma lágrima rebelde rolou-me brusca pela face. Miguel Sousa Tavares transmite-nos a mágoa e a raiva sincera de um democrata que ama a liberdade e que ama o Brasil.

Não, não chorei pelo Brasil que nunca visitei – apesar de ter tido vários convites de familiares que lá residem para o fazer -, e que, como diz o texto, não merece ser salvo pois já esbanjou o seu crédito de milagres.

Chorei, sim, por ver em marcha a destruição dos valores da liberdade e de civilização que prezo, e em consequência pelo futuro das minhas filhas. Futuro medonho que se está a perfilar aos nossos olhos e a desafiar a nossa impotência. Lá, como cá também, ainda que noutros moldes. Por enquanto.

Comentário da Estátua de Sal, 27/10/2018) 


Amanhã, Deus vai provar que se fartou de ser brasileiro e vai dar ao Brasil o pior Presidente da sua história: Jair Bolsonaro. Vai dar-lhe um Presidente que pela sua boçalidade, pela sua arrogante ignorância e desprezo pela cultura e pelos simples valores daquilo a que chamamos sociedades civilizadas, pelo seu apelo ao ódio e à violência, pela sua indisfarçada vontade de perseguir os mais fracos e pobres dos brasileiros, de discriminá-los pela cor, pelo sexo, pela raça e pela classe social, deveria encher de vergonha aqueles que, de entre os seus votantes, são os mais bafejados pela fortuna e pela educação — e que são precisamente, dizem as sondagens, os que mais entusiasticamente se preparam para levar ao Planalto um fascista declarado. Todos os que amam deveras o Brasil jamais lhes poderão perdoar. Tudo, menos o Brasil de Bolsonaro.

Desses, já ouvi toda a espécie de autojustificações — primeiro, dadas de mansinho, envergonhadamente, tentando convencer que quem olha de fora não sabe o que se passa lá dentro; depois, já de forma clara e sem vergonha alguma, mesmo com orgulho — um orgulho que nem é abalado por se juntarem à massa ignara dos 70% de brasileiros que recolhem toda a sua informação no WhatsApp e no Facebook, que passam o dia a receber informações que sabem ser falsas e divulgá-las adiante, e a quem também nada incomoda que o seu valente candidato se acobarde sob uma falsa convalescença para fugir ao debate e ao confronto com o seu adversário. Aliás, nem lhes interessa saber o que ele pensa sobre o que quer que seja, basta-lhes saber que é contra o PT e que, se preciso for, os vai prender, torturar ou matar, conforme ameaça — não se sabe ainda se apenas como desejo ou mesmo para valer. Porém, se tudo se resumia a votar contra o PT, podiam ter escolhido Alckim, à direita, ou Ciro Gomes, no centro-esquerda. Mas preferiram a extrema-direita fascista e, com eles, arrastaram o Brasil. Não, não têm desculpa alguma. Mesmo que seja uma verdade penosa constatar que o próprio PT deu uma contribuição decisiva para o descrédito das instituições democráticas brasileiras e que, face à emergência de uma real ameaça fascista e sabendo da rejeição que o partido tinha junto de uma larga maioria de eleitores, não foi capaz do gesto patriótico de renunciar a uma candidatura presidencial e apagar-se perante quem pudesse travar Bolsonaro. Mas daí a apoiá-lo vai uma imensa diferença, que cobrirá para sempre de vergonha quem o fez. O Brasil de Bolsonaro não.

