Os EUA arriscam perder a guerra comercial com a China

(Joseph Stiglitz, in Expresso, 04/08/2018)

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Os EUA têm, na verdade, um problema, mas não é a China. É interno. A América tem poupado pouco. Trump e muitos americanos têm uma visão tremendamente míope


NOVA IORQUE — O que começou por ser uma escaramuça comercial, com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a impor taxas aduaneiras sobre o aço e o alumínio, parece estar rapidamente a transformar-se numa guerra comercial generalizada com a China. Se as tréguas aprovadas entre a Europa e os EUA se mantiverem, Washington enfrentará quase exclusivamente Pequim, em vez de enfrentar o mundo (e, evidentemente, o conflito comercial com o Canadá e o México continuará em lume brando, dadas as exigências dos EUA que não podem nem devem ser aceites por qualquer um desses países).

Além da afirmação verdadeira, mas agora já óbvia, de que todos perderão, o que podemos dizer das consequências possíveis da guerra comercial de Trump?

Em primeiro lugar, a macroeconomia triunfa sempre: se o investimento nacional dos EUA continuar a exceder as suas poupanças, o país terá de importar capital e de manter um défice comercial assinalável. Pior que isso, devido aos cortes fiscais promulgados no fim do ano passado, o défice orçamental dos EUA está a atingir novos máximos — recentemente, foi previsto que ultrapassasse 1 bilião de dólares até 2020. O que significa que, quase certamente, o défice comercial aumentará, independentemente das consequências da guerra comercial. O único cenário em que isso não acontecerá é se Trump levar os EUA para uma recessão, fazendo os rendimentos diminuir tanto que o investimento e as importações caiam a pique.

A “melhor” consequência da obtusa insistência de Trump no défice comercial com a China seria a melhoria do saldo bilateral, contrabalançada por um aumento correspondente no défice com um qualquer outro país (ou países). Os EUA poderiam vender mais gás natural à China e comprar menos máquinas de lavar; mas venderiam menos gás natural a outros países e comprariam máquinas de lavar, ou quaisquer outros bens, à Tailândia ou a outro país que tenha evitado a colérica ira de Trump. Mas, como os EUA interferiram com o mercado, pagariam mais pelas suas importações e conseguiriam menos pelas suas exportações do que em caso contrário. Em resumo, a ‘melhor’ consequência significa que os EUA ficarão pior do que estão hoje.

Os EUA têm um problema, mas não com a China. O seu problema é interno: a América tem poupado demasiado pouco. Trump, como muitos dos seus compatriotas, tem uma visão imensamente míope. Se tivesse um mínimo de entendimento da economia e uma visão de longo prazo, teria feito o que pudesse para aumentar a poupança nacional. Isso teria reduzido o défice comercial multilateral.

A ‘MELHOR’ CONSEQUÊNCIA SIGNIFICA QUE OS EUA FICARÃO PIOR DO QUE ESTÃO HOJE

Existem soluções rápidas e óbvias: a China poderia, de facto, comprar mais petróleo americano, e vendê-lo, de seguida, a outros países. Isto não faria qualquer diferença, a não ser talvez um ligeiro aumento dos custos de transação. Mas Trump poderia anunciar, então, que teria eliminado o défice comercial bilateral. Mas, na verdade, será difícil reduzir significativamente o défice comercial bilateral de um modo relevante. À medida que diminuir a procura de bens chineses, a taxa de câmbio do renminbi depreciará, mesmo sem qualquer intervenção governamental. Isto compensará, em parte, o efeito das taxas aduaneiras dos EUA; mas, ao mesmo tempo, aumentará a competitividade da China relativamente a outros países. E isso acontecerá mesmo se a China não usar outros instrumentos que detém, como os controlos sobre os salários e os preços, ou se incentivar fortemente aumentos de produtividade. A balança comercial global da China, tal como a dos EUA, é determinada pela sua macroeconomia.

