O centro-esquerda a caminho da irrelevância?

(Sheri Berman, in SocialEurope.eu, Tradução de José Luís S. Curado)

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A Europa actual está em crise. Economicamente, grande parte do continente sofre de baixo crescimento, alto desemprego e crescente desigualdade, enquanto politicamente, a desilusão com a comunidade europeia, bem como com as instituições e elites domésticas é generalizada. Em parte como resultado, o populismo de direita está a crescer, aumentando ainda mais a instabilidade política e a incerteza. Embora muitos tenham notado uma correlação entre a ascensão do populismo e o declínio da social-democrata ou centro-esquerda, a relação causal entre eles não foi suficientemente salientada. De facto, em grande parte, os falhanços destes últimos explicam a surpreendente popularidade do primeiro (populismo, n.t).

O papel histórico do centro ou da esquerda social-democrata

Embora o declínio da social-democracia e a ascensão do populismo se tenham tornado particularmente perceptíveis desde a crise financeira que começou em 2008, as raízes de ambos situam-se muito mais cedo, nos anos 70. Durante essa década, as mudanças económicas e sociais/culturais começaram a perturbar padrões políticos e eleitorais há muito tempo estabelecidos. Economicamente, a ordem do pós-guerra estava a perder fôlego, e uma mistura tóxica de desemprego e inflação atingiu a Europa. No entanto, os social-democratas não tinham planos bem elaborados para fazer com que as economias se voltassem a mover ou para usar o Estado democrático para proteger os cidadãos das mudanças trazidas pelo capitalismo em constante evolução.

Tais planos eram, é claro, precisamente o que a democracia social tinha oferecido depois de 1945. Naquela época, os social-democratas não só insistiam em que era possível reformar e até mesmo melhorar o capitalismo – eles elaboraram propostas concretas de política para cumprir essa tarefa. Essas políticas permitiram aos governos conter e amortecer as consequências mais destrutivas e desestabilizadoras dos mercados sem os restringir totalmente. Em contrapartida, durante o final do século XX e início do século XXI, os social-democratas propuseram ou a salvaguarda de políticas socioeconómicas que podem ter feito sentido décadas antes, mas se apresentavam agora desfasadas das realidades de uma economia global em mudança, ou versões mitigadas do neoliberalismo (como a “Terceira Via” inglesa ou o “Novo Centro” alemão), o que deixou muitos cidadãos a perguntar-se por que haviam de se preocupar com votar a favor da social-democracia ou do centro-esquerda.

A ausência de uma resposta social-democrata distinta e efectiva aos problemas económicos deu espaço, nos princípios da década de 70, a uma direita neoliberal, que se organizara a reflectir sobre o que via como as desvantagens da ordem do pós-guerra, para libertar o capitalismo de muitas das restrições que lhe tinham sido impostas. E este capitalismo sem restrições, por sua vez, não só ajudou a criar a crise financeira do início do século XXI, como também levou muitos eleitores para os braços da direita populista que explicitamente prometeu reinar e proteger os “verdadeiros” cidadãos dos seus efeitos mais duros.

Ao mesmo tempo que as economias europeias, também as sociedades europeias estavam a mudar. As mudanças sociais e culturais desencadeadas no final da década de 1960 ameaçavam identidades, comunidades e costumes tradicionais, um processo ainda mais exacerbado pela crescente imigração. Juntas, estas tendências contribuíram para a erosão da solidariedade social e do sentido de um objectivo nacional partilhado que tinha alicerçado a ordem do pós-guerra social-democrata e ajudado a estabilizar as democracias europeias nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial.

Historicamente, os social-democratas reconheceram e de facto promoveram a solidariedade social e um sentimento de propósito nacional compartilhado, identificando-os como necessários à legitimidade de impostos elevados e a um estado de bem-estar forte. Contudo, durante as últimas décadas do século XX, esse facto básico foi demasiadas vezes esquecido ou excluído por um centro ou esquerda social-democrata que não tinham respostas distintas e efectivas para as mudanças sociais, culturais e demográficas as quais enfraqueceram o sentido de solidariedade e o objectivo nacional partilhados em toda a Europa, país após país.

