Franco – O Maior Assassino da História Ibérica

(Dieter Dellinger, 24/08/2018)

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O Parlamento espanhol aprovou hoje a lei que obriga a trasladar os restos mortais do ditador assassino Francisco Franco do monumental Vale dos Caídos para qualquer sítio a indicar pela família.

O ideal seria colocar esses restos no mesmo tipo de sepultura em que os seus apaniguados colocaram o cadáver fuzilado do grande poeta espanhol Garcia Lorca, isto é, em local desconhecido.

Franco foi, sem dúvida, um verdadeiro assassino e, como tal, subiu rapidamente na hierarquia militar e alcançou a chefia do Estado espanhol depois de todos os verdadeiros líderes do “alzamiento”, revolta contra a democracia terem morrida quase sempre inexplicavelmente.

Franco foi um bom aluno na Academia Militar, mas não pertencia às classes da elite pois era filho de um sargento e, ainda por cima, gordito e baixote. Daí que viu que não era nos salões da nobreza que iria alcançar prestígio e ofereceu-se logo para eterna guerra de Marrocos em que na parte espanhola a Espanha combatia os insurgentes marroquinos.

Franco mostrou-se muito capaz de impor a força. Não gostava de fazer prisioneiros e não tolerava tibiezas da parte dos seus subordinados. Foi rapidamente promovido a capitão, major e depois a tenente coronel, tendo chegado a ser o general mais novo da Espanha e até da Europa.

Em 1917, na sequência de uma greve operária, mandou disparar a torto e a direito, liquidando tantos grevistas que ficou logo assinalado pela alta burguesia espanhola como seu homem.

No início de 1936 há eleições em Espanha. A direita organizada numa ampla coligação denominada CEDA perde contra a Frente Popular que metia como principal partido o PSOE mais outros mais centristas como a Esquerda Republicana, anarquistas e o Partido Comunista com pouquíssimos deputados, talvez uns dois ou três, mas com a célebre “La Passionara” Dolores Ibarruri. Era uma “geringonça antes de tempo.  Na altura Francisco Franco era chefe de Estado Maior e foi demitido e colocado nas Canárias como o general Goded foi colocado nas Baleares.

O verdadeiro chefe e estratega da revolta foi o general Mola, a partir do Norte de Espanha e que morreu em circunstância estranhas devido à queda do avião em que viajava. Quem deveria assumir a presidência interina era o general Sanjurno, então refugiado no Estoril e meteu-se num avião que deveria descolar de um descampado perto do Guincho. Salazar duvidava que a revolta tivesse êxito pelo que não cedeu nenhum aeródromo, mas aceitou que fosse utilizado um terreno qualquer para o avião aterrar e descolar. Sanjurno vinha com um malão cheio de uniformes, medalhas e espadas, pelo que o avião levaria peso a mais e embateu numas árvores despenhando-se, deixando tripulantes e passageiro sem vida. Dizem as más línguas que não terá sido bem assim. Alguém mexeu no motor para que o avião não tivesse força suficiente para se erguer nos céus em direção a Madrid. De qualquer modo, o general Sanjurno ao aterrar em Madrid seria logo preso e, talvez, fuzilado.

Franco estava como comandante militar nas Canária segundo os planos deveria comandar o seu bem conhecido exército de África, pelo que Mola organizou o aluguer de um pequeno avião britânico que passou por Portugal em direção as Canárias para levar Franco para Tetuan no Marrocos Espanhol. Ate levava uma senhora e um inglês para disfarce.

O exército revoltou, mas a Força Aérea, arma mais moderna e jovem da Espanha, revelou-se fiel à democracia. Sucede que o comandante da base aérea de Tetuan era um primo direto de Franco que não quis aderir à revolta. Os militares revoltosos começaram logo de início a fuzilar todos os que não aderiram, mas não fizeram com o primo de Franco, pelo que a aterrar em Tetuan, os comandantes militares perguntaram a Franco o que deviam fazer com o primo e se queria que ele o convencesse a aderir. Franco foi rápido na resposta com uma só palavra: fuzilem-no.

