Austeridade: ricos -13%, pobres -25%

(Pedro Santos Guerreiro, in Expresso Diário, 19/09/2016)

Autor

                         Pedro Santos Guerreiro

Portugal 2009/2014. Portugal antes e depois do pico da austeridade. Portugal com mais desigualdade e mais pobreza. Tinha de ser, foi a crise? Não: as políticas adotadas não atenuaram, antes agravaram, quer a pobreza, quer a desigualdade. A austeridade silenciosa sobre os pobres arrombou mais do que a que foi gritada pela classe média e pelos mais ricos. É um facto.

Os resultados estão no estudo “Desigualdade do Rendimento e Pobreza em Portugal”, promovido pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, com o apoio do Expresso e da SIC, que será debatido em conferência na próxima sexta e foi antecipado em primeira mão no semanário de sábado. É o primeiro estudo completo, e complexo, sobre o impacto social das políticas de austeridade da era troika. Os resultados são surpreendentes porque destroem a perceção generalizada de que foi a classe média a que mais alombou. E derrubam o discurso político sucessivamente apresentado de que os mais carenciados estavam a ser poupados. Porque, assim se dizia, apenas se cortavam salários e pensões acima de determinados valore; porque os aumentos de impostos incidiam sobre rendimentos maiores. A perceção era, nessa altura, de que a austeridade era progressiva. Pagariam mais os mais ricos. Pois era. Mas não foi. Foi regressiva.

A curva de pobreza inverteu e voltou a subir. Mas, mais do que isso, os cortes de rendimento que abrangeram todas as classes foram eles próprios desiguais. Tiveram maior peso entre os que tinham menores rendimentos. De 2009 para 2014, os 10% mais ricos tiveram uma redução de rendimento de 13%, os 10% mais pobres sofreram uma diminuição de 25%.

A explicação não está nos cortes de salários da função pública nem de pensões, nem sequer nos aumentos de IRS. Está nos cortes de apoios sociais, como o rendimentos social de inserção e o complemento solidário para idosos. E está no desemprego. Segundo o estudo, conduzido por Carlos Farinha Rodrigues, um em cada três portugueses passou pela pobreza durante pelo menos um dos anos entre 2009 e 2012. Ou seja, tiveram um rendimento mensal inferior à linha de pobreza, que em 2014 seria de 422 euros. O número de famílias sem ninguém empregado aumentou; as famílias mais alargadas e com mais crianças foram mais prejudicadas; os mais jovens foram mais afetados que os mais velhos; o número de crianças na pobreza aumentou.

Salvar as finanças de um país não pode ser um salve-se quem puder. Mas foi.

Isto revela a cegueira social da política da troika, que teve consequências ao contrário dos efeitos anunciados. E revela uma posição ideológica falhada (ou, hipótese pior, que teve sucesso). Porque, naquela altura, o discurso político do PSD afirmava ou supunha que os apoios sociais eram em si mesmos negativos porque subsidiavam quem preferia não trabalhar, tornando-se um fardo social financiado pelos impostos dos que trabalhavam. Reduzir os apoios sociais não resultou apenas da menor disponibilidade orçamental, mas também do que os economistas chamam de estímulos e do que nos cafés se chama “vai mas é trabalhar”.

Mas como ir trabalhar se trabalho não havia? Mais do que o aumento de desemprego, a diminuição do emprego tornou-se então uma das estatísticas mais brutais da economia.

O custo foi a seletividade social, entre os que pagaram muito mais impostos mas se mantiveram com patamares de rendimento acima da pobreza e dos que os dela desceram. Toda a gente sofreu. Quem sofre mais foram os mais frágeis. A austeridade não foi só bruta, foi à bruta. E os mais pobres, que não têm sindicato nem a mesma voz na comunicação social, ficaram mais pobres.

O discurso de que não havia alternativa e de que a intervenção da troika, abraçada pelo governo de Passos e Portas, foi a economicamente necessária e socialmente inevitável está errado. E dizê-lo já não é uma questão de opinião, mas de factos.

Os pressupostos do estudo podem ser debatidos. Esperemos todos que o sejam. Porque isso será uma forma de debater o que interessa: os efeitos sociais das políticas económicas num país desigual que parece não se importar assim tanto em sê-lo. Desde que a voz desse país não seja a dos excluídos, o som que se ouve é suportável.

