Portugal colapsou e então vai de férias

(Francisco Louçã, in Público, 12/07/2017)

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Tudo era previsível.

António Costa respondeu à crise do incêndio e prometeu uma ambiciosa reforma da floresta, anunciou que a saúde seria o seu novo tema e, num momento pouco notado, lançou a campanha eleitoral com a Carris e os STCP. Lembrou a conversa de ontem com os generais e garantiu à esquerda que negociaria. Ministros todos na formatura e continuidade para 2018.

No PSD, espreitou o velho PPD. Montenegro tentou levantar as hostes insinuando-se contra Passos Coelho, temos candidato e vai ser mais depressa do que se previa, e para isso radicalizou o discurso da catástrofe: em poucos minutos, o Estado colapsou seis vezes, se bem contei, e até a democracia colapsou de caminho. O SIRESP, contrabandeado para o banco do PSD por um governo PSD-CDS, os créditos mal contados da CGD, idem, o falhanço da videovigilância em Tancos, idem, tudo veio à baila como “colapso do Estado”.

Quanto a Cristas, tentou a pose Portas: vivemos o “falhanço mais básico” da autoridade do Estado e a insegurança é aterradora, “a confiança quebrou-se”. Telmo Correia repetiu o seu número dos oito séculos que caíram na vergonha desta plebe ter tomado o lugar de sua majestade.

Nesta escolha do PSD e CDS está a boa notícia para o governo. Os partidos da direita escolheram desprezar o Presidente (o cuidador do Estado) e abandonar o debate económico. Vão pagar pelas duas opções. Pelo caminho, ensaiam uma curiosa efabulação: o governo não cuidava das contas públicas porque gastava demais e logo com as gorduras, as pensões e salários; agora criticam o governo por gastar de menos. Em resumo, “é verdade que economia cresceu e desemprego baixou” (Montenegro) e “a economia melhorou” (Passos) e fica tudo dito, é o que importa a quem se importa com a vida da gente.

Também à esquerda tudo previsível. Catarina e Jerónimo de Sousa negociaram condições e pediram garantias, a que Costa mostrou querer aceder. Nas entrelinhas, nota-se que o desacordo sobre as leis das florestas é profundo, mas o Primeiro Ministro deu voz aos critérios da esquerda, que aparentemente desagradam ao seu ministro. Têm poucos dias para se entender, ou é melhor adiar a votação das leis para setembro, o que seria um recuo para o governo.

No mais, houve algum desplante. Cristas acha que Costa “deserta” quando vai de férias mas prefere que não lhe lembrem o que ela própria assinou quando era ministra e andava de férias. Passos ainda está zangado por não ser primeiro ministro. Tricas e ninguém se importa com isso.

Tudo resumido, depois de o Estado ter colapsado e sabermos que vivemos em estado de pânico, esperava-se uma ou duas valentes moções de censura para salvar Portugal. Mas, no fim do debate, Passos e Cristas arrumaram as pastas e só pensam em ir de férias, como aliás boa parte da população.

Eles não querem que se trabalhe

(In Blog O Jumento, 12/07/2017)
Caçadora de cabeças

in Blog 77 Colinas 10-07-2017

Diz o povo que não há ninguém pior para quem está a trabalhar do que os que não fazem nada e é mais ou menos isso que está a acontecer. A expressão faz lembrar um “mafarrico” de Boliqueime mas deixa de fazer algum sentido, talvez mais sentido do que fazia quando foi utilizado.
A direita apostou que a Geringonça não funcionaria e durante um ano fez de cigarra esperando que gripasse. Quando percebeu que não gripava e ainda por cima estava a fazer um bom trabalho onde Gaspar e Maria Luís falharam continuaram sem se mexer e optaram pela desvalorização. Agora que a economia parece ter entrado nos eixos e se espera que a dívida soberana deixe de ser considerada lixo estamos a assistir a uma verdadeira histeria.
Um incêndio e um roubo serviram para um ataque desenfreado ao governo e ao Estado, com o Verão a aproximar-se, a que se seguem as eleições autárquicas há que dar tudo, antes que os temas se esgotem. A vontade de denegrir foi tanta que Passos Coelho até inventou mortos e internados devido a suicídios ou tentativas de suicídio. A direita das diversas corporações escolheu o momento para ajudar à desestabilização total do país, os juízes armam-se em proletários e anunciam greves, emergem processos judiciais, anunciam-se acusações para Setembro e os generais até andam armados em poetas pimba.
O objetivo é denegrir o governo, descredibilizar o país e impedir que o governo trabalhe e mostre resultados. Em vez de discutirmos como evitar novos dramas ou como reconstruir a vida em Pedrógão andamos a discutir antenas e previsões meteorológicas, na esperança de se arranjar algo que possa ser usado para sugerir culpas do governo ou de uma qualquer instituição do Estado.
A direita revela uma vocação golpista que há muito estava adormecida, foi preciso um tenente -coronel dos comandos na reserva para percebermos o que se estava a passar nas Forças Armadas, de repente recuámos a 1975, com discursos típicos não só em Portugal mas também em Espanha, os movimentos dos generais poetas faz lembrar o 23F de Espanha.
É o tudo por tudo antes que se registem mais sucessos na economia, uma tentativa desesperada de inverter o curso das sondagens. Mais boas notícias na Economia e uma derrota nas autárquicas será o fim de um ciclo da direita, a reforma antecipada da equipa de Passos Coelho. É preciso impedir o Governo de funcionar, impedir que o OE seja elaborado com tranquilidade, desestabilizar o ministério das Finanças, retirar a autoridade aos ministérios da Defesa e da Administração Interna.
Eles não querem que o país progrida porque para eles esse progresso só faz sentido se suceder com eles no poder, para poderem distribuir a riqueza de forma a aprofundar ainda mais as desigualdades. Eles não aceitam que crescimento económico e justiça social não só são compatíveis, como são uma combinação necessária para que esse crescimento seja desenvolvimento. Eles não querem que se trabalhe, não querem que o país tenha sucesso.

