O mestre da perfídia

(Por Estátua de Sal, 30/08/2017)

Mumia

Cartoon in Blog 77 Colinas

Confesso que nunca percebi muito bem esse acontecimento que dá pelo nome pomposo de “Universidade de Verão do PSD”. Fico na dúvida se será uma fábrica de doutores que conseguem um canudo apenas a estudar durante um verão – na senda dos feitos doutorais do famigerado Miguel Relvas, esse doutor de alta prestação -, ou se será apenas uma reciclagem de doutores já feitos, jotinhas fresquinhos a precisar de actualizar o seu parco e anquilosado software.

Em qualquer dos casos, como as “aulas” não ocupam o verão inteiro e não duram mais que uma semana, são necessários mestres de grande qualidade e eloquência para em tão pouco tempo dar conta do recado. E assim tem sido. Por lá tem passado todas as pequenas e grandes sumidades da direita, desde Durão a Moedas, desde Passos a Maria Luís, tendo cabido desta vez a tarefa ao ressuscitado Cavaco Silva. A palestra foi triste e deprimente e,  como sempre ao bom estilo de Cavaco, uma peça de insidiosos recados. (Ver aqui)

A esquerda – nomeadamente o PS -, está encarniçada contra Cavaco. Pensa ela que a maioria dos recados de Cavaco lhe foram dirigidos. Talvez em parte. Cavaco, ressabiado como é, ainda não engoliu totalmente o sapo que foi ter que dar posse ao governo actual, ao qual vaticinou as maiores agruras e insucessos,  e que apesar de todas as pragas que lhe rogou, está a apresentar os melhores resultados económicos deste século. Quando um político fundamenta os seus discursos nos seus pequenos ódios em vez de os fundar na realidade, só podemos – para sermos magnânimos – receitar-lhe a aposentação. Eu sei que Cavaco já está aposentado – e bem -, mas seria bom que se convencesse disso em definitivo, o que parece que ainda não sucedeu.

Mas Cavaco não se ficou pelos recados ao Governo a quem ele continua a rogar pragas. Marcelo também não foi poupado. É o “presidente da verborreia”. Comparar Marcelo a Macron, pela negativa, não lembra ao diabo, mas foi o que Cavaco fez para, de forma sibilina, se comparar ele próprio a Macron. Ora Macron é uma construção artificial em plástico dos meios de comunicação social franceses, a soldo dos grandes interesses financeiros internacionais, que o venderam ao eleitorado,  santificado, e ungido pelos deuses, uma espécie de reizinho gaulês descido dos céus. Pois bem, ficámos a saber que é nesse papel celestial que Cavaco sempre se reviu enquanto Presidente. O rei Cavaco era parco em palavras e distante da povo porque, para Cavaco, os reis não falam com a plebe, apenas a mandam ajoelhar quando esta se apresenta ao beija-mão real.

Mas a parte mais pérfida e oculta dos recados não foi em grande parte descodificada à esquerda. Tratou-se de uma mensagem para os jotinhas, e directamente dirigida para o interior do PSD. E a mensagem é simples: não alinhem nos cantos das sereias que vos querem vender propondo-vos nova liderança, meus jovens: eu sou grande, eu sou o vosso líder até à eternidade e Passos Coelho é o meu profeta.

E é nesse contexto que deve ser entendido o ataque de Cavaco à comunicação social, aos jornalistas, aos comentadores. Sim, porque os comentadores são praticamente todos de direita, e a orientação das televisões é empolar as falhas e limitações do actual governo e, ao mesmo tempo, minimizar ou ocultar mesmo,  os seus sucessos, e por isso Cavaco devia colocá-los no altar em vez de os denegrir. Mas não. A razão é simples: a direita já iniciou o processo de destituição de Passos Coelho, porque não quer apostar de novo num cavalo perdedor. Desde o Expresso/SIC, passando pelo Observador, até ao pequenote Marques Mendes, todos estão a trabalhar com denodo para acelerar a queda de Passos Coelho a curto prazo. E é por isso que Cavaco zurze nos comentadores e nos jornalistas. Estão a atacar o seu prosélito, dilecto filho e obediente seguidor.

