Dão-se alvíssaras a quem os encontrar

(Por Estátua de Sal, 28/02/2017)

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Procura-se ex-primeiro ministro de um país ocidental, à beira-mar plantado, vulgo Portugal. De seu nome Pedro Passos Coelho, 53 anos, casado, natural de Coimbra, freguesia da Sé Nova. É muito conhecido por ser mentiroso contumaz, pelo que também dá pela alcunha de O Pinóquio. Costuma ser visto em companhia de senhora loira, nariz arrebitado que dá pelo nome de Maria Luís Albuquerque, 50 anos a fazer em Setembro, casada, natural de Braga. Esta última é conhecida pelo seu jeito para o ilusionismo, e pouca queda para a matemática, nomeadamente nas contas do déficit: ao que consta só sabe contar a partir de 3, por ter alergia aos números entre 2 e 3, especialmente ao número 2,1. Do seu cadastro em matéria de finanças, há alguns acontecimentos do passado que não foram cabalmente esclarecidos pelas autoridades judiciárias, tendo sido arquivados por falta de provas, pelo que também é conhecida por Miss Swaps, fazendo-se assim alusão a um produto financeiro de alto risco em que se especializou.

As autoridades policiais estranham o desaparecimento recente desta dupla de cidadãos, já que eram, nomeadamente o primeiro, visita regular de feiras, conferências, encontros de reflexão partidária, comícios e outros eventos de relevância pública, sendo por isso notícia diária nas televisões e nos mais diversos meios de comunicação social.

Foram já contactadas as polícias internacionais, e a Interpol já emitiu um alerta geral, prevenindo a hipótese de um eventual rapto pelo Estado Islâmico. Contudo, algumas fontes bem informadas, levantam a hipótese do desaparecimento estar relacionado com o caso dos 10000 milhões de euros que o fisco português investiga se desapareceram dos seus cofres ou apenas da sua listagem de movimentos de capitais para o exterior.

Apesar de não se saber ainda a dimensão do prejuízo fiscal, o secretário Paulo Núncio, do governo de Passos Coelho já se responsabilizou pelo rombo, talvez contando com a atenuação da pena futura, devido à sua confissão voluntária. O Ministério Público já está a investigar o caso, e nesta, como noutras situações, almejaria que estivesse em vigor o instituto da delação premiada. Estamos em crer que o secretário Núncio se iria candidatar de imediato ao bónus penal daí decorrente.

As televisões estranham este inusitado desaparecimento e tem carros de exteriores em vigilância permanente nos aeroportos, nas feiras, nas escadarias da Assembleia da República, e há tendas de campismo especiais para jornalistas na rua de São Caetano, junto à sede do PSD, jornalistas esses que já desesperam com tão longa e infrutífera espera.

Outras fontes sugerem ainda a possibilidade de Passos Coelho se ter deslocado ao Brasil para participar no Carnaval do Rio. Contudo, os correspondentes da SIC, tem perscrutado o sambódromo de fio a pavio e não encontraram ainda qualquer vestígio do ex-primeiro ministro, e aventam a hipótese de, a estar no Carnaval, se ter disfarçado de diabo, escapando assim às perguntas dos jornalistas.

Finalmente, não podemos deixar de referir a última pista que nos chegou, de uma fonte cuja confidencialidade prometemos manter, mas que nos pareceu muito credível. Passos Coelho teria recolhido a um Convento. Mais propriamente ao Convento do Sacramento, em Alcântara, indo assim fazer companhia ao ex-Presidente da República, Cavaco Silva, e dando-lhe uma ajuda preciosa na feitura do segundo livro das suas memórias que já tem título e que sairá daqui a uns meses. Consta que a obra se chamará: Às sextas-feiras depois do chá das 5.

