A esquerda mais sensata da Europa

(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 03/05/2017)

Autor

                       Daniel Oliveira

No Reino Unido, os conservadores preparam-se para arrasar com um Partido Trabalhista que vive em prolongada crise de identidade e dividido sobre os assuntos fundamentais, depois da aprovação do Brexit em referendo. Em França, o Partido Socialista foi obliterado nas eleições presidenciais e um ex-ministro sem partido, com um posicionamento claramente alinhado com a direita liberal, enfrentará a candidata da extrema-direita. Os dois partidos basilares do país – socialistas e republicanos – e o conjunto da esquerda estão fora da corrida. E, depois da provável vitória de Macron na segunda volta, tudo pode acontecer nas legislativas. O país está polarizado.

Na Holanda, os dois partidos do regime foram sovados. O da direita tradicional, apesar de ter ganho as eleições, perdeu 8 lugares no parlamento e importou o discurso de Wilders. Os trabalhistas passaram de 25% dos votos para 6%. Na Áustria, a repetição de uma eleições presidenciais deu, por uma curta margem, a vitória do candidato ecologista de perfil liberal frente ao candidato da extrema-direita. Em Itália, o Movimento 5 Estrelas, uma organização de perfil indistinto e basista, continua a reforçar a sua posição, demonstrando que à razia do sistema partidário, que aconteceu nos anos 90, sucederá outra razia. E outra. E outra. Em Espanha, o crescimento do Podemos, à esquerda, tornou inviável um entendimento com os massacrados socialistas, enfraquecidos e cada vez mais divididos, incapazes de liderar qualquer solução de governo.

Quem critica as opções recentes do PS e do resto da esquerda deve estar satisfeito com o estado dos socialistas franceses, gregos, holandeses… Temos, apesar de todos os erros cometidos, a esquerda mais sensata da Europa. Das poucas que parece ter percebido a tempo o tempo que está a viver

Quatro elementos fundamentais em quase todos os países europeus: erosão dos partidos tradicionais; tentativa de descobrir novas soluções, muitas de perfil carismático ou basista; crescimento da extrema-direita; e estilhaçar dos partidos socialistas ou social-democratas. Toda esta destruição poderia ser criativa. Mas a verdade é a que tudo se encaminha para o beco sem saída. Um beco em que a degenerescência antidemocrática da União Europeia e a austeridade perpétua, com o respetivo desmantelamento do Estado Social, parecem jogar um papel fundamental. O debate político degrada-se e faz-se hoje na fronteira dos mínimos civilizacionais. A escolha apresentada aos eleitores parecer ser entre a xenofobia e o aprofundamento da agenda de desregulação económica e social. O mainstream do debate mudou de lugar e o sistema partidário parece acompanhar-lhe o passo.

Há, num entanto, na Europa, um oásis de normalidade. Quis uma conjugação quase impossível de fatores que um político capaz mas não especialmente inovador, como António Costa, tivesse precisado do resto da esquerda num momento em que esta também precisava dele. Quis alguma sorte que os equilíbrios dos partidos à esquerda permitissem um acordo improvável. E quis a nossa história e a resiliência social do PCP que a nossa extrema-direita fosse, em Portugal, irrelevante – um exemplo que deve fazer pensar os que preferem ver os neofascistas, em vez da esquerda, a ocuparem-se da crítica à Europa e à globalização. Todos estes acasos, aliados ao facto de Costa ter percebido que tinha nas mãos o momento histórico que salvaria os socialistas portugueses do futuro dos restantes socialistas europeus, criaram um microclima político em Portugal. Respira-se, por cá, um ar mais limpo. Sim, debatemos os mesmos problemas de sempre – a dívida externa, a fragilidade da nossa economia, a nossa condição periférica, todas as oportunidades perdidas. Mas não discutimos, ao contrário de outros, a salvação da nossa democracia ou direitos humanos. Continuamos a ter por adquiridos valores que outros põem em causa.