A revolta tinha-se iniciado a 17 de Julho de 1936 em Melilla, Marrocos, para se estender a todas as grandes guarnições espanholas.

Em Madrid e Barcelona estavam as maiores unidades militares, cujos principais quartéis foram logo cercados pelos populares, nomeadamente pelo fortíssimo movimento operário espanhol que era predominantemente anarquista.

Em Barcelona, os revoltados sofreram a maior derrota. Aí os estivadores anarquistas conseguiram logo a 18 de Julho retirar de vários navios armas ligeiras e, comandados por Garcia Olivier e Durruti aliciaram os “guardas de assalto” para se juntarem à resistência ao pronunciamento militar. Tiveram mesmo que disparar contra alguns camaradas que queriam atacar essa bem armada guarda policial em vez de conseguir a sua aliança. Nesse dia, o general Goded aterrou em Barcelona para comandar a guarnição militar de 12 mil homens que nos planos de Mola seria suficiente para dominar a cidade. Goded planeou mal o combate e manteve as tropas do principal quartel, o de Aterrazana, sem sair para a rua e também as forças da “Capitania General” que foram cercado por uma imensa multidão de aguerridos membros do proletariado muito mal armas e até maioritariamente sem armas, enfrentando as metralhadoras dos militares aquartelados até receberem o reforço de 4 mil guardas civis comandados pelo coronel Escobar e pelo coronel Ximenz que André Malraux descreve no seu livro “L’Espoir”. Depois apareceu uma bateria de artilharia trazida por alguns soldados que não quiseram participar no golpe militar. A tiro de canhão deitaram abaixo os muros dos quartéis e entraram por ali adentro, fuzilando oficiais. Muito a custo, os fiéis ao governo conseguiram resgatar o general Goded da fúria da multidão a pedido do então presidente da Generalidad, Companys, que exigiu do general uma declaração de rendição pronunciada pela rádio.

Em Madrid, a milícias operárias foram apoiadas e organizadas pelos militantes socialistas que tinha grande número de armas escondidas desde a revolta socialista em 1934 contra o governo da direita que ficou conhecido por “biénio negro”.

O chefe militar revoltado em Madrid em era o general Fanjul que se refugiu com muita tropa no Quartel da Montanha que hoje não existe, pois Franco mandou demolir a instalar um jardim no local para que seja esquecida a tremenda derrota militar que os seus sofreram ali.

Os homens leais à “geringonça” democrática desencantaram de um esconderijo duas peças de 75 mm e uma de 155 mm que lhes permitiu bombardear o quartel da montanha até entrarem lá dentro e tomarem conta de todo o armamento que incluía mais de 60 mil espingardas Mauser e muitas metralhadoras.

Com essas improvisadas forças milicianas, os leais à República foram para a Sierra madrilena enfrentar as tropas de Mola que avançaram do Norte onde tinham conseguido levar a melhor. Com grande sacrifício de vida travaram o avanço das forças de Mola que pararam ás portas de Madrid, esperando que Franco conseguisse chegar com o exército de África que tinha conseguido atravessar o Estreito de Gibraltar numa ponte aérea de aviões da Itália Fascista e da Alemanha Nazi. A marinha não se revoltou porque os marinheiros não obedeceram aos oficiais que se tinha revoltado e travaram-se combates violentos em muitos navios, pelo que os navios ficaram sem oficiais e, como tal, incapazes de manobrar e disparar devidamente.

Franco conquistou Sevilha e foi avançando ao longo da fronteira portuguesa de onde lhe veio algum auxílio para concretizar imensos fuzilamentos em massa de sindicalistas, socialistas e comunistas que até eram poucos. O mais célebre fuzilamento de milhares de democratas foi o da Praça de Touros de Badajoz.

Saliente-se que o partido fascista espanhol apoiou a 100% o pronunciamento dos generais. Era a Falange liderada por José António Primo de Rivera, filho do ditador general Primo de Rivera que dirigiu a Espanha entre 1925 e 1930. José António foi preso pelos republicanos que quiseram-no trocar pelo filho do presidente democrático Azana. Quando Franco soube disso, mandou logo fuzilar esse filho de Azana para que os republicanos fizessem o mesmo com o José António. Franco não queria concorrentes. Era ele e só ele a dirigir a Espanha.