Se isto foi uma aula, foi uma aula de perfídia e de insensatez. Nada que os jotinhas não admirem, mas que não mereceu mais do que sorrisos amarelos e aplausos tíbios.

Porque, para encerrar com pompa, Cavaco tirou da cartola, a segunda edição da sua célebre máxima da “asfixia democrática”. Incentivou os jotas a lutar contra a censura que, segundo ele, está instalada em Portugal. Perante esta tirada, ocorreu-me de imediato a pergunta: o que é que ele anda a tomar? Alguma droga que lhe provoque alucinações? Cocaína adulterada porque o dinheiro da reforma não chega para comprar da pura?

Depois reflectir cheguei à conclusão seguinte: Se o governo tem sucessos e Cavaco não gosta é porque existe “censura” que oculta os insucessos da governação pois os supostos sucessos que vem nos jornais não podem ser reais.

Eu pensava que apenas Passos Coelho é que padecia de esquizofrenia grave, tendo continuado durante muitos meses a julgar que ainda era primeiro-ministro e a comportar-se como tal. Afinal, Passos está semi-perdoado. Apenas seguiu as instruções e as práticas do seu querido e dilecto mestre, o qual continua a achar que ainda é Presidente da República, e sobretudo que a forma como exerceu o cargo ficará para os anais da história como tendo sido exemplar.

Um personagem que não consegue ainda interiorizar que, fosse ele rei como gostaria ter sido, ficaria na história com o cognome de Cavaco, o de triste memória, como mostram os níveis de popularidade que tinha quando se retirou, não tem da realidade mais do que uma distorcida visão. Visão com que insensatamente persiste em incomodar o país, sempre que sai do seu refúgio dourado que todos pagamos.

Era bom que Cavaco se convencesse de uma vez por todas que se deve apenas dedicar a escrever as suas memórias. Mas que as guarde para si e para os seus descendentes e não as publique nem as partilhe com a Nação. Porque as memórias de Cavaco são tristes memórias que Portugal se esforça por esquecer, um pecadilho e uma falha dos portugueses que elegeram mais que uma vez para os governar  um personagem de tão limitadas qualidades e de tão mesquinho e provinciano ideário.

Isto só lá vai com educação

(Fernanda Câncio, in Diário de Notícias, 28/08/2017)

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É bonito constatar que há quem acredite tão religiosamente na educação que acha que se vestir um menino de rosa e lhe der uma Barbie ele se transforma numa menina.

Quando nasci, em 1964, a lei dizia que, por ser menina, era e seria sempre menos que um menino. Estava em vigor a norma do Código Penal que permitia aos pais matar as filhas até aos 21 anos se “desonradas” (só foi alterada em 1975); o Código Civil era o de 1868, que estabelecia a obrigação, pela mulher, de obediência ao marido, entregando-lhe a gestão dos bens dela; o que se lhe seguiu, em 1966, dizia que as mulheres só podiam viajar com autorização do marido e este podia abrir-lhe a correspondência; para ter emprego ou negócio só com sua permissão; e sobre a educação dos filhos só tinham o direito de “ser ouvidas”, sendo o homem o “chefe” da família. Um recém-casado podia repudiar a noiva se ela não fosse virgem (estava assim na lei) e o direito de voto para as mulheres só existia em circunstâncias especiais. “Os sexos são iguais”, dizia a Constituição em vigor, de 1932 – salvo, acrescentava-se, “quanto às mulheres, as diferenças da sua natureza e do bem da família”.

“Diferenças da natureza” e “bem da família”: é interessante reler estas frases da Constituição salazarista na semana em que vimos tanta gente arrepelar os cabelos por causa de uma recomendação da Comissão para a Igualdade de Género sobre dois “cadernos de atividades” da Porto Editora. Porque o que se viu, à mistura com um clamor sobre uma alegada “proibição” e “censura” de livros pelo governo, foi a certificação, por vários opinadores, de que as “diferenças da natureza” justificam materiais didáticos diferentes para crianças entre quatro e seis anos, conforme sejam meninas ou meninos.