Se a China intervier de forma mais ativa, e retaliar mais agressivamente, a alteração na balança comercial entre os EUA e a China pode ser ainda mais reduzida. A dor relativa que cada um provocará ao outro é de difícil determinação. A China tem um maior controlo sobre a sua economia, e tem procurado orientar-se para um modelo de crescimento baseado na procura interna, em vez de no investimento e nas exportações. Os EUA estão simplesmente a ajudar a China a fazer o que tem estado a tentar fazer. Por outro lado, as ações dos EUA surgem numa altura em que a China tenta gerir uma alavancagem excessiva e uma capacidade excessiva; em alguns sectores, pelo menos, os EUA dificultarão estas tarefas.

Se um país entra numa guerra, comercial ou não, deve certificar-se de que tem bons generais — com objetivos claramente definidos, uma estratégia viável, e apoio popular — no comando. É aqui que as diferenças entre a China e os EUA são importantes. Nenhum país poderia ter uma equipa económica menos qualificada que a de Trump, e a maioria dos americanos não apoia a guerra comercial.

O apoio do público esmorecerá ainda mais à medida que os americanos compreenderem que perderão duplamente com esta guerra: por um lado, os empregos desaparecerão, não apenas devido às medidas retaliatórias da China, mas também porque as taxas aduaneiras dos EUA aumentam o preço das exportações dos EUA e as tornam menos competitivas; e, por outro lado, aumentarão os preços dos bens que compram. Isto pode forçar a descida da taxa de câmbio do dólar, aumentando ainda mais a inflação nos EUA — e promovendo uma oposição ainda maior. A Reserva Federal terá então de aumentar as taxas de juro, originando um enfraquecimento do investimento e do crescimento, e mais desemprego.

Trump já demonstrou como responde quando as suas mentiras são expostas ou quando as suas políticas falham: dobra a aposta. A China disponibilizou repetidamente saídas airosas para que Trump abandonasse o campo de batalha e declarasse vitória. Mas ele recusa aceitá-las. Talvez possamos encontrar esperança em três outras características suas: a sua ênfase na aparência em vez da substância, a sua imprevisibilidade, e o seu carinho pela política de “homem forte”. Talvez, numa reunião grandiosa com o Presidente Xi Jinping, venha a declarar que o problema foi resolvido, com alguns pequenos ajustes de taxas aqui e ali, e alguma nova iniciativa no sentido da liberalização do mercado que a China já tenha planeado anunciar, e todos poderão regressar felizes a casa.

Nesse cenário, Trump terá “resolvido”, de forma imperfeita, um problema criado por si. Mas o mundo que se seguir à sua disparatada guerra comercial continuaria a ser diferente: mais incerto, menos confiante nas normas do direito internacional, e com fronteiras mais rígidas. Trump mudou o mundo, permanentemente, para pior. Mesmo nos melhores cenários possíveis, o único vencedor é Trump — com o seu ego desmedido um pouco mais inflado.


Prémio Nobel da Economia, professor universitário na Universidade de Columbia.© Project Syndicate 1995-2018

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6 pensamentos sobre “Os EUA arriscam perder a guerra comercial com a China

  1. Relativamente à primeira parte, os EUA não podem ficar sem dólares, nem a inflação é um problema porque os salários não se mexem nem estão perto do pleno emprego. O problema é ao contrário, as taxas têm custos muito altos para a produção, levando a falências, desinvestimento, e um acelerar do aumento da dívida privada a juntar ao da desregulação financeira.

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    • Se 3,9% de taxa de desemprego não é sequer estar “perto do pleno emprego”, então o que é?
      Meu caro, caso não saiba, o pleno emprego é atingido com diferentes valores para diferentes países, mas os valores estão normalmente entre os 3% e os 6,4%, e nomeadamente para os EUA, o pleno emprego anda à volta dos 5%.

