E O PASSOS FOI À VIDA…!

(Joaquim Vassalo Abreu, 23/01/2018)

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Passou-me pelo frontispício assim como que uma rajada de estupidez e às vezes a estupidez quer dizer mesmo maluquice e em honra aos vinte anos de Saramago Prémio Nobel resolvi escrever este texto sem pontuação

De modo que têm que adivinhar onde é que ela não está para saberem que ela deveria lá estar e tal como eu vou escrever ao correr do dedo no computador vocês vão ter que ler isto seguidinho pois senão não tem piada

E é para vos dizer que eu depois de ter ficado deveras preocupado quando o Passos disse que ia abandonar o Parlamento e até escrevi qualquer coisa como e que vai ser dele agora fiquei entretanto menos preocupado pois ele afirmou agora que se ia fazer à vida

E lembrei-me que nos meus tempos de criança e jovem um casal de namorados que se amava mas não tinha a bênção dos pais para se casarem resolviam partir o cântaro para obrigar os ditos a autorizarem o casamento ao que os pais sem escolha logo diziam pois  mas Agora Façam-se é à Vida

Mas até havia aqueles mais espirituosos que quando o noivo depois de fazer inchar a barriga da moça ia pedir a sua mão ao pai este dizia com que então a mão já a tomaste toda e agora vens pedir-me a mão

Mas com o Passos não foi bem assim pois ele foi prá vida e andou na vida muito antes de se fazer à vida e fez filhos casou e descasou e fez mais ainda mesmo antes de se fazer à vida Porquê Porque era filho de um médico um liberal médico que só pedia era que o rapaz tivesse juízo

Recuando também quero confessar que quando ele disse que se ia afastar do Parlamento e da vida politica eu logo pensei Já foste à vida ou mais simplesmente Já foste de modo que como é que vai ser agora E como se vai fazer à vida quem à vida já foi

Também me lembrei do Chato do nosso querido Nuno Lopes e do seu Vai trabalhar mas é mas como uma frase destas pode ser tão ofensiva que até um desgraçado em vez de dizer ao Cavaco Vai mas é coisa que daria para mil e uma interpretações resolveu pôr lá o Trabalhar e o Cavaco levou a mal e mandou-o pró Tribunal E desisti

Maneiras que tentando perceber o que ia pelo meu iluminado bestunto desatei a perguntar-me Diz que vai fazer-se à vida mas a que vida aqui é uma interrogação É só para ajudar E estou ansioso por saber para que vida ele irá quando na vida ele já andou e até à vida já foi

E antes mesmo de falar de Mr. Angelus e Mr. Herbs eu lembro-me que dele dizem que quando andou na vida ele era um Abridor de Portas E claro que a um tipo com o cérebro conspurcado isto poderia soar a manitas aqueles tipos que a gente chama para irem lá a casa abrir-nos a porta quando deixamos as chaves dentro e batemos a mesma mas que também abrem cofres ferrolhos fechaduras e outras aberturas Isso sabe-se que até dá dinheiro mas o Abridor de Portas eu conclui ser apenas uma metáfora

Mas também me deu para pensar com esta brilhante careca que nele também começa a refulgir que quem abre portas também as mesmas fecha e já que o Marcelo convocou para o seu Palácio que tem portas até dizer chega o maior especialista em Portugal em abrir e fechar portas sejam elas portas de carro de salas e outras assim esticando o braço e sempre dizendo faça V.Exº o favor mas dando também um valente rasteiranço a quem a cara não lhe sorria o Zeca Mendonça ele poderia não sendo tão especialista mas dando mesmo assim um jeito ir ocupar o lugar do Zeca Mendonça lá na São Caetano à Lapa para aprender economia com o Rio Assim um estágio com quem sempre trabalhou na privada diz ele

E agora vou terminar dizendo estar convencido que com Mr. Angelus ele já não se faz mais à vida e como o seu arqui amigo Paulo deu de frosques para o México ele vai pedir ao seu parceiro de outras vidas Mr. Herbs para voltarem à vida e voltarem ao negócio dos aeródromos mas agora em Angola Já foste E aqui até que também podia levar um ponto de interrogação Ficava bem