De cada vez que esta questão é discutida — e muito recentemente o foi, a propósito da célebre Happy Meal do McDonalds e do facto de a cadeia distribuir brinquedos diferenciados com a refeição, consoante a criança fosse rapariga ou rapaz (procedimento que reconheceu discriminatório, anunciando que iria deixar de atribuir “género” aos brinquedos, permitindo às crianças escolher sem “guião”) – constata-se que existe muita gente que crê realmente que as meninas nascem a gostar da cor rosa e os rapazes a odiá-la, e que estes não têm qualquer atração por “bonecas” e “panelinhas” enquanto elas não se interessam por bolas, carrinhos, brinquedos tecnológicos e “brincadeiras violentas”. Em suma, que aquela divisão nas lojas de brinquedos e nos hipermercados entre “para menina” e “para menino” está inscrita nos cromossomas XX e XY – “na natureza”. Curiosamente, estas mesmas pessoas parecem ao mesmíssimo tempo acreditar que se vestirmos um rapaz de rosa e lhe dermos uma boneca ele se transforma numa rapariga. Outra coisa não pode concluir-se do facto de perderem a cabeça com a ideia de não haver distinção por género em brinquedos e outros materiais infantis. Ou seja: defendem a separação rigorosa dos universos feminino e masculino com base numa alegada “lei natural” enquanto demonstram crer de forma religiosa no poder da educação, a ponto de acharem que o género das crianças – ou, no caso, a sexualidade, porque é nisso que estão realmente a pensar – depende mesmo dos brinquedos com que brincam e da cor que vestem. Aliás, algumas destas pessoas chegam ao ponto de certificar que brinquedos sem diferenciação de género são uma imposição do hermafroditismo, querendo dizer que acham que dar uma Barbie a um menino lhe faz crescer uma vagina. A não ser que, claro, estejam apenas a ser ordinárias.

Acresce a tudo isto – e ao cansaço que é estar sempre a ter esta conversa – que são também estas as pessoas que invariavelmente, a propósito de temas que consideram “fraturantes” (nem vou perder tempo com tal designação), dizem que tudo se resolve com educação. Legalização do aborto? Não, isso não é solução, tem é de se investir na educação sexual. Quotas para mulheres? Não, não se pode fazer isto à força, até é pior para as mulheres, tem é de se educar as pessoas para a igualdade. Punir a discriminação? Não se vai lá com punições, as pessoas têm de perceber que somos todos iguais, tem de se ensinar na escola. E por aí fora. O problema, como se constata, é quando se quer mesmo pôr a educação a tratar do assunto: aí vem a gritaria da “ditadura” e da “imposição” e o “porque não cabe ao Estado educar.”

Sério? Então o que é aquilo no artigo 13º da Constituição, sobre a interdição da discriminação com base no sexo, orientação sexual, etc? É para enfeitar? O que são os planos para a igualdade a que o Estado se obriga, o último dos quais, em vigor até este ano, assinado pelo PM Passos Coelho, estabelece ser “tarefa fundamental do Estado promover a igualdade entre homens e mulheres” e “dever inequívoco de qualquer governo”, prevendo “reforçar a intervenção no domínio da educação, designadamente com a integração da temática da igualdade de género como um dos eixos estruturantes das orientações para a educação pré-escolar”? “Tarefa fundamental” e “dever inequívoco”: dúvidas nenhumas. E com tal consenso nas forças partidárias, da direita à esquerda, o que há a perguntar não é se a CIG deve pronunciar-se sobre os materiais à venda para crianças, é o que andou a fazer até hoje para só reparar em livros estereotipados quando alguém lhos põe à frente do nariz. O problema não é excesso de intervenção: é o défice que permitiu chegar-se a este ponto.

Truques pró menino e prá menina

(Francisco Louçã, in Público, 29/08/2017)

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Numa reveladora entrevista ao Público, Manuel Pizarro, líder do PS-Porto e seu candidato autárquico, explica como fará campanha simultaneamente em separado do seu presidente da Câmara, Rui Moreira, e a favor de uma nova coligação com ele, que restabeleça a ordem natural das coisas – a que ele candidamente chamou “fazer pelos dois”, escarrapachado em conspícuos outdoors. Assim, quando os jornalistas perguntaram: “Não é fácil fazer campanha contra o parceiro de coligação…”, Pizarro respondeu: “Acho que o truque está em não fazer uma campanha contra ninguém, mas a favor da nossa ideia para o Porto”.

