O mundo em estado de saturação

(Baptista Bastos, in Jornal de Negócios, 30/12/2016)

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O ano vai fechar e resume-o guerras, atritos sangrentos, conflitos até agora insuspeitados. Acontece um porém: apesar das ameaças vindas da União Europeia, através das palavras do sinistro Wolfgang Schäuble, o nosso país conseguiu mudar de rumo e enfrentar os empecilhos e os perigos envolventes. Portugal provou que os perigos e as ameaças não demovem as pessoas sérias, e que o destino dos países está nas mãos dos próprios países.

Mas os perigos são vários, insistentes e perigosos. Schäuble não fala sozinho, e está sempre recostado em pessoas e situações ocasionais que podem transformar-se em elementos assustadores. Mas as situações mudaram, e a própria União Europeia está a ser combatida por outros países, que detestam a hegemonia assumida pela Alemanha. Nada é puramente adquirido, nem a hegemonia de um país consegue impor-se com carácter definitivo.

O mundo vive numa agitação perigosa, e o Daesh não é uma ameaça despicienda. Por outro lado, o mal-estar causado pela Alemanha, que nem a simpatia oxigenada de Angela Merkel consegue diminuir, parece começar a aumentar. As forças da Direita mais agressiva começaram a demonstrar a sua força, recuperando, aliás, uma tradição bélica que vem de longe.

O mundo pode viver sob esta tensão constante, e insistentemente agravada? Acresce o poder enorme de companhias associadas ao dinheiro e à sua força, que designam, nomeiam e promovem, com inaudito descaramento, muitos daqueles funcionários de organizações como a União Europeia. Podemos apontar Durão Barroso como exemplo. Mas há mais.

Portugal, nos últimos tempos, tem vivido nessa asfixia, com poucos exemplos de solidariedade moral. Mas o mal-estar está a assumir outras proporções. Tornou-se surpreendente o apoio quase generalizado dos portugueses ao governo de António Costa, e este provou que se podia fazer muito mais do que o previsto. E a estrondosa queda de Pedro Passos Coelho, e das movimentações que se lhe seguiram, vieram provar que, em política, não há inevitabilidades nem soluções impostas.

Passos Coelho não é homem à altura dos acontecimentos por ele próprio criados. A subserviência amplamente demonstrada na Alemanha, o registo de obediência total aos ditames germânicos, provadamente errados, e marcados pelos malefícios causados a Portugal, explicam aos menos avisados de que Passos Coelho não é o homem indicado para a situação. A queda de simpatias e consentimentos de que tem sido objecto, e a própria natureza das suas intervenções demonstram que ele não está à altura da dilemática situação.

A inesperada ascensão de António Costa demonstrou que Passos Coelho arrastara, com a sua incompetência e obediência sem reservas à Alemanha, o nosso país para uma situação de subalternidade. Foi o novo governo tripartido que esclareceu os portugueses das segundas opiniões que podem ser conquistadas. Depois, as novas circunstâncias determinadas pelo Daesh, e pelo poder que este adquirira, nos últimos cinco anos, aceleraram os acontecimentos. Mas a situação não está muito clara, nem as coisas podem determinar a nossa tranquilidade.

Estamos presos a uma armadilha que não é apenas ideológica. É, também, determinada pelo mal-estar que vai pelo mundo.

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