E pronto Foi pra isto que me deu


Fonte aqui

O ARCO DA GOVERNAÇÃO

(In Blog O Jumento, 22/01/2018)
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Um dos conceitos mais absurdos da democracia portuguesa, para além do irritante “bloco central” que chega a incluir os extremistas do CDS, é o de arco da governação. Por “arco da governação” deve entender-se os partidos que podem participar no governo. Isto é, quase 20% dos portugueses devem ser ignorados porque votam em partidos que alguém que não se sabe quem considera que esses partidos devem estar excluídos do poder.
Seria interessante tentar perceber, por exemplo, porque razão o BE é considerado de extrema-esquerda e mesmo à esquerda do PCP, enquanto o CDS é tratado quase como um partido do centro. Nenhuma posição do BE é mais extremista do que as defendidas pelo CDS, em quase todas as matérias, incluindo os famosos temas fraturantes as posições do BE e do CDS são praticamente simétricas. Um é sempre pelos valores da Santa Madre Igreja e o outro não, uns defendem sempre os trabalhadores no pressuposto de que estes estão bem quando os patrões estiverem ainda melhor, o outro defende o contrário.
Em relação ao PCP a direita pode usar o seu programa como argumento, poderão, por exemplo, dizer que o PCP defende a ditadura do proletariado. Mas a verdade é que essa ditadura está para Jerónimo de Sousa como o Céu está para a Assunção Cristas, os dois defendem os seus paraísos ainda que nenhum dos dois acredite neles. De resto, o atual governo provou que o BE e o PCP conseguem ser tão “responsáveis” como qualquer outro partido, aliás, se recordarmos o OE e a desvalorização do escudo no tempo de Cavaco Silva era o PSD que devia estar fora do “arco da governação”.
Nunca um governo foi tão rigoroso como o atual e tirando os momentos de orgia da austeridade de Passos Coelho e Paulo Portas, poderíamos dizer que nunca um governo foi voluntariamente tão austero quanto o atual. Nunca um governo adotou a austeridade como política orçamental, conseguindo de forma continuada défices orçamentais ainda mais reduzidos do que os previstos.
Não se entende tanta necessidade de consensos para algumas decisões, como se apenas alguns partidos, os do famoso “arco da governação” contassem. Aliás, quando a direita governa, como diria a Cristas quando o governo é das direitas ninguém sente grande falta de consensos ou, como sucedeu com Passos Coelho, o consenso era entendido como uma mera concordância por parte de Seguro em relação às decisões do governo.
Não faz qualquer sentido falar em consensos, algo que é uma originalidade da política portuguesa e de que só se fala quando a direita não governa, não admirando que seja agora um Presidente de direita a erguer a bandeira dos consensos. O que o país precisa é de bons governos e devem ser os governos a governar pensando em todos os portugueses e não apenas nos interesses de que se sentem representantes.
Com o fim do “arco da governação” acabou a regras não escrita dos consensos para decisões em que a Constituição não exige qualquer maioria qualificada.

A eleição de Rui Rio é um problema para Rui Rio, não para a atual maioria

(João Galamba, in Expresso Diário, 2201/2018)

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A chamada Geringonça não é nenhuma anomalia política tornada possível pela existência de Passos Coelho, nem a saída deste último da liderança do PSD é a chave para um qualquer regresso a um espaço mitificado de grandes consensos que alegadamente aproximariam o PS do PSD. Anómala, isso sim, era a incomunicabilidade à esquerda. Anómala quando olhamos para o panorama europeu e, sobretudo, nada vantajosa para o PS e para uma governação do país à esquerda, porque ou o PS tinha maioria absoluta ou ficava na mão da direita para governar.

Paradoxalmente, a chamada Geringonça acabou por recentrar e reequilibrar o nosso sistema político. Recentrar e reequilibrar porque pôs termo à vantagem artificial de que a direita dispunha para governar ou influenciar a governação do país. É natural que quem beneficiava da realidade anterior não goste particularmente desta mudança, mas convém situar a anomalia onde ela realmente existe, ou melhor, existia.

Para não lhe chamar reforma, chamemos-lhe mudança estrutural. Esta mudança é estrutural porque reconfigura as possibilidades políticas ao dispor de cada partido. Nesse sentido, a eleição de Rui Rio não vem alterar nada. Melhor dizendo: a única coisa que a eleição de Rui Rio altera é que o PSD passa finalmente a ter um líder que foi eleito e que inicia o seu mandato já sabendo que deixou de haver incomunicabilidade à esquerda e que, portanto, a direita perdeu a vantagem relativa de que tradicionalmente dispunha. O que para Passos Coelho foi um evento traumático, para Rio passa a ser uma realidade com a qual terá de lidar. Ou seja, não é Rui Rio que ameaça a chamada Geringonça, mas esta que cria um problema a Rui Rio, que enfrenta uma  situação inédita no PSD.

Ainda é cedo para perceber exatamente o que fará Rui Rio, mas já sabemos o que pensam alguns dos seus mais destacados apoiantes, como Manuela Ferreira Leite: temos de salvar o país (e o PS) da esquerda à esquerda do PS. Esta ideia tem um problema: como o país não aparenta querer ser salvo da experiência de diálogo à esquerda, a única forma de afirmar projeto político autónomo passa por apresentar uma alternativa clara ao que existe, o que obrigaria Rui Rio a fazer aquilo que sempre disse que não queria fazer, e que me parece claramente não ser o que Manuela Ferreira Leite tinha em mente quando falou do diabo, isto é, assumir que o PSD é um partido de direita, em tudo semelhante ao que foi liderado por Passos Coelho. Algumas das ideias ventiladas por Rui Rio, como cortar pensões em contextos recessivos ou reduzir o défice a um ritmo ainda mais acelerado que o do atual Governo, parecem apontar nesse sentido. No momento atual, esse projeto parece muito longe de reunir o apoio maioritário dos portugueses, mas sempre confere uma identidade própria ao PSD. Pode não ser a identidade que Rui Rio sempre disse desejar, mas pode mesmo ser a única ao seu dispor.