Há uma coisa com que concordo com Passos Coelho (e, diga-se de passagem, com o PCP)…

(José Pacheco Pereira, in Sábado, 19/08/2016)

Autor

            Pacheco Pereira

…é que vai ser muito difícil com a actual política fazer crescer a nossa economia e o País. Temos, pois, três pessimistas, eu, Passos e o PCP, mas se todos pensamos que as coisas não vão correr bem, não é, como é óbvio pelas mesmas razões. Temos um ponto de vista comum sobre as consequências, mas divergimos completamente quanto às causas e às soluções.

De que política falamos, eu e o PCP? Da que está expressa nas chamadas “regras europeias”, verdadeiro programa de estagnação, na melhor das hipóteses, e portanto, a prazo, de recuo do País para uma cada vez maior dependência externa e periferização, sem efectiva melhoria das condições de vida da maioria dos portugueses. O PS está amarrado a essa política e já teve que fazer concessões bastantes (e pelos vistos pedem-lhe muito mais) para acabar por nem estar a aplicar a sua própria política, nem sequer a “europeia” com a convicção que se lhe exige. Por isso, está a gerir políticas que são contraditórias e cuja tensão pode ser adiada com habilidade, mas a prazo joga sempre a favor do lado “europeu”. É por isso que Passos espera, e do ponto de vista meramente táctico, se não se tiver em conta o interesse nacional, é uma atitude realista.

De que política fala Passos Coelho como conduzindo à “desgraça”? Das reversões, das atitudes que geram “desconfiança” nos nossos mandantes europeus, do mínimo desapertar do cinto, daquilo que ele acha ser uma política de estatismo e de gastos púbicos, do abandono das políticas de cortes de salários e pensões e privatização dos serviços públicos. Na verdade, o discurso do PSD não é muito coerente porque tanto diz que a austeridade continua, como diz que o fim das medidas de austeridade é catastrófico para a economia do “ajustamento”. E também não é muito coerente porque o próprio PSD prometeu reversões (que tinha que fazer mesmo que não quisesse devido ao Tribunal Constitucional), mais lentas do que as que o PS tem feito, mas de dimensão semelhante.
Só há uma coisa que ele não diz: se estivesse no Governo passaria pelas mesmas dificuldades que o Governo Costa tem com a crise das exportações, e com a paragem da economia europeia, logo do investimento.

Aliás tudo o que está a acontecer agora não revela qualquer significativa inversão das tendências negativas dos últimos meses da governação PSD -CDS.

Acresce que a verdadeira bomba -relógio do sistema bancário, que o governo Passos-Portas-Maria Luís deixou de herança, tinha-lhes rebentado nas mãos e, se compararmos a inépcia e a negligência criminosa do governo PSD-CDS nesta matéria, é provável que os estragos fossem maiores. Aliás, a causa mais provável para haver um novo resgate em Portugal é a situação da banca, e essa responsabilidade vai inteirinha para Passos, Portas e Maria Luís.

O impasse da política portuguesa é apenas este e este “apenas” é gigantesco: se quem manda hoje na Europa, a aliança da Alemanha com alguns países do Centro e Norte da Europa, continuar a impor as mesmas políticas de “ajustamento”, que hoje são criticadas até pelo FMI…, não aceitar proceder a uma mudança que passe pela reestruturação das dívidas, pela baixa dos juros, pela maior flexibilidade na gestão dos défices, por políticas de investimento, e pela solidariedade activa dos países mais ricos com os mais pobres, na tradição dos fundadores da União, nem Portugal, nem a Europa sairão dos impasses actuais.


O Presidente continua a falar demais

O Presidente continua a falar demais, continua a fazer um contínuo comentário sobre tudo o que acontece, dos fogos aos números da economia, no próprio dia em que acontece, sem distância, nem separação de águas entre o que é do foro presidencial e o que é do foro governativo. Está assim a deixar avolumar um problema para ele e para todos. Como hoje sabemos, a opinião do Presidente sobre tudo o que acontece, entre afectos, razões, comentários e graças, torna-se uma espécie de oráculo que nos passa por baixo das imagens e que, a prazo, acabamos não só por não ler, como por desejar que ele não nos ocupe parte tão importante do ecrã.

Este é um dos problemas que está claramente em gestação na política portuguesa. É só uma questão de tempo. Por uma razão muito simples: não é suposto um Presidente da República estar a fazer o que Marcelo Rebelo de Sousa está a fazer.

3 pensamentos sobre “Há uma coisa com que concordo com Passos Coelho (e, diga-se de passagem, com o PCP)…

  1. A superficialidade de tudo quanto se diz sobre a situação do País roça os foros da maior ignorância. Presumo que ser passivo e ignorante seja o fruto da democracia e a meu ver provado fica que Portugal é democrata! Contudo, não seria pior se o País se aliasse a uma severa oposição interna à actual governança europeia, de modo a constituir um bloco de saída da União, na esteia da Inglaterra ou a obtenção de outro modo de governação da União face aos países menos desenvolvidos.

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  2. Vá lá, para um ex-deputado da propalada social-democracia do partido inicialmente “popular” para depois “popular barra social” (mas que poucos são os que ainda referem o dito popular) – PPD/PSD -, o PCP ser “bitola” no alinhamento de ideias políticas, já não é mau, se bem que, tendo em conta os métodos de análise utilizados pelos comunistas, tendencialmente, é minha convicção, mais, muitas mais mesmo, coincidências do JPP com os comunistas lusos, verificar-se-ão na nossa praça e não só. O futuro o dirá e, ouso supor, não será só no de longo-prazo!… é que o CAPITALISMO, esse hediondo sistema, que vinga desde há quase 5 séculos e levou os decisores da globalização a idolatrar o dinheiro com nítido prejuízo dos 99% da população do planeta, entrou nesta (provável) derradeira crise, já utilizou todas as “munições” de que dispunha, a crise mantém-se desde 2007/2008, os teóricos burgueses não inventam novas teorias, os da seita soares&cavacos&sócrates&passos&portas&gaspares&relvas&mariasluis&duarteslima&isaltinos&diasloireiros&cia chegam ao poder e governam-se, etc.,etc. tudo isto, e SEMPRE, em nome da liberdade (olha os comunistas que comem criancinhas ao pequeno-almoço e…), enquanto o Zépovinho definha, e morrerá se, entretanto, não der as mãos e, em união, fizer justiça!…

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