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ILUSTRAÇÃO HUGO PINTO

Meus íntimos irmãos brasileiros: eu não quero dar lições algumas a ninguém e por favor não me confundam com um Boaventura Sousa Santos. O país é vosso, o voto é vosso e até são livres de eleger quem o vá destruir de alto a baixo, da Amazónia até ao Rio Grande do Sul. Podem, com o vosso voto de amanhã, ajudar a restabelecer a ditadura, por golpada parlamentar e emenda constitucional ou por quartelada concertada com o capitão Bolsonaro. Podem convencer o povo de que a corrupção, a miséria, as desigualdades sociais, o crime e a violência são tudo obra exclusiva do PT ou culpa da democracia e não responsabilidades antigas e próprias — como se demonstra, por comparação, olhando para a história das democracias e das ditaduras. Podem, sinceramente (embora incompreensivelmente, para mim) acreditar que, sacrificando a democracia, resolvem todos os problemas endémicos do Brasil. Podem tudo isso, mas não podem impedir que quem cresceu a amar o Brasil da liberdade seja incapaz de continuar a amar o Brasil fascista. O Brasil de Bolsonaro será vosso, porque assim o quiseram; de quem, de fora, ama o Brasil, não.

Talvez a esses brasileiros lhes pareça coisa pouca o que o mundo de fora possa pensar deles, depois de amanhã: é mais um país que cai nas garras do populismo e da extrema-direita e também os vamos tendo na Europa, apesar da União Europeia e de tantas décadas de paz, de prosperidade e de respeito pelos direitos humanos e das minorias. É mais um país que vê manipulado nas redes sociais o que deveria ser o voto informado dos cidadãos, esse cancro que corrói por dentro as nossas democracias e que me garantem ser inútil de combater, pois que os tempos são outros, o mundo mudou e quem o não entende fica para trás. Somos então Velhos do Restelo a assistir, sem argumentos nem defesa, ao triunfo dos Salvinis, dos Victor Orbáns, dos Bolsonaros. Talvez, portanto, lhes pareça coisa pouca a polícia que atira para matar sem questionar, que tortura antes de perguntar, que faz desaparecer sem inquérito, um Brasil que prende, que exila, que censura a música, a imprensa, a literatura, a política, o pensamento. Sim, eu conheço todas as tropelias que o PT levou a cabo, segui de perto o ‘Mensalão’ e a ‘Lava Jato’, vi vários deles cederem à corrupção, ao tráfico de influências, ao luxo e ao deslumbramento com o dinheiro — como antes e depois do PT vi acontecer com todos ou quase todos os que se sentam no Congresso e que agora vão tratar de negociar com Bolsonaro, como antes negociaram com Sarney, com Collor, depois com Lula e depois com Temer, e vendendo os seus votos como sempre. Mas era preciso eleger como Presidente quem cometeu a infâmia de votar na golpada parlamentar do impeachment de Dilma homenageando o seu torturador? Não, o Brasil deste homem não.

Infelizmente, não vai haver milagre que impeça a vergonha à 25ª hora. Porque, mesmo que Deus existisse, e fosse ele infinitamente justo como dizem, só poderia e deveria estar já farto do Brasil. Deu-lhe sete vidas e todas os brasileiros deitaram fora. Deu-lhes um país de sonho, abundante em riquezas como poucos outros no mundo, e eles vivem ainda a queixar-se do ouro que D. João V lhes roubou, o célebre “quinto real” — que seria um quinto de todo o ouro extraído, tivesse esse quinto alguma vez chegado ao Reino, o que nunca aconteceu, nem de perto nem de longe. Deus é bem mais preciso noutras paragens, onde nem a miséria, nem a corrupção nem as ditaduras são escolhidas por voto ou conivência popular e por demissão das elites ao longo de gerações. Aliás, Deus, no Brasil, foi usurpado e é agora representado pelas Igrejas Evangélicas, cujos bispos viajam de jacto privado, vivem no luxo e na abundância, são donos de rádios e televisões e cobram metade efectiva do quinto real aos seus fiéis, com uma ferocidade e eficácia de que nenhuma repartição de Finanças é capaz. Com a sua leitura particular do Evangelho, concluíram que o reino de Deus é, sim, deste mundo e ocupam já um quarto dos lugares do Congresso, tendo proclamado o seu apoio ao capitão Jair Bolsonaro, “enviado do Senhor” para combater o “anti-Cristo”.