O uso da palavra “truque” nesta resposta não deve ser empolado, afinal palavras excessivas podem sempre ser usadas na linguagem corrente e só quem nunca falou se pode atrever a atirar a primeira pedra. Pizarro usou “truque” e podia ter dito “a arte” ou “a estratégia”, se quisesse ser mais subtil. Nada indica que ele queira enganar os eleitores, até acho que lhes quer dizer precisamente o que pretende para o Porto e para a sua própria carreira como vereador de Rui Moreira. O problema é que aqui arte ou estratégia se parecem demasiado com um truque, este bem à vista de todos: ser candidato só para poder vir a apoiar de novo o outro candidato que espera que ganhe e de que só se separou por umas semanas e por circunstâncias anómalas que ambos lamentam. É nesse sentido que é um truque, é um intervalo em que fala grosso, “fazer pelos dois” segue dentro de momentos. Pizarro “não fará uma campanha contra ninguém” porque precisa desse ninguém para ser alguém no seu projecto para o Porto.

Ora, pergunto-me se isto é assim tão excepcional. Não será que os truques, porventura sem outdoors tão declarativos e sem candura tão expressa, não se estão a tornar o nosso dia a dia do final de agosto?

Dois exemplos de tipos de truques (e já sem contar com a enfastiante polémica acerca dos poemas de Chico Buarque, um pequeno truque para ajustar contas com ele pelo papel que desempenhou na luta contra o golpe palaciano no Brasil e a ascensão de Temer e do seu gang parlamentar) ilustram esta tendência tardo-veranil.

O primeiro truque é o “tudo ao molho e fé em deus”. Exemplo: Cristas, que se atirou ao primeiro-ministro (que a tinha criticado com pouca elegância) lembrando que Costa acabou com os guardas florestais, para esconjurar o seu próprio passado como ministra da agricultura, que a persegue todos os dias, transformando a razão da sua eleição para o cargo que desempenha na sua principal vulnerabilidade. Daí o contra-ataque, mas só a presunção de que o passa-culpas resulta no imediato alimenta esta polémica, enquanto a dirigente do CDS esquece que a voragem da culpabilização nunca a poupará (ela que queria ter feito muito pela floresta mas não fez, excepto promover os eucaliptos e acabar com os serviços florestais).

O segundo truque é o “deita-me poeira para os olhos”. É o caso dos “meninos e meninas”, que se tornou tema favorito da brigada neoconservadora e dos trumpificadores.

meninoReconheço quMENINAe o governo permitiu desastradamente a politização desse conflito com uma editora e não tenho nenhuma simpatia pela ideia de uma norma que defina livros aconselháveis. Mas a questão de saber se livros que apresentam os meninos como garbosos candidatos à aventura de piratas e as meninas como nenúfares caminhando para rainhas convêm aos nossos filhos, essa sim, diz mais sobre os pais do que sobre os filhos.

O PÚBLICO resumia assim os livros: “No conjunto das 62 actividades propostas, existem seis cuja resolução é mais difícil no livro dos rapazes e três que apresentam um grau de dificuldade superior no das meninas. Mas a maior parte das actividades reproduzem uma série de velhos estereótipos. Apenas alguns exemplos: eles brincam com dinossauros, com carrinhos e vão ao futebol, enquanto elas brincam com novelos de lã, ajudam as mães e vão ao ballet; eles pintam piratas, elas desenham princesas”.

O que é que se lê nos trumpificadores? Escândalo, as meninas até aparecem melhor tratadas do que os rapazes. Não percebo bem como é que essa distinção entusiasma esses pais (querem os filhos mal tratados?) e justifica que diferença de tratamento (acham que as meninas sonham e os meninos fazem?). Mas tenho um conselho para lhes dar: se pensam que as vossas filhas vão ser felizes com vestidos de princesas preparem-se para um choque. Elas vão querer mesmo ter uma profissão e uma vida.