      Há sim o risco de inflação, mas o pleno emprego não é a sua causa. Aliás, esta “ameaça” é um dos mitos criados pelos Neoliberais para justificar o fim das políticas de pleno emprego: “cuidado, é preciso despedir, senão vem aí o papão da inflação”.

      Quanto ao artigo, tenho pela que o Stiglitz tenha incorrido no erro do costume de todos os Globalistas: foi obrigado a ser incoerente e a desmentir-se no mesmo texto, para justificar as opções dos globalistas, como o livre comércio e o fim do protecionismo. Em concreto, conseguiu no mesmo texto dizer que uma desvalorização da moeda Chinesa era bom para a China, mas que uma equivalente desvalorização da moeda dos EUA era má para este país.

      Não, meu caro Stiglitz, e outros globalistas cegos pela propaganda de décadas, o livre mercado não é uma coisa sempre boa, e o protecionismo não é uma coisa sempre má. Pelo contrário, há virtudes e defeitos em ambos, e há situações ideiais para aplicar ambas as políticas económicas. Todas as grandes economias praticam protecionismo, e só mesmo quando chegam a tal poder imperial é que passam a ser defensores do “livre comércio”, pois numa situação de domínio, o “livre comércio” significa exportações para o imperialista, e importações para os outros desgraçados. É por isso que neste momento, o maior defensor do “livre mercado”, é o presidente da China, a nova potência dominante da economia global, e é por isso que os EUA têm mesmo (Trump tem razão SÓ neste ponto) de voltar a praticar políticas protecionistas (i.e. ainda mais do que já praticavam).

      O mesmo se pode ver na Europa. Quando havia protecionismo, Portugal crescia e aproximava-se dos melhores da Europa. Agora que só há “livre comércio”, somos uma colónia importadora dos produtos do império dominante: a Alemanha. Foi este o preço dos “subsídios europeus”. Não, não foram subsídios! Foi a capitulação da nossa economia. E isto só será corrigido quando voltarmos a ter moeda própria, e tarifas para nos protegermos do criminoso superávit externo excessivo da Alemanha.

      Engraçado que Stiglitz, quando é para atacar o Euro (e com razão) percebe isto, mas quando é para defender a globalização (e o seu querido “livre mercado”), já se contradiz todo.

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      • “o pleno emprego é atingido com diferentes valores para diferentes países, mas os valores estão normalmente entre os 3% e os 6,4%, e nomeadamente para os EUA, o pleno emprego anda à volta dos 5%.”
        Isso não é o pleno emprego, isso é o NAIRU – por isso, ainda não há grandes pressões para subida de salários. E as medições nem sequer contam com todos os desempregados ou com os empregados que gostavam de trabalhar mais (os subempregados), que também são um desperdício de capacidade.
        Mas sim, a inflação não surge daí, surge da procura elevada para bens que não existem. Se houvesse pleno emprego com salários baixos obrigatórios, também não havia inflação.

        “e tarifas para nos protegermos do criminoso superávit externo excessivo da Alemanha.”
        A moeda que flutue e os concorrentes alemães tornam-se competitivos. Tarifas cegas impedem-nos de adquirir bens para a modernização económica. A dívida trata-se como no Japão.
        Não, as barreiras deviam ser para sectores estratégicos onde tivermos capacidade e recursos para não depender de outros, e para recursos básicos que todos os países devem ter como defesa (energia, alimentação, transporte,…), num mínimo que também mantenha os nossos capitalistas honestos.

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  2. Existe um erro na frase “o défice orçamental dos EUA está a atingir novos máximos — recentemente, foi previsto que ultrapassasse 1 bilião de dólares até 2020”. poderá ter sido por causa da “velha questão” do que é um Milhão e um Bilião mas, como o valor referido é em USAD aqui vai: “The June deficit figure was in line with expectations, Wells Fargo Securities LLC economists John Silvia and Michael Pugliese said in a note, adding their forecast remains unchanged that the fiscal year 2018 deficit will come in at $775 billion.” fonte BLOMBERG

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