A nova vida do PSD

.(Daniel Oliveira, in Expresso Diário, 07/07/2016)

Autor

                              Daniel Oliveira

Nunca participei nos processos de reinvenção da história do PSD, que o apresentam como sendo originariamente de esquerda e social-democrata. Esse exercício é pouco sério, porque ignora o contexto do nascimento da nossa democracia e o desvio de esquerda (ou mesmo marxista) que provocou na retórica política da altura. Acho que é mais justo dizer que o PPD/PSD foi um partido de centro-direita, conservador, com preocupações sociais e, pelo menos até ao final dos anos 90, comprometido com a construção do Estado Social.

Sendo um partido que, ao contrário dos restantes atores partidários portugueses, não tinha uma família política internacional ou europeia clara, isso deu-lhe uma natureza ideológica atípica que o equívoco do seu nome sublinha. Ao contrário do PCP, alinhado com o bloco de Leste, do PS, comprometido com a Internacional Socialista e com a social-democracia europeísta, do CDS, que procurou ocupar no exterior o espaço que a ambiguidade do maior partido de direita deixara vago, ou, mais tarde, do Bloco, ligado aos novos movimentos de esquerda radical e libertária, o PSD nunca dependeu de alianças externas. Sempre correspondeu aos interesses da elite económica portuguesa e, quando possível, da pequena burguesia. A ausência de filiação ideológica fez com que, para o mal e para o bem, o PSD fosse o partido mais nacional de todos.

A chegada de Passos Coelho à liderança do PSD, primeiro, e do país, depois, resultou mais de circunstâncias do que da sua agenda liberal, estranha à direita portuguesa e, ainda mais, ao PSD. A primeira tentativa de explicitar essa agenda foi a proposta de revisão constitucional. Perante as reações, foi logo metida na gaveta.

No entanto, os anos de governação em austeridade e o mal gerido regresso à oposição, em circunstâncias pouco habituais, deram ao PSD uma família política: os defensores da contrarreforma europeia e da “paz alemã”, que relega para os países do sul um papel subalterno e aplica por via externa as reformas que Passos não conseguiu levar a votos. No governo, esta família europeia, que domina o PPE mas não só, dava a Passos Coelho os instrumentos e os argumentos para a imposição de uma agenda ideológica exótica para os consensos nacionais. Nas oposições, a pressão externa parece poder sabotar qualquer alternativa.

Esta dependência do PSD em relação ao exterior, inédita na história do partido mais nacional e ideologicamente menos engajado do nosso sistema partidário, deu-lhe um novo poder. Como o PS esteve fortemente comprometido com a construção europeia e isso lhe permitiu uma influência externa sem paralelo com os restantes partidos, o que revertia para poder interno, o PSD cumpre, em Portugal, a mesma função na reconfiguração do projeto europeu.

Problema: o PS representava uma Europa em expansão e de prosperidade, o PSD representa uma Europa em crise e de austeridade. Se isto acabar mal o PSD sofrerá as consequências do seu alinhamento internacional.

Uma coisa é certa: a marca patriótica e nacional do PSD perdeu-se com Passos Coelho. Resta-lhe a simpatia que os poderes europeus e alemão emprestam a quem obedece. Para o futuro não é grande cartão de visita.

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