Deus foi-se embora dali: deixou ao Brasil os braços abertos do Cristo do Corcovado protegendo o nosso Rio de Janeiro antes que um aventureiro lhe lance mão, os seus apóstolos do Aleijadinho em Congonhas, as igrejas de Olinda, ou a catedral flutuante e mágica de Brasília, obra do ateu Niemeyer, o único templo católico do mundo onde Deus não esmaga os fiéis, antes lhes dá asas para voarem ao seu encontro. Esse Brasil sim. Mas o Brasil deste proclamado ungido de Deus não.

Assim, abençoado pelas Igrejas dos novos crentes e tementes, propulsionado pelas redes sociais que são a democracia dos novos tempos, pelas mentiras compradas em pacotes no WhatsApp que são o novo jornalismo, empurrado pelos empresários que se esqueceram de prender e pelos políticos que esperam amnistia, pelos juízes-justiceiros que se darão por saciados, pelos militares que se darão por bem lembrados, pelos letrados que se imaginam revolucionários atrás de um capitão que não tem pudor de mostrar o que não sabe e não pensa, pelos que têm fome e sede de justiça e imaginam que irão ser saciados, pelos que têm fome e que julgam que se irão ocupar deles, pelos que têm medo e a quem prometem um revólver contra os bandidos, pela grandiosidade de um Fernando Henrique Cardoso que prefere morrer enferrujado na porta que se vai fechar, 210 milhões de brasileiros vão amanhã à noite mergulhar numa escuridão de onde ninguém sabe quando será o regresso e a que preço.

Para a História ficará o registo de um povo que se suicidou por sua livre vontade. E não haverá história mais triste do que esta para contar. Boa noite, Brasil.


Miguel Sousa Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

 

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16 pensamentos sobre “Esse Brasil não!

  1. Mais uma vez o tom épico exaltado do MST, agora, em tom fúnebre pela morte do seu Brasil. Tão em estilo de encomenda e despedida ao morto já no caixão que se esquece que um país, ainda por cima com aquela dimensão e milhões de cidadãos nunca pode morrer. Mesmo que o queira não o consegue porque nenhum país pratica eutanásia em si próprio. O povo, manipulado, pode querer experimentar uma auto-expiação ou fazer um exorcismo colectivo mas restarão sempre forças que, após a constatação do engano, irão lutar outra vez pela liberdade e Democracia.
    O que está acontecendo no Brasil está em marcha por muita Europa incluindo Portugal.
    Os homens brasileiros amantes do seu país saberão como resolver o seu drama e por cá, devemos estar atentos aos “ventos” que sopram a favor de bolsonaros de bairro que, como se vê no Brasil, de repente se fazem, os fazem elevados, de broncos insuportáveis, a “presidentes” justiceiros cruéis decuplicando o medo e a segurança que diziam combater.
    Como se está vendo e constatando, neste momento, com o trumpónio divisionista, instigador, ameaçador, preparador e fazedor de mentes radicalizadas, ao estilo jiadista.
    A actualidade está cheio de gente falsa, ignorante e medíocre que se julga capaz de conduzir o mundo e podem mesmo vir a conduzi-lo à sua destruição.

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  2. Triste, muito triste , o suicídio. Registo que, por terras lusas, a indiferença é quase geral, excetuam-se uns quantos a quem dou os parabéns por ousarem conter a barbárie, no seu ninho. Parabéns MST.

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  3. Nem o mais informado brasileiro percebe como aqui em Portugal estamos a sofrer por ver o país que fala português e é nosso irmão vai cair ou suicidar-se. Mas infelizmente nada mais podermos fazer que lamentar. Acredito que depois do mal feito abram os olhos e percebam que o Seu destino pode ser outro.

