Um comunista não pode ser rico?

(Pedro Tadeu, in Diário de Notícias, 11/07/2018)

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Começou por ser um dos frequentes disparates das redes sociais: o deputado do PCP, António Filipe, aparece fotografado na sala de espera de um hospital privado em frente a um cartaz do partido, exposto na rua, por detrás do vidro do prédio, com o slogan, vibrante, a gritar que “a saúde é um direito, não é um negócio”.

Façanhudos do Twitter e do Facebook entretiveram-se a insultar o deputado, com base numa aparente contradição moral entre os ideais e a prática.

O tom, mais ou menos, foi este: “afinal os comunas dizem ao povo para irem ao Serviço Nacional de Saúde e, pelas costas, quando têm dinheiro, vão mas é aos privados, como os ricos!”.

Vozes de burro não deviam chegar ao céu mas, na verdade, se zurrarem muito, pelo menos chamam a atenção dos deuses da opinião publicada nos media tradicionais.

Bernardo Ferrão, no Expresso, tem a bondade de defender o direito à “livre escolha” de António Filipe mas critica o PCP por defender as 35 horas de trabalho para os profissionais da saúde, por aceitar as cativações de Mário Centeno e por deputados como António Filipe “se baterem contra as Parcerias Público Privadas” na saúde quando, afinal, “confiam num privado para o seu particular”.

João Pereira Coutinho, no Correio da Manhã, repete parte destes argumentos e pareceu-me (o texto é um bocadito confuso) achar mal que a ADSE pague consultas a deputados comunistas.

Tirando o facto de ninguém saber se António Filipe foi a uma consulta, a um tratamento, a um exame (talvez coberto por protocolos com o Serviço Nacional de Saúde), ou, simplesmente, visitar uma pessoa amiga, o pressuposto é este: um dirigente comunista se vai, doente, a um hospital, não está a tratar-se, está a fazer uma opção política.

Esta inferência, se for aceite como verdadeira, leva, dedutivamente, a outras conclusões: um comunista pode lutar toda a vida pelo que acha ser melhor para a sociedade, por melhores salários para os trabalhadores, por mais direitos para os desprotegidos, por serviços de saúde gratuitos e bons para todos. No entanto, o comunista, para respeitar os seus princípios políticos, só pode ter um salário decente, usufruir de direitos básicos ou, simplesmente, escolher o que é melhor para si quando toda a sociedade poder beneficiar dos resultados da sua luta – até lá, em solidariedade para com os mais desfavorecidos, o comunista não pode usufruir do que a sociedade tem disponível…

Com tanta fome no mundo, imagino que um comunista a comer bife da vazia já seja, para esta moral distorcida, um pecado mortal.

Um comunista, pelos princípios desta teoria, é, portanto, um mártir e se não se portar na sua vida privada como um mártir, é um hipócrita. Ora acontece que o PCP não é a Ordem de São Francisco (e mesmo esta, já não é o que era).

Claro que ninguém pergunta se um defensor da privatização da saúde deve ir a um hospital público, se um defensor dos PPR privados pode receber pensões do Estado ou se quem quer destruir o ensino público pode meter os filhos nas melhores universidades do país (que, não por acaso e muito graças aos comunistas, são as públicas).

Se um comunista tem de ser pobre, um católico pode ser neoliberal? Um monárquico pode ser deputado da República? Um rico pode ser solidário? Um ateu pode ir a um velório na igreja?

Se, por exemplo, um cientista comunista inventar o motor contínuo ou souber transformar chumbo em ouro, não pode ficar rico? Por esta pretensa filosofia, não: deve doar o seu talento e saber à sociedade e, no estágio em que ela está, transformar inevitavelmente um capitalista rico que decida investir na sua invenção num capitalista obscenamente rico, contribuindo assim para o aumento do fosso entre ricos e pobres, ajudando ao domínio das classes favorecidas e prolongando a exploração dos trabalhadores. Ou seja, um comunista, para esta gente, só é um bom comunista se for estúpido!

Sim, um comunista, se levar a ideologia a sério, cumpre uma ética na sua vida privada que tem correspondência com os princípios sociais que defende. Mas não, um comunista não tem de ser parvo.

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6 pensamentos sobre “Um comunista não pode ser rico?

  1. Manuel G., olha: passadas as cenas loucas da JCP, os tempos da Telefonia de Lisboa ali no largo da Misericórdia e as performances nos tempos de antena do Partido às escondidas, sabes tu (ou pelo menos desconfias) qual foi a resposta que o Pedro Tadeu deu a si próprio?

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  2. Sim, mas foi um sim que é quase uma jura de que não passaria fome nunca mais.
    Aliás, ele diz o mesmo no fim: chamem-me o que quiseres, ó gajinhos, mas parvo é que eu não sou.

    O Pedro Tadeu é uma das personagens que só em Portugal é que poderiam existir, anda nos 50’s e continua a rezar a quem lhe dá de comer (literalmente, antes, e mais figuradamente agora) mas a sua vida profissional, intelectual e politicamente é de quem não aquece nem arrefece.

    [Acho que foi justo.]

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  3. todos podem ir aonde quiserem desde que sejam funcionários públicos. os outros tem um médico que lhes é dado pelo fp manga d’alpaca que por sua vez decide se vai ou não ao especialista que ele mf escolhe e se não resolver o problema volta à estaca 0 ou seja ao mf para recomeçar o castigo de meses se não anos à espera de consulta. os porcos são todos iguais , mas uns mais iguais que outros. há casos de familiares de fp que reúnem as condições para usufruírem da adse mas são impedidos pela casta fp.

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  4. Numa sociedade totamente disfuncional como a nossa onde a ignonancia caminha à frente de tudo e todos onde milhares de pobres sao presenteados com a indiferença e o deixa andar, onde se promete e quase nada se cumpre por má fé ,onde está claramente explicito que nao há capacidade para acabarem com a pobreza, nao tem mesmo sabedoria oara isso, é inegavel, onde haveria de haver um investimento profundo no plano educaciobal a começar no jardim de infancia e de uma vez pir todas darem matérias que nos tornem mais afaveis ,menos egoistas, odientos com ambiçoes absurdas e verem que o falhanço na linha educacional é um facto inegavel. As atoardas (sao às centenas) que para alguns sao grandes verdades, felizmente para outros nao passam de simpkes gracejos. Eu pergunto —–desde quando é que um comunista (muitos nem sabem o que é) tem que viver na miséria? Foi isso que Marx disse? Acabem com as telenovelas e pensem no que eles fazem à v/ nossa vida.

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