Queres ver que o dr. Costa vai conseguir?

(Nicolau Santos, in Expresso Diário, 17/10/2016)

nicolau

É de uma enorme ironia que o menor défice alguma vez alcançado em 42 anos de democracia seja da responsabilidade de um governo do PS, apoiado pelo Bloco e pelo PCP.

O centro-direita está com enormes dificuldades em ter um discurso coerente e compreensível contra a proposta de lei do Orçamento do Estado para 2017. Até agora não houve uma única acusação de despesismo (o mesmo se dizendo em relação ao orçamento atualmente em vigor). Quanto ao cenário macroeconómico pega-se por pormenores (a procura externa dirigida à economia portuguesa) mas não pela sua falta de aderência à realidade, porque ele é bem mais realista do que as bases com que foi elaborado o OE 2016. E depois tenta-se insistir num enorme aumento de impostos indiretos, que em primeiro lugar não é enorme, e em segundo visa captar receitas para a segurança social ou incide sobre produtos que são potencialmente prejudiciais para a saúde.

É claro que o OE 2017 tem riscos: as exportações podem crescer menos ou o investimento ficar longe dos mais de 21% ali preconizados. Mas depois do que se passou este ano, em que apenas de o OE 2016 ter sido calculado com base num crescimento de 1,8% e este ir quedar-se em torno de 1% e mesmo assim o Governo ir cumprir o défice de 2,5% acordado com Bruxelas, já não se ouvem vozes a dizer que o défice de 1,7% previsto para o ano é completamente impossível de atingir.

Por Bruxelas e Berlim deve haver muita estupefação, rilhar de dentes e preocupação. Estupefação porque o que está acordado com as autoridades europeias está a ser cumprido; rilhar de dentes porque está a ser cumprido com uma orientação económica completamente diferente daquela que os srs. Schauble, Dijssselbloem e Dombrovski defendem com unhas e dentes; e preocupação porque este pode ser um mau exemplo para todos os países que tem sido alvo desta receita austeritária e dos defensores da TINA (There Is No Alternative). Afinal, parece que há alternativa e afinal parece que se podem conseguir os mesmos ou melhores resultados com muito menos dor social do que com a receita anterior.

Por isso, a pergunta é mesmo: queres ver que o dr. Costa vai conseguir, depois de tudo o que já conseguiu – governar apesar de ter perdido as eleições, formar um Governo com partidos que nunca apoiaram um governo, evitar as sanções, conseguir recapitalizar a CGD sem que tal seja considerado uma ajuda de Estado, elaborar não um mas dois orçamentos sem que a coligação que apoia o Governo rebente…

Queres ver que o dr. Costa vai ser o primeiro-ministro a alcançar o défice mais baixo da democracia portuguesa em 42 anos e que pode mesmo vir a bater o seu recorde para o ano, apesar de ter devolvido salários e pensões e diminuído a carga fiscal sobre o rendimento dos trabalhadores por conta de outrem? Queres ver?

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26 pensamentos sobre “Queres ver que o dr. Costa vai conseguir?

    • e os impostos que aumentou? E a subida nos combustiveis? Discursos bonitos tipo vendedor, que só destaca o que interessa! Ou seja, o dinheiro aparece de onde afinal?

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      • Tenham santa paciência. Essa conversa do aumento dos combustíveis já cansa! Mais 1,20€ por cada depósito é muito? Ah! A não ser que ande de BMW! Vá pentear macacos!

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      • As respostas dos laranjais de serviço são sempre as mesmas… Só sei que as pessoas vivem bem melhor agora do que na altura do coelhinho…

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  1. Sinto orgulho em António Costa liderar o Governo apoiado pelo Bloco de Esquerda e pelo PCP. Contra todas as perspectivas da Direita ele tem conseguido endireitar as contas e dar ao Povo Português a esperança dum futuro melhor. Tirar Portugal do buraco fundo que PPC e seus comparsas nos enfiaram. Força António Costa. Força P.S.

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  2. Está na hora do laparo de massama; a marilu; a rosa peixeira e o aprendiz de trolha portas, começarem a visitar so amiguinhos da UE, senão o OE ainda passa.

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  3. Sim, tenho confiança que o Sr, António dê a volta a “isto” , com os seus apoiantes . Oxalá que tenha razão Sr, Nicolau. Força PS e Cª.

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  4. Esperemos este Governo que seja o 1º fazer tal feito.
    Mas este festejo terá sentido para o próximo ano! Já sabemos que muitas vezes as estimativas correm mal!
    Recordo que houve um governo que conseguiu em 2007 um défice de 2,6 por cento mas nos anos seguintes foram bastantes mais altos.

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  5. E, não é que vai mesmo conseguir…..ter o défice mais baixo em 40 anos de democracia sem aumentar a austeridade e os impostos para os mais pobres ( antes pelo contrário )mas, mantendoo rigor nas contas públicas imposto pela União Europeia mas, com outras escolhas…..fazer pagar mais quem mais ganha…….

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  6. O défice de um ano é conseguido devido a medidas tomadas nesse ano acumuladas às tomadas em anos anteriores. Para cima ou para baixo.
    Aconteceu que nos anos Passos o esforço de consolidação orçamental foi maior, baixou o défice, mas ainda insuficientemente. A seguir veio o Costa e com menor esforço de consolidação conseguiu atingir um défice obviamente mais baixo. Resultado: quem faz grande aumento de austeridade fica com má fama e sem proveito de atingir meta do défice; quem vem depois e faz menor aumento de austeridade, atinge a meta do défice e fica com os louros.

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  7. É isso. A direita vai precisar de muito PEPSAMAR para a azia que está a sentir. Cada passo no sentido de aliviar a carga de quem menos pode, é uma facada na anterior governação…

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  8. Muito bem escrito caro Nicolau. Os meus parabéns pela honestidade dos seus comentários. Finalmente, independentemente do governo em funções, finalmente, repito, parece que em Portugal se acendeu a luz do bom senso e da humana noção de que o mundo e os países que o compõem são apenas PESSOAS! Ou as empresas existem para as servir ou simplemente não interessam nem devem existir. A genética esquiva-se a culpabilizar a aleatoriedade da natureza – a união entre dois seres causa a gestação de um terceiro em condições não tecnicamente rigorosas mas aleatórias daí a sua infinita variedade – porém, essa rica aleatoriedade que permite a variedade que nos encanta por exemplo no mundo vegetal – onde as gestações menos felizes não se vêm ao caírem e dissolverem-se na terra – os erros na gestação da aleatoriedade humana são dolorosamente vistos e tocam profundamente de infelicidade os atingidos e seus familiares. A ciência tenta minimizá-los mas o principio sagrado da vida impede soluções extremas. Ainda bem.

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  9. Subscrevo inteiramente a análise feita pelo Nicolau e desejo ardentemente que o Dr. António Costa vá provocando cada vez mais azia à direita, para bem de Portugal e dos portugueses.

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  10. Subscrevo inteiramente a análise feita pelo Nicolau e desejo ardentemente que o Dr. António Costa consiga provocar cada vez mais azia à direita para bem de Portugal e dos portugueses.

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