Com apoios de divisões italianas e a Força Aérea Alemã, os franquistas levaram mais de três anos a conseguirem a vitória, fuzilando sempre que apanhavam pela frente alguém leal à Constituição e Governo democrático de Espanha.

Uma vez instalado no poder, Franco iniciou uma longa campanha de fuzilamentos de democratas e gente de esquerda que não tinha conseguido fugir a tempo. O regime franquista assentava todo o seu poder no assassinato dos seus opositores até à morte do facínora que deixou o poder a uma pessoa de rara inteligência, o Rei D. Carlos, que enganou a todos e institucionalizou a atual Espanha democrática e autonómica que muitos querem destruir porque não merecem as liberdades que obtiveram sem combate.

Franco gastou uma fortuna naquela obra faraónica para glória do seu cadáver, mas não merece e talvez fosse melhor ser incinerado e as cinzas lançadas nalguma sanita imunda.

O que virou a direita?

(Francisco Louçã, in Expresso, 25/08/2018)

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No dia 5 de julho de 1990, algumas centenas de personalidades protestaram por escrito contra a vinda de Le Pen a Portugal. Apelidaram os que com ele se reuniam em Sesimbra como “pessoas não gratas” e o Presidente da República denunciou a iniciativa. Entre quem então recusou a vinda de Le Pen estava gente grada do CDS (Freitas do Amaral, Francisco Lucas Pires, Basílio Horta, António Lobo Xavier, Abel Pinheiro, Narana Coisssoró) e do PSD, então no Governo (Emídio Guerreiro, Manuela Aguiar, Pedro Roseta, Montalvão Machado, Rui Carp, Guilherme Silva).

Em 2018, em contrapartida, a direita levantou-se indignada por Marine Le Pen não vir à Web Summit. Nuno Melo, no seu estilo leve, gritou contra a má educação do desconvite. Os jovens turcos do PSD multiplicaram-se em explicações atabalhoadas sobre como estariam na primeira fila a ouvir Le Pen e a detestá-la mesmo muito. O “Observador” explodiu em amargura, anunciando que vivemos em “fascismo obrigatório” (Helena Matos, secundada pelo inimitável Alberto Gonçalves) ou que Le Pen foi alvo de um “ataque fascista” (Sebastião Bagulho), mais uns salamaleques de Rui Ramos e por aí adiante, há sempre um concurso de Constanças naquele panfleto quando há festa ou festança.

O que é que então mudou na direita portuguesa para que em 1990 protestasse contra Le Pen e em 2018 acarinhasse a vinda da sua herdeira? E para que em 1990 achasse que a democracia é uma barreira e em 2018 defenda que Le Pen deve ser normalizada? Vale a pena reparar nesta transformação porque é um sinal.

Há a razão pretextual: se a esquerda critica o convite a Le Pen, a direita quer Le Pen. Mas isso é só pavloviano. Há ainda a razão ideológica, relançar o refrão da Guerra Fria: a esquerda combate os fascistas por ser igual. Mas isso também é grotesco. Há outro motivo, esse mais importante, e é que a direita está encantada com Steve Bannon e Trump, achando que, como só têm a propor o sofrimento ao povo, a forma de ganhar eleições é espalhar ódio.

O episódio do convite a Le Pen, em si, não vale nada, é só uma tontice de Cosgrave. Mas a fúria convidativa da direita revela algo muito importante: a partir de agora, toda a sua política será suja. Vale tudo. Vamos ter salada ideológica, campanhas de calúnias, blogues falsos, imprensa escandalosa. Bannon é o mestre.

Construam-me, porra!

