Construam-me, porra!

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 24/08/2018)

Daniel

Daniel Oliveira

(Ó Daniel, pede lá um revisor dos textos ao Dr. Balsemão. O texto de hoje, no original, avança com um conceito, no mínimo, pícaro: “obras púbicas”! Que raio de obras são essas? 🙂

Lá teve a Estátua que corrigir a gralha…

Comentário da Estátua)


O mais relevante não é o orgulho com que dizem que aquele “é o maior lago artificial da Europa Ocidental”. O mais importante é não haver ninguém que não reconheça que a paisagem mudou radicalmente. A agricultura de sequeiro foi sendo lentamente substituída pelo regadio, com produção intensiva. Isto levanta preocupações quanto à sustentabilidade dos solos, mas não deixa de ser extraordinário ver herdades abandonadas a serem lentamente ocupadas por olival, amendoal e vinha, por vezes com exageros que justificadamente preocupam ambientalistas, autarcas e populações locais, que não ganham assim tanto com esta intensidade. O erro da monocultura pode estar a ser repetido e não há investimento com bons resultados se o Estado desiste de regular a ocupação dos solos. Mas que o Alqueva mudou o Alentejo, mudou.

E mudou a paisagem urbana. Um barqueiro que veio de Almada para São Pedro do Corval há três anos, mas que já conhecia a região, diz-me que em Reguengos só havia um hipermercado e hoje todos os grupos lá têm uma grande superfície. Multiplica-se o alojamento local e Monsaraz, que já era uma atração turística, tornou-se num verdadeiro polo económico. Pequenas empresas que organizam atividades náuticas e especializam-se na observação das estrelas. Nos bons restaurantes é preciso fazer reservas em agosto. É estranho sentir alguma prosperidade em partes do amargurado Alentejo.

Claro que o Alqueva não chega. Há autarquias como a de Reguengos de Monsaraz que soube aproveitar o que tinha e esta oportunidade e onde a evolução é evidente, há autarquias como as de Moura, que demorou anos a reagir e o impacto mais evidente foi mesmo a perda das terras inundadas. Em toda a região a população continua envelhecida, os empregos continuam a ser escassos, o despovoamento continua a ser a regra. A agricultura intensiva dá dinheiro às empresas mas emprega pouca gente, apenas sazonalmente e em trabalho desqualificado. As vantagens do turismo sentem-se muito lentamente. Não chega o investimento na obra pública, é preciso o trabalho de planeamento que tem de vir depois. E mesmo quando se tenta ter cuidado as coisas podem falhar, como foi o caso da recolocação da Aldeia da Luz, inundada pelas águas do Alqueva.

Não há milagres apesar de muitos os terem prometido. Mas uma coisa é certa: com anos de seca da última década, se não houvesse Alqueva o Alentejo estaria a passar por uma tragédia. A possibilidade de 13 concelhos que somam mais de 200 mil pessoas poderem aguentar quatro anos consecutivos de seca extrema é a diferença entra a tragédia e a esperança. Mesmo sabendo-se que a EDIA, empresa pública que explora a barragem, pratica preços impossíveis para muitos agricultores.

O Alqueva, onde estive de férias durante dez dias (se alguma vez pensei ir para o interior alentejano em pleno agosto), tropeçou nas crises e foi sendo adiada desde 1975. Até que, no tempo das vacas gordas, Cavaco e Guterres a fizeram avançar. Havia um consenso político em defesa de obras públicas estruturantes que ajudavam a economia durante a sua construção e que qualificavam o país para o futuro. Até que o discurso austeritário se tornou, ainda antes da última crise, na nova ética política. E, a partir de 2009, investimento público passou a ser sinónimo de desperdício, de Sócrates, de bancarrota.

Hoje, a qualidade do turismo paga o preço de uma campanha contra a construção do novo aeroporto (que não se ficou pela contestação da localização na Ota), e o país está desligado da Europa pela sabotagem ao TGV.

Com todas as falhas e dúvidas, da insustentabilidade da agricultura intensiva ao pouco impacto no emprego, o Alqueva, onde se escreveu um enfático “construam-me, porra!”, mudou e pode mudar muito mais o Alentejo. E mostrou que as grandes obras públicas continuam a ser indispensáveis para o nosso desenvolvimento económico.

Pelo menos para quem não acompanha o deslumbramento cretino nas startups tecnológicas nascidas por milagre da iniciativa individual de empreendedores geniais no meio de um deserto produtivo.