O que terá acontecido a Maria Luís, já levanta menos preocupações, desde que foram enviados SMS e emails para os jornais prometendo que aparecerá em breve, apesar de continuar desaparecida em parte incerta, sendo por isso impossível recolher ao vivo o seu depoimento sobre o caso dos 10000 milhões. Contudo, a Polícia Judiciária ainda não descartou a hipótese de tais comunicações serem falsas, tendo sido engendradas pelos hipotéticos raptores para desviar as atenções e desse modo afrouxar as investigações em curso.

Deve dizer-se ainda que se dão alvíssaras a quem os encontrar. O prémio é financiado pela Autoridade Tributária e Aduaneira, segundo despacho recente do Ministro das Finanças Mário Centeno, o qual se opõe terminantemente à oferta de automóveis Audi aos cidadãos que ajudam a combater a fraude e a evasão fiscal, como era prática corrente durante o governo de Passos Coelho.

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Notas soltas – Fevereiro/2017

(Por Carlos Esperança, 28/02/2017)

fevereiro

Brasil – Após nove meses no poder e de aumentar a despesa pública, quando presidente interino, para consolidar o golpe, Michel Temer culpou o governo de Dilma, onde o seu PMDB tinha sete ministérios, pelo maior déficit da história. Fraqueza e hipocrisia.

Turquia – Com o único e corajoso afrontamento da Sr.ª Merkel, Erdogan não suspende a prisão de jornalistas e escritores criando o «maior cárcere de intelectuais do mundo», como afirmou Per Wästberg, presidente do comité do Prémio Nobel de Literatura.

Europa – Em 1944, o sacrifício dos soldados americanos desembarcados na Normandia foi determinante para a derrota do nazismo e fixação da paz e da democracia na Europa. Os EUA foram, então, os salvadores, hoje, constituem a pior ameaça.

Almaraz – O acidente ocorrido no dia 9, na central nuclear de Flamanville, em França, é razão adicional na luta do Governo português contra a obsoleta central espanhola, fora de prazo e com perigosos antecedentes, e o cemitério de resíduos aí previsto.

IVG – O referendo de há 10 anos permitiu a despenalização. Os direitos individuais não deviam ser referendados, mas foi a via que permitiu esse avanço civilizacional. Hoje, há menos abortos, menos reincidência e sem mortalidade materna. Valeu a pena.

Coreia do Norte – A demência desta monarquia comunista é perigosa para o mundo e trágica para o seu povo. Enquanto se morre de inanição e se transforma a população em autómatos, lançam-se mísseis para iludir as vítimas da ditadura e assustar os vizinhos.

CGD – A disputa política é condição essencial das democracias, e nenhum partido pode reivindicar o monopólio do patriotismo, mas há interesses nacionais que deviam levar a ponderação às direções partidárias que legitimamente competem pelo poder.

Dívida soberana – Após a crise mundial de 2008 atingiu em vários países valores que a tornam insustentável, Portugal incluído. A UE, com a proximidade de eleições nos seus países mais ricos, recusa-se a resolver o problema que a levará à irrelevância política.

Economia – O desempenho de Portugal, em 2016, com crescimento do PIB, redução do desemprego e aumento das exportações, é um excelente indicador, mas as taxas de juro dependem mais do Brexit, do BCE e da Reserva Federal dos EUA do que do Governo.

Reino Unido – Quando um país substitui a democracia representativa pela referendária, poucos eleitores votam o que se propõe, preferem votar contra quem foge às obrigações que devia assumir. E, assim, aconteceu o Brexit.

Democracia – É o regime preferível, e não é eterno. Os partidos populistas crescem por todo o mundo, incluindo a Europa. Não procuram ser uma opção dentro da democracia, apenas um mero instrumento para lhe pôr termo.

EUA – As eleições que levaram Trump à presidência não foram apenas a luta partidária, onde Hillary Clinton teve, aliás, mais três milhões de votos, mas uma disputa de polícias secretas e da espionagem informática, com possível manipulação e interferência russa.

