A esquerda e a amnésia

(Carlos Esperança, 11/07/2018)

cavaco_passos

(Tem razão António Costa quando diz que “os portugueses não perdoariam se a maioria de esquerda caísse já” (ver notícia aqui). Mas, assim sendo, convinha também que o PS não insistisse em quebrar acordos negociados com os partidos à sua esquerda, sem lhes dar qualquer satisfação, como  aconteceu no caso das rendas do sector energético e agora, mais recentemente, no caso das leis laborais. Na prática, chega a parecer que o PS não quer manter uma maioria de esquerda porque não há lisura quando se fica à espera que a direita sufrague no parlamento as medidas que o PS toma para satisfazer as clientelas tradicionais da direita.

Comentário da Estátua, 11/07/2018)  


Quando o anterior Governo estava já em minoria na AR e o PR continuava a ser cúmplice para desmantelar o Estado, o país assistiu perplexo ao ressentimento e desespero da campanha de Belém, difundindo ameaças e instilando o medo, indiferente aos reflexos nos juros da dívida e à desconfiança internacional que provocava.

Foi o tempo em que um PR salazarista e o PM acidental entraram em desvario por não terem na AR o apoio necessário para manter o governo mais extremista que a democracia gerou.

É interessante verificar os tiques salazaristas de certa direita, que levam dirigentes partidários a considerarem aberrante e antidemocrático o governo suportado pelo PS, PCP, BE e PEV, sem que os partidos de esquerda tivessem alguma vez apelidado de antidemocráticas as coligações do PSD com o CDS, o PPM e outras irrelevâncias de origem duvidosa. Talvez se encontre aqui a forma de aferir o espírito democrático de cada partido, no respeito por todos os que emergem do voto popular.

Infelizmente, à curta memória do País junta-se o interesse eleitoral dos partidos que disputam as próximas eleições. Passada a ameaça da direita truculenta, que originou o atual Governo, já se digladiam entre si e perturbam a convergência que se revelou saudável para o País.

Numa altura em que a direita, apesar da forte campanha mediática, apoiada pelas associações patronais, bastonários e outras personalidades da sua área, não consegue derrubar o Governo, seria lamentável que os partidos que convergiram quando Cavaco e Passos Coelho ameaçavam subverter a democracia, desrespeitando a AR, se transformassem agora nos coveiros da mais rica e profícua experiência política das últimas quatro décadas.

A onda de agitação e de reivindicações sociais, algumas injustas, saídas de classes privilegiadas, perturbam o discernimento de partidos de esquerda e ajudam a direita, enquanto o Governo, incapaz de satisfazer as exigências e de proceder à consolidação orçamental a que é obrigado, abre espaço ao crescimento da direita. Todos parecem esquecer o governo anterior, e não se dão conta de que Rui Rio e Marcelo não são Passos Coelho e Cavaco. Destes já não há medo, o medo que levou à convergência dos vários partidos de esquerda.

É fácil imaginar o que vai suceder se não houver bom senso nos partidos que suportam o atual Governo, desde recriminações mútuas ao desalento do eleitorado apoiante. A abstenção será a primeira força a crescer e o desânimo afetará o eleitorado que se revê na solução em vigor.

A perceção dos eleitores da culpa de cada partido na eventual cisão da maioria que permitiu este governo decidirá o voto, mas não há ganhos que compensem o que o país perde.

Pela minha parte, apoiante entusiasta deste governo apoiado pelo PS, BE, PCP e PEV, e livre de compromissos partidários, sentir-me-ei traído.

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2 pensamentos sobre “A esquerda e a amnésia

  1. com o que pcp pv e be fizeram com o governo sócrates que escancararam a porta ao governo passos portas, há que ter em conta que quando embrutam cegam ao ponto de preferirem um governo que além de não dar nada aos portugueses ainda lhes tira em vez de um que não lhes dá tudo mas melhora em muito a vida de todos. espero que tenham aprendido com a cabeçada que deram.

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    • Dentro do Euro não há melhoria, só abrandamentos do empobrecimento. O estado das infraestructuras, do estado social, o valor das rendas e os impostos indirectos falam por si.

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