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  4. É uma pena só ele não escrever com a nova ortografia como faz Guterres e o mundo no sentido do esperanto…tou completamente de acordo como Miguel. Este texto faz ilustrar bemo que ainda hoje vi num comentário: “a formiga com raiva da barata votou no insecticida e todo mundo morreu inclusive o grilo que não quis votar. ” Não esqueçamos também que o Brasil ficou armado até ao pescoço em nome da fé falsamente universal das iurds colocando uma M16 nos braços do Cristo rei. E também nao esqueçam brasileiros que o suporte básico de vida tem um primeiro passo de verificar a segurança da vítima e só depois avaliar o seu estado de “menos” consciência.

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  5. De acordo com o MST. Todos nos entristecemos de ver anunciar-se a passagem de um Brasil à beira de ser uma potência económica, mesmo com algumas sem-vergonhices pelo meio, que poderiam ir sendo combatida uma a uma, a um Brasil tornado república das bananas, comandado por um auto-proclamado criminoso.

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  6. Vi um comentário a lamentar que MST não escreva com a nova ortografia. Qual, a do Brasil ou a de Portugal? É que elas não são iguais, cá temos receção, deceção, exceção, aceção e outras assim e no Brasil têm recepção, decepção, excepção, acepção, correctamente escritas. Este AO90 é uma aberração, não tem lógica, não respeita a etimologia, pela escrita vai deturpar a pronúncia nem unifica ou aproxima as ortografias. Angola e Moçambique continuam a escrever com com correcção.

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  7. Ainda o vou ouvir ou ler a desmentir no futuro tudo o que escreveu aqui hoje, aliás já não seria a primeira vez, não sabia que tinha uma bola de cristal que lhe previa o futuro do Brasil ou de qualquer coisa, agora palpites claro que pode dar, até o Miguel Sousa Tavares!

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  8. O Português clama pela morte do Brasil… diz ele… MST com o seu estilo irreverente de bom escritor e contador de Estórias, esqueceu-se de mencionar algo: 2017 – 63000 mortes por homicídio… (sim, Vou colocar por extenso para não haver dúvidas – no Brasil “PT’ista” no ano passado, morreram 63000 pessoa por homicídio…)
    Quem não mora lá, quem não pertence a classe média Brasileira, farta destes números, não pode nem deve opinar…

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  9. Admiro muito Miguel Souza Tavares .
    Mas discordo muito de muitas das suas opiniões. Talvez prefira mesmo ler seus livros !
    Você está muito mal informado em relação ao caditado em questão, Jair Bolsonaro . Deveria estar bem informado também do canditado do PT , sua ideologia, e principalmente o passado desse partido aqui no Brasil.
    Nos Brasileiros não podemos seguir os passos da América Latina ! Bolsonaro pode não ser o canditado ideal , mas o tem os principais valores de um homem que não se deixou corromper . Informe se , veja o discurso dele agora , mais amadurecido……
    Pense em como o PT deveria pedir perdão ao imenso país que trabalha , paga seus impostos , sacrifica se ao máximo, sem ter nenhuma qualidade de vida ! Nem hospitais , nem escolas ……
    Tantos anos de PT !

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  10. Era muito fácil resolver o problema do Bolsonaro de forma preventiva. Bastava o comando do país nos últimos 14 anos terem dado ao povo brasileiro um projeto de nação e não um projeto de partido. Isso incluiria reestruturação da educação BÁSICA, ao e invés de criar uma tropa de zumbis partidarizados nas universidades. Igualdade e qualidade de educação para o filho do proletariado ter o mesmo grau de instrução e cultura do filho da burguesia, não era isso que Gramsci sonhava??? Sim, ele sonhava isso, mas Lula, José Dirceu, Antonio Palloci, Emílio Odebrecht, Eike Batista, Sérgio Cabral e Cia queriam os contratos da Petrobrás e espalhar seus chupões nas ociosas estatais brasileiras. Quem criou Bolsonaro foram eles.

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