A ausência de uma resposta social-democrata distinta e eficaz à diversidade crescente permitiu que a extrema-esquerda ou a esquerda multicultural se tornassem na mais forte voz de esquerda sobre esta questão. Este campo tende a ver a sociedade como dividida em grupos inconciliáveis, em redor de diferentes valores e tradições. Os esforços para encontrar um terreno comum ou mitigar diferenças, nesta visão, são considerados indesejáveis e contraproducentes.

Esta ênfase na “política de reconhecimento” – ao contrário da ênfase tradicional do centro-esquerda na “política de redistribuição” – era má para a esquerda e má para a democracia. Ela afastou muitos intelectuais da atenção às questões económicas e fragmentou a esquerda de uma maneira tal que tornou difícil construir alianças ou acordos de maioria e ganhar eleições. Também tornou quase impossível gerar a solidariedade social ou o sentido compartilhado de propósito nacional que é necessário para apoiar o resto da agenda de centro-esquerda ou uma democracia saudável, em geral. E, naturalmente, um enfoque prioritário na primazia da identidade racial, religiosa ou sexual sobre a classe ou até mesmo sobre a identidade nacional, denegrindo implícita e muitas vezes explicitamente os que se mostravam preocupados com a natureza das rápidas mutações das suas sociedades, também ajudou a impulsionar muitos eleitores para a direita nacionalista, populista.

A Crise Actual

É hoje bastante comum sublinhar o apoio dado por eleitores tradicionalmente de esquerda ou social-democratas à direita populista. Esta ligação tornou-se evidente no referendo do Brexit, onde muitos redutos e apoiantes trabalhistas tradicionais votaram para deixar a UE, e tem sido uma característica marcante das eleições em todo o continente o apoio dado pelos  eleitores da classe trabalhadora em particular, aos partidos populistas de direita. E, é claro, uma versão disto esteve presente nos Estados Unidos, onde Donald Trump recebeu apoio desproporcionado dos eleitores menos educados e operários. O que vale a pena salientar, no entanto, é a ligação causal entre os fracassos ou os passos em falso do centro ou a da esquerda social-democrata e a ascensão do populismo de direita.

Durante as décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, os partidos do centro-esquerda e social-democratas ofereceram soluções atraentes para os desafios económicos e sociais com que se depararam as democracias europeias. Prometeram aos cidadãos uma ordem económica que nem apagava o capitalismo (como muitos da extrema-esquerda desejavam), nem lhe dava liberdade (como os liberais clássicos e os neoliberais contemporâneos defendiam). Em vez disso, prometeram aos cidadãos os benefícios do dinamismo económico capitalista e da inovação, bem como protegê-los dos efeitos, por vezes destrutivos, do capitalismo.

O centro ou a esquerda social-democrata promoveram também a solidariedade social e um sentido de propósito nacional – os Estados de bem-estar protegeriam a saúde e o bem-estar de todos os cidadãos e o governo comprometia-se a criar uma sociedade igual e próspera que a todos beneficiaria. Porém, nas últimas décadas do século XX, o centro ou a esquerda social-democrata deixaram de ter respostas convincentes para os desafios económicos e sociais mais prementes que as sociedades europeias enfrentam e os eleitores começaram a procurar outras alternativas políticas.

Para muitos antigos eleitores de esquerda ou tradicionalmente de esquerda, a alternativa mais atraente acabou por ser a direita populista, que ofereceu respostas simples e directas aos temores económicos e sociais dos cidadãos. Economicamente, a direita populista promete promover a prosperidade, através do aumento do controle governamental da economia e dos limites da globalização. Socialmente, a direita populista promete restaurar a solidariedade social e um sentido de propósito nacional compartilhado, expulsando estrangeiros ou limitando severamente a imigração; diminuindo a influência da União Europeia e protegendo valores, identidades e costumes tradicionais.

Para aqueles que lamentam a ascensão da direita populista, o desafio é claro: não se pode combater alguma coisa com coisa nenhuma e se a esquerda não puder apresentar soluções mais viáveis e atraentes para os problemas contemporâneos do que as oferecidas pelos seus concorrentes, ela apenas pode esperar que irá continuar a deslizar para para a poeira da história.


Fonte original aqui

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2 pensamentos sobre “O centro-esquerda a caminho da irrelevância?

  1. Quem se deu ao trabalho de traduzir esta descrição requentada que nada acrescenta nem nada explica, perdeu tempo. Também me fez perder tempo a ler irrelevâncias.

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