Salvar as finanças de um país não pode ser um salve-se quem puder. Mas foi.

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17 pensamentos sobre “Austeridade: ricos -13%, pobres -25%

  1. Pois é, meu caro Pedro (se o meu nome fosse Pedro, não sei se não ia na conservatória mudar ele, só por causa de ser o nome do auto-assumido “Vidente de Massamá e agora apresentador de “coisas” topo bosta a que alguns chamam livro) Guerreiro, o capitalismo é assim mesmo, com o sempre foi e será enquanto existir como sistema, agora globalizado. Foi sempre assim durante os mais de 400 anos da sua existência, pelo que, a alternativa só poderá passar por deixá-lo morrer e porque não é eterno (nem natural, como nos querem fazer crer), quanto mais rapidamente melhor, tanto mais que, dado o prolongar da crise que vai para 9 anos, sem fim à vista e a aproximar-se rapidamente de uma nova recessão mundial, ao que tudo indica o capitalismo está moribundo!…
    Só que ninguém fala nem escreve sobre o CAPITALISMO, o que fazer com ele, ou, sequer, o que fazer dele. Excepção feita à Mariana Mortágua que há dias, num evento do partido dito socialista para que foi convidada, questionava os seus anfitriões sobre estas tematicas do CAPITALISMO!…
    Aguardemos, com tranquilidade, mas fazendo uma forcinha para que o referido moribundo se vá!…

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    • E o Maduro que já implementou um sistema alternativo com grande sucesso. O Tsipras também tinha prometido mas entretanto largou o socialismo e converteu-se ao neo liberalismo. Nós vamos já a seguir!

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  2. O problema é que nem com tanta austeridade e cortes na vida das pessoas, conseguiram endireitar o ais e reduzir a famigerada dívida! Por isso sim, temos que procurar outros caminhos…

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    • Não estou a perceber, que caminhos? Pelo que vejo a austeridade aumentou, a dívida que estava a diminuir, pouco mas estava, aumentou, o crescimento que era pouco diminuiu, que outro caminho será esse? Será uma Madureza, uma venezuelização? É que até o Tsipras já largou o socialismo e tornando-se um furioso neo liberal! 🙂

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  3. Ó Cardoso não é pelo que “transparece” que podes ver o fundamento e realidade das coisas. Pelo que “transparece” o Sol seria uma pequena bola amarela e igualmente a Terra o centro do mundo e para desvendar essa tal “transparència” obscura Galileu e muitos outros sofreram muito pelos que, como tu, crêem cegamente em transparências.
    E podes perguntar-te a ti próprio porque será que antes da descoberta dos produtos tóxicos e respectiva iminente falência do sistema bancário mundial, que foi preciso evitar e colmatar sacando os países mais pobres, não havia “Estado falido” nem PECs, nem troika, nem memorando.
    E nem pessoas sábias, como tu agora, a nos dizerem certezas absolutas baseadas no “pelo que transparece”.

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    • Não sei se tive o prazer de andar consigo na escola para me tratar com essa intimidade, mas enfim, educação e elevação para com quem se discorda é só para quem a tem. Eu compreendo que seja fiel à narrativa socialista, que adopte os dogmas e que não se dê ao trabalho de pensar nos factos, mas para lá de o sistema bancário mundial não ter falido e o nosso na altura ter passado incólume, de tal maneira que Sócrates colocou ao dispor da banca em 2009 4 mil milhões e nem um Euro foi utilizado, sempre gostaria que me explicasse o que é a crise da dívida soberana tem que ver com a falência do estado que aconteceu devido ao acumular de dívida para fazer aumentos de salários na função pública e baixas de impostos com fins eleitorais em 2009, PPPs nas estradas, PPPs na saúde entregando todos os novos grandes hospitais a privados, Swaps, rendas às eléctricas, ajustes directos, Aeroportos, autoestradas, Magalhães, Parques Escolares, TGVs, Sedes da Judiciária, Scuts, Museus dos Coches etc. etc.? Poderá até ingenuamente acreditar que nada disto teve origem em negócios criminosos mas não me vai certamente dizer que estar a lançar grandes obras a meses de estar falido é um exemplo de gestão? O governo de Sócrates de que Costa foi número dois, primeiro no governo e depois no partido, só nos últimos dois anos e já com 3 PEC fez crescer a dívida 46 mil milhões, em seis anos fez o desemprego duplicar, em 10 anos triplicou a dívida e o desemprego sem conseguir fazer crescer a economia. São factos, tal como são ter sido o PS que implementou os PEC, faliu o estado, chamou a troika e desenhou o memorando. Certamente não gosta destes factos mas não deixam de ser factos. Cumprimentos democráticos.

