O franquismo e a ausência de crítica da direita

(Joseph Praetorius, 29/04/2019)

A força que resta do franquismo (social e politicamente falando) vem do exemplo vivido da brutalidade triunfante que demonstra, aos olhos de tal gente e ainda hoje, a viabilidade da violência como modalidade de acção e impulso político para o pretendido êxito.

O franquismo não sofreu a derrota militar e politica do fascismo, do nacional socialismo, ou do ideário imperial japonês. Nunca lhe foi imposta a assunção de uma menoridade política, ou de uma existência que é culpa em si própria.

E o franquismo é, aliás, apenas essa violência e não tem projecto sequer quanto à forma de estado. O franquismo pode ser assumido, portanto, em qualquer proporção conveniente e em qualquer sector da direita católica espanhola. O franquismo é um matiz. Mera realidade adjectiva.

Como bem se viu, Franco conseguiu até desempenhar no teatro do Estado, o papel cerimonial e político do déspota (mal) iluminado. Designadamente pela ostentação da patente de “generalíssimo”, apanágio exclusivo do Rei. E colonizou mesmo a Casa de Bourbon – coisa de que nem os Napoleões se tinham lembrado – impondo à Chefia de Nome e Armas um casamento com sua filha.

Os Duques de Cádiz vêm agora todos arraçados dessa parda progenitura galega e aspiram ao trono de França (mas com isso não é preciso preocuparmo-nos).

Na imagem, o carniceiro engalanado, a filha bimba e o parvo com a farda da vala comum – que é como os malteses chamam à ordem do santo sepúlcro conferida pela colina vaticana.

Sabem o que falta aqui? Falta a crítica do franquismo do ponto de vista da direita.

Espanha – o aniversário da morte de Franco

(Carlos Esperança, 22/11/2018)

caídos

Este 20 de novembro foi um dia de êxtase para os órfãos do maior genocida fascista do século XX. No Vale dos Caídos a fila de devotos foi prestar homenagem ao mais frio e cruel ditador da história da Península Ibérica.

No 43.º aniversário da morte de Franco, o nacional-catolicismo orou em êxtase e exalou ódio contra quem recusa o cadáver a dominar o espaço da humilhação dos defensores da República, e onde sucumbiram escravizadas milhares de vítimas. Foi a última romagem de aniversário ao Vale dos Caídos. No monumento da vingança contra os vencidos e da exaltação franquista ocorreu a derradeira homenagem ao ditador, em apoteose fascista.

Na localidade de Cuenca, um deputado (conselheiro) da autarquia fez-se acompanhar da foto do ditador e da bandeira da Espanha franquista com “Gracias Franco!”, a celebrar o aniversário.

Em Saragoça, os franquistas colocaram a bandeira da Falange na imagem da Virgem do Pilar, o que obrigou a diocese a declarar que aconteceu sem a sua autorização.

Há 43 anos morreu bem ungido, muito rezado e excelentemente sufragado, rodeado de sotainas e de incenso, o general que durante quatro décadas semeou o terror e o luto.

No dia do soturno aniversário El Periódico de Catalunha anunciou que a neta de Franco é dona, desde 2003, do edifício onde funcionava um bordel, na Avenida madrilena das Delícias, de onde a Polícia Nacional libertou, em 13 de novembro, 23 mulheres que se prostituíam e deteve 17 proxenetas de uma organização criminosa que ali as explorava, na vivenda de Mariola Martínez-Bordiú Franco.

Para completar as homenagens lia-se no diário El País: “A lei dos meninos roubados teve início esta terça-feira durante a tarde no Congresso com a unanimidade dos 344 deputados presentes e um emocionado aplauso de reconhecimento de todo o hemiciclo, sem cores políticas, aos representantes das associações de vítimas. E também com algumas novidades relevantes.». Averigua-se mais uma repulsiva conduta franquista.

Enquanto os fascistas prestam a mórbida homenagem ao assassino, a Espanha começa a sentir vergonha e a reparar o passado.

O cadáver de Franco vai ser removido, difícil é arranjar onde arrumá-lo, e o Senado já aprovou, ontem, por unanimidade a moção que condena a ditadura e pede a proibição das fundações que exaltem o fascismo, apelo à extinção da Fundação Francisco Franco, uma central de provocação à democracia e exaltação da Falange, com largo património subtraído aos bens do Estado.

Franco e a basílica de Santa Cruz do Vale dos Caídos

(Carlos Esperança, 29/08/2018)

basilica

A História é o que é, os factos não se alteram. Os países europeus foram cúmplices das ditaduras ibéricas, consentindo que se perpetuassem, depois da vitória sobre o nazismo. Fizeram da Península um dique fascista contra o comunismo, alheios ao sofrimento dos povos e aos crimes dos ditadores.

A Igreja católica não foi apenas cúmplice de Franco, ele foi o seu genocida. Matou mais espanhóis, após a vitória contra o regime legal, do que todos os que morreram na guerra, de ambos os lados, numa chacina recíproca sem precedentes.

O ditador fascista mandou fuzilar centenas de milhares de espanhóis, atirados para valas comuns, quando já não existia resistência, na orgia de sangue e vingança, que estarreceu o próprio Mussolini, incluindo a tortura de padres “rojo-separatistas”, em prisões que o Vaticano consentiu.

Em 1953, o Papa de Hitler, Pio XII, concedeu-lhe a maior condecoração da Santa Sé, a raríssima “Suprema Ordem Equestre da Milícia de Nosso Senhor Jesus Cristo», espécie de canonização em vida, que ainda se mantém, tal como o doutoramento honorário da Universidade de Coimbra. Devem, aliás, manter-se. Acusam os outorgantes cujo opróbrio partilham. Após a distinção foi assinada a humilhante Concordata com o bairro de 44 hectares, criado por Mussolini, com o nome de Estado da Santa Sé.

A transição pacífica para a democracia consentiu que a vontade do ditador se cumprisse. O rei Juan Carlos, educado nas madraças da Falange, atribuiu-lhe honras de Estado e o altar majestático que domina o espaço onde jazem, em vala comum, os que assassinou, honra intolerável e intolerada se fosse concedida a Hitler, Mussolini ou Salazar.

A exumação do ditador é o resgate da dignidade de um povo, um ato de justiça e higiene cívica que os netos do carrasco e os herdeiros da Falange procuravam impedir. A onda conservadora que varre a Europa, num sinistro regresso ao passado, a que o PP de Pablo Casado parece associar-se, é o alerta para denunciar a contrarrevolução que se anuncia.

Manifesto, por isso, solidariedade a todos os democratas espanhóis e reproduzo aqui as palavras ditas pelo Núncio da Santa Sé em Espanha, Monsenhor Ildebrando Antoniutti, quando entregou em mão, a Franco, em 1953, a condecoração de Pio XII:

“Compraz-me particularmente confirmar, uma vez mais, o afetuoso interesse e carinho paternal do Papa para esta católica nação, que tantos consolos lhe proporciona nas duras provas da hora presente. E com toda a minha alma peço ao céu que proteja e cumule de bênçãos divinas a pessoa do Chefe do Estado, o Governo nacional, o Excelentíssimo Episcopado, com o clero secular e regular, e todo o amado povo espanhol. Deus abençoe a Espanha!”

Pio XII ainda ajudava nazis na fuga para os países da América do Sul.

Que trio fascista, Franco, Antoniutti e Pio XII!