Cavaco Silva – Em vez de escrever um livro, fez um rol de acusações ao carácter de um arguido à espera de julgamento, sem sentido de Estado, com delações (verídicas?) sobre as audiências entre PR e PM. É um caso inédito que revela o nível ético do autor.

Lobo Xavier – A violação de informação sigilosa da CGD e a divulgação por um vice-presidente do BPI, conselheiro de Estado, devia exigir ao BP e Ministério Público uma averiguação sobre o interesse próprio e eventual crime. A baixeza ética parece evidente.

França – A incerteza das próximas eleições presidenciais é angustiante e perigosa, e o resultado pode ser funesto, não só para a França, mas para a Europa e o Mundo, com os velhos modelos de inspiração fascista a ameaçarem as democracias.

Tony Blair – Reapareceu agora, em campanha contra o Brexit, ignorando-se se o move a imprudência da senhora May ou a ambição de regressar à política e branquear o crime da invasão do Iraque onde foi grande a desonra pessoal e maior a tragédia mundial.

Almaraz_2 – A queixa a Bruxelas decidiu o acordo. Portugal retira a queixa e Espanha desiste da lixeira nuclear. A CE anunciou a resolução amigável e o direito de Portugal reapresentar queixa. Quem se calou, diz que foi curta a vitória. De facto, urge encerrar a central.

Islão – O Ministério turco de Defesa suspendeu a proibição do uso do véu islâmico por mulheres das Forças Armadas. Contra a laicidade, permite-se primeiro; depois impõe-se; por fim, prescinde-se das mulheres. O califado e a sharia são o objetivo de Erdogan.

Sudão do Sul – O país africano, rico em petróleo e, sobretudo, em violência, tem pelo menos 100 mil pessoas em risco de morrerem à fome, uma catástrofe humanitária que levou a Unicef (ONU) a um lancinante apelo às organizações humanitárias.

Finanças – Perante provas que o incriminaram, Paulo Núncio renunciou à direção do CDS, mas não o iliba da cobarde culpabilização da Autoridade Tributária, nem isenta a ministra e o governo na ocultação da ida de 10 mil milhões de € para offshores.

Roménia – Há países que tentam conter a corrupção, mas, aqui, foi a primeira vez que se tentou despenalizar. A desfaçatez provocou uma onda de contestação que não se via desde a queda de Ceausescu, há 27 anos. O povo voltou às ruas de Bucareste.

Pena de morte – Com o orgulho de Portugal ter sido pioneiro na sua abolição, há 150 anos, o ministro Santos Silva exortou na ONU os países que a praticam a criarem uma moratória ‘de facto’ como primeiro passo para a “total abolição” da pena capital.

A ELEVADA ELEVAÇÃO…

(Joaquim Vassalo Abreu, 27/02/2017)

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Assunção Cristas eleva os braços,  saudando a “elevada elevação” do Dr. Paulo Núncio

 

…anunciou ela, a Maria de Anunciação, de Assunção, perdoem novamente! Já não é a primeira vez que me engano, mas é ela que insiste em fazer faísca nos meus neurónios. É que ela tem que se definir: ou anuncia ou assume! Quer dizer, a gente até fica baralhado, não é?

Confesso que quando a ouvi proferir aquela frase que dá título a este texto, como estava desatento e desenquadrado, pensando ou assistindo a não sei o quê, mas eram certamente coisas muito mais elevadas, não me dei conta da sequência. É que era dia de Futebol e aí, desculpem-me, eu “deslargo-me” de tudo o resto…

Mas, mesmo assim, apelando a uma mais que excepcional desconcentração, ainda pensei que ela se referia àquela letra do Carlos Tê, musicada pelo Rui Veloso para aquele filme do Vasconcelos, o Jaime, em que ele diz “ Voando como o Jardel sobre os centrais…” , exemplo escrito de grande elevação, ou então àquela inesquecível elevação de Cristiano Ronaldo a roçar os céus de Paris, como alguém escreveu na altura, em que ele subiu tão alto quanto a Torre Eiffel e marcou aquele decisivo golo ao País de Gales. Elevação maior é difícil…

Mas foi apenas porque não estava concentrado e atento, e fixado no Futebol, que me deu uma de diletante e não ouvi o essencial da frase: “Moral”! A “Elevada Elevação” não era nada do que eu pensava: era, afinal, “Moral”!