As reações ao furto nos paióis em Tancos. Entre o grotesco e o tétrico

(Major-general Carlos Branco, in Expresso Diário, 10/07/2017)

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(Artigo de opinião exclusivo para o Expresso do major-general na reserva Carlos Branco, a propósito do polémico furto em Tancos.)


Tem corrido tudo mal, ou quase. São poucos os intervenientes que ficam bem na fotografia. Os desenvolvimentos que se seguiram ao furto apenas vieram agravar a situação. O Ministro da Defesa assumiu inicialmente a responsabilidade política do furto – sem explicar o que isso significava – para uma semana mais tarde (muito tarde) afirmar na comissão parlamentar de Defesa que se tratava de um problema operacional militar. Aproveitando a gafe, a oposição reforçou os pedidos de demissão, quando na verdade as falhas de segurança apenas aos militares diziam respeito. As associações profissionais juntaram-se ao coro, tentando explicar aquelas falhas com o desinvestimento efetuado na defesa pelas sucessivos governos, apontando o dedo ao poder político. Ninguém conseguirá explicar ao país que a videovigilância estava avariada havia cinco anos, a rede sem eletrificação, e a iluminação (holofotes) inexistente, etc. devido à falta de investimento nas Forças Armadas. Não é claramente um problema dos políticos, mas sim dos militares. Independentemente de especulações legítimas que se possam fazer, não restava ao CEME (Chefe do Estado-Maior do Exército) outra alternativa que não fosse a contrição. O que fez bem.

Entre várias opções, o CEME escolheu uma particularmente injusta e desajeitada – a exoneração de cinco comandantes – criando um problema desnecessário, dando argumento a quem o acusava de ter cedido às pressões do ministro. Esta falta de esclarecimento foi aproveitada por dois tenentes-generais para um ajuste de contas, sob o pretexto do seu compromisso com elevados valores éticos. Era a oportunidade, após terem conspirado, traído e sabotado de uma forma constante e consciente a ação de comando do CEME – nunca aceitaram terem sido preteridos na escolha para CEME – e apoiado discretamente os promotores de uma manifestação sediciosa de entrega de espadas nas suas exortações à revolta, sobretudo depois de saberem que nenhum deles seria escolhido para vice-chefe. Igualmente insólito é a incoerência do anúncio público antecipado de demissão, depois de terem criticado o CEME de ter feito algo semelhante relativamente à exoneração dos cinco comandantes, contrariando um compromisso assumido com os restantes generais do Conselho Superior do Exército.

Assim como a flauta de Hamelin, as palavras “paióis” e “Tancos” atraíram para o espaço mediático especialistas formados à pressa e com conhecimento colado com cuspo. O espetáculo tem sido degradante, dada a despudorada ignorância dos intervenientes.

As manchetes dos jornais insistem no roubo de armamento, quando parece não terem ainda percebido que não foram furtadas armas, mas sim munições, explosivos e outros artefactos militares; um conhecido canal de televisão explicou-nos que uma granada defensiva funcionava por vácuo; o diretor de um reputado jornal, tão conhecedor do pensamento de Sun Tzu, passada uma semana não sabia ainda que o CEME tinha comunicado a exoneração aos visados antes de a anunciar publicamente; um proeminente economista da nossa praça, reciclado em especialista de defesa, em prime time televisivo, não perdeu oportunidade de alardear a sua ignorância questionando a necessidade da existência de tantos paióis, esclarecendo as hostes que “deveria haver uma concentração do armazenamento”. Terá de explicar essa teoria aos iletrados da NATO, e já agora arranjar uma avença para explicar essas ideias geniais nas escolas militares. O seu colega de debate chamava “carregamento” a “carregadores”. Outros eruditos atribuíam um papel decisivo ao atraso na disponibilização de verbas para arranjar a rede do paiol, quando esse assunto é absolutamente irrelevante para explicar o sucedido. Ficamos por aqui em matéria de comunicação social.

A PGR não comunicou ao gabinete do Ministro da Defesa Nacional (MDN) a suspeita de roubos de armas e ainda ninguém colocou o cargo à disposição. A inqualificável baixeza ética dos deputados da comissão parlamentar de Defesa que passaram para a comunicação social informação sobre o que se estava a discutir à porta fechada não terá sido o melhor exemplo de responsabilidade democrática (não será difícil adivinhar de que bancada terá vindo).

Parece que, para além do presidente da Comissão, mais ninguém condenou a ocorrência. A falta de respeito pelas regras, sem consequências, tornou-se trivial. Entretanto, afirmando estar no limite das suas responsabilidades, o Presidente da República tomou a iniciativa e foi a Tancos inteirar-se da situação rebocando o contrariado MDN, enquanto o primeiro-ministro está a banhos.

No meio disto tudo, as unidades continuarão a ter a segurança nos mínimos, nalguns casos abaixo dos mínimos; e os comandantes a terem de desviar verbas destinadas para a instrução e o treino operacional para pagar a água, luz e gás, evitando o seu fecho; continuará a incapacidade dos dirigentes do ministério da defesa em encontrar soluções para resolver os problemas do recrutamento, e evitar o definhamento em que se encontra a Instituição Militar. A atuação medíocre da maioria dos intervenientes nesta comédia sinistra é um bom retrato do país.


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