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    • Não sei se tive o prazer de andar consigo na escola para me tratar com essa intimidade, mas enfim, educação e elevação para com quem se discorda é só para quem a tem. Eu compreendo que seja fiel à narrativa socialista, que adopte os dogmas e que não se dê ao trabalho de pensar nos factos, mas para lá de o sistema bancário mundial não ter falido e o nosso na altura ter passado incólume, de tal maneira que Sócrates colocou ao dispor da banca em 2009 4 mil milhões e nem um Euro foi utilizado, sempre gostaria que me explicasse o que é a crise da dívida soberana tem que ver com a falência do estado que aconteceu devido ao acumular de dívida para fazer aumentos de salários na função pública e baixas de impostos com fins eleitorais em 2009, PPPs nas estradas, PPPs na saúde entregando todos os novos grandes hospitais a privados, Swaps, rendas às eléctricas, ajustes directos, Aeroportos, autoestradas, Magalhães, Parques Escolares, TGVs, Sedes da Judiciária, Scuts, Museus dos Coches, assaltos ao BCP, aumentos de capital da CGD, nacionalização do BPN, “investimentos” perdulários tipo La Seda, Pescanova etc. etc.? Poderá até ingenuamente acreditar que nada disto teve origem em negócios criminosos mas não me vai certamente dizer que estar a lançar grandes obras a meses de estar falido é um exemplo de gestão? O governo de Sócrates de que Costa foi número dois, primeiro no governo e depois no partido, só nos últimos dois anos e já com 3 PEC fez crescer a dívida 46 mil milhões, em seis anos fez o desemprego duplicar, em 10 anos triplicou a dívida e o desemprego sem conseguir fazer crescer a economia. São factos, tal como são ter sido o PS que implementou os PEC, faliu o estado, chamou a troika e desenhou o memorando. Certamente não gosta destes factos mas não deixam de ser factos. Cumprimentos democráticos.

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    • Infelizmente parece que por aqui convivem mal com a democracia e baniram o meu nick, daí ter tido que criar este. Não sei se tive o prazer de andar consigo na escola para me tratar com essa intimidade, mas enfim, educação e elevação para com quem se discorda é só para quem a tem. Eu compreendo que seja fiel à narrativa socialista, que adopte os dogmas e que não se dê ao trabalho de pensar nos factos, mas para lá de o sistema bancário mundial não ter falido e o nosso na altura ter passado incólume, de tal maneira que Sócrates colocou ao dispor da banca em 2009 4 mil milhões e nem um Euro foi utilizado, sempre gostaria que me explicasse o que é a crise da dívida soberana tem que ver com a falência do estado que aconteceu devido ao acumular de dívida para fazer aumentos de salários na função pública e baixas de impostos com fins eleitorais em 2009, PPPs nas estradas, PPPs na saúde entregando todos os novos grandes hospitais a privados, Swaps, rendas às eléctricas, ajustes directos, Aeroportos, autoestradas, Magalhães, Parques Escolares, TGVs, Sedes da Judiciária, Scuts, Museus dos Coches, assaltos ao BCP, aumentos de capital da CGD, nacionalização do BPN, “investimentos” perdulários como o da La Seda ou da Pescanova com que embandeiraram em arco mas que foram pagois pelo contribuinte etc. etc.? Poderá até ingenuamente acreditar que nada disto teve origem em negócios criminosos mas não me vai certamente dizer que estar a lançar grandes obras a meses de estar falido é um exemplo de gestão? O governo de Sócrates de que Costa foi número dois, primeiro no governo e depois no partido, só nos últimos dois anos e já com 3 PEC fez crescer a dívida 46 mil milhões, em seis anos fez o desemprego duplicar, em 10 anos triplicou a dívida e o desemprego sem conseguir fazer crescer a economia. São factos, tal como são ter sido o PS que implementou os PEC, faliu o estado, chamou a troika e desenhou o memorando. Certamente não gosta destes factos mas não deixam de ser factos. Cumprimentos democráticos. Miguel Cardoso

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      • Meu caro. Aqui ninguém censura nada desde que comente dentro do decoro o que foi o seu caso, apesar de ter debitado muita coisa com que não concordo. Deixo o contraditório para o José Neves, se ele achar por bem, já que foi com ele que começou o debate. Como nunca aqui tinha comentado aqui, eu tenho que aprovar previamente o primeiro comentário que aqui produza. A partir de agora a publicação é automática.