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Ó Daniel, pede lá um revisor dos textos ao Dr. Balsemão. O texto de hoje, no original, avança com um conceito, no mínimo, pícaro: “obras púbicas”! Que raio de obras são essas? 🙂

Lá teve a Estátua que corrigir a gralha…

Comentário da Estátua)


O mais relevante não é o orgulho com que dizem que aquele “é o maior lago artificial da Europa Ocidental”. O mais importante é não haver ninguém que não reconheça que a paisagem mudou radicalmente. A agricultura de sequeiro foi sendo lentamente substituída pelo regadio, com produção intensiva. Isto levanta preocupações quanto à sustentabilidade dos solos, mas não deixa de ser extraordinário ver herdades abandonadas a serem lentamente ocupadas por olival, amendoal e vinha, por vezes com exageros que justificadamente preocupam ambientalistas, autarcas e populações locais, que não ganham assim tanto com esta intensidade. O erro da monocultura pode estar a ser repetido e não há investimento com bons resultados se o Estado desiste de regular a ocupação dos solos. Mas que o Alqueva mudou o Alentejo, mudou.

E mudou a paisagem urbana. Um barqueiro que veio de Almada para São Pedro do Corval há três anos, mas que já conhecia a região, diz-me que em Reguengos só havia um hipermercado e hoje todos os grupos lá têm uma grande superfície. Multiplica-se o alojamento local e Monsaraz, que já era uma atração turística, tornou-se num verdadeiro polo económico. Pequenas empresas que organizam atividades náuticas e especializam-se na observação das estrelas. Nos bons restaurantes é preciso fazer reservas em agosto. É estranho sentir alguma prosperidade em partes do amargurado Alentejo.

Claro que o Alqueva não chega. Há autarquias como a de Reguengos de Monsaraz que soube aproveitar o que tinha e esta oportunidade e onde a evolução é evidente, há autarquias como as de Moura, que demorou anos a reagir e o impacto mais evidente foi mesmo a perda das terras inundadas. Em toda a região a população continua envelhecida, os empregos continuam a ser escassos, o despovoamento continua a ser a regra. A agricultura intensiva dá dinheiro às empresas mas emprega pouca gente, apenas sazonalmente e em trabalho desqualificado. As vantagens do turismo sentem-se muito lentamente. Não chega o investimento na obra pública, é preciso o trabalho de planeamento que tem de vir depois. E mesmo quando se tenta ter cuidado as coisas podem falhar, como foi o caso da recolocação da Aldeia da Luz, inundada pelas águas do Alqueva.

Não há milagres apesar de muitos os terem prometido. Mas uma coisa é certa: com anos de seca da última década, se não houvesse Alqueva o Alentejo estaria a passar por uma tragédia. A possibilidade de 13 concelhos que somam mais de 200 mil pessoas poderem aguentar quatro anos consecutivos de seca extrema é a diferença entra a tragédia e a esperança. Mesmo sabendo-se que a EDIA, empresa pública que explora a barragem, pratica preços impossíveis para muitos agricultores.

O Alqueva, onde estive de férias durante dez dias (se alguma vez pensei ir para o interior alentejano em pleno agosto), tropeçou nas crises e foi sendo adiada desde 1975. Até que, no tempo das vacas gordas, Cavaco e Guterres a fizeram avançar. Havia um consenso político em defesa de obras públicas estruturantes que ajudavam a economia durante a sua construção e que qualificavam o país para o futuro. Até que o discurso austeritário se tornou, ainda antes da última crise, na nova ética política. E, a partir de 2009, investimento público passou a ser sinónimo de desperdício, de Sócrates, de bancarrota.

Hoje, a qualidade do turismo paga o preço de uma campanha contra a construção do novo aeroporto (que não se ficou pela contestação da localização na Ota), e o país está desligado da Europa pela sabotagem ao TGV.

Com todas as falhas e dúvidas, da insustentabilidade da agricultura intensiva ao pouco impacto no emprego, o Alqueva, onde se escreveu um enfático “construam-me, porra!”, mudou e pode mudar muito mais o Alentejo. E mostrou que as grandes obras públicas continuam a ser indispensáveis para o nosso desenvolvimento económico.

Pelo menos para quem não acompanha o deslumbramento cretino nas startups tecnológicas nascidas por milagre da iniciativa individual de empreendedores geniais no meio de um deserto produtivo.