A grande fraude

(Joseph Praetorius, in Facebook, 09/05/2017)

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O funcionalismo dos partidos políticos confessou agora o seu preço em França. (Ver notícia aqui). Valls e Hollande demonstram claramente duas coisas: os funcionários do partido mataram o partido socialista, mas, mais interessante ainda, isso não decorreu de uma inabilidade, sendo, bem ao contrário, uma habilidade. Foi claramente intencional; os funcionários “socialistas” quiseram realmente e querem ainda que o partido socialista morra.

Ficamos portanto entendidos em dois aspectos do problema: é imprescindível a exigência da genuinidade das designações e opções político-partidárias, antes de mais. O alcance de fraude é inegável e a viablização da fraude é impensável. Quem elegeu Hollande votou socialista e “elegeu” outras coisas que ali estavam infiltradas.

É imprescindível uma resposta política, claro, mas também deve haver uma resposta legal e jurisdicional. O que temos em presença chama-se dissimulação fraudulenta, com alcance gravíssimo na vida das organizações institucionais e do Estado. É fenómeno co-natural à traição.

Trata-se de técnica inadmissível de fraudar o sufrágio popular. E constitui clara lesão de interesses públicos que deve ser protegida pela criminalização de tal conduta com pena severa.Se acaso este fenómeno não for já subsumível a um dos tipos formulados no Código Penal, como é plausível, sendo embora necessário estudar atentamente a questão.

A morte de BB, aquele que sabia bem onde estava no 25 de Abril

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Durante meses publiquei as crónicas de Baptista Bastos do Jornal de Negócios e também do Correio da Manhã, sempre que conseguia ultrapassar a aversão de visitar este último.

Baptista Bastos era senhor de uma prosa magnífica e de um refinado domínio da palavra, um português sempre cerimonial mesmo quando escrevia sobre casos simples, da vida dos mais simples, mas que nunca eram pequenos casos porque se transformavam em grandes paradigmas quando tratados pela sua pena.  É sempre com mágoa que vemos partir um viciado da liberdade, um lutador pela democracia, um artífice da palavra e do verbo a servir a liberdade e a democracia.

Que fiques entre flores, Baptista Bastos, para todo o sempre. Qual Cão Velho entre flores, como intitulaste um dos  teus mais emblemáticos romances que nos deixas.

Estátua de Sal, 09/05/2017


(In Diário de Notícias, 09/05/2017)

1934-2017. Conhecido como colunista nos últimos anos, começou na António Arroio pois queria ser arquiteto. Foi das palavras, apenas

Quem morreu hoje aos 83 anos nunca ponderou retirar o “P” do nome à conta de modernices e por isso ficou sempre Armando Baptista-Bastos. Havia esse cuidado nas redações em evitar um deslize que irritaria o jornalista, o escritor e o polemista que ficou conhecido por muitas reportagens e entrevistas, bem como o género que gostava de cultivar: a crónica. E livros, muitos, reeditados há uns anos em género de obras completas. Mesmo que a frase que mais lhe estava agarrada à pele nos últimos anos fosse “Onde é que você estava no 25 de Abril?”, que era a pergunta que lançava de rajada no início de um conjunto de entrevistas que fez. Sobre esse tema, desiludido com os passos atrás na Revolução de Abril, escreveu Elegia Para um Caixão Vazio. Está tudo dito.


Fonte aqui: Óbito – A morte de BB, aquele que sabia bem onde estava no 25 de Abril

Macron: depois de engolir o sapo, fritar o sapo

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 09/05/2017)

Autor

                                    Daniel Oliveira

O resultado de Le Pen foi tão baixo como as sondagens mais otimistas previram. Depois do Brexit e de Trump, o medo de uma vitória de Le Pen desafiava todas as evidências. Segundo os inquéritos conhecidos, mais de metade dos eleitores de Mélenchon votaram em Macron. Desses, mais de 70% declarou fazê-lo para derrotar Le Pen, uma percentagem mais alta do que os eleitores de qualquer outro campo político. Apenas um décimo votou em Le Pen. Mais de um quinto dos eleitores de Fillon, da direita conservadora, votou na candidata de extrema-direita. Ou seja, a histeria que se abateu sobre a esquerda nos últimos dias nada tinha a ver com a realidade no terreno.

A esquerda mobilizou-se para votar contra Le Pen mas qualquer equívoco sobre o que representa o novo Presidente foi dissipada por Manuel Valls, o ex-primeiro-ministro que depois de derrotado nas primárias socialistas decidiu não acatar o resultado e apoiar Emmanuel Macron. Numa entrevista à rádio Europe1, ainda antes da segunda volta, Valls decretou a morte do partido de que queria ser candidato ainda há poucos meses: “Este é o fim de uma história que conhecemos bem.” Não explicou a decadência dos socialistas com o seu governo e a presidência de Hollande. Para ele, a razão da derrota socialista foi a oposta: “não fomos capazes de mudar o nosso nome, de mudar nossa natureza.” Sobre conversas à esquerda, não podia ser mais claro: “Alguns ainda esperam alianças com Mélenchon. Estamos numa aliança com ambientalistas que esperam aliar-se a Mélenchon. Há socialistas no PS que também esperam esta aliança. O que poderíamos fazer juntos? Nada. Estamos, é claro, no embate principal contra a extrema direita. Mas amanhã, quando for para governar, não teremos nada a fazer juntos.” O objetivo é claro: reduzir o PS à sua expressão presidencial, cortar qualquer ligação ao resto da esquerda e garantir a Macron uma plataforma maioritária ao centro – com ou sem o que sobre dos socialistas.

