A volta lenta no PSD

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso, 01/10/2016)

Autor

                    Pedro Santos Guerreiro

Está alguém aí? Aí, com a liderança do PSD? Mas quem, se quem decide aí não está? Se o PSD Porto não vos ouve, se o PSD Lisboa não vos fala, se os que por vós falavam agora se calam, então Passos Coelho já não controla o PSD. O líder está na torre de menagem mas não manda no castelo.

A nomeação de José Eduardo Martins para coordenador autárquico do PSD em Lisboa, feita por Mauro Xavier com bênção de Santana Lopes sem que a direção do partido sequer soubesse, é a prova evidente de que há muitas mãos e mão nenhuma. Só não é uma sublevação porque para haver um golpe contra o poder tem de haver poder. E já no Porto vimos que não há: Carlos Carreiras diz que jamais o partido apoiará Rui Moreira, o PSD Porto ignora-o.

Carreiras foi aposta de Passos mas salta sem chão debaixo dos pés. O coordenador autárquico é ignorado em Lisboa e no Porto, desmentido por Isaltino em Oeiras, ultrapassado pelo CDS, e o partido vai fazendo de conta de que falta muito para as autárquicas. Falta um ano. É pouco.

O PSD não tem ainda grandes candidatos para cidades como Lisboa, Porto, Coimbra, Funchal, Gaia, Pombal, Sintra ou Aveiro. E o objetivo de recuperar a presidência da Associação Nacional de Municípios, que é uma forma de dizer que quer ter mais Câmaras do que o PS, é tão mais difícil de conseguir quanto a liderança deixar de ser sequer representativa do partido.

Passos tem cometido muitos erros na oposição, não porque não tenha razão quanto aos riscos da economia, das finanças e de um resgate, mas porque não sabe dizer outra coisa, agendando sucessivas crises que não irrompem. Ele, que ganhou as legislativas, depende cada vez mais de uma crise no Governo para não ter uma crise no partido. Mas ei-la. O pavio arde.

Começou no congresso de abril, onde os aplausos foram moles mas ninguém ousou desalinhar. Só José Eduardo Martins, que sai agora da bancada dos críticos e, mesmo numa posição política de baixo risco, entra na arena e garante a autoridade dos que se expõem. Mas onde está José Pedro Aguiar Branco, que nesse mesmo congresso o desafiou a ser candidato a Lisboa?

Onde estão os apoiantes de Passos? Aguiar Branco desapareceu. Luís Montenegro tem agenda própria, incluindo a de querer ser líder. Carreiras é o que é. Marco António Costa mina Passos nos bastidores onde finge não estar. Ele e Miguel Relvas. E quem arriscará ser candidato para perder por Passos?

Será Moreira da Silva candidato a uma Câmara? Aceitará Maria Luís Albuquerque ir a eleições? Isolado, sim. Passos será vencedor ou derrotado das autárquicas, num partido de onde está a cair pelas bases e cuja sucessão Marcelo Rebelo de Sousa condicionará.

É com estes paus que se desfaz uma canoa. E se Passos se preencher com a razão que pensa que a história lhe dará, passará ele à história antes disso, num partido que poderá ter depois dele o que teve antes, mais líderes do que liderança; num partido onde os exércitos hoje conspiram na camarata para decidir por que general se entrincheirarão. Por Passos já não é. Está aí alguém? Está muita gente, mas com esta liderança já só está quem não é ninguém.


Comentário da Estátua de Sal

O autor diz que é a “volta lenta do PSD”. Pedro Santos Guerreiro não o diz, mas de facto seria mais apropriado ter escrito, a “morte lenta do PSD”. Só Passos Coelho, como sempre zombou das lições da História, é que teima em não levar em conta o ditado antigo: rei morto, rei posto. Passos está morto, estrebucha ainda, mas paz à sua alma que bem precisa depois de tanta malfeitoria que cometeu, quer no PSD para chegar ao poder, quer no País para no poder se manter durante quatro penosos anos. Mas a Geringonça, contra tudo e contra todos, está de boa saúde e recomenda-se. A maior prova disso mesmo, é não se terem perfilado ainda vozes desafiadoras e críticas da liderança de Passos.  Se a Geringonça estivesse para cair, havendo no horizonte próximo alguma hipótese, por mínima que fosse, de o PSD se aproximar de novo do poder. já Passos teria sido defenestrado. Mas o cerco está a apertar-se, o Expresso do Dr. Balsemão comanda as operações de ataque, e este artigo para que não restem dúvidas, é a prova disso.

O Diabo não veio em Setembro. Mas pode ser que venha antes de Setembro/Outubro de 2017, antes das próximas eleições autárquicas. Mas não chegará a chamuscar António Costa. Provavelmente, o primeiro a ser esturricado pelo mafarrico será mesmo Passos Coelho.

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5 pensamentos sobre “A volta lenta no PSD

  1. A dança chama-se ‘pavana’ e foi popular no sec. XVI. Maurice Ravel escreveu uma peça musical intitulada ‘pavana para uma Infanta defunta’ em 1899. Adivinhe em honra de quem é a ‘pavana’ que se dança no PSD…

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  2. Finalmente chegou a hora da purga pois o fim do Cavaquismo está á vista assim como este PSD ser uma farsa desde a chegado do Cavaco fascista e PiDE antes do 25 de Abril!

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    • Excelente e avisado comentário de Estátua de Sal. O artigo acima pode muito bem ter sido encomendado. O patrão não brinca em serviço! O autor do artigo, com certa aura de Esquerda no “Jornal de Negócios”, mudou a agulha para a Direita e ei-lo a caminhar velozmente nessa direcção. Coisas…
      Edmundo Perdiz

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  3. O PSD está doente e não é de hoje. Esteve em risco, está em risco. As crises do passado ajudaram à construção da união, as crises do presente estão a destruí-la. Não existe na Concelhia de Gaia a união necessária e suficientemente galvanizadora para que leve os seus militantes e simpatizantes a voltar a acreditar no projecto autárquico. Temos tempo, sabemos esperar, diz a Concelhia. Mas esperar e tempo para quê? Perguntam os seus militantes e simpatizantes. A começar pela falta de empenho dos núcleos de freguesias gaienses e paralisados pelo risco de derrota em próximas eleições”. Esta simples constatação permite-nos imaginar que nada de substancial irá ocorrer até ao próximo ano, isto é, até às eleições autárquicas em 2017. Daí que numa corrida atrás do prejuízo, o dado mais relevante são a expressão da actual discórdia e desunião na concelhia gaiense do PSD e da sua incapacidade em definir aquele rumo galvanizador. Mas perder a Autarquia Gaiense ao fim de 16 anos, e o governo do País, passando para o lado da oposição, deixou sequelas gravíssimas e criou a tempestade social e política onde hoje se encontram. Porque se perderam valores essenciais pelo caminho, a começar pelos valores humanistas que estiveram na base do projecto do PSD. Valores como a liberdade e a solidariedade. E nada nos tempos mais próximos permite pensar no seu regresso. Porque o Partido social-democrata deixou-se prender numa armadilha de onde dificilmente conseguirá sair. Uma marca, e o PSD é uma marca, na política portuguesa, nunca terá tudo a ganhar, mas terá sempre tudo a perder. Por ser essa dificuldade a conferir-lhe beleza, por ser essa beleza que tanto apego nos dá a ela… por ser tão difícil que todos se desapeguem dela tão rápido e plenamente como é preciso para lhe reconquistar o gosto e a capacidade de a reconquistar. A lembrar que tal predicado o é precisamente por ser tão efémero quão difícil é de repetir. Nunca terá tudo a ganhar porque a hegemonia é a mais apetecida das quimeras, porque a supremacia é a maior conquistadora de adversários, porque a História está cheia de imperadores caídos e ditadores dos quais nem as estátuas sobraram. Há pois que arrepiar caminho, enquanto há tempo.

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