O que anda em 2017?

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 06/01/2017)

Autor

                       Pacheco Pereira

1. O tempo claro que nunca pára de andar. Mas fora o tempo, muito pouca coisa anda: Marcelo está sempre em festa, pelo que o tempo conta pouco para ele, só a felicidade. Costa tem quase tudo às costas, mas é suficientemente hábil para parecer que não carrega peso nenhum. Carrega, carrega. Passos está metido num labirinto, mas tem a vantagem de saber o que quer: não quer sair do labirinto. Por nenhum deles passa o tempo como deve passar, o que é normal porque isto está tudo muito para o estagnado.

2. O Presidente está no Paraíso mas, na Terra, o Paraíso é um local mal frequentado. Um dos anjos-demónios que o frequentam é o Anjo da Facilidade, outro o da Tentação Populista. Ele preside, ele governa, ele julga, ele distribui afectos, ele recebe carinhos, ele coloca a sua cara ao lado de todos os portugueses para a fotografia. Presumo que deva sonhar com uma selfie colectiva com os 10 milhões de todos nós. O problema é saber quem a tira, que é uma variante de um paradoxo clássico. Todos os dias ele “marca a agenda”, mas o que se deveria questionar é se essa é uma verdadeira “agenda”, a que conta, e não a da ilusão quotidiana. E se quando as coisas forem a sério, para onde irá tanto afecto.

3. Costa, em particular, não pode fazer quase nada do que desejaria devido àquilo a que o PCP chama amavelmente os “constrangimentos europeus”. Costa sabe que não os pode mudar, e por isso espera pela sorte e pelos outros. Parece realista, mas não é: condena o País a um caminho medíocre, sem futuro. E, a prazo, condenará também o seu governo, que depende excessivamente do “exterior”, e o “exterior” quer que Portugal não faça ondas e pague a dívida e não ponha em causa a ortodoxia do senhor Schäuble. O bom do primeiro-ministro com o seu “optimismo irritante” tem passado pelos pingos da chuva, mas convém lembrar, primeiro que está a chover, segundo que tudo indica que vai chover mais. A “geringonça” minimizou o efeito, mas não o eliminou, bem pelo contrário. A oposição tem toda a razão quando diz que em nome do controlo do défice se está a pôr em causa o desenvolvimento económico, o investimento público, a qualidade dos serviços do Estado, a fazer cativações e adiamentos de pagamentos, a deixar agravar a usura do estado. A oposição tem razão, mas é hipócrita. Porém, Costa pouco mais mudou do que o “ambiente”. Não é pouco, é até muito importante, mas não é estrutural. Estrutural é a nossa estagnação, estruturais são as “regras europeias”, e a nossa dependência externa. Nada disto ainda matou a “geringonça”, mas mói-a.

4. O PCP percebe muito bem o que significa o acordo que sustenta o Governo, não o diz mas acha que é das melhores coisas que lhe poderiam ter acontecido em décadas. Não há melhor guardião desse acordo do que o PCP, a quem o acordo muito deve. Nunca romperá a não ser que ele já esteja rompido, até lá será o mais fiável parceiro de Costa. Mais do que o PS, muito mais do que o Bloco. E por isso não fará “lutas” (que significariam lutas contra os seus próprios interesses) e vai caminhando para acções de esclarecimento contra o euro, ou seja enuncia as suas diferenças de modo simbólico.

5. O Bloco e o Presidente partilham uma característica comum – falam demais. Os excessos verbais do Presidente, a prazo vão-lhe bater à porta, no Bloco, geram um mau clima por toda a parte. A agitação permanente do Bloco não é uma política é uma agitação. A permanente reivindicação de novas medidas, que, como o Bloco tem representação parlamentar, acabam por ir a votos, representa um risco de descontrolo da “geringonça”, a que deveriam ser sensíveis, mas são pouco. O Bloco padece de “egoísmo de partido”, está sempre a gabar-se do que “conseguiu” (infelizmente, com alguma reserva, em panfletos, o PCP tem ido a reboque) quando na verdade, todos os “conseguimentos” não se devem a nenhum partido em particular, mas à solução de acordo que permite a governação. Sem esse acordo, tudo iria por água abaixo, como irá se o acordo falir.

6. Passos é o mais simples de explicar. Está convicto de que virá aí a catástrofe (e imaginem que não estou muito em desacordo com ele, quem diria?) e quer lá estar quando ela vier. “Lá” na liderança do PSD e da oposição, e por isso não tem a mínima vontade de sair do lugar que tem. Aliás, para onde iria com a bandeirinha na lapela? Estando à espera do Diabo, ele conta com todos os demónios do catálogo. De novo, estou também de acordo com ele, na maioria desses demos activos, Schäuble, Dijsselbloem, os “mercados”, os burocratas de Bruxelas, o FMI às segundas, quartas e sextas, por aí adiante.

Tem a seu favor o facto de muitos dos seus apoiantes no partido preferirem ficar do tamanho do Bloco, a ter Rui Rio à frente do partido. E por isso, não tomem a agitação mediática como mais do que a agitação mediática soprada pelos maus costumes jornalísticos e pelos “protagonistas” habituais. O homem quer ver a catástrofe chegar e depois com o vigor da vingança “reverter” tudo e fazer a Singapura europeia.

7. É. Em tudo que é decisivo isto não anda para a frente. Aliás a inércia do sistema político é tão grande, aqui e na Europa, que só com turbulência é que as coisas mudam.

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3 pensamentos sobre “O que anda em 2017?

  1. Concordo.DéjÀ vu,Só que o estrume deve ser bem curtido,cheirar mal e só depois lançado á terra e assim depois de deixar de fumegar ,semear,esperar que cresça e depois sim colher os frutos.

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  2. O homem que tem mais livros em Portugal e sabe a história universal do mundo desde que ao princípio era o caos, que já fez a apologia do cavaco, o que já tinha dito tudo antes, da manela, a cassandra que tudo sabia antes de acontecer, do graça, o caça-tachos e parasita-mor do reino, e anda há anos a promover o rio, o que ia conseguindo transformar o Porto numa Boliqueime, finalmente confessa «que não está muito em desacordo com passos».
    Também este homem sábio de muita cultura que, como toda a gente e antes de tudo, põe ao serviço dos seus interesses pessoais e dos seus amigos, o que vem a dar no mesmo, e que desde que fez a apologia do ‘cm’ sofre do efeito do pensamento tablóide, tal como este vem fazendo estão, ambos, indo paulatinamente convergindo para passos.
    O efeito ‘cm’ no bestunto do cabeçudo homem de letras e tretas topa-se logo quando como, na última quadratura, sempre que precisa dar exemplo sobre corruptos vem-lhe logo à mona sem pensar ou respirar os nomes de Sócrates e Vara.
    Com tantos colaboradores amigos seus do cavaquismo e sua escola donde saiu o dr. passos e sua entourage onde pulularam os maiores e mais evidentes escroques deste país, para ele, o homem sábio portador de todas as qualidades e dons, esses nomes são impronuciáveis.
    É o efeito ‘cm’ em pleno.

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