Como explicou Valls, qualquer diálogo entre Macron e a esquerda que nele votou acabou agora. O seu projeto é isolar a esquerda e enterrar a parte do Partido Socialista que não o quis deixar de o ser. Por isso, a esquerda francesa (e europeia) não deve ter ilusões: era indispensável derrotar Le Pen, mas Macron representa uma das mais perigosas tentativas de a retirar do debate político em França e na Europa.

Não estou a dizer nada de novo. Se se recordam, o maior elogio que foi feito a Macron depois do debate contra Le Pen foi ele ter tido a coragem de reafirmar o seu projeto em vez de optar por uma frente democrática. O que correspondeu a ignorar a esquerda na segunda volta. Graças a essa estratégia, que resultou da certeza que os eleitores de Mélenchon se mobilizariam, como mobilizaram, contra Le Pen, tem toda a liberdade para fazer o que quer: mudar as leis laborais, liberalizar a economia e aprofundar a integração europeia na lógica de Merkel. Com o voto dos eleitores de esquerda.

Nunca sabemos quando vivemos um marco histórico, mas suspeito que estas eleições, da primeira volta às legislativas, sejam um desses momentos: a mais significativa vitória do neoliberalismo na Europa. Hoje, a esquerda que está aliviada é responsável. A que está feliz é suicida

O sistema eleitoral francês é peculiar, feito para favorecer os partidos do centro e os acordos políticos. São círculos uninominais, em duas voltas, em que passam à segunda os candidatos com mais de 12,5% (havendo muitas vezes desistências). Este sistema favorece alianças ao centro e impede os partidos das margens de ter uma representação vagamente aproximada ao seu peso real. Aquilo que Valls se prepara para fazer é fazer por fora o que não provavelmente já não conseguirá fazer por dentro: a construção de uma força política liberal que esvazie o centro-esquerda e capte o centro-direita. O sistema eleitoral, bom para o centro político, favorecerá a sua vontade. Todo este processo passa por acabar o que os partidos tradicionais começaram por si: a implosão do sistema partidário francês. A partir daqui, com um programa claro e sem concessões à esquerda, tudo será mais simples do que até agora.

Le Pen tinha de ser derrotada. Porque uma vitória sua punha em causa os mínimos civilizacionais de que depende qualquer debate político. Porque não se salva nada se não se salva a democracia. Mas, depois de derrotar Le Pen, é com Macron, Valls e todos os que usaram os partidos socialistas para os esvaziar de programa e de eleitores que a esquerda fará a grande clivagem política. Porque ele representa, nas suas propostas e na sua estratégia de destruição dos sistema político-partidário francês, a derradeira derrota da esquerda europeia e da sua agenda social, o golpe de misericórdia nos socialistas e a definitiva marginalização do resto da esquerda, que o próprio Valls anunciou para depois destas eleições. Ontem, a esquerda antifascista suspirou de alívio. Mas não há razão para transformar esse suspiro num aplauso.

Nunca sabemos quando vivemos um marco histórico, mas suspeito que estas eleições, da primeira volta às legislativas, sejam um desses momentos: a mais significativa vitória do neoliberalismo na Europa. O momento em que a esquerda pode quase ser varrida do mapa político francês, definitivamente substituída pela direita xenófoba como alternativa ao neoliberalismo e futuramente condenada a escolher entre Estado Social e democracia. E para políticos como Macron, Le Pen será sempre a adversária ideal: é ela que lhe garante o voto da esquerda sem concessões. Nas legislativas, este processo pode traduzir-se na destruição do Partido Socialista. Hoje, a esquerda que está aliviada é responsável. A que está feliz é suicida.

O que seria bom, mas não acontecerá, era que esquerda mais radical, comunistas, ecologistas e socialistas (toda a esquerda francesa) conseguissem construir uma plataforma de entendimento (que pode traduzir-se em apoios na segunda volta) para impedir uma maioria de Macron, empurrando-o para os braços dos republicanos. Que toda a esquerda se posicionasse para liderar a oposição à sua agenda de desregulação económica e laboral. Que se construísse uma geringonça francesa, na oposição. Mas o problema será sempre, como é por cá, a questão europeia. Essa é, na realidade, a fratura política que está a dividir e a destruir a esquerda. Não é, como outras, uma falsa fratura. O tempo dirá que esta União é, na realidade, a razão primeira do eclipsar da esquerda europeia. Infelizmente, temo que descubram tarde demais.


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