E foi aí que eu, desligando-me um pouco do Futebol, com um espanto a rondar a perplexidade,soube que se referia ao Núncio! E, meio ausente como estava, pensei logo: será que se refere ao Núncio Apostólico? Mas também pensei: não pode ser! Esse já tem, intrínseca e assumidamente, por via da doutrina e seu húmus, essa tal “elevação”. Afinal era outro Núncio, o Paulo!

Paulo, eu disse? Foi quando me lembrei de um outro Paulo e deu-se assim como um nó cego no meu hemisfério cerebral esquerdo e pensei: do que eu me fui lembrar! Não deste Paulo, mas do outro Paulo, o seu “guru”, o seu mestre e guia, o Sacadura Cabral, esse sim um exemplo imorredouro da arte da elevação moral, da elevadíssima elevação moral. E sendo o seu “guru” é a sua primeira referência e aqui, assumindo-se Maria de Assunção, ela assumiu de peito aberto a missão de manter e sustentar a sua enorme elevação.

E eu, vendo agora com olhos de ver o que é a “Elevada Elevação” moral para a Maria de Assunção, resolvi recordar o que dela escrevi, há quase dois anos atrás, aquando daquela vez em que o Paulo, mas o seu “guru”, o verdadeiro, resolveu fazer do “irrevogável” revogável, elevando portanto para conceitos inimagináveis a irrevogabilidade, e ela veio em seu socorro, quando disse aquilo que não é qualquer um que pode dizer e apenas o pode fazer quem tem, realmente, uma “elevada elevação”: “ Paulo Portas teve a flexibilidade de voltar com a palavra atrás”. Tal como este novo Paulo, mas o Núncio, agora fez. E foi isto que eu escrevi, precisamente no dia 02 de Maio de 2015:

“Eu disse que ia abordar e abordo. Que ia falar e falo. De quem? Dessa personagem tão cândida e inocente, tão crente e indulgente, tão patrocinadora e persistente, tão solícita e obediente, mas tão básica e incompetente : a Ministra Cristas, a que proferiu há dias essa gloriosa frase : “ Paulo Portas teve a flexibilidade de voltar com a palavra atrás”. Vejam só o alcance e subtileza desta frase. Uma frase que eu diria só comparável àquela de Camões: “ Cesse tudo o que a musa antiga canta que outro valor mais alto se alevanta”. Como que a dizer : acaba-se tudo o que era tido por Moral e Ética que outro conceito agora se levanta, o da flexibilidade! O da Ética mais ou menos, o da Moral assim assim, o da palavra dita mas desdita, a flexibilidade, enfim. Agora é mais “ versatilidade”, é “ jogo de cintura”. Ser “ sem vergonha” ou “ vergonhice”? Isso já era. Agora é “ flexibilidade”, é dar o dito por não dito, é fazer e arrepender, é andar e retroceder, é dar e ir buscar, é falar e não ter falado, é dizer e não ter dito, é prometer e “ desprometer”, é ir de vez e regressar e é ser-se pulha sem se saber. É ser cretino e esquecer, é ser tolo e não doer, é opinar sem se saber, é julgar-se sem se ver, é ser crápula sem perceber, é fazer do mal o normal, é não ter espinha dorsal”.

Foi isto que eu escrevi e devia estar mesmo muito zangado, não acham? Mas disto me arrependo irrevogavelmente!

E, perante este elevadíssimo arrependimento, só resta que me elevem a um altar transformado num qualquer beato ou santo….

De paciência feito…


Fonte aqui