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10 pensamentos sobre “Construam-me, porra!

  1. «Até que o discurso austeritário se tornou, ainda antes da última crise, na nova ética política. E, a partir de 2009, investimento público passou a ser sinónimo de desperdício, de Sócrates, de bancarrota.»

    É sintomático que DO venha falar do Alqueva que mudou o Alentejo para muito melhor e não só no aspecto mais visível de passar de celeiro de trigo para ser um grande celeiro de produtos verdes de regadio, enriquecendo-o e aos alentejanos, e no texto de elogio ao empreendimento misture Sócrates no projecto de forma tão indefinida e dissimulada que o torna mais ligado aos slogans passista-portistas de “despesista”, “megalómano”, faraónico”, “louco” e fautor de bancarrota que o verdadeiro impulsionador do empreendimento.
    Mas o facto foi que quando todos apelidavam o Alqueva de novo “elefante branco” Sócrates reviu totalmente o projecto e actualizou-o conforme ao que era a sua visão de futuro ligando-o e tratando-o como reserva estratégica de armazenamento de água aumentando a cota de altura, dotou-o de uma central hidrica de produção de energia eléctrica, mais que duplicou os canais de água, previu uma estação elevatoria de grande capacidade para elevar de novo para montante a água turbinada com aproveitamento da energia eólica produzida na noite e outras possibilidades como interligações futuras para alimentação de pequenas barragens de alimentação de águas a povoações.
    Já o Alqueva estava armazenando água na albufeira e ainda o corrupto do Portas lhe chamava o grande “elefante branco” do Sócrates e agoirava que jamais a cota megalómana da albufeira seria atingida.
    Este corrupo de facto e acçao e intelectualmente de mentaliade quando foi vice-pm de Passos levou a sua e dela Cristas, ministra de várias pastas e também da agricultura, ao Alqueva e do alto da barragem pedia aos jornalistas
    que contemplassem a grandeza da obra e a maravilha de milhares de hectares de novas plantações de olival e outras a que chamou o “petróleo verde” do Alentejo. Tudo numa encenação que fazia parecer ser ele e as suas cristas os autores e fazedores daquele empreendimento: uma crapulice imunda.
    Mas o DO trás à colação outras obras “faraónicas” e “despesistas” que Sócrates o “louco” pelas quais também se bateu, contra tudo e contra todos, inclusive os letrados leitores do futuro como o DO, e que agora já se sentem em força a falta que fazem e o grande prejuízo que acarretam ao país além da imagem de tacanhez e mesquinhez, à Cavaco, que damos à Europa e ao mundo.
    Tudo está registado para que um dia se possa pedir responsabilidades a este tal faraónico desperdício de divisas que é hoje em dia um gigantesco roubo diário aos cofres do país.

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      • Epá, Manuel G., até te fica malzinho tanto entusiasmo (pois o Alqueva foi concretizado durante o primeiro governo do António Guterres, o que esteve na base da vitória histórica posterior do PS nos Distritos de Beja e de Évora).

        Nota. O que o vô-vô Homem das Neves escreve é uma das dezenas das suas parvoeiras, portanto.

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        • Durante estes dois dias, os deputados socialistas vão ainda apresentar o Alqueva como exemplo de um projeto que combateu a desertificação. “O Alqueva é um símbolo de um investimento decidido com arrojo e com sentido de médio prazo”, declarou o líder parlamentar socialista, Carlos César, num elogio ao projeto concretizado no primeiro Governo socialista liderado por António Guterres (1995/1999), no qual João Cravinho tutelou a pasta das Obras Públicas.

          Toma lá, no DN online.

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          • Manuel G., mas o ponto é que se alguém te disser que o Arthur M. Schlesinger, Jr. (um nome mais difícil do que parece, mesmo a escrever…) jurou a pés juntos, oportunamente, que foi o José Sócrates quem criou o New Deal não podes dar o flanco de quem, tendo ficado surpreendido por não saber de tamanho segredo capaz de mudar a maneira como vemos o mundo e as relações internacionais, de quem, dizis, ficou assim tão-tão entusiasmado que até desatou a aplaudir.

            Nota, com um guia de instruções. A não ser que seja a prosa originalíssima do José Neves, pois calha a todos e a sua cabeça já não é o que era, e, não!, não é e seguramente não disse, ou o engraçadista chamado Valupi pois trata-se, seguramente, de mais uma das suas milhares de… tanguices.

            [Vai por mim, que não te engano.]

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