Os jornais dizem que o PSD anda agitado, duvido muito

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 25/11/2016)

Autor

                    Pacheco Pereira

A grande reserva popular nas estruturas do PSD são os seus autarcas. Reparem que não digo “no PSD”, mas nas “estruturas do PSD”. No PSD, continua a haver um eleitorado popular considerável e seria um erro por parte do PS e dos seus aliados menosprezá-lo, apenas porque as sondagens hoje são desfavoráveis ao partido. Mas, nas estruturas, as coisas estão muito diferentes do passado, em particular nas maiores estruturas urbanas. Aí estruturas são mesmo estruturas, uma burocracia ligada ao poder interno e, por sua via, ao poder do Estado a que se acede em democracia, no parlamento e nos órgãos de Estado. Fora disso, não tem nenhum significativo poder social, não agrupam profissionais de relevo e influência quer nas suas profissões, quer influência política propriamente dita. Os seus curricula são muito pobres, com excepção dos lugares a que chegaram por via da política e, manobrando bem dentro, consideram que não precisam de influência fora. A verdade é que não a têm. Quantos dirigentes distritais do PSD em Lisboa e Porto são conhecidos por qualquer mérito público que não seja o de serem influentes dentro do partido? É por isso que a lógica da sua actuação é muito mais virada para manter o seu poder dentro do que ganhar dentro a partir de fora. Nem sequer existe uma forte motivação para ganhar eleitoralmente, se os lugares que tem estão consolidados.

É por isso que qualquer candidatura de mudança não pode contar com eles, a não ser na última hora da inevitabilidade de vitória. Bem pelo contrário, para eles é mais importante manter o estado de coisas do que correr o risco de uma mudança, que é o da sua substituição ou da perda do poder. Por isso, não há candidaturas “consensuais” no PSD, ou, se as há, não mudam nada, herdam apenas um património pouco recomendável. “Agitação”, não há tanta como isso fora da comunicação social que ouve meia dúzia de pessoas, mas mudança vai exigir muito esforço e não será fácil.

Trump e a política externa dos EUA
Embora seja difícil encontrar qualquer coerência e conhecimento mínimo nas afirmações de Trump sobre política externa, de segurança e de defesa, algumas dessas afirmações podem levar a um debate útil sobre alguns aspectos da política da administração Obama-Clinton, neste caso em próxima parceria com os seus aliados europeus. Para além de que, goste-se ou não, Trump é o Presidente dos EUA e por isso tudo o que diz (mesmo que ainda não se saiba se faz) é relevante para a ordem mundial.

Há três casos que merecem essa discussão, a política da NATO, com a discussão subordinada do burden sharing e da nuclearização do Japão, Coreia e Arábia Saudita; a política face à Rússia de Putin, e a intervenção dos EUA e dos seus aliados europeus na Síria e na Líbia. Embora tudo isto esteja ligado, fiquemos agora apenas pelo intervencionismo americano e europeu no Próximo e Médio Oriente, um dos aspectos mais desastrosos da política Obama conduzida neste caso por Hillary Clinton, com ingleses e franceses de corpo inteiro metidos nos vespeiros que eles próprios acirraram. O caso da Líbia é o que se sabe, com a prática transformação do País num Estado falhado, dividido, numa guerra civil entre milícias hostis e uma parte do País entregue de mão beijada a uma variante do ISIS. Na Síria, uma política de incentivo à revolta contra Assad, patrocinada em armas, dinheiro, apoio logístico e algumas botas no chão pelos EUA e por vários países europeus, resultou numa violenta guerra civil com várias frentes, que destruiu um País que fora relativamente próspero.

Os russos disseram com muita clareza que não deixariam cair Assad, pelo menos às mãos das milícias e grupos apoiados pelos EUA e por vários países europeus, e o impasse militar e diplomático, acentuado pelo surgimento do ISIS, deu-lhes uma magnífica oportunidade para se colocarem permanentemente naquela região. Assad passou a contar com uma protecção diplomática de um País com direito a veto no Conselho de Segurança e uma protecção militar dada pela aviação russa. Na verdade, se pensarmos bem, a intervenção ocidental a favor de uma guerrilha insurgente contra o principal aliado russo na região, é o equivalente a ver a Rússia a patrocinar uma guerrilha contra a família real saudita, um aliado estratégico dos EUA. Assad, como Kadafi, eram e são ditadores cruéis, numa região onde eles abundam, mas a sua manutenção no poder não ameaçava nenhum equilíbrio geoestratégico na região. Assad é um aliado do Irão, mas os EUA fizeram um acordo com o Irão, e Kadafi, entre a corrupção e a megalomania, dava-se bem com vários políticos franceses a quem pagou campanhas eleitorais e colaborou mais vezes com os americanos do que estes estão dispostos a admitir.

As intervenções atabalhoadas de Trump talvez não sejam a melhor maneira de levantar os problemas, mas que eles existem, existem. A intervenção ocidental na Síria é um completo desastre e a sua continuação não serve nenhum objectivo estratégico que não seja não perder a face. De há muito tempo que os rebeldes anti-Assad já perderam a guerra e foram deixados sozinhos.

Não é bombardeando a milhares de pés de altitude, sem querer pôr tropas no chão, que se consegue fazer uma política consistente naquela parte do mundo. Por isso, talvez as coisas mudem com a nova administração, deixando as habituais vítimas enganadas no terreno, infelizmente muitas que pagaram o último preço e outras que irão continuar a pagá-lo.

2 pensamentos sobre “Os jornais dizem que o PSD anda agitado, duvido muito

  1. “fiquemos agora apenas pelo intervencionismo americano e europeu no Próximo e Médio Oriente, um dos aspectos mais desastrosos da política Obama conduzida neste caso por Hillary Clinton, com ingleses e franceses de corpo inteiro metidos nos vespeiros que eles próprios acirraram.”

    O pacheco é um pandego que vem gozar connosco atirando aos outros os “aspetos mais desastrosos”da intervenção americana e europeia e refere Obana, o tempo presente para, precisamente, passar a esponja e esquecer que tudo começou em bush, durão, blair e aznar tudo personalidades que ele apoiou aos gritos nos jornais e tvês todas que apanhou à mão.
    Até gozou com Mário Soares, o idoso, por este ter desfilado pela Av. da Liverdade contra a intervenão ‘amistosa’ ou pelo menos não desastrosa como lhe chama agora o medíocre político que sempre foi e é o pacheco.
    Pela minha parte bem pode palrar pacheco que o que ele diz vale nada, zero.

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