Claro que ajuda a esta normalidade democrática quase anacrónica numa Europa perdida o facto de tudo chegar cá mais tarde e de, entre outras coisas, não termos muita imigração, a desindustrialização ter sido tão ténue como a industrialização ou não conhecermos problemas de coesão nacional. Mas muito deverá o país a quem soube fazer as alianças certas antes de ser obrigado a fazer as erradas.

Quem critica as opções recentes do PS português (e do resto da esquerda) deve estar satisfeito com o estado dos socialistas franceses, gregos, holandeses… Quem maldiz a crítica que o Bloco e o PCP fazem à Europa, pelo lado dos ataques a adquiridos sociais e nos antípodas dos discursos xenófobos, deve preferir ter de lidar com Le Pen, Wilders ou Farage. Temos, apesar de todos os erros cometidos, a esquerda mais sensata da Europa.

Das poucas que parece ter percebido a tempo o tempo que está a viver. Claro que tudo acabará por cá chegar. Como vimos nos anos de intervenção da troika, as contradições desta União Europeia não nos deixam de fora. Mas o facto de irmos atrás permite valorizarmos o que temos. Também é por isso os portugueses parecem gostar da “geringonça”. Ao contrário do que acontece por essa Europa fora, ela mantém algum consenso em torno de mínimos comuns.


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5 pensamentos sobre “A esquerda mais sensata da Europa

  1. Concordo em parte,naquela que parece estarmos contentinhos ,mas é como diz ,ela vai cá chegar.Vai chegar a desilução,porque mal é mais profundo ,mais geral .É o tal mal-estar com factores sobejamente conhecidos,por outro a nossa natureza é mais ordeira ,disciplinada ou obediente,como se prefira,característica que não é alheia a nossa história ,ainda recente,de 40 anos de uma maioria que não se mexia,só se lamentava.

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  2. 《 Claro que tudo acabará por cá chegar. 》
    Por isso, adagiando:

    “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas!”

    Como é o caso dos escribas da côrte capitalista de que o DO é um espécime prefeito.

    Depois, bem, depois quando cá chegar, e se for o fascismo, os actuais “democratas”, os e as que respiram o capitalismo por todos os poros, designadamente os de fachada socialista e socialdemocrata, despem as vestes com que se travestiram depois de ABRIL de 1974 e readaptam-se à nova situação, ao mesmo tempo que, quem SEMPRE se reclamou de esquerda, da única que, em defesa dos explorados pelo capitalismo, SEMPRE lutou, luta e lutará dando até à própria vida pela nobre causa do SOCIALISMO, esses e essas voltam à clandestinidade e continuarão a lutar!….

    “É a vida”, como diria o espécime de “democrata” agora guindado à chefia do “pântano” em que se está a converter o planeta – a ONU, do “nosso” (as aspas são porque eu alieno a minha parte por um pequeno pires de tremoços e pago a cerjeva que beber com eles) querido ex-PM que detestava pantanosas situações mas adorava queijo, designadamente se fosse limiano!…

    E assim, deste jeito e com gentes destas,

    《 Os cães ladram e a caravana passa!…》

    A bem da nação,
    (como diria o ilustre João Duque, aliás Professor Doutor, também ele um adorável espécime de “democrata” que, com a cruz de Cristo nas duas mãos e a espada na língua, por aí, pelos mídia vendidos ao grande capital, vai espalhando a sua fé “lepenista” e dilatando o império do capitalismo travestido de neo-liberalismo …)

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  3. Caro Daniel, sendo francesa residente em Portugal, posso votar nos dois países e sinto-me mesmo tão portuguesa como francesa. Mas nesta véspera de voto presidencial em França, sou ainda mais orgulhosa de ser portuguesa neste preciso momento, por ter, como o diz aqui, uma esquerda inteligente, mas sobretudo nenhuma ameaça de direita do tipo Lepen. Portugal deveria inspirar todos os Europeus se estes se dignassem a olhar par cá de vez em quando !!! Hélas !!! E vou fazer-lhe uma confissão: arrependo-me não ter votado para o Presidente Marcelo nas últimas presidenciais portuguesas.

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