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  4. O caro não percebeu o fundo da crítica porque continua atirando para o ar afirmações baseadas no “pelo que transparece” e que evidentemente são retiradas de frases feitas que se tornaram opinião taxativa sem a menor hexitação e com total dispensa de ao menos pensar um pouco nas questões. Apelida-os de “factos” tal como a imprensa manhosa apelida de “provas” todas as insinuações e ligações enviesadas que publica e que depois o caro replica tomando-as como ciência provada.
    Levado pela opinião sem fundamento dos manhosos dos media o caro transcreve o rol de “factos” concretizados pelo governo Sócrates e mete a eito os “aeroportos” e “tgv” que nem existem. E embalado mete os swaps que os homens do psd vendiam às empresas públicas onde outros homens do psd os compravam. Quando foram vender swaps directamente ao governo foram corridos.
    Todo o conteúdo da sua resposta é um despejar de “factos” atirados ao ar sem explicações nem causas exteriores como se tivessem sido praticados de per si por uma mente, vinda de fora do mundo, de maldade pura.
    Pode continuar embebido nessa ideias simples feitas fixas que, certamente continuará a ter opiniões de certezas inflexíveis, contudo, serão sempre fundamentadas no “ao que transparece”.
    E o que transparece nunca é o fundo da questão pois caso contrário bastavam os olhos e dispensava-se o pensamento.

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    • Primeiro existe um aeroporto, aliás um elefante branco em Évora, o que ia servir as 10.000 camas que iam aparecer no Alqueva, onde ainda não há nenhuma, tal como aviões em Évora. Mas escrevi aeroportos e TVGs deliberadamente, eram obras megalómanas e desnecessárias, sobretudo num país em pré falência, e fi~lo porque apesar de não terem sido concluídas, no caso do TGV foram iniciadas as obras, o estado, ou seja o contribuinte, gastou centenas de milhares de Euros em estudos, consultoria e indemnizações. Podia ter incluído a 3ª travessia do Tejo que nos custou outro tanto. Que governo lança uma obra como o TGV a meses de não ter dinheiro para salários e prestações sociais? Eu não sou do PSD, não tenho nada que ver com os homens do PSD ou quaisquer outros, vendam, o que eu espero é que o estado e o governo que o representa defenda os meus direitos enquanto cidadão e contribuinte e não foi isso que o governo de Sócrates, de que Costa era aliás número dois, passando depois a ser número dois no partido que o apoiava até ao fim, não fez. As empresas públicas respondem ao seu accionista, o estado representando pelo governo e foi por instruções do estado, nomeadamente pelo secretário de estado do tesouro, Costa Pina, hoje administrador da Galp, o mesmo que supervisionou o desenho do memorando, que as empresas públicas usaram instrumentos de desorçamentação, acredito que possa haver também corrupção entre os tais homens do PSD e o governo porque não acredito que alguém seja assim tão irresponsável, mas isso compete à justiça averiguar. Não acha estranho que a partir da mudança de governo não se tenha feito mais nenhum Swap e se tenham renegociado os que haviam, sobretudo depois de Costa Pina ter admitido um erro no memorando, onde faltavam 25 mil milhões nomeadamente para o financiamento das empresas públicas? Compreendo que o despejar de factos o incomode e que não os consiga contrariar exactamente porque são factos, factos que como bem sabe e ao contrário do escreve, não foram condicionados por factores externos, o que os factores externos condicionaram, também por casa destes factos terem feito crescer muito o endividamento, foi o acesso ao crédito a juros baixos, facto que não fez em nada mudar a estratégia do governo que em pré falência e com os juros já a chegar aos 7% continuava a lançar obras megalómanas. Cumprimentos.

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