Da agonia da CP ao descaramento do CDS

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/10/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Ó Daniel, és incorrigível. Então agora espantas-te com o descaramento da Cristas?! Ela não tem cura. É desenvergonhada e pronto. Não vês que já andou a tomar banho em público pelada, como ela revelou, que é uma exímia pisadora de uvas, e não sei que mais predicados terá ainda escondidos para nos revelar? Daquelas bandas, decência e vergonha é coisa que não devemos esperar, mas sim apenas uns números de circo para entreter o pagode. Mas, a tratar os eleitores como se fossem mentecaptos, vai ter um lindo enterro. Deixa-a poisar… 🙂 

Comentário da Estátua, 04/10/2018)


A greve da CP, esta semana, voltou a pôr o colapso dos transportes ferroviários na agenda mediática. E este é o bom momento para regressar a um tema que marcou o verão e que, como é costume nestas coisas, foi descontinuado depois de uns números mediáticos. Que o PCP faça da questão da CP uma bandeira, como fez na visita da segunda-feira às oficinas do Entroncamento (para defender que a EMEF volte a ser integrada na empresa), parece-me normal. Que o CDS o tenha feito no verão, parece-me mais estranho. Não por um ser de direita e outro de esquerda, mas pelas responsabilidades que um não tem e outro tem no estado a que chegámos.

Num dos seus vários trabalhos sobre o estado da ferrovia, o “Público” FEZ SABER saber, no final de julho, que os horários da CP iriam ser reformulados, com a redução da oferta de comboios em praticamente todas as linhas. A razão era simples: falta de material circulante, agravada pela falta de pessoal nas oficinas. Cada vez menos comboios, cada vez mais velhos, cada vez mais degradados. Não foi uma coisa que tivesse sucedido de um dia para o outro, como a polémica do verão pareceu fazer crer. A atual administração, que tomou posse há um ano, é que parece não ter dado por isso e limitou-se a ir substituindo comboios por autocarros e às vezes nem isso. E as supressões começam já a afetar os serviços suburbanos.

A situação é esta: um terço das carruagens para o longo curso têm estado paradas nas oficinas e dentro de pouco tempo um quarto das automotoras a diesel também não circularão. Não é exagero falar de colapso, porque o colapso de uma empresa é isto mesmo. O resto são quase pormenores: ar condicionado que se avaria, casas de banho que não funcionam, tudo o que não tenha a ver com a segurança a degradar-se. Sim, colapso.

Há muito que se sabe que a CP precisa de comprar 35 automotoras. Já o dizia um estudo da anterior administração. Infelizmente, tirando o aviso para outros fazerem o que ela não tinha feito e o sopro para os jornais sobre o estado em que a empresa está agora, de pouco mais se pode orgulhar. Mas já lá irei. Por agora, a CP paga cinco milhões por ano à RENFE (a CP de Espanha) por 20 automotoras velhas, a precisar de oficina regular e que chegaram em 2010 para serem usadas durante cinco anos mas já por lá andam há oito. Era suposto que a REFER (atual IP) terminasse, em 2015, a eletrificação das linhas – e só então se compraria material elétrico. Ela nunca aconteceu. Solução: vamos alugar ainda mais automotoras à RENFE.

Como é evidente, um ano de mandato não chega para explicar esta decadência. Não foi no último ano que as oficinas ficaram subitamente sem pessoal, que as automotoras não foram compradas e que o aluguer se prolongou muito para lá de 2015. Não foi no último ano que a CP passou de 89 locomotivas para 31, transitando grande parte para a CP Carga, privatizada. Não foi no último ano que a CP atingiu o investimento mínimo de oito milhões (em 2017 até esteve nos 16 milhões). Não foi no último ano que houve uma redução de 9% dos trabalhadores, foi entre 2011 e 2017. Não foi no último ano que se aprovou um concurso para aquisição de 774 unidades para depois o anular, foi em 2010 (VER AQUI)

A atual administração não soube responder ao colapso da CP e os brilharetes de Centeno não permitiram fazer o que tinha de ser feito e para o qual o aumento de investimento do ano passado é quase irrelevante. Pelo contrário, o Governo tem sido uma força de bloqueio ao investimento necessário. E tudo o que vai sendo anunciado denuncia uma completa ausência de estratégia de longo, médio ou até curto prazo para a ferrovia. O desinvestimento na ferrovia tem décadas de novorriquismo, provincianismo e falta de visão. De Cavaco Silva a António Costa, ninguém fica bem na fotografia de um crime continuado contra a mobilidade, o território e o ambiente. Mas convenhamos que é um pouco demais ver o CDS a fazer de porta-voz dos protestos.

De 2013 a 2017, o presidente da CP, nomeado por Passos Coelho, foi Manuel Queiró, ex-deputado, ex-governante e quadro dirigente do CDS. E é da sua administração o maior desinvestimento, a maior quebra de passageiros e o maior endividamento que a CP conheceu. Não se trata aqui de saber quem foi o pior, trata-se de recordar o óbvio: que o colapso não foi coisa súbita.

Resta saber se resultou de falta de estratégia ou do oposto. É que em 2020 teremos a liberalização do transporte ferroviário de passageiros. Longe de mim levantar qualquer dúvida sobre o empenho dos vários partidos, e do CDS em particular, na defesa dos serviços públicos. Aí estão os CTT para provar que só isso os move.

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Um pensamento sobre “Da agonia da CP ao descaramento do CDS

  1. ” falta de material circulante, agravada pela falta de pessoal nas oficinas. ”
    e agravado pela quantidade de engenheiros cheios de experiência altamente especializada (cada série é diferente) que foram